Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do logar em
que elle estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho
d'aquella em que se passava a scena que descrevo, e exactamente para junto
do logar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de
orelha.
Um d'esses homens dizia assim:
--Será o que muito bem quizer, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos
trambulhões com os moveis á hora da meia noite.
--Ha de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para
me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo
estendido ao pé da mangedoura, á espera que chegue o trem para ir tratar
dos cavallos, a enfastiar-se sem ganhar vintem.
Aquelle que dizia estas palavras, comquanto se expressasse claramente,
tinha todos os defeitos de pronuncia que distinguem os extrangeiro que
falla portuguez. Pela aspiração especial de certas vogaes e pela
contracção habil com que pronunciava os aa, era por certo allemão.
O que primeiramente fallára, proseguiu:
--É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E
olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a
estas horas, ainda que os pese a oiro!
--Para mudar uma cama!
--Não é pela cama, é por ser a casa que é!
--Ora adeus! que tem a casa?!...
--Não tem nada! É uma graça! Ella é de tal casta que o senhorio teve-a
quatro annos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já
de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A ultima gente que cá
morou esteve só duas noites, e foi-se d'aqui tolhida com as coisas que lhe
appareceram e com as trapalhadas que ouvia... Cruzes demonio! cruzes
diabo!
--Petas! historias da vida!
--O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a familia!?... não
estive com elles!? Fugiram de noite, fugiram á segunda noite que dormiram
cá, estarrecidos de medo.
--Então que viram elles?
--Elles não viram nada.
--Então ahi tem!
--Não viram, mas ouviram.
--Haviam de ouvir boas coisas!
--Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a elles que succedeu isso,
foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que
não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram
com ella perdida!
--Então que ouviam elles?
--O senhor bem o sabe!... O que elles ouviam? Ouviam pancadas nas portas,
quando ninguem batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem
os carvões exactamente como se estivessem abanando á fogueira, quando
estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um
passaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes;
ouviam-o arquejar e bufar approximando-se cada vez mais dos que estavam
deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das
pennas, o calor de lume que elle deitava do bico e ao mesmo tempo o frio
de neve que fazia a mover as azas!
--Ora adeus! tinham ouvido fallar n'isso e pareceu-lhes que sentiam o tal
passaro, de que já fallavam os inquilinos anteriores, os quaes tambem
tinham ouvido fallar n'elle, não havendo ao fim de contas ninguem que
verdadeiramente o tivesse ouvido.
--Então o senhor não sabe porque foi que elles fugiram, os ultimos que
estiveram cá, faz agora quatro annos?
--Ouvi fallar n'isso, mas por alto, não me deram pormenores.
--Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram
gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o
que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem
elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado.
Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam
cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do
fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite
que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz.
Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por
dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia
mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres
passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua,
tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes,
disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que
sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe
pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas
suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella
não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio
nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale,
estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo,
e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e
destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os
cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com
uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem
podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a
chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro
lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a
machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos
pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão.
--Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda
noite que durmo aqui.
--Gabo-lhe o gosto! E não tem medo?
--Nenhum.
--Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem!
--Então que dizem por ahi de mim?
--Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que
tem partes com o demonio.
--Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro,
mudando de tom.
--Isto assim?
--Ainda mais... um quasi nada... até ficar a cabeceira unida á hombreira
da porta... Basta!
--Não quer mais nada?
--Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para
que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras.
--Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta...
--A fallar-lhe a verdade gosto!
--Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá,
veja se passa ahi para a casa que fica ao lado!
--Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem...
--Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora!
O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a
escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para
se deitar.
O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e
despertado em mim o mais curioso interesse.
Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo
modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados
pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que
viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar.
Agora nós, meu interessante e precioso visinho.