Creia-me, senhor redactor, etc--_Z._

+DE F... AO MEDICO+

I

Julho 21 à 1 hora da noite.

--Meu querido amigo.

--Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se

continuas, como eu, permanecendo aqui em carcere privado. Em qualquer dos

casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão

encerrando para aquelle de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa

das horas mais extraordinarias da nossa vida.

Escrevo mais para coordenar e fixar na memoria estes momentos do que para

empregar n'outro destino puramente hypothetico esta carta. Será uma pagina

das minhas confidencias que entregarei á discrição ou ao acaso da posta,

reservando-me o direito de lhe pedir que m'as restitua a seu tempo.

Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos hontem á noite,

pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadaver. O

mascarado que se encarregára de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me

o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua

e o numero de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da

casa em que ella mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui

dizer serenamente:

--Não o comprehendo.

Este individuo era o mesmo que na carruagem se conservára sempre calado, o

mesmo que na sala me observava com attenção e desconfiança.

Aquella estatura, aquella falla, aquella voz, posto que apenas perceptivel

ao meu ouvido, não eram novas para mim.

Elle respondeu fallando-me ainda mais baixo:

--Não poderá sair d'aqui antes de dois ou tres dias. Veja se precisa de

escrever uma carta ou de mandar um recado.

Passou-me pela mente uma idéa a respeito d'aquelle homem... Se fosse...

Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se

não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio;

bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o

dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura

do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.

--Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lapis?

Tinhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo

em que elle saia promettendo trazer-me o necessario para escrever. O

individuo que voltou com papel e pennas não era o mesmo que acabara de

sair. Assim tinha eu perdido a occasião de confirmar uma suspeita ou de

desvanecer uma duvida.

Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu creado serenando-o com relação

ao meu desapparecimento.

--Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete.

--Nada mais.

Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de

escrever directamente á pessoa a quem o mascarado se referira.

Fecharam a porta e fiquei só.

Achei-me n'um quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janella. A um

lado havia um lavatorio; sobrepostas a um canto tres malas de viagem, de

coiro de Varsovia com pregos d'aço, estrelladas com senhas de caminhos de

ferro, d'hoteis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em

grandes lettras pretas sobre uma tira de papel este distico:

_Grand-Hotel-Paris_; uma das senhas era dos paquetes inglezes da carreira

da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples

guarnição d'este aposento um sophá forrado de marroquim verde, collocado

no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha

ceia á luz fulgurante de um grande candeeiro com largo _abat-jour_.

Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquelle recolhimento, aquelle

socego, aquella solidão, depois da grande sobreexcitação em que me tinha

achado!

Estirei-me no sophá, puz-me a olhar machinalmente para o circulo da luz

trepidante projectada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura

do _abat-jour_, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos spasmos do

coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me

convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação occupada n'um

trabalho inconsciente, similhante ao dos sonhos, ia tirando no emtanto do

caso que eu presenceára as ramificações mais illogicas e mais

phantasticas. Os successos por que passámos desde a estrada de Cintra até

á minha entrada n'este quarto appareciam-me redemoinhando convulsamente no

ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impellidos

pelos pontapés de diabinhos sarcasticos, que se riam para mim e me

deitavam de fóra as linguasinhas em braza.

Fui caindo mollemente n'um despego languido, fecharam-se-me os olhos,

adormeci.

Ao acordar, depois de um somno breve mas socegado e reparador, encarei na

ceia que reluzia aos meus olhos.

Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma

terrinasinha de _foie gras_, uma perdiz, uma fatia de queijo e tres

garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto d'estas, quatro

garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o

sacarolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos côr

de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas

de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se collocado o

instrumento destinado a abril-a. O copo era de cristal finissimo, o garfo

de prata dourada, a faca de cabo de madreperola, os pratos de porcellana

brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei

rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sophá, senti a fome

encavallar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia,

cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estomago

vasio os acicates da gula.

Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto,

cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão

descarnada e tremula com um gesto prohibitivo e solemne. Atarantado,

perplexo, escutei então dentro de mim um breve dialogo similhante áquelles

que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a _besta_, na sua

viagem á volta do quarto.

Havia uma voz pausada e grave que dizia:

--Attenta no que fazes, temerario! abre teus olhos, inconsiderado mortal!

Essa perdiz, cujo peito insidioso e perfido está lourejando a teus olhos,

foi apimentada com arsenico. Aquelle Chambertin, que te espera como uma

onda da lagoa Stigia, embuscada por detraz d'aquelle lettreiro

envernizado, apparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade

tenebroso e fatal como o distico do festim de Balthazar, aquelle vinho,

que te offerece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com

acido prussico. As truffas, lubricas, venaes, devassas, envoltas n'esses

figados de pato, estão empapadas nos temperos lethaes da cosinha dos

Borgias!

A outra voz, insinuante e meiga, dizia n'uma vaga melodia de sereia:

--Come, se tens fome, estupido! Estás com medo do papão, maluco?... Põe os

olhos n'esse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que

elle tapa a marca d'esse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada,

chumbada e garantida com os mais especiaes lavores a lata d'essas

sardinhas pescadas nas costas de França e cosinhadas ha seis mezes em

Marselha? Não vês religiosamente grudada e sellada com as etiquetas

insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de _foie

gras_? Suppões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te

arrancar essa vida inutil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da

sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso.

Deleita-te conversando depois comtigo e repousando-te no seio tepido da

melancolia, d'essa deliciosa fada que só apparece evocada pelos namorados

e pelos solitarios, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã

_gatée_, a irmã feliz!

Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da

terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que

misturára n'um copo.

Puz-me por fim a comer com apetite, com valor, com delicia, com uma

especie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta

de mim os espiritos beneficos do carcere que bafejaram as prisões de

Silvio Pellico.

É singular isto: achava-me bem!

Depois da ceia accendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo

comigo:

--Visitemos o paiz!

Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra

porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei

a cama encostada á parede em que se achava esta porta e abri-a.

Era uma armario na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia

altura por um prateleiro espaçoso e solido.

Occorreu-me que ao fundo do armario haveria talvez um tabique delgado

atravez do qual me seria possivel escutar o que se passasse na casa

contigua.

Penetrei no armario, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado

havia um ruido volumoso e macisso. Parecia que se estava arrastando um

movel pesado e grande.

O fundo do armario era effectivamente formado por um tapamento franzino.

Era possivel que tivesse havido primitivamente uma porta no logar em que

se fizera o armario. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via

deante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da

cal.

Peguei no saccarolhas, e no logar indicado fui esburacando devagarinho e

progressivamente o cimento do muro, até operar um orificio imperceptivel,

pelo qual me era dado vêr a luz e ouvir distinctamente o que se dizia do

outro lado.

Eis-aqui o que ás onze horas e meia da noite se estava passando no quarto

contiguo áquelle que me serve de prisão:

O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias · 第 21 / 61 题