III

A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de

observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás

escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se

ageitava para dormir.

--Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?... exclamei eu,

dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do

muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que

vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as

condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu

espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas

conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas

as tuas faculdades de _medium_...

E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas

seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos.

Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem

procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira.

Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera

percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario.

Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro.

Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei

silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de

alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como

primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu

outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual

lhe ficava a cama.

No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte

do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.

O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede,

expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror,

com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo.

O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da

cama abaixo.

Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza:

--Quem está ahi?

Respondi-lhe:

--Sou eu.

--Quem és tu?

--E tu quem és?

--Frederico Friedlann, cidadão prussiano.

--Ah! disse eu.

--Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth,

os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da

Europa.

--Bem! observei.

Elle continuou impassivelmente:

--Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que

elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo

de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi

morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira

que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo.

Poderei saber agora a quem me dirijo?

--Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das

minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me

de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho

outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade

e o meu tedio. Não sou espiritista.

--Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha

ainda a ser uma religião.

--Puff! exclamei eu rindo.

--O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas

conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo

relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e

assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já

muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão

successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se

regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades,

não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da

sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e

aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual

sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas

dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes

hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos

contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e

desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na

philosophia do futuro.

--Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa...

--Tem-me ás suas ordens.

--Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo!

--Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a

natureza d'ella.

--Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que

veiu ajudal-o a mudar a cama?

Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com

um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um

homem de espírito extravagante, com um excentrico.

--Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me

elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar

de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio

prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa

de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse

o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a

desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua

propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites

consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que

produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca

um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se

move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para

uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e

que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando

successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento

vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta

porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por

duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta.

Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder

fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão

porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta!

Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da

sinceridade e da convicção mais profunda!

--E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que

lhe consta?

--Eu lhe digo...

--Sinceramente!

--Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu

conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar

de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar

vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este

mundo.

--Qual é então o seu juizo, vejamos?

--É evidentemente...

--Diga! diga!

--Presumo eu, pelo menos...

--Vamos! sem rodeios, francamente!

--De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo.

O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias · 第 23 / 61 题