primas da creação. ¡Ah! ¡que se jamais se podessem tributar ao homem
cultos, que só á Divindade se devem, ninguem tanto os merecêra, como
esses que, possuindo os thesoiros dos bens terrestres, os derramam no
seio dos infelizes!
Porém, meus irmãos, não é mistér uma brandura de animo requintada, para
nos movermos com os infortunios dos nossos semelhantes, e
procurarmos-lhes o remedio. ¿Qual de nós, vendo padecer um animalsinho,
morto de fome, transido de frio, desamparado ás inclemencias de uma
noite de inverno, e invocando a nossa piedade com aquelles gritos
lastimosos, que a Natureza ensinou a todos os viventes para dizerem as
suas dores, qual de nós se não sentiria profundamente condoído, não
correria a abrir-lhe a porta, a agasalhal o, a soccorrel-o? ¡Ah! ¿e
deixariamos no infortunio o homem? ¿o homem, semelhante nosso, nosso
irmão, com quem nos ligam todos os interesses, cujos bens possuimos,
cuja felicidade é tão travada com a nossa, e cuja desgraça tem sido
talvez effeito da nossa injustiça, da nossa barbaridade?
¡Oh! ricos do mundo, que cegastes e ensurdecestes o coração... ¿que
digo? que o trazeis defunto no peito, e incapaz de resurgir aos clamores
mais doridos da Natureza, ¡ah! emquanto, ao redor de vós, se estão
sempre a abrir abysmos, que engolem tantos miseraveis, ¿que uso mais
util farieis vós de vossos bens, do que seria o acudir-lhes? Na vossa
avidez insaciavel (semelhantes ao inferno, que, por mais victimas que lá
chovam, não cessa de clamar _affer_, _affer_, mais e mais), uns de vós,
ó ricos do mundo, se contentam com a visão beatifica dos seus cofres; a
sua alegria, a sua felicidade, o seu proximo, o seu mundo, a sua alma, o
seu Deus, tudo seu ali jaz; ali enterraram o coração, e o conservam mais
duro, mais inerte, mais frio, mais inutil, que esse metal que
amontoaram; em quanto outros, pródigos em excesso, como se os seus
thesoiros os affrontassem, os semeiam e desbaratam por phantasias, por
luxos, por vaidades, sem moderação, sem ordem, sem destino, sem uma só
utilidade real. Mais loucos ainda e mais infelizes, outros emfim,
parecendo arrenegar dos beneficios da Providencia, os cofres que ella
confiou nas suas mãos, elles os despedaçam e espalham, não só sem
vantagem do proximo, mas ainda com o maior prejuizo, e inteira ruina de
si mesmos. Com essas riquezas franquearam a entrada a todos os vicios,
abysmaram a rasão, destruiram as forças, aniquilaram a saude,
anteciparam a morte, e.... ¡ah! meus irmãos, ¡que de inquietações, de
violencias, de trabalhos e de dores, para comprar uma eternidade
desgraçada! ¡Com a chave de oiro de um paraiso, abrir um sepulcro e o
inferno!
Maus ricos, vós sois como o discipulo traidor; com esses dinheiros de
maldição, preço dos tormentos e da morte de Jesu-Christo, que todos os
dias se renova nos seus pobres, que vós entregais e desamparais sem
piedade, com esses dinheiros de maldição, ides comprar um arrependimento
esteril, um remorso tardio, uma morte desesperada, o odio dos homens, a
vingança de Deus, os tormentos eternos!
¡Quantas injustiças accumuladas n'esta barbara opulencia! Injustiça para
com os infelizes, cujos bens sonegamos, cujos lamentos não queremos
escutar, cuja morte mesmo antecipamos muitas vezes.--Injustiça para com
Deus, de quem recebemos esses bens, com a condição da caridade, e cuja
Providencia desmentimos, e a quem devemos continuos beneficios e
esmolas, desde que entramos no mundo.--Injustiça para comnosco mesmos, a
quem fechamos as portas de um céo de deleites, em quem apagamos todos os
sentimentos de virtude, a quem já n'este mundo excluimos de toda a
felicidade.--Injustiça, emfim, para com todo o genero humano, de quem
nos afastamos, a quem não queremos pertencer, de quem até nos declaramos
inimigos.
¿E para onde fugirão os nossos olhos, que lá não vá a miseria publica
perseguil-os? Nunca soaram tão alto os gemidos dos desgraçados, porque
nunca a nossa immoralidade foi tão barbara. Realisou-se sobre tantos
irmãos nossos parte grande das maldições, com que Deus, por bocca de
Moysés, ameaçava os seus inimigos. Explorae por todas as guaridas da
indigencia; visitae os tugurios e choupanas miseraveis das aldeias, das
maiores povoações, e até das cidades... ¡Grande Deus! ¡que multidão e
variedade de miserias! Uns arruinam a saude por comidas dessaborosas e
doentias, mais para brutos que para gente; a outros, nem um boccado de
pão negro e amargoso apparece nas vinte e quatro horas; ¡quantas se não
chamam poisadas e casas, que antes são covas, masmorras, ou jazigo de
viventes! ¡de quantos não é cama a terra humida, e vestido o que nem
lhes encobre a nudez! ¡Tantos paes cercados de um bando de meninos,
chorando e pedindo-lhes pão! Tantos outros meninos, ainda mais
infelizes, orphãos de pae e mãe, que nada teem na Natureza, além do sol
que os aquece, e do ar que respiram, e começam a conhecer tão cedo a
dureza dos homens, obrigados, quasi desde que abrem os olhos, a procurar
por si mesmos com que supram as necessidades, ainda tão mesquinhas, mas
tão pesadas para nós! ¡Tantas viuvas sem protecção, em quem, sobre o
desamparo e dôr perpétua da viuvez, accresceu verem os seus bens
arrancados por crédores, e quantas vezes por ladrões, debaixo do nome de
crédores! ¡Tantos obreiros atirando-se a trabalhos superiores ás suas
forças, ou á sua creação, ou aos seus annos, para sustentarem, com o
suor, a vida, que, n'esse mesmo suor, se lhes está derretendo e
mirrando! ¡Tantos enfermos expirando á mingua, sem medico, sem
tratamento, sem remedios, sem enfermeiros, sem alma viva que os console,
que lhes suscite as ideias da Eternidade, e até sem um lençol que os
amortalhe! ¡Tantos privados dos olhos, dos braços, e do uso dos sentidos
mais preciosos, incapazes de trabalhar, arrojados para a borda dos
caminhos, soffrendo dias inteiros os ardores do sol, as chuvas, os
frios, e os ventos do inverno, considerados como monstros de outra
especie pelos homens! ¡Tantos mendigos, emfim, sem lar, sem nada, nem um
amigo, sósinhos em meio de tanto mundo!
¡Mas que me canço eu a enfeixar o que não tem conta! E quando de taes
miserias conseguisse fazer aqui um piedoso inventario, ¡quantas outras
não ficariam de fóra, mais profundas, e mais miserias, porque ellas
mesmas refogem e se escondem! As ruas e as praças, com todos os seus
clamores e penurias, não confessam ainda assim quanto a nossa especie
está padecendo. Ha, em todo este exterior, um não sei que reflexo de
verniz e doirado, um não sei que ruido festivo, um perfume de opulencia
e sabores, um certo sorrir, um raio de sol, um aspecto de céo azul, uma
vida e uma esperança, que são disfarce, e mascara da existencia do povo,
real e intima. Pelas ruas corre abundante a vida. Sahindo-se para a rua,
deixam-se á porta as lagrimas, e cuidados verdadeiros, e toma-se na
bocca e faces o contentamento postiço. Por fóra andam os corpos em toda
a sua gala; mas dentro, por todo esse immenso _dentro_, nas entranhas
d'esse infinito massiço de pedras e areia, n'esses fechados labyrintos
sem termo, n'esses apinhados e humanos favos de mel, estão chorando
milhares de corações, estão-se desesperando milhares de almas.
Oh! ¡se Deus permittisse que, na hora em que o abastado gira para se
recrear, por esses caminhos tão lageados de marmores, tão ataviados de
vidros de cores, de metaes brilhantes, de todas as espumas mais formosas
do luxo, se Deus permittisse que n'essa hora se lhe revelasse aos olhos
por entre que duas montanhas de infortunio, vai caminhando! ¡oh! ¡como
de repente, semelhante a Pharaó, na estrada do Mar Vermelho, desabariam
de todas as partes a afogal-o ondas e mares de dor!
Sim, senhores, alem de outros infelizes que tambem precisam da caridade,
¡quantos pobres envergonhados que abafam soluços e gemidos entre as
quatro paredes da sua casa! Nas horas da noite, quando das dansas, dos
jogos, dos espectaculos, e de peores logares, saem torrentes de
mundanos, em quem parece que o tempo, o dinheiro, a saude e a fama pesam
insoffrivelmente, ¡que de vezes se lhes não atravessam diante uns
phantasmas de penuria, em fórma já de mulheres, já de meninos, já de
anciãos, a quem a vergonha do sol não consentíra sahir dos seus
sepulcros! De um portal, de um recanto, da bocca estreita de uma rua,
nos saem as suas vozes, semelhantes a gemidos, antes que as trevas, de
que não soffrem arrancar-se, nol-os deixem descobrir, estendendo a mão a
receber a esmola, e a abençoar a caridade; algum vos esconde um rosto,
que, em melhores dias, tinheis visto brilhar á luz da prosperidade.
Estes mortos e esquecidos do mundo, espectros pallidos, que temem os
dias, e não temem o aspecto da noite, porque já não podem ser mais
infelizes, é Deus quem nol os envia ao encontro, menos por elles que por
nós, menos para alliviarmos as suas penas que para elles nos inspirarem
algum affecto ao coração gasto, algum pensamento fundo e importante á
alma dissipada. ¡Felizes vós, os que entendeis estes avisos mysteriosos
da desgraça, estas embaixadas solemnes do outro mundo! ¡Felizes os que,
em vez de os repellir com dureza, accudis com o dinheiro á necessidade,
com a esperança ao queixume, e com a commiseração a quem não cuidava que
no mundo a houvesse!
--Mas estes pobres, e a maior parte dos pobres que me accommettem, que
me desatinam, que me desesperam (dizeis vós), ¿quem me abona a sua
pobreza? e concedendo-lh'a, ¿quem me affirma que não é ella castigo da
sua perguiça, ou mau proceder?... ¿Que vos importa? Se póde ser uma
coisa ou outra, dae; antes lançar dez vezes, vinte vezes, cem vezes, em
vaso cheio, ou em vaso indigno, do que deixar de accudir uma só vez a
quem do vosso superfluo fará o seu necessario, e talvez, se lhe
recusasseis, padecêra n'um dia o que vós não padeceis n'um anno, ou,
para o não padecer, commêttera crimes, que, depois de o perderem a elle
n'este mundo, vos percam a vós no outro. E demais: vós, que tão de
repente sentenciais o desgraçado que não conheceis, ¿por que vos não
sentenciará Deus, por esse mesmo facto, a vós?
_Póde não ser pobre o que vos pede._--Sim, e algumas vezes se tem
visto.--_Póde ter merecimentos para muito mais ainda do que
padece._--Sim, que é homem como vós, e com mais razão do que vós para
aborrecer os homens, e ser seu inimigo. Sim: tudo isso póde ser; ¿mas
examinastes vós se era tudo isso, ou se era uma parte? Recusando a
esmola por tal motivo, ¿não tereis muitas vezes accrescentado ao roubo a
injuria? ¡Ah! em quanto sentenciais uma alma que não conheceis, e
condemnais o vosso semelhante para o deixar ir despojado, ¡quanto mais
razão não tem elle para condemnar a vossa alma, que vós mesmos lhe
descobristes inteira com uma só palavra!
Mas ainda vos concedo (perdôe-me Deus a concessão), que todos esses
andam expiando peccados seus; são até criminosos e facinorosos; que nem
um d'elles tem necessidade; são até abastados e opulentos; que todo o
mendigo é um salteador e um millionario. ¿Estais contentes com a
concessão, ou quereis mais? Não podeis querer mais, porque o não ha.
Pois bem: ¿mas que direis, quando eu vos apresentar pobres, de uma
pobreza processada e demonstrada, que vos não importunam nem se queixam,
dos quaes muitos, dos quaes inteiras classes, não mereceram, nem poderam
merecer, o seu estado? Ahi tendes os enjeitados, que não é muito que o
sejam do mundo, e da fortuna, depois de o serem de suas mães; ahi os
tendes, que a Misericordia mesma não basta a amamental-os e vestil-os,
e, de seus pobres bercinhos, caem em cardumes nas sepulturas, e vôam a
ir depôr na presença de Deus, contra a dureza de tantos, que, tendo-lhes
dado a vida por um peccado, por um peccado ainda mais mortal (se é
licito dizêl-o) o da avareza, lhes concorrêram para a morte.
¿Quereis mais? mais vos darei: tambem necessitados, tambem innocentes.
Ahi estão tantos asylos da infancia desvalida, onde se queria educar e
felicitar um seculo novo, e que, por falta de caridade publica,
morreram, depois de tão bem nascidos e esperançosos.
¿Quereis mais? ahi estão os asylos da velhice, tambem e mais desvalida,
onde os soccorros nunca são sobejos, nem sufficientes; porque muitos
mais são sempre os que batem e choram áquellas portas de refugio, que os
que a estreiteza das posses consentem sentar-se lá dentro á meza do
convite de Deus.
Assim que, por ambos os horizontes da vida, vos está o Senhor chamando o
coração, e por toda a parte vos tem cercado do dever da esmola.
¿Quereis mais? ahi tendes hospitaes, recolhimentos, cadeias.
¿Quereis mais? ahi tendes centenares de religiosos egressos, a quem
falta pão, lar, vestido, mundo, que o não conhecem, nem elle os conhece;
militares que envelheceram nas armas e morrem á míngua; viuvas e orphãos
de servidores do Estado, a quem se não paga, nem com esperanças.
¿Quereis mais, e mais sem conta? ahi tendes os partidos politicos
vencidos, em quem não é mister longo exame para se reconhecer a
desgraça, porque é corollario evidente de causas notorias. A terça parte
de uma edade do homem, dezanove annos, para não datar de mais longe, tem
sido entre nós consumidos em dissenções e odios. Com successivos
terremotos políticos, teem desabado as mais altas torres de fortuna;
desappareceram abundancias afogadas entre ruínas; voaram arrancadas de
furacões contrarios e imprevistos, as mais florescentes esperanças; os
caminhos trilhados e sabidos subverteram-se; por onde se descia,
sobe-se; por onde se vingavam as alturas, desce-se precipitado; algum
dos filhos do pobre vôa dormitando em côche de oiro, e o ancião doirado,
que ainda hontem lhe houvera matado a fome, lhe alonga a mão, da margem
do caminho, clamando esmola. Não se cuide, senhores, que eu condemno o
presente e absolvo o passado. Sei os males e os bens do passado; entendo
os males e os bens do presente, ou antes os males do presente e bens do
futuro; mas vejo, de mais a mais, um cardume de males extraordinarios,
que não são, para que assim digâmos, nem do homem, nem da Natureza, nem
de Deus, mas sim da mudança, da transformação da fortuna, da fortuna
cega, que, no trocar das mãos, quebra sem pejo, nem dó, nem consciencia,
o que depois todos choram e ninguem concerta.
Vivemos pois entranhados e afogados n'um mundo de dôres, que não vemos,
pela peior de todas as cegueiras, que é o não querer ver. E quando
d'esta somnolencia, d'este lethargo, d'esta morte do coração, acordamos
algum momento a este som _Esmola a este vosso irmão pelas chagas de
Nosso Senhor Jesu-Christo_, já nos reputâmos muito generosos, se em vez
do silencio ou de uma injuria, lhe acudimos com um _Deus o favoreça_; e
tornâmos a atar muito depressa o fio dos pensamentos vãos ou
peccaminosos que traziamos; e lá deixámos para traz a Jesu-Christo morto
de fome, a Jesu-Christo chorando na pessoa do seu pobre. ¡Ah! que se o
seu estado de abjecção os não obrigasse á humildade ínfima, se o uso de
soffrer estas repulsas os não tornasse já meio insensiveis, se elles nos
podessem retorquir, «¡Quê! (nos responderiam) ¿Deus que nos favoreça?
Deus nos favoreceu com esses bens que indevidamente retendes; Deus nos
favoreceu com os thesoiros da sua Providencia, que vós nos roubastes.
¿Que o Senhor nos favoreça? ¿Quereis acaso tental-o? ¿que elle obre em
nosso favor um milagre desnecessario? ¿que torne a chover o maná do céo,
não sobre um deserto árido como aos nossos paes, mas sobre uma terra,
que por toda a parte está cheia dos seus frutos e das suas dádivas? Esse
maná vós o possuis, e encerrado inutilmente nos vossos vasos; Deus fará
que se corrompa e apodreça. ¿Que Deus nos favoreça, deshumanos? Sim,
sim, elle nos favorece na vossa propria dureza; os merecimentos que
terieis na sua presença em serdes misericordiosos, elle os accumula
sobre a nossa resignação; com os infortunios que nos accrescentais, e os
prémios que rejeitais, se juntarão em nosso favor aos prémios de que a
sua misericordia nos achar dignos.»
¡Ah! meus queridos irmãos, que se em nossa dureza fossemos capazes de
entender os gritos e lagrimas de tantos paes de familias, cujas familias
podem dizer que não teem pae, tantos orphãos de pae e mãe, tantas viuvas
desamparadas, tantos jornaleiros e camponezes arruinados, tantos
enfermos, tantos cégos e aleijados, tantos mendigos, tantos pobres
envergonhados, achariamos, nas suas lagrimas e gritos, menos a
significação das suas dôres e desalento, que uma reprehensão amarga da
nossa barbaridade para com os nossos irmãos, da nossa ingratidão para
com Deus; acharíamos, sim, acharíamos até n'esses lamentos, a expressão
propria com que devêramos deplorar nós mesmos a dureza, antes
ferocidade, dos nossos corações.
Não só, meus irmãos, as nossas liberalidades atalham todas estas
miserias, mas ainda vão precaver muitas desordens. Aqui é uma pobre
rapariga, a cuja honra se preparam violentos ataques. O Céo a dotára das
qualidades mais eminentes; mas a fortuna tentou de algum modo desfazer a
obra do Céo, juntando-lhe a pobreza com a formosura. Do seio da
opulencia, um libertino já vibrou olhos tôrpes e ávidos para o santuario
da virtude. A belleza o seduziu primeiro, depois a propria honra, e
todas as qualidades que lhe notou, como outros tantos titulos que
exaltaram o seu triumpho, por mais arriscado e difficil. Já abriu os
seus cofres com prodigalidade horrivel; deu-se o primeiro ataque;
frustrou-se. Não importa; os desejos augmentaram-se na repulsa, o
merecimento da victoria vai subindo de ponto em ponto, e a seducção, de
mãos dadas com a indigencia... ¿não vencerão cedo ou tarde? Chegou emfim
esse dia; ¡venceu! e com um sorriso infernal applaudiu o seu triumpho, e
a desgraça que consumou. Approximemo-nos agora, e contemplemos a pobre
victima. Ali jaz, n'um arrependimento já tardio e inutil para o mundo;
ali jaz recordando todos os artificios do traidor, que, depois de a
desgraçar, chegou mesmo a aborrecel a; ali jaz na mesma indigencia que
d'antes, porém mais infeliz agora; a sua honra fugindo abalou-lhe todas
as outras virtudes. Em odio a Deus e a si mesma, ¿ficou-lhe ao menos um
refugio no mundo? nenhum, porque o traidor, declarando-se seu cruel
inimigo, foi divulgar o segredo, e exigir esses applausos infames, que
tanto mereceu. ¡Pobre infeliz! Se tivesses nascido na abundancia,
seriais sempre um anjo tão bello de virtude. Se a caridade te houvesse a
tempo procurado, e descoberto n'esse asylo simples e modesto, onde
vivias tão innocente e bemquista de Deus e dos homens, ¿não se teria
afastado ainda o raio que reduziu a cinzas o desambicioso edificio da
tua felicidade?
Além é um moço, que, cançado da dureza dos homens, começa a não conhecer
as leis na sua necessidade. Por toda a parte repellido, julgou direito
prover por si mesmo, e a todos os despeitos, á sua conservação.--«Todos
esses a quem recorri (diz comsigo mesmo) são felizes; eu não quero a sua
felicidade; mas tenho, como elles, direito de viver.»--Levado assim
pelos raciocinios errados do vicio, ou só por um instinto que lhe
bafejou a injustiça dos homens, começou por pequenos furtos; passou a
maiores; nunca mais reconheceu os titulos sagrados da propriedade;
zombou de todos os respeitos humanos; relaxou de todo a consciencia; e
acabará em salteador e assassino. Uma caridade a tempo o affasta do
precipicio onde o leva de rastos a immoralidade, e lhe tira deante dos
olhos dois futuros que o terão muitas vezes feito estremecer: um carcere
perpetuo, um degredo, uma morte infame n'este mundo, e no outro penas
correspondentes, em si e na sua duração, a crimes de que nunca se
arrependeu, e damnos que nunca tiveram restituição. E quando elle passar
para o patibulo, vós fechareis talvez as vossas janellas, e direis: «Não
tenho coração para taes espectaculos;» ¡como se esse mesmo coração não
fosse o seu peor algoz, o que o conduziu áquelle passo affrontoso!
N'outra parte um desesperado, que sonhou alguns momentos a felicidade,
mas que imprevistamente se sentiu naufragado de todas as suas
esperanças, que contou, para segurar a subsistencia, com os amigos que o
atraiçoaram, com a fortuna que lhe fugiu, que se vê precipitado n'uma
desgraça a que não prevê termo na sua desesperação, insulta o Céo,
blasfema da Providencia, e, se lhe não accudis, ¡quem sabe se irá (como
tantos outros) afiar um punhal, temperar um veneno, ou suspender um
laço, por onde arranque uma existencia que o importuna! ¿E a caridade e
a ternura não poderão ainda aqui obrar um novo milagre? ¿fazer-lhe
rebentar as lagrimas, cuja fonte se lhe exhaurira? ¿abrandar-lhe o
coração? ¿obrigál o a bemdizer a Providencia, e abençoar o pão com que
lhe sustentamos uma vida que lhe fizemos amar ainda?
¡Oh! ¡meu Deus! ¡que doces prerogativas não déstes vós ás almas
generosas e humanas! Se entre os próprios pagãos alcançava uma côroa o
que salvava os dias do seu concidadão, ¡que honras não merece dos outros
homens o que os arranca a uma morte desesperada, depois de uma vida
infeliz! ¡que os reconcilia com o Céo que já suppunham surdo e injusto!
¡e que até previne com os seus soccorros a desordem e excessos da
miseria que lhes arrancariam os meios de salvação!
¡Ah! meus irmãos, se nos basta ser homens, para reconhecermos como bem
real esta doce obrigação da esmola, segundo a razão e humanidade, ¡que
mais fortes motivos não tem o homem christão, para ser esmoler, segundo
as Escrituras, e particularmente o Evangelho! Os deveres da caridade não
são para nós simplices axiomas, ou preceitos da philosophia; não são o
resultado de um mero instinto moral: as santas doutrinas reveladas
vieram não só confirmar, mas dar ainda, se é possível, uma extensão
muito maior a tudo quanto n'esta parte a Religião natural nos havia
imposto.
Segundo o systema religioso do Christianismo, ¡por quantos modos, até
indirectos, nos não é persuadida a caridade! O Padre derramou sobre nós
todo o thesoiro das misericordias do Céo; creou nos entes os mais
perfeitos de toda a Natureza; a sua mesma divindade foi o typo pelo qual
nos formou (pelas suas proprias mãos, dizem as Escrituras); não só nos
adornou de todas as graças que perdemos na desobediência de nossos paes,
mas todas as suas creaturas contribuiram, e ainda contribuem (mais
parcamente sim, depois do peccado), para nos tornar o mundo uma
habitação commoda e feliz. Esse sol que nos allumia o theatro do mundo,
essas estações que lhe mudam as scenas, os frutos saborosos e delicados
que rompem da terra, os vestidos que nos cobrem, o ar que respiramos, o
somno que nos restaura as forças, os prazeres que nos lisonjeiam os
sentidos, os prazeres ainda mais puros e doces da consciencia e do
coração, são outras tantas esmolas, com que Deus proveu desde a
eternidade ao homem, sobre fraco e indigente, ingrato a tantos
beneficios.
Na sábia disposição com que de mais o Eterno Padre arranjou todo o
grande systema da Natureza, ¿não nos deu Elle uma grande lição de
caridade, estabelecendo em todas as suas obras uma encadeacão successiva
e mutua de dependencias e soccorros? Olhae, por exemplo, como os mares
liberalisam as suas aguas ao ar em nuvens, o ar as suas á terra em
chuvas, a terra ás fontes, as fontes aos rios, os rios outra vez aos
mares; e n'este rodear das aguas, plantas, animaes, homens, o mundo todo
se conserva, se reanima, se restaura.
D'esta mesma sorte, não só as grandes porções da Natureza, mas ainda os
seus minimos individuos, trazem travado um commercio mutuo de esmolas; e
os soccorros de uns, em circulo perpetuo, se tornam essenciaes á
existencia dos outros. É assim que, por toda a parte envolvidos pela
Natureza, do meio da qual nos elevamos, como obras as mais perfeitas,
não só nos não devemos resvalar a uma condição inferior á da propria
materia bruta, mas avantajar-nos tanto mais na mutua caridade, quanto
nos devemos considerar como entes, cuja conservação é mais importante
para a manifestação da gloria de Deus.
O Divino Verbo, por um mysterio da mais incomprehensivel misericordia,
desce ao mundo, demora-se entre os homens, deixa-lhes um thesoiro de
felicidade nas suas doutrinas, dá-lhes a esmola de todo o seu sangue,
lava a mancha da nossa origem, e restabelece a paz entre o Céo e a
terra.