tem louvor; é cubiçado;
mas das flores, mas dos frutos,
não é jamais despojado.
¡Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa, á luz da verdade,
queimar a máscara d'oiro
ás larvas da sociedade!
Medrae, sagrados mosteiros;
medrae, desprezando a inveja;
jamais fulminar-vos possa
calumnia que em vão troveja.
Brilhae, como ilhas florídas,
no meio do mar profundo
de vicios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.
Sêde o asylo das virtudes,
do Eden a propria entrada,
o enlace dos Ceos co'a terra,
do Empyrio a sublime escada.
Coimbra--1826 (?)
XI
SANTA MARIA EGYPCÍACA
(Fragmento de um poema)
.........................................
Prostrada aos pés da Cruz, ante a caveira,
jaz solitaria a Egypcia. Rios descem
de olhos lindos, que os ceos fitar não ousam,
* * * * *
¿Tão nova, e isenta? ¡Oh! não; mudou de amores.
Dos primeiros só guarda a dor e as penas;
mas os novos, os ultimos, protesta
conserval-os em vida, e em morte havel-os.
* * * * *
Té aqui, pela alma escura só lhe ardiam
relampagos dispersos; derretido
raio dos Ceos lhe côa pelas veias.
* * * * *
Brilhou no mundo como a flor de um dia.
Os soes vivos, os ventos importunos,
lhe ameaçavam fim; ruins borboletas
captivas da belleza iam murchal-a.
Imprevisto invisivel jardineiro
a tempo a salva, e a transplantou no ermo.
* * * * *
No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava
impróvida e leviana; hoje pranteia
na solidão, mas sob um Ceo que a espera.
As cidades, em que ídolo brilhára,
inda a chamam em vão, e em vão a aguardam.
De um lustro que a houveram, ¡quantos lustros
lhe volveram saudade!
* * * * *
Em viço de annos,
e mais bella que as flores todas juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhan de estio,
foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam festas; esmorecem danças;
os banquetes, diffusos pela noite,
já não veem despertar ternura e risos.
Nas roseiras intactas se desfolham
os botões das grinaldas; o alaúde,
que falou tanto amor nas mãos da bella,
discorde jaz, e mudo...
* * * * *
Ella, entretanto,
co'os mimosos pés nús calcando areias,
desornado o cabello, envôlta em pelles,
timida, envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
Mil vezes á avesinha se compára,
sem família, sem lar; corre erradia;
¿não ha-de ambas manter a paz que é de ambas?
Beija a caverna frígida que a hospéda,
e agradecendo este hórrido paraizo
ao Deus que lh'o depára, esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.
* * * * *
Ai coração tão amplo, onde estuava
mar de affectos sem conto, escoado agora,
¿quem o ha de encher? ¡em solidão tão funda!
¿quem o ha-de encher? Já o enche o que enche tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos aquilões, anima os troncos.
* * * * *
Só conversa com Deus, e a Deus só ouve.
Este seio, estas tranças desatadas,
são brinco só do vento do deserto.
Esta mão, tão mimosa e tão querida,
só procura, excavando a terra ingrata,
a amorosa raiz, ou já se encurva
para dar agua aos labios sequiosos.
A aurora a vem saudar já de joelhos.
Não ha um sol, não ha na noite um astro,
que não saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o chacal, a hiena, a onça,
foge, ou quebra os devotos exercicios.
Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira não treme; ora, e descança.
* * * * *
Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol já mal doiravam
da longinqua palmeira o incerto cume,
¡que vezes, assentada, e sustentando
na eburnea mão o pallido semblante,
atraz do astro fogoso e fugitivo,
mandava o coração, mandava os olhos!
* * * * *
--«Além--dizia--além, n'esse Occidente,
corre o santo Jordão delicias minhas,
que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
Talvez aquella nevoa que lá brilha,
mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
seja da santa veia alegre filha,
Além... Jerusalem, Sião, Judêa...»
* * * * *
E a taes nomes, enxames de memorias,
de saudades, de affectos, lhe adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas inda ás vezes lhe assomavam
no involuntario somno ideias meigas.
Inda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo alvergue,
e apóz elle os passeios namorados,
os theatros esplendidos, as galas,
as mezas rindo, os bailes desenvôltos;
e as victorias, e as chusmas dos praseres,
como á sua rainha vão saudal-a.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando se á terra, e sôlta em chóros,
pagava erros não seus com dor bem sua.
* * * * *
Taes se lhe vão no ermo deslizando
dias e annos, sem ver na areia impressos
mais vestigios que os seus.
* * * * *
De tempo em tempo,
só vê talvez, ou ver presume ao longe,
do horisonte nas sombras pavorosas,
o ténue pó da immensa caravana,
que vai de Alépo á Méka em certa estrada.
Por ella ora, e entre o orar lamenta
a devota fanática impiedade.
* * * * *
Tal vai manando a limpida existencia.
Egual ao ramalhete que desmaia,
e se esfólha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
encantos, já seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas exteriores
concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
se esconde um coração de amor não farto.
* * * * *
Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
saudosos restos, da gentil Palmyra.
Uma e outra já gloria do Universo;
agora mudas, sós, e deslembradas,
e socias no deserto, e eguaes no exemplo.
* * * * *
Meio seculo a viu prantear sosinha
annos ligeiros da fugaz infancia.
Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
o solitario Zózimo, como ella
ancião virtuoso, e habitador das covas,
que lhe oiça a longa vida, a anime, e exforce;
lhe dê perdão e paz de um Deus em nome.
* * * * *
Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Ceos,
--«¿Trareis,--lhe disse--
á pobre peccadora o manjar de Anjos?»
--«Sim.»
E partiu.
Com vista prolongada
ella o segue; co'os olhos no deserto
o espera todo o dia; ¡e este é tão longo!...
¡tarda tanto o bom hóspede!...
* * * * *
Passou-se
um anno inteiro. É elle agora; é elle;
conheço o fraco andar que o zelo apressa,
e as cans, e a calva, e as faces penitentes...
* * * * *
Chega; clama; a caverna não responde;
grita, e só ouve a si. Olha em redondo,
vê-a jazer na areia, e a areia escrita
por mão trémula, errante, ao que parece:
Bom Zózimo, por santa caridade
enterra o corpo da infeliz Maria.
Aqui morri no dia em que te fôste.
Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague.
............................................
XII
EPISTOLA
Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venancio Deslandes
(NO DIA DOS MEUS ANNOS)
FRAGMENTO
Em torno ao teu amigo estão fervendo,
Deslandes meu, na hora em que te escreve,
de uma festa caseira o reboliço.
* * * * *
Bem que alveje de neve o Caramulo,
e um frígido suão de lá nos venha,
ninguem hoje de frio aqui se queixa.
Não descança nem pé, nem mão, nem lingua;
o sumptuoso lar arde em tres fógos;
o forno se afogueia; a branca meza
vai-se de loiça e vidros alegrando.
* * * * *
Uma estuda em compôr as sobremezas;
outra enrama de loiro alta ferrugem
das vigas da cosinha; esta, sizuda,
de riscado avental e nus os braços,
com importancia e afan revira espêtos;
aquella, anda scismatica, e raivosa
de eu nascer em Janeiro, um mez agreste,
que além de um alecrim, de umas violetas,
nascidas por engano, além de rosas,
frágeis, sem cheiro, e languidas, não cria
com que se enflore a meza dos meus annos.
* * * * *
¿Porque é, quando a sorrir divagam todos,
quando só para mim se andam tecendo
estas pompas domesticas, agora
que a potente amisade em meu obsequio
para tudo fazer até fez estros;
agora, emfim, que aos raios da alegria
não ha um coração que se não abra...
¿por que se fecha o meu? ¿Dará (não creio)
da Natureza o luto um certo assombro
ás festas do homem? ¿Pensas que enfartado
d'esta patria amargura, a filtre aos gostos,
qual vaso que azedado a tudo azéda?...
.............................................
26 de Janeiro
de 1833.
FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA
NOTAS DOS EDITORES
AO VOLUME I DO
PRESBYTERIO DA MONTANHA
Da villa da Castanheira--No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de
Esgueira, 1 legua da villa de Agueda, e 11 da cidade do Porto para o
sul, em logar alto, tem seu assento a villa da Castanheira, que chamam
da Beira, a qual é tambem dos Condes da Feira, e n'ella entra em
correição o seu Ouvidor. Consta de 160 visinhos, com uma egreja
parochial da invocação de S. Mamede, Priorado do Conde da Feira, que
rende 600$000 réis, e tres ermidas. O seu termo tem uma freguezia
dedicada a Santa Maria Magdalena, no logar de Aguadão, que consta de 100
visinhos. É curado annexo á egreja de S. Mamede, que apresenta o seu
Prior. Tem este logar muitas fontes de delgadas e salutiferas aguas, que
fertilisam seus campos de pão e vinho, e os fazem abundantes de todo
genero de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes ordinarios,
Vereadores, um procurador do Concelho, Escrivão da Camara, Juiz dos
Orphãos com seu Escrivão, 1 Alcaide, e 1 Companhia da Ordenança.
(_Chorographia portugueza_ pelo Padre Antonio Carvalho da Costa.--T. II,
pag. 176--1708.)
Castanheira do Vouga--Villa na provincia da Beira baixa, Bispado de
Coimbra, Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado; tem 803 visinhos.
Está situada em monte junto da serra do Caramulo. É seu orago S. Mamede.
Tem quatro altares; e o maior é do orago; os outros são do Santissimo,
de Nossa Senhora da Expectação, com sua irmandade, e outro de S. Jorge.
O Parocho é Prior, apresentação da casa do Infantado; tem de renda
400$000 reis. Tem tres ermidas, que são: a do Espirito Santo, a de Nossa
Senhora do Bom-despacho, e a de S. Sebastião. Os frutos d'esta terra são
milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta villa um Juiz
ordinario, e a Camara. Passam por esta freguezia os rios Aguedão,
Alfusqueiro, e Agueda.
(_Diccionario geographico_ pelo Padre Luiz Cardoso. 1751.)
* * * * *
Castanheira do Vouga.--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago S.
Mamede; o Parocho é Prior da apresentação da Casa do Infantado; rende
480$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 7; tem 58 fogos.
Ágadão--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago Santa Maria
Magdalena; o Parocho é Cura da apresentação do Prior da Castanheira;
rende 40$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 6; tem 102
moradores
(_Portugal sacro-profano_--por Paulo Dias de Niza; cryptonimo do Padre
Luiz Cardoso--Lisboa--1767--8.^o--2 vol)
* * * * *
Castanheira do Vouga.--Villa, Douro, Comarca de Agueda, Concelho do
Vouga, 40 kilometros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140
fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Districto
administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da
Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado. Situada em um monte proximo
á serra do Caramulo. A Casa do Infantado apresentava o Prior, que tinha
400$000 réis. É fertil em milho e centeio; produz algum vinho, e do mais
pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a 16 de Junho de 1514. Era
cabeça do concelho do seu nome e tinha Juiz ordinario, Camara,
Escrivães, e mais Justiças. Passam pela freguezia os rios Agueda,
Aguedão, e Alfusqueira.
(_Portugal antigo e moderno_--por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de
Pinho Leal--Lisboa, 1874).
* * * * *
Pag. 11 lin. ultima
Dapibus mensas oneramus inemptis
Oneramos as mezas com iguarias não compradas; isto é, vivemos, sem
comprar, das nossas lavras proprias.
Citação de Virgilio (_Georgicas_, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina
variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto é:
_....Sero que revertens
nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis._
Isso faz parte de uma historieta que Virgílio conta, e que vamos ouvir
na traducção de Castilho:
......Alembra-me que outr'ora,
lá por onde o Galeso arrasta a veia escura
por entre loiros chãos de cereal cultura,
junto á Ebália cidade, a de torreados muros,
conheci um corycio em annos já maduros,
dono de uma chanzinha ali desamparada.
O pobre do torrão de si não dava nada:
nem pasto para bois, nem para um fato hervinha.
Sumitico de pães, escasso para vinha,
era um sarçal fechado; e no sarçal, comtudo,
o bom velho, a poder de diligencia e estudo,
tinha hortaliça rara, e emmoldurada em torno
com seve de jardim para maior adorno,
alvos lirios, verbena, e papoilas de prato.
Não trocára co'os Reis seu parco haver tão grato.
Recolhia ao casal já noite; e, ¡que riqueza
de iguarias de graça a assoberbar-lhe a meza!
Pag. 18 lin. 3
Passámos n'uma bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o
víçoso rio de Bolfiar.
Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826 para hoje. O
caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeiçoamentos modernos,
deram cabo da antiga viagem tão pittoresca.
Pag. 36 lin. 20
Uma especie de zimborio de doze palmos de altura.
Deve ser talvez alguma pyramide geodesica ali levantada pelos que
primeiro se dedicaram ao estudo da triangulação do Reino.
Pag. 37 lin. 3
Uma desconforme loisa inteiriça horizontalmente aguentada nos ares por
esteios de pedra.
Estes antiquissimos monumentos megalithicos ainda se encontram em muitas
partes das Hespanhas, e acham-se estudados á luz da sciencia moderna.
Pag. 42 lin. 6
A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucídez.
O portuguez que n'aquella serra se falava, e fala, influiu em Castilho o
seu constante amor á vernaculidade. Veja-se nas _Excavações poeticas_ o
que elle diz do velho camponez Francisco Gomes, creado da casa, e «um
dos mais chapados classicos» que elle jamais encontrou.
Pag. 58 lin. 7
Lia, Rachel e Rebecca
Lia era filha primogenita de Labão, e irman de Rachel. Achando-se Rachel
ajustada para casar com Jacob, teve Labão astucia de lhe substituir Lia,
apesar de menos formosa. Foi mãe de Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issachar,
Zabulon, e Dina.
Rachel, irman de Lia, tambem foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve
José, e mais Benjamim, de cujo parto falleceu. Parece que ainda se
conserva e mostra o seu tumulo.
Rebecca, filha de Bathuel, casou aos dezoito annos com Isaac, filho de
Abrahão, e teve por filhos Ezaú e Jacob.
Todas estas figuras biblicas, vivas 17 seculos antes da era christan,
são encantadoras de singeleza e graça nas descripções que d'ellas nos
deixaram os Livros santos.
Pag. 72 lin. 15
Uma pobre mocinha ovelheira
Mais de uma vez se recordou Castilho d'esta pastora, cujo nome era
Antonia. Veja-se o lindissimo retrato que pintou d'ella o nosso Poeta na
sua _Chave do enigma_.
Pag. 80, lin. 9
Filinto e o entrudo
Com o seu espirito essencialmente nacional, recordava-se o bom Francisco
Manuel do Nascimento, com muita saudade, do entrudo brutal da velha
Lisboa.
¡Viva o meu Portugal! ¡viva a laranja
que derruba o chapeo!
exclamava elle em París, ao lembrar-se das grosseiras costumagens dos
Portuguezes, felizmente meio polídas já hoje.
Pag. 82 linhas 6 e 8
Citações latinas
Essas duas são de Virgilio (_Eneida_, Livro I)
_Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum;
intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
nympharum domus_.
Isto é: defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um antro; e lá
dentro correm aguas doces, e apparecem assentos como que talhados na
rocha viva; verdadeira habitação de nymphas.
Pag. 87 lin. 21
As rogações de Maio
Foram instituidas por S. Mamerto, Bispo de Vienna, no Delphinado,
fallecido no anno 475.
Pagina 99 linha 23
O ubi campi!
Recordação de palavras de Virgilio ao Livro II das _Georgicas_:
_Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes;
flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi
Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaems
Taygeta!......_
Sejam minhas delicias os campos, e os ribeiros a deslizar nos valles;
encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou. ¿Onde estais,
campinas? ¿onde estás, rio Sperchio, e tu, monte Taygéte, habitado pelas
alegres virgens espartanas?
Castilho traduziu assim este trecho:
Então amar só quero os rios e arvoredos,
de glorias desquitado. Ai, campos meus tão quedos!
ai ribeiras do Spérchio, oiteiros do Taygéto,
das virgens de Lacónia ás órgias predilecto,
¿onde, onde me estais vós?....
Pag. 102, lin. 10
Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem
Verso de Ovidio, logo no começo da elegia I do Livro I das _Tristezas_.
Dirigindo-se ao seu proprio volume, escrito (ou antes chorado) no
desterro, entre os gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vae meu pequeno
livro; has-de entrar sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal.
Parte, ó meu pobre livro; irás sem mim, sosinho,
correr na gran Cidade incognito caminho
traduziu alguem
Pag. 107, lin. 17
Zimmermann
João Jorge Zimmermann, nascido em Brug, cantão de Berne, a 8 de Dezembro
de 1728, seguiu os estudos medicos, e foi abalisado sabio. Nomeou-o
medico da sua camara em 1768 el-Rei de Inglaterra; el Rei de Prussia
Frederico, o grande, foi tratado por elle na sua ultima doença, e deveu
allivios aos seus cuidados intelligentes. O Principe russo Orloff foi de
proposito com sua mulher consultar Zimmermann ao Hanover; e ao tornar-se
a S. Petersburgo falou d'elle com enthusiasmo á Imperatriz Catherina,
que em 1784 procurou attrahir á sua côrte aquelle luminar da sciencia.
Elle pediu excusa, porque a vida mundana não condizia com os habitos que
tinha creado o seu espirito; não se ofendeu a eminente Princeza, e
conferiu-lhe a ordem de Wladimiro. Infeliz na vida domestica, viu
morrer-lhe entre os braços uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho.
Falleceu este notavel homem em 7 de Outubro de 1795. Além de outras
obras, entre ellas um poema sobre o terremoto de Lisboa, publicou em
1756 o seu _Tratado da Solidão_, onde todas as vantagens moraes do
isolamento são defendidas com eloquencia e convicção, e sem mysanthropia
exagerada.
Pag. 108, lin. 6
O Passeio publico e o Marrare
Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio publico,
riscado em 1764 pelo architecto da cidade, Reynaldo Manuel, nas antigas
Hortas da cera, era o refugio campestre mais delicioso que podiam gosar
os habitantes da Capital. Ia desde a actual praça dos Restauradores até
á extinta praça da Alegria, na altura da rua das Pretas. No sitio exacto
do monumento aos heroes de 1640, espalmava-se um grande tanque redondo
(hoje no jardim da Graça).
O café Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no Chiado.
ADDITAMENTO
Visto ser esta obra de Castilho dedicada á memoria de seu bom irmão,
pareceu-nos acertado juntar aqui um dos tres sermões que ainda restam
d'este. As suas obras ineditas mandou o proprio Doutor Augusto Frederico
de Castilho que lh'as queimassem por sua morte. Salvaram-se, apenas, as
seguintes:
I--O sermão de S. Pedro, ou da Fé; II--O sermão da esmola, ou da
Caridade; III--O sermão nas exequias do senhor D. Pedro IV; IV--A
pastoral dedicada ao seu rebanho episcopal de Beja; V--Uns versos
na _Primavera_ de Antonio Feliciano.
-----File: 111.png---\-----------------[Blank Page] -----File:
112.png---\-----------------
SERMÃO
DA
ESMOLA OU DA CARIDADE
Prégado na 5.^a dominga da Quaresma de 1839 na Sé de Lisboa pelo
Conego Arcipreste da mesma Sé, o Doutor de capello em Canones
Augusto Frederico de Castilho
_Jesus abscondit se, et exivit de templo._
Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo.
De duas coisas nos fala o texto que propuz: de Jesus escondido, e de
Jesus fóra do templo; e nem por sahido do templo, nem por escondido,
deixa Jesus de ser Jesus, ou nos dispensa de seu serviço. Jesus vivo, e
na occasião de que trata o Evangelho, estava no mundo, e faltava no
templo. Jesus, hoje, por dois milagres de fé e amor, por duas
eucharistias, está no templo, e mais no mundo: no _templo_, encoberto no
Sacramento; no _mundo_, encoberto nos seus pobres. N'uma e n'outra parte
o devemos servir com egual zelo.
Orar todo o dia na egreja, e deixar fóra d'ella morrer á fome e ao frio
os necessitados, não é de christão; é fé morta. Soccorrer aos infelizes,
sem crer (se tal é possivel) n'Aquelle que elles representam, é caridade
morta; tambem não é de christão.
Vós pareceis christãos pela fé, pois que vindes á casa de Deus; vós o
pareceis, mas não o sois, porque essa fé é morta; cumpre que se
resuscite pela caridade.
Da caridade prégarei portanto hoje, ou antes da esmola, que é a caridade
pratica e activa; é o christianismo na sua parte mundana, o culto do
Verbo humanado aos olhos de todos, a religião de todas as religiões, a
philosophia de todas as philosophias, o axioma para todos os
entendimentos, o dogma até para o atheismo. O objecto é o mais
accommodado ás necessidades do tempo em que vivemos; offensa faria á
vossa piedade, se vos exigisse a attenção.
* * * * *
Alma e coração, discurso e affectos, convencem e persuadem como dever a
esmola. Não creou a Natureza irmãos privilegiados, e morgados na familia
dos homens: para uns, patrimonio de riquezas, e commodidades; para
outros, encargos de miseria, e lagrimas. Acasos, sagacidades, ou
malicias, estabeleceram essa desegualdade; e andou tambem ahi traça
recôndita da Providencia, para estreitamente nos ligar; se uns de outros
não carecessemos, não nos amáramos; se tudo a nós mesmos referissemos,
não fôramos virtuosos, seriamos os mais infelizes dos entes,
desentranhada de nós a beneficencia, origem de toda a sociedade, e
purissima fonte dos verdadeiros prazeres da vida. Egualou-nos, pois, a
Natureza; a Providencia nos desegualou; e n'esta contradicção apparente,
é que Deus, supremo Autor de ambas, manifestou toda a sabedoria dos seus
conselhos. Na Natureza, isto é, na sua Justiça, quiz que tivessemos uma
norma de egualdade; na Providencia, isto é, na sua caridade, que
aprendessemos a restabelecer, quanto em nós coubesse, aquella egualdade
primitiva por mutuos soccorros.
O homem caritativo é portanto o homem da Natureza, e o filho mimoso da
Providencia, depositario e executor da Justiça de Deus, transumpto e
argumento de sua bondade e misericordia.
O supérfluo de nossos bens constitue rigorosamente o patrimonio dos
pobres, e negar-lh'o é ao mesmo tempo injustiça e barbaridade, egual á
do depositario que consome os bens sagrados do deposito, do ecónomo que
converte em proprio uso as rendas do seu senhor, do tutor que devora a
substancia do seu pupillo; é ainda mais: é declararmo-nos inimigos de
Deus, desacreditando, e dando, de certo modo, quebra áquella
Providencia, cujos éramos dispensadores e supplementos; áquella
Providencia, que não consente que as avesinhas mesmas, que voam errantes
pelo ar, caiam mortas em terra, sem ordenação do Pae Celeste.
Tudo quanto de nós emana, ou em nós ressumbra bello, generoso, heroico,
brota (não duvidemos) da caridade. Deus, para tornar as virtudes caras,
e accessiveis até aos mais faltos de discurso, não creou a caridade,
senão que a tirou de suas proprias entranhas, e orvalhando-a sobre a
terra, lhe deu por benção que de todas as mais virtudes fosse ella
semente e fruto, seiva interior e graciosa florescencia; e ella ahi nos
ficou independente de qualquer reflexão, affecto innato, instinto (¿por
que o não diremos?), instinto moral.
Ainda mais, senhores: não só a tornou o mais profundo, mas tambem o mais
extenso de todos os affectos, para que, sobre encher-nos o coração de
virtude, ella nol o podesse occupar; sobre constituir-nos felicidade,
nol-a podesse tornar permanente.
¡Oh! ¡que maravilhosa não é esta caridade, que em todas as edades, e em
todas as circumstancias da vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre
lhe renascem objectos, e infinita como o Ceo, d'onde procede, cobre,
como elle, toda a Natureza creada, passa dos homens aos animaes brutos,
d'estes aos proprios entes insensiveis, adivinha infortunios, inventa e
persuade soccorros, até para entes que os não sabem agradecer, que os
não requerem, que os não precisam!
Tem a caridade, como as demais paixões, os seus excessos; momentos em
que se não sabe conter, nem governar; suspiros, lagrimas, e desalentos;
enthusiasmos, impetos, e arrojos heroicos; mas, como tudo lhe nasce do
amor e compaixão, tudo é terno, tudo é mavioso e consolador. Virtude de
virtudes, virtude unica onde não ha excessos.