de folhas mortas, qual de vós, no meio
d'esses troncos musgosos, seculares,
não viaja com o espirito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens?
Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
de lhe restituir quanto houve d'elles:
uma vida, uma choça, herdade e patria.
Deslembram cans; rugosas faces riem;
reviveis n'um minuto annos de infancia
sob a affeição de um pae, de um pae nos lares;
sem cuidados, sem prole, e sem temores,
entrais folgando o limiar da vida.
¡Podesse n'este ponto o pensamento,
como ave em ramo flórido e viscoso,
deter-se a recordar, ficar pregado!
¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
e a extincta geração recai nas campas.
* * * * *
¿Mas quê? ¿d'esses antigos plantadores
nada mais resta além de uns troncos mudos
n'este universo movediço e instavel?
¿nem uma só lembrança, um dito, um nome?
Tudo passou sem mínimo vestigio,
como os sons leves de um descante ao longe.
...........................................
V
Bons aldeões, estas sombras regaladas
vos falam nos avós; porém comigo,
comigo, extranho, e novo em meio d'ellas,
conversam no aureo tempo a que assistiram;
recordam-me as edades do Universo,
e os varios povos, e os paizes varios,
contemporaneos do nascente mundo.
* * * * *
Intonsas, invioladas, venerandas,
outras selvas, como esta que nos fecha,
fecharam do homem a primeira origem.
Sob as verdes abóbadas immensas
as velhas tradições nol-os descrevem
pobres e alegres, nús e satisfeitos,
saboreando em ocio a glande e a fonte,
dormindo sobre a folha, e sem pedirem
outra casa, outro templo, outra cidade.
* * * * *
A pouco e pouco o numero crescia,
minguando a pouco e pouco a singeleza.
Infecta o vicio á terra; os ceos se mudam;
a um Maio eterno as estações succedem;
o ar se gela e accende, alaga e silva;
já bravejam leões, já bramam tigres;
o homem se acoita ao seio das cavernas.
* * * * *
Vós, troncos, até ali seus companheiros,
acudís a servil-o; ¡e em quantos modos!
lá, crepitais em rútila fogueira;
aqui, das feras prohibís a entrada;
dais uma clava ao caçador valente;
na serviçal cortiça um berço aos filhos;
leitos a amor, assentos á velhice,
aos enxames um lar, um copo ás festas.
* * * * *
Das precisões ao grito, o engenho acorda;
lá surgem povoações, curraes, tugúrios,
e uma capella ás rusticas deidades.
Lá rompe o novo arado a terra dura;
lá geme, a transportar enormes pezos,
o carro, e sulca atónitos caminhos.
O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo;
a rudeza se pule; as artes crescem;
a especie racional das mais triumpha.
* * * * *
As gerações do ceo, do mar, da terra,
tudo é já seu; os campos lhe obedecem;
faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.
* * * * *
Então foi, que estas arvores, tão uteis
no patrio continente, abriram vôo
sobre o liquido abysmo a novos climas.
* * * * *
¿E em que parte do globo, arvore excelsa,
te podes presentar, que não recordes
uma façanha, um culto, um grão successo?
* * * * *
¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
que foste invicta clava em mão de Alcides;
vê-te, suspira, bate o chão raivando
de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças.
¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
do arvoredo Dodónio as mil respostas,
o passado e o porvir patente a todos,
e o livro do destino aberto ao mundo.
* * * * *
¿Na Ausónia? Mas Cybelle amou teus ramos;
Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
eras tremendo agoiro a todo o Imperio.
¿Em Roma? ¿E a c'rôa civica?
* * * * *
¿Nos campos?
¿E Phílémon, o justo, o caro aos deuses?
* * * * *
¿Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros
tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.
* * * * *
¿Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos,
sobre os cumes, á beira das torrentes?
Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
reunidos na vespera do sangue
em nocturno festim que allumiavas,
quando na harpa dos bardos reviviam
os feitos dos heroes do antigo tempo.
* * * * *
¡Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
de Sichem. Vejo os principes e os velhos,
os juizes, as tribus, apinhar-se
em torno ao tabernáculo de Sila.
Por cima d'este mar ondeado e vivo
reina de praia em praia alto silencio.
Sublime como o cedro do deserto,
se levanta Josué, braço do Eterno,
em nome do Senhor, que o manda e inspira;
os favores do Ceo recorda ao povo;
renasce a Fé; os idolos se arrazam;
--«¡Gloria ao Deus de Israel!--vozeia a turba--
¡ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos!
--Erga-se um monumento,--exclama o chefe--
que, se infieis um dia os esquecerdes,
vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.»
E a monumento põe no logar santo
enorme pedra á sombra de um carvalho,
que abrigava co'a copa o santuário.[7]
Despede o Povo, e em paz contente expira;
em paz, que já não vê perjúrios novos.
* * * * *
Escrava de Madian a plebe expia,
na miseria e no opprobrio, os males torpes
que fez ante o Senhor. Mas inda existe
um justo, a quem Deus fie o libertal-a:
é Gedeão, é o Josué segundo.[8]
Este, em quanto seu pae lança aos caminhos
medroso olhar á espera do inimigo
para fugir com elle, ajunta á pressa
o trigo que limpou.
Vê de repente
um Anjo, que debaixo do carvalho
se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
Esse mesmo carvalho é testemunha
da belleza do alado mensageiro,
da voz de salvação mandada ao Povo,
e do holocausto acceito e posto em cinzas,
e do altar, a quem _Paz_ foi dada em nome.
* * * * *
E este, que tão frondoso opáca os valles,
¿por que o rodeia um bando taciturno
dos fortes de Galaad? as suas armas
jazem quebradas; sua dor vai funda;
dos olhos tristes para o ceo voltados
pelo rosto amarello lhes escorre
grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.
Choram Saul, e a régia descendencia,
que mortos no combate aqui descançam.
Para o Monarcha agigantado e invicto
nenhuma estátua se erguerá na campa.
Sua columna e funebre palacio
preparou-lh'os com tempo a Natureza:
o tronco, rei da selva, o está cobrindo.
* * * * *
¡Mas quanto é mais tocante o que se eleva
nas faldas solitarias da montanha!
Ali Débora jaz; ali Rebecca
chora na morte a que a nutriu na infancia,
ama no coração, mãe nos extremos,
de seus primeiros e ultimos segredos
confidente fiel no lar paterno,
querida socia na feliz viagem,
e no lar conjugal seu doce allivio.
¿Arvore a tanto affecto consagrada
na affectuosa Biblia irá sem nome?
o _carvalho das lagrimas_ lhe chamam.
VI
¡Que uso tão doce aos corações piedosos!
Reverdecei, costumes do bom tempo,
quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem,
tinham sob um ceo livre a sepultura.
A Morte, menos barbara do que hoje,
com avarenta mão não ferrolhava
sob um tecto pezado, entre altos muros,
as prezas, cá de fóra em vão pedidas.
Não era um templo um cárcere de mortos.
Dormiam mollemente em terra franca,
em jardins frescos, em copadas selvas.
Esta esp'rança adoçava um pouco o amargo
do ultimo trago aos labios moribundos.
Este bem, tão pequeno em mal tão grande,
¡quanto valor não tinha aos que ficavam!
O irmão, o pae, o filho, o amigo, o esposo,
podiam livremente, a toda a hora,
ir regar de seu pranto amadas cinzas,
fartar saudades, inflammar lembranças,
delirar doce a noite, e o dia inteiro,
e de praser a um peito onde palpitam
superstições de amor ou de amisade,
dizer:
«Este tapiz relvoso o cobre;
esta ave lhe gorgeia; esta aura sôlta
o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes;
a primavera m'o visita, e espalha
tambem por cima d'elle o seu regaço;
esta violeta é sua, hei-de colhel-a;
d'est'arvore a raiz sente-lhe a fronte,
nutre-se do seu pó, vive por elle,
é elle mesmo em parte; arvore amiga,
recebe o nome caro, hoje sem dono,
toma os abraços que não posso dar-lhe.»
* * * * *
Sim, sim, convém um bosque ás sepulturas.
A arvore, Deus a fez como passagem
do mundo que respira ao mundo inerte;
commum co'os animaes, commum co'a terra,
vive e não sente; habita e ignora o mundo,
sympathisa co'a morte e co'a existencia,
é grata ás cinzas, á saude é grata.
* * * * *
¡Que férreos somos nós, que a um como vago
atiramos sem dó perdidos, mixtos,
o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros
arrojasse o que os seculos pouparam,
bronzes, escritos, marmores romanos,
ou, derrotando porticos, columnas,
theatros, colliseus, palacios, templos,
em serra inutil amontoasse as pedras,
¿quem não vertêra em lagrimas o sangue?
¡E ante a nossa affeição teem menos pezo
que as ruinas de Roma as que são nossas?!...
¡Dá-se tanto aos ditosos, aos contentes,
espectaculos, jogos, aureas festas,
jardins, parques!... ¡e aos miseros que gemem,
e aos peitos melancólicos, viuvos,
ha-de negar se um canto onde pranteiem!?...
¿De tanto mundo que pertence aos vivos
nada dareis aos seus antigos donos?
¡nem um torrão perdido, e uns troncos nullos?!...
* * * * *
¿Quando virá um dia, em que estes bosques,
semeados de tumulos não altos,
de lugubres saudades se povôem?
Então, a propria Morte, hoje tão sêcca,
terá sua grinalda; a dor, seu gosto;
e visitas o pó, e cultos o ermo.
* * * * *
Pelas noites mui placidas do estio,
ao duvidoso alvor da lua incerta,
bello será, sentado n'este sitio,
ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos,
o do casal, o morador na aldeia,
entrar chorando, e procurar seus mortos.
Aqui duas irmans resam de joelhos
sobre o seio materno sepultado.
Aqui o velho attento as contas passa
pelos dedos convulsos, e se encosta,
sem o saber, na fallecida esposa.
O filho aos pés da mãe co'os mais soluça
o Padre-Nosso apenas aprendido.
Deitado ao lado do submerso amigo,
o amigo devaneia antigos annos.
Por toda a parte, as lagrimas e affectos,
memorias doces, orações e esp'ranças.
* * * * *
¿E a quem não conviria egual retiro?
N'elle a tristeza encontraria um pasto;
a sciencia, reflexões; o vicio, escolhos;
a leviandade, assento; a desventura,
consolação; o amor, silencio e pranto.
Ensaiára-se o infante para a vida;
o velho, para a morte; o moralista
viria achar uncção para a verdade;
o orador, persuasões, ternura, encantos.
* * * * *
Ó filhos da montanha, ¡oh! libertae-vos
de um preconceito vão; é toda a terra
a terra do Senhor; afora o vicio,
debaixo d'este ceo nada é profano.
A benção do Pastor consagraria
vosso asylo feliz; e a Cruz em meio
todo de um santo influxo enchêra o bosque.
VII
Mas, em quanto esses dias vos não raiam,
bons velhos, vigiae que, de anno em anno,
aos juvenis futuros plantadores,
em vez de se afrouxar, se inflamme o zelo.
Cresça com seu favor por estas serras
a geração dos vegetaes gigantes.
Com todos vós conversam todos elles
sem cobrir campas; guardam-vos saudades,
são parentes de todas as aldeias,
e o brasão da montanha é o vosso parque.
Sobre tudo influi que a vossa raça
trema ao só nome do brutal machado
que ouse violar a veneranda herança.
O que só Deus medrou, só Deus derribe.
* * * * *
Crêde-me (eu já vi outras) vossa terra
é descrida, enteada á Natureza.
Cumpre a vós adoçar-lhe o aspecto agreste,
amiudar-lhe no oceano ermo dos ares
estas ilhas, virentes, graciosas,
que espalhem primavera pelos montes,
que attráiam as volantes caravanas
do rouxinol, da rôla, e da andorinha.
VIII
Lá em baixo a casa humilde que branqeja,
entre os alegres plátanos e o templo,
quasi que pasma, e se entristece e encolhe,
de ver em torno a solidão tão vasta.
Como que está pedindo... ao menos bosques;
não tem outros jardins, outros passeios,
que offereça a seu dono, o Pastor vosso.
Preparae desde já para o futuro
sombras novas aos novos successores,
e refrigério estivo ás cans do velho.
Casae co'o vosso int'resse o int'resse alheio.
Mil vezes sua voz reconhecida
rogará paz ditosa aos vossos netos,
quando, serena a mente, e sôlta a vista
lá fôrem divagar, ora embebidos
nos psalmos, nos poeticos arrojos,
ora admirando o Autor e o Nó dos mundos,
no largo azul dos ceos, no alto dos troncos
e no zumbir e no voar do insecto.
* * * * *
¡Surgi! ¡surgi! Lá jazem as enxadas.
Velhos, surgi! La voltam triumphantes,
findo o novo trabalho, os vossos filhos.
Agora espumem copos, sôem risos,
exulte a dança, alonguem-se os cantores.
Conquistastes o inculto á Natureza:
forçástel-a a sorrir, a ornar-se em festas.
Toda a vasta planicie, hontem tão erma,
¡que povoada vai já! ¡como promette
lembrar ao vosso gado, ás vossas filhas!
UM VELHO
Sim, dará sombra e vai povoado o valle:
mas fosse eu rico, e lhe dobrára encantos.
SEGUNDO VELHO
¿E como, irmão?
O PRIMEIRO
No alto d'este oiteiro,
d'onde se avista o mar, o ceo, a terra,
poria uma capella, e um San-Mamede
co'o rosto de um menino, e o rir de um Anjo;
nas mãos o cajadito, o alforge ao lado,
e o seu rafeiro ao pé todo soberbo
co'a colleira escarlate, e todo amigo
a lamber o seu Santo. É bom que os altos
se c'rôem de capellas, que levantem
o pensamento aos Ceos, no campo espalhem
devoção e piedade, e aos peregrinos
ensinem o caminho e a vista alegrem.
UM PASTOR
Sim, co'o santo pastor de guarda aos bosques,
¿que haviam de temer, nem cães nem gado?
Nos degraus da capella, á sombra inquieta,
longas séstas sonháramos de amores.
TERCEIRO VELHO
Já lá vão o bom tempo e os bons costumes;
foi-se a abundancia e os corações piedosos.
Esses fundavam templos, como o nosso,
n'um árido deserto; e hoje.... se estala
no campanario um sino, em ocio eterno
fica mudo a pender dos braços podres.
IX
Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria,
serei eu quem consagre o vosso oiteiro;
não a Mamede, não ao pastor martyr,
mas á contrita amavel Peccadora.
¿Não valem mais as lagrimas que o sangue?
¿Mais que heroico valor não nos commove
doce humildade e penitencia longa?
E de mais: se ás aspérrimas proezas
vos não destina o Ceo, todos nascestes
captivos frágeis de amorosas culpas.
Muita virgem no monte solitario
tentada pelo amor e pelo amante,
só com ver a capella ha-de livrar-se,
e pela salva flor dar lhe-ha mil flores.
E quando aqui errantes missionarios
vierem dar, e á sombra dos carvalhos,
as turbas apinhadas instruirem,
¡que persuasões, que lagrimas, que exemplos
hão-de tirar da veneranda Imagem!....
* * * * *
¡Qual me ri já na mente o grão projecto!
Eu serei pois o fundador de um culto
que aos frutos da moral reuna flores.
Sim; ¿quem tolhe o prazer puro e innocente?
...........................................
X
Partiram. E eis-me só. Todos partiram.
O alvoroço do entrudo os chama aos lares.
¡Oh! ¡Bemdita a ignorancia d'estas serras!
O rustico inda ri na Patria em luto,
e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.
¡Bem sabe elle que lagrimas aos mares
d'este horizonte em roda estão correndo!
¿Sabe elle que o atro dia é menos atro?
A paz, a confiança, as alegrias,
a abundancia, a união de antigos Lusos,
não deixaram, fugindo, um só vestigio.
No vaivem das facções, que se entrevencem,
tudo se perde e esquece, afora a raiva.
Os bons usos, as festas populares,
a romaria alegre, as patrias danças,
vão-se apagando... Aqui, mesmo na brenha,
a pastora, esquecendo os seus amores,
canta a questão dos Reis, o hymno da guerra,
sons novos, que o seu gado e o ecco extranham.
* * * * *
Ó Patria, bella Italia do Occidente,
tu que egual a Parthénope repoisas
debaixo da invejada laranjeira
e do mirto florido, ao deleitoso
ruido de aguas limpidas, no abri
de um ceo inspirador tão proprio ao genio,
ó bella Italia do Occidente, ó Patria,
¿era pois fado teu lidar sem fruto
para seres a inveja, a flor das gentes?....
A guerra, sim, te coroou co'as palmas
das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
trouxeram a teus pés thesoiros, sceptros.
Mas as flores das artes, mas os frutos
das sciencias, no chão dos outros povos
com tanto custo e com suor medrados,
¿espontâneos no teu medraram nunca?...
¿Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
ornam e absolvem da conquista os loiros?
¡Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas,
hoje ainda, aspirar á eternidade!!...
Talvez bem perto os seculos se cheguem,
que hão-de ver cego arado andar lavrando
tuas cidades de esquecido nome,
e o rebanho indiff'rente apascentar-se
sobre os teus tribunaes, theatros, praças.
* * * * *
Vê-te o sol com praser; deixa-te a custo,
Lusitania, que á borda do Oceano
brilhas qual deusa em majestade e em graça.
Deusa, e immortal, te crêram; mas tu jazes
entre tropheos em pó, lavada em sangue.
Deshonrada Cleópatra, inda és bella,
mas já nas veias te circula a morte.
¡Ai de quem nutre as áspides no seio!...
* * * * *
¡Ó Patria, ó Patria, com que voz tão baixa,
com que pejo te expróbro! ¡Ah! se podéres,
perdôa meu furor, vê só meu pranto;
ó Patria, ó mãe, ó misera querida!...
* * * * *
¿Que ouvi? ¡longinquo estrondo! ¿que seria?
¡Som de espingardas!... Sim, talvez... são homens
que nos matam irmãos... ¡Alerta!... oiçâmos...
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IX
O SAN JOÃO NAS FALDAS DO CARAMULO
Dia em que o Poeta plantou por suas mãos um cedro no pateo da
residencia parochial da Castanheira do Vouga
(FRAGMENTO)
..........................................
Se, de teus annos na madura força,
a mão que te ora planta inda fôr viva,
essa mesma, já trémula e caduca,
no tronco te abrirá, com pio exforço,
graciosa capellinha, onde sorria
um San-João, o Santo alegre do ermo,
trajo de pelles, juvenil frescura,
olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.
* * * * *
N'essa noite poetica e devota,
em que o praser, centuplicando aspectos,
povôa, anima, encanta o mundo inteiro,
agua e terra, ar e ceo, tudo é macio,
em que a velhice, a mocidade, a infancia,
sympathisam no vago da alegria;
quando n'alma insaciavel de delicias
se juntam, com mistura inexplicavel,
ao saudoso passado, aos bens presentes,
as mil visões do esplendido futuro;
quando em laço phantastico se aggregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gosos, superstições, fraquezas, cultos,
qual ramalhete de cipreste e rosas
na caprichosa mão das feiticeiras;
n'essa noite, das noites invejada,
a ti concorrerão por toda a parte,
té das aldeias do horizonte extremo,
dançantes bandos que a viola guia.
* * * * *
Verás girar seus bailes clamorosos
em redor das estrídulas fogueiras;
ouvirás os seus cânticos em côro
devoto e ennamorado. A bomba foge,
zune fugindo, e sollapada estoira;
o buscapé no ar caracolando
morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
ali circula em vórtice perenne
a roda leve espadanando incendios,
chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
aqui floreia o fúlgido valverde,
vesuviosinho que arremette ás nuvens;
arranca o vôo e vai rugindo aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso.
* * * * *
¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
¡e os protestos de amor! ¡e a prece occulta!
¡e essa mão dada a furto e a furto acceita!
¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
da meia-noite em ponto! ¡e a flor crestada!
¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
e muitas mais a próvida malicia!
¡e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver coroada
de festões verdes e entrançadas flores!
¡Que noites, que alegrias, que triumphos,
te aguardam no porvir, me estão na mente![9]
............................................
X
O MOSTEIRO
Vós, que sois do amavel sexo
ardentes adoradores,
que girais de bella em bella,
qual leve abelha entre as flores,
que sabeis n'um só momento
a mil deusas incensar,
e pareceis de ternura
não poder-vos saciar,
mancebos, o mundo é vosso;
mil bellas o mundo tem;
mas não choreis as que á sombra
repoisar das aras veem.
Se um jardim, florído, immenso,
encontrais na sociedade,
¿que importa que poucas rosas
lhe furte a mão da piedade?
poucas rosas, que dispostas
vão depois na solidão
lançar mais doces perfumes,
seguras de extranha mão.
Vagae, vagae livremente
nos jardins da Idália Venus;
segui as Nymphas e as Graças
pelos seus bosques amenos;
os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno vôem;
a mocidade vos ria;
espêssas rosas vos c'rôem;
¿que falta aos desejos vossos?
¡ah! soffrei, sem murmurar,
ver d'entre os vergéis florídos
poucas pombas desertar,
poucas pombas, que innocentes,
e temendo o caçador,
vão nos ermos solitarios
buscar um fado melhor.
Do Libano opacos cedros,
de Sião bosque tranquillo,
vós, palmeiras de Idumêa,
prestae-lhes seguro asylo.
Estranhas vistas não turbem
os seus piedosos segredos;
contentes á sombra vivam
dos sagrados arvoredos.
Silencio, paz, e ternura,
alva estrella de innocencia,
e a vista de um ceo risonho,
lhes doirem toda a existencia.
Murmúrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os açores.
Eu vos lamento e vos chóro,
insensiveis corações,
que de um mosteiro entre os muros
não vêdes senão prisões.
Córae da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Eden recatado ao mundo
no seio d'este deserto.
Modestas virgens o habitam,
que só não teem liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.
Segui-me, segui-me affoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos, ao mundo ignotos,
inteiros d'aqui contemplo.
¿Não vêdes sobre os altares
com graça engrupadas flores
lançar torrentes de aromas,
brilhar co'as mais vivas cores?
N'esses prados invisiveis
tambem pois se eleva a aurora;
sol, e zephyros, e fontes,
lhes dão sorrisos de Flora.
Essas pois, que vós julgaveis
desgraçadas prisioneiras,
teem praseres, teem delicias,
teem jardins, são jardineiras.
Vêde ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e sedas matizado
com vistosa bordadura.
Vêde a grinalda florida;
vêde o ramo; estes jasmins,
estes lirios, estas rosas,
não são já de seus jardins.
Não devem sua existencia
nem á terra nem ao Ceo,
e nem zephyros nem fontes
serviram no augmento seu.
Formou-as arte engenhosa;
poude mais que a Natureza;
deu mais vida ás suas flores;
prestou-lhes egual belleza.
¿Sabeis, que mãos feiticeiras
obraram prodigios taes?
eis o trabalho e os recreios
d'essas piedosas Vestaes.
Ellas no côro apparecem;
e, ao som dos orgãos divinos,
de sua alma aos Ceos se elevam
devotos brilhantes hymnos.
Innocentes e macias,
d'estas vozes a mistura
sem perturbar os sentidos
infunde n'alma ternura.
Em seus canticos não reina
terreno vulgar affecto;
é mais puro, é mais sublime
de seus amores o objecto.
O pensamento que as ouve,
sai da térrea habitação,
deixa os ares, das esphéras
atravessa o turbilhão,
vê do Empyrio as portas de oiro
abertas á humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.
Cessa a musica, e de novo
volve a mente ao patrio mundo;
mas dos virgineos desertos
primeiro se arroja ao fundo.
Lá divisa, em liberdade,
nas livres tranquillas horas,
dadas a cantos diversos
estas formosas cantoras.
Na sombra d'aquelles bosques,
n'aquelles molles passeios,
tambem pois das Musas entram
os aprasiveis recreios.
Olhae por fim seus aspectos,
¿Não vedes vós a bondade,
a alegria da innocencia,
as virtudes da piedade?
Eis os Genios que lhes tornam
encantadora a existencia:
as virtudes da piedade,
os praseres da innocencia.
A amisade entre ellas reina;
¿os encantos da amisade
não prestarão, por ventura,
delicias á soledade?
Mas basta, insensatos, basta;
á scena se corra o veo;
não profanem vossos olhos
mais tempo os átrios do Ceo.
Ide no mundo esquecel-as,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo vos baste,
como lhes basta um altar.
Mas esperae; respondei-me;
consultae vosso interior:
¿sois ditosos co'os sorrisos
de um falso inconstante amor?
¿Sabeis vós o que amor seja?
¿Satisfaz-se o coração
com esses fogos incertos,
e essa eterna agitação?
¿Não virá talvez um dia,
em que, mais sabios, queirais
unir os vossos destinos
á melhor d'entre as mortaes?
¿Como a haveis de achar no mundo,
no mundo, cujos enganos
vós conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos annos?
Tremereis de um laço eterno.
A vossa pena consiste
em pensardes que a virtude
que não tendes, não existe.
Então aqui vos espero,
n'estes quietos retiros.
Estes muros que insultaveis,
ouvirão vossos suspiros.
Entre estas virgens mimosas,
que severa educação
forma, longe dos humanos,
á sombra da solidão,
viréis procurar o objecto,
cuja ternura innocente
vos deve tornar a vida
risonha, pura, e contente.
Não detesteis um recinto,
onde Amor, onde Hymeneu,
onde um Genio, amigo vosso,
vosso thesoiro escondeu.
Pensae, pensae que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em graças, aquella que ha-de
doirar os vossos momentos.
Qual arbusto delicado,
que a viçosa louçania
mostrar em seu proprio clima,
em seu proprio ceo, devia,
mas foi por mão inimiga
trazido a estranhos logares,
onde murcho cederia
a influxos de infestos ares,
se da estufa compassiva
lhe não fosse aberto o seio,
onde vegeta e floresce
de arbustos eguaes no meio;
ali não receia as neves;
não treme da tempestade;
gosa o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;