Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,

vital perfume de mellifluos bolos,

que em molles virações traz a alegria.

Aquella vai e vem compondo a meza;

esta afervora a ceia, e a cada instante

corre á janella que descobre a aldeia.

Juntam-se á bulha os sinos da parochia,

que o sacristão na vespera do Orago

jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra.

O festivo repique exalta as mentes,

os meninos não param, correm, gritam,

repartem bombas, furtam-se valverdes,

e rindo ameaçam fogo á pipa velha.

A boa annosa mãe ralha do estrondo,

e o faz inda maior; o esposo enfia

uma sobre outra historias do seu tempo.

O avito candieiro de tres lumes

cobre da meza o centro, e chama á ceia;

a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.

Não foi longo o festim, mas cada copo

lhe augmentava o praser. ¡Salve tres vezes,

ó dos tres lumes candieiro avito!

¡quanto amor, quanta paz, que bens, que festas

não tens visto florir em tua casa!

¡quantas mãos tão felizes como puras

te hão accendido em noite igual! ¡quem sabe

que de memorias para ti conservas!

¡Em premio da hospedage aqui te accendam

longas eras em noites semelhantes

dignos de seus avós contentes netos!

* * * * *

Iria a muda apostrophe adiante,

mas ouviu-se o zabumba.--¡Ahi veem! ¡são elles!--

dizem todos, e todos saem pulando.

--Olhae; olhae; ¡nem uma luz na aldeia!

este anno veio tudo. ¡Que alegria

terá o nosso Parocho!

--Maria,

dá cá o meu chapéo.

--¡Corre, Pedrinho!

--¿Onde está meu irmão?

--¡Não se demorem!

--Vamos dançar.

--Perdi as alcaxofras.

--Vinde por cá; passemos-lhes adiante;

que rancho que lá vem!................

..........................................

.................... Golgan, que eu fosse,

não pintara a estrondosa miscellanea

que vôa do cazal ao Presbyterio.

Lavra nos proprios velhos o alvoroço;

vão co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo,

estranho á festa. O pateo illuminado

nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo.

--Viva o nosso Prior!...

--¡Viva!!!...

Mil vozes

restrugem o ecco apenas avistaram

rindo á janella o velho gordo e alegre.

--¡Viva o Senhor San João! ¡viva a alegria!

V

Bate o zabumba; a muzica rebenta;

fogem foguetes pelos ares livres

estrepitando; o campanario ovante

de jubilo endoidece; repentina

por dez partes acceza alta fogueira

dentro de um vasto circulo purpureo

mostra o prazer brincando em cada rosto.

Bello é ver n'este lance as raparigas

compondo mais o lenço, alevantando

o chapeo, que o semblante lhes encobre,

dando, como a descuido, um toque leve,

mas gracioso, ás flores que lh'o adornam,

e á flor do seio, e ao laço do collete.

¡Quantos nós ata amor n'esses instantes!

¡quantos outros aperta! ¡em quantos outros

embebe o espinho de um sutil ciume!

¡Chiton! temos o Parocho na frente;

e as cangalhas vêem mais do que parece.

A _alegria decente_, eis o estribilho

com que recheia as praticas. Se cantam,

co'a cabeça e co'o pé bate o compasso;

se pulam boa dança em honra ao Santo,

bota fora uma can. Por isso o baile

circula agora a estridula fogueira;

por isso o San João vai toda a noite

injuriado em canticos devotos.

VI

Meia noite. Que som mysterioso!

interrupção no baile e nos descantes.

* * * * *

Fada das amorosas prophecias,

tu, tu passaste agora em concha aerea

tirada pelo zephyro; sentimos

todos nós tua magica presença.

¡Boa viagem, Fada, e boa noite!

¡Salve, hora duodecima; bateste,

e descerrou-se a porta do futuro.

Sua nevoa desfeita em orvalhadas

vai nas plantas eleitas, vai nas flores

mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes

benção, certeza, amor, felicidade.

Já se interrompem bailes e descantes.

Embebida em potentes nigromancias

toda esta multidão por modos varios

exerce escrupulosa altos mysterios.

Mas renasce o alvoroço; é porque os copos

dos bilhetes fatidicos chegaram

da ama nas mãos com riso de importancia.

--Não falta aqui rapaz nem rapariga--

diz ella;--o senhor Padre escreveu todos,

mesmo á vista do rol dos confessados.

Meia noite já deu; quem quer casar-se,

pode vir vindo.

Ao grande reboliço

succedeu a attenção, que a cada sorte

outra vez se converte em gargalhadas.

Por cada par que amor approvaria,

veem disparates comicos ás duzias,

e dão rebate ás palmas e epigrammas.

O proprio bom do velho applaude a tudo,

e por primeira vez da sua vida

encontra em si chorrilhos de finuras.

Já pede a uma o bolo do noivado;

quer ser padrinho de outra; e ás mais bonitas

quer baptisar de graça os pequerruchos.

Muito custa no mundo o ser discreto

sem descambar o pé! coisas escapam...

que é por Deus não haver o Santo Officio,

como esta ao nosso padre:

--Olhae, rapazes,

vai n'estas sortes o que vai no mundo:

o acaso e a Providencia, ao que parece,

ambos lêem pelo mesmo Breviario.

Não foi dos mais christãos o epiphonema,

mas fez rir. O Golgan neste comenos

chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a:

--Esta, seja quem fôr, é cá p'ra nostri.

Pede que a leiam; lê-se-lhe:--O coveiro.--

Mudo o povo se entre-olha; e de repente

co'as pragas do Golgan destampam risos,

como os que o padre Homero encaixa aos deuses;

¡inextinguiveis risos! Mas não cede

a chufas nem a agoiro o varão forte;

e com mão bem segura extrae sublime

do outro copo outra sorte:--Ambrosia Trécula.

Então do pateo o riso clamoroso

deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana,

e retumbou nos ceos: Trécula... Trécula.

--¿Quem diabo é esta Ambrosia?--o heroe pergunta.

--Sou eu--responde a ama.

--¡Está brincando!

é talvez sua neta ou titrineta.

--Vá-se, tolo.

--Olhe cá, senhora tia,

não vai a arrenegar; não lhe pergunto

por cara, corpo e modos, que são lindos;

¿mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa?

Com o desdem mais dramatico, a matrona

voltou costas; e o bêbado prosegue:

--Sô Reverendo, não lhe aceite os banhos,

que eu sou casado, e ponho impedimentos.

Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem

tirar tambem; tirei; ¿quem tiraria?

uma das filhas do meu bom Philémon.

Recebi parabens de todo o povo;

deixei-o bem disposto a divertir-se,

e tornei co'o o meu _sogro_ ao nosso albergue.

Instou que me deitasse; respondi-lhe

que em noite de San-João ninguem se deita;

que alem d'isso a jornada fôra curta,

e sem nimia fadiga; ultimamente

que, pois que elle esperava a mais familia,

esperava eu tambem; não sendo airoso

faltar á noiva no primeiro dia.

--Cedo, mas só co'a clausula--disse elle--

que inda amanhan sois nosso.

--Assigno.

--¡Bello!

* * * * *

Então toca a palrar até que venham.

Saiâmos, que faz calma; alem, na eira,

sobre a alta palha do centeio novo

tomaremos a fresca e as orvalhadas.

* * * * *

Disse, e fez se. ¡Que ceo! ¡que paz! ¡que noite!

na molle aragem das fagueiras horas

meu coração feliz desabroxado

me enchia de um perfume egual ao vosso,

nocturnas flores, que o gosais sosinhas.

¡Quem podesse apanhar, prender na vida

estes momentos lubricos, momentos

que só caem do ceo durante a noite,

e só na solidão! Temi perdel-os

co'a triste distracção de mutuas falas.

Lembrou-me haver notado no meu velho

um genio amigo de contar historias;

pedi-lhe uma qualquer, bem decidido

a deixal-o á vontade espanejar-se

sem lhe dar attenção; mas enganei-me,

Pondo o rosto na mão, nos céos os olhos,

entra a buscar pela memoria antiga

algum caso mais raro; e como desse

casualmente co'a vista em certo lume

n'um cabeço remoto,

* * * * *

--Ouvi--me disse;--

por aquella luzinha lá ao longe

lembra-me um caso, e um caso que foi certo,

passado ali no Minho ha largos annos.

Inda eu conservo em casa uns Breviarios

de um Padre irmão da minha avó materna,

que poderão servir de documento.

Elle mesmo o escreveu nas folhas brancas

do principio e do fim dos quatro tomos.

E era um clerigo honrado, o que escrevia;

merece tanta fé como a Escritura.

Diz elle então ali (nem é só elle;

minha Avó sua irman dizia o mesmo):

que esta nossa familia inda descende

da Rosa de quem fala a dita historia.

A minha avó foi Rosa, e tinha o nome

de sua mãe; a minha mãe foi Rosa;

a vossa _noiva_ é Rosa; e n'esta casa,

querendo Deus, sempre ha-de haver o nome.

* * * * *

Depois d'este preambulo de Rosas,

veio a historia, e encantou-me; ou fossem causa

hora e sitio, ou a amavel singeleza

com que narrava o historiador das medas,

ou já disposição com que eu me achasse.

Creio que sim: do espirito do ouvinte

vem mais de meio o merito das obras.

Por exemplo: da Eneida o livro quarto

dias ha que me enfada; ha tambem dias

em que se atura o _Italico_ do Padre;[4]

e em que se entende um pouco a pálrea bruta

que aos brutos deu do amavel Lafontaine.[5]

Nada parece mal, trazido a tempo;

fora de tempo, tudo. A mesma coisa

entre obras e leitores acontece,

que entre os garfos e as arvores: se enxertam

quando o não pede o tronco e o veda a lua,

¡adeus ramo bastardo! e se ao contrario,

penetra a seiva toda, e pula o ramo.

Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto,

que protestei contar-vol-o a meu modo;

e o poema seguinte é o desempenho.

Tivesse elle, o que em vão lhe hei procurado,

da prosa do meu sogro o tom singelo,

talvez, leitores meus, o relerieis.

Inventar, descrever, compor os versos,

são os tres pés, da trípode de Apollo.

Já sabereis do Reverendo Kinsey

que eu não tenho invenção; que nada pinto

co'a verdadeira côr da Natureza;

que os versos meus são bons, mas que aborrecem;

o que não tira que um poéta eu seja

digno de ser notado entre os que vivem.

Ora, quanto á invenção d'este poema,

bem vedes que a não ha, ou se a ha que é d'outrem.

E quanto ás descripcões, fiz o possivel

para não metter mais que as do meu _sogro_.

Mas faltava o melhor, e o mais difficil:

versificar á moda. Atirei fora

o Virgilio, o Racine, e o Metastasio,

gebos todos monótonos, que enfiam

os versos bons e os optimos aos centos;

atirei-me ao Filinto e aos Filintistas;

estudei, fiz ensaios, compuz paginas

de embréxados velhissimos e esdruxulos,

e não foi sem proveito o estudo acerrimo.

* * * * *

Perdoae se este livro inda vai falho

d'esses donaires que travêssos fogem

de mal expertas mãos; soffrei-o em quanto

vou destilar sobre outro o _Elucidario_,

qual se espreme um limão sobre um guizote.

Abril de 1831.

FIM DA INTRODUCÇÃO[6]

III

EPISTOLA

A JOÃO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)

Da paz de um ermo ao turbilhão da côrte

a Musa de Castilho á do seu Costa

saude e amor. Já outra primavera

se enflora, a seu pesar, desde que ausente

pede aos montes a irman, que a não suspira,

e dorme ao lado de um feliz ingrato.

Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios

em cantos cujo ecco além não passa

....................................

1831--Abril, 21.

IV

O PRESBYTÉRIO

¡Salvè, principio e fim dos meus passeios!

¡Salvè, ó tu, cujo tecto, alva casinha,

cobre ha perto de um lustro os meus autores,

meus castellos no ar, meus faceis versos!

¡Salvè, co'o teu rosal; co'as tuas limas,

festivo ornato das paredes brancas;

co'o teu portão patente oppresso de heras;

e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro,

brasão futuro do obumbrado pateo!

¡Salvè outra vez, meu presbytério! ¡Salvè!

* * * * *

Hoje, que o caprichoso do meu estro

(bem sabes se elle o é) deixa inconstante

versos índa no chôco, outros que apenas

vão da casca a sahir, outros que breve

teem de fugir do ninho em vôos livres,

entrou, mal veio a aurora esclarecer-te,

a doidejar-te em roda, a namorar-te,

qual borboleta ociosa ou leve abelha.

Pois que elle o quer.... cantemos-te; e perdôa

se o canto falador, transpondo os cumes

das tuas cerejeiras, fôr mais longe

revelar tua humilde obscuridade.

* * * * *

A antiga mediania, a segurança,

a paz, o amor dos Ceos, o amor dos homens,

genios foram, que em bençãos presidiram

aos alicerces teus. De Pário monte

não foi mistér que entranhas te enviassem

chão, columnas, e abóbadas, e estatuas;

tuas portas sem chave não cresceram

lá nas florestas do hemisphério opposto.

Foi visinho pinhal teu sôlho e tecto;

deu-te paredes mais visinho oiteiro;

portões e meza um cedro bom da extrema.

Não custaste nem lagrimas a pobre,

que á força te cedesse a choça avita,

nem odioso suor; e não se dormem

somnos melhores em Belem nem Mafra.

* * * * *

¿Que importa que no centro d'estes ermos

vivas tão só, que apenas descortines

n'um dos altos d'em torno esquiva aldeia?

Tu e o templo co'as messes que vos cingem

bastais no quadro agreste; em vós affluem

(como em sua Queluz) nos festos dias

ondas e ondas de amaveis saudadores.

Os rebanhos ociosos não desdenham

tôjo em flor, que te doira o chão das mattas,

d'onde envôltos co' os trémulos balidos,

veem cantos de amorosas guardadoras

endoidecer teu ecco.

Os caminheiros

abençôam-te a sombra; aqui teem fonte,

que em tua relva, ao fresco das parreiras,

detém, dessedentando-as, caravanas

que vão ou veem no alpestre Caramulo.

* * * * *

O anjo das flores liberal te arqueia

de bordada verdura as rescendentes

claras janellas.

Um bulicio manso

de amigas vozes teu recinto alegra.

Na sua tépida choça os bois ruminam

ante o feno em montões; dorme no páteo

farto esquadrão lanigero; ao sol pôsto,

cão, dos lobos terror, te vela as noites;

teus gallos as demarcam vigilantes.

Co'a luz primeira arrulha-te alvejando

cypria nuvem plumosa; e apenas saltam

da dextra mão mesquinha os grãos doirados,

em torno da gentil madrugadeira

de toda a parte os hospedes revôam.

Bicam por entre as pombas á porfia

a gallinha de filhos rodeada,

o manso grasnador do aquoso tanque,

o vaidoso perú, que ri cantando,

e vós, e vós, mais vivos do que todos,

não chamados, mas sempre a nós bemvindos,

passarinhos do ceo, turba sem dono.

* * * * *

Singelo presbyterio, ¡oh! ¡como te amo,

co'o teu ar casaleiro! Amo o teu forno,

tão social á noite; a simples sala,

quasi sempre deserta; a livraria,

deserta rara vez; estas alcôvas,

que enche um só leito; e a adega, assoviada

do alvo sôpro do Norte; e o fuso, e a pia

da cheirosa vendima; e o teu celleiro,

alto, arejado, e tão patente aos pobres,

como as portas do templo convisinho.

* * * * *

¡Floresças para o Ceo e para a terra

nos inconstantes seculos! ¡floresças,

feliz, co'o feliz dono, edade longa!

E se, lá no futuro, algum amigo,

sócio dos dias bons, saudoso e triste,

torcendo a estrada, a te pedir viesse

novas do teu cantor,--«Amou me, e amei-o--

lhe dirias mostrando-te; e--«Seus ossos--

juntaria o teu velho--aqui descançam.»

* * * * *

Sim; apraz-me cuidar que inda os meus restos,

gratos aos bons d'este recanto obscuro,

onde escapei no seculo de sangue,

cá ficarão n'este ocio, inda alguns dias

do simples montanhez talvez chorados.

* * * * *

Oh santa perseguida Liberdade,

¡onde te achei!.... Onde não vivem homens;

n'um torrão bravo que não chama invejas.

* * * * *

Em quanto, ora que a noite o ceo regela

humida e turva, tantos ricos enchem

de bocejante enôjo as assemblêas,

e tantos, tantos miseros, sem lares,

sem consôlo, sem pão, sem voz de amigo,

só reos de patrio amor, dormem nas furnas,

pelas praias do Oceano, e pelas rochas

(sublimes troncos pelo pé cortados)...

tua clara fogueira nos aquece;

¡graças, graças a um Deus!

Assim vagava

sobre o universo undoso a arca do justo.

* * * * *

Nós, depois de annos tres, inda esperâmos.

Ainda do trovão eccos retumbam.

Ainda os escarceos assoladores

remugem lá por fóra. Ainda a pomba

co'o ramo de oliveira inda não volve.

* * * * *

¡Oh santa perseguida Liberdade!

¡Oh! ¡Se eu podesse, a trôco dos meus dias,

restituir-te á minha Patria!....

* * * * *

Basta.

Esperemos ainda. Oremos sempre;

e talvez que não tarde a grata aurora,

em que, a adejar da serra pelos pincaros,

venha de longe a nuncia das venturas,

a pomba com o seu ramo de oliveira!...

Castanheira de Vouga

Maio de 1831.

V

A LYRA DO DESTERRADO

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)

Era a noite dos finados;

sombria noite de outono.

Entre sinos acordados

lá jaz Roma entregue ao sono;

seus luzeiros apagados.

Do ceo pelo rôto manto

só brilham frouxas estrellas;

sai a custo o clarão santo

dos templos pelas janellas;

e Petrarcha vela emtanto.

Véla Petrarcha, e suspira

no leito amoroso e ermo;

olhos na véla que expira;

saudades no peito enfermo;

nem gloria sonha, nem lyra.

Qual raio sôlto de lua

por móveis aguas vibrada

n'um bosque inteiro flutúa,

tal adeja no passado

a saudosa mente sua.

¿Quem dirá seus pensamentos?

a douta lingua está muda.

¡Que paixões, que sentimentos,

no rosto, que aspeitos muda,

veem transluzir por momentos!

Ora é dor, ora é sorriso,

esperança, amor, transporte;

queixas, ternuras diviso;

desce aos abysmos da morte,

vôa aéreo ao Paraizo.

¡Não falar o Vate agora

co'os labios que move apenas!

¡Que torrente abrazadora!

¡que amor! ¡que incendidas penas!

¡quão nova a paixão não fôra!

Vai a noite adiantada;

humido vento assovia;

treme a luz quasi apagada.

Do grão Cantor que vigia

ferve a mente a sonhos dada.

--«Eís o templo conhecido

que os meus destinos encerra.

A mãe terna, o pae querido,

cá m'os tem no seio a terra.

Cá vi Laura, e fui perdido...

...............................

Castanheira do Vouga

1830...(?)

VI

EPISTOLA

(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)

A minha primavera emfim renasce.

Té n'este horror selvatico dos montes

roupas traja nupciaes a Natureza.

O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,

tudo nos diz «amor»; dizem-n-o as aves

chalreando ao florir das alvoradas;

bala o rebanho alegre; armento o muge;

na folha nova zéphiro o cicia;

a camponeza em meio de mil flores,

que lh'o exhalam balsamico, o suspira,

e ao viçoso tapiz, á sombra vasta

macia e tentadora lança os olhos.

Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,

enleva a fonte e as arvores nocturnas,

cantando amor, da lua ao raio incerto,

lições que mais de um ente ao longe estuda

(e pratica talvez); em sons de lyra,

solitario eu tambem, lições de affectos

de cá te envio ao centro da cidade.

N'esse ruidoso vórtice de povo,

de vãos praseres, de negocios futeis,

a geral rotação te arrasta ás cegas;

é dever da amisade erguer-te aos olhos

luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas

pode não ver a táboa ás vezes perto;

pode a praia ignorar, e tel a em face.

Táboa amor te lançou da praia firme;

ledo e fausto Hymeneu te está chamando.

.......................................

VII

A ROMARIA

Lá vem Maio rosado. Já floreja

nas planicies, verdeja pelos montes;

é o mez de Amor, é o mez de Philoméla.

Aureo amanhece o dia suspirado

da romaria annual; léguas em roda

já tudo é festa, esp'rança, e regosijo.

As povoações, desertas. Por estradas,

por torcidos atalhos, por oiteiros,

correm de toda a parte ornados bandos.

Lá retrôa nos eccos aturdidos

a matinal girandola ruidosa;

acorda ao longe a torre com repiques;

um povo de cem povos misturado

enche a vozeada selva, a acceza ermida,

e de ondeado matiz cobre o terreno.

Arfa ao sol, no alto mastro volteando,

triumphante bandeira alvi-cerúlea.

Vai e vem, ora chega, ora se allonga,

não está em nenhum sitio, e assoma em todos,

a alma da festa, a gloria do Gallego,

a aguda gaita túmida e franjada,

que ao rufado tambor sócia, repete

a moda velha e alegre, amor dos campos.

Em vidrado alguidar reluzem n'agua

os doirados tremóços, que afadigam

com compradores a afrontada tia.

As navalhas e anéis, o apito, o espelho,

se assoalham mais além; na alva toalha,

alva e folhuda, estão chamando o exul.

Em cima de seus carros triumphantes

os laureados tonéis, reis da alegria,

dão n'um fogo perenne a vida a tudo.

Aqui se ouve o descante ao desafio,

que a viola ora segue, ora acompanha.

Ali se apinham para ver as danças,

que a discorde rabecca entorta ás vezes.

Lá, se entorna o licor em puros vidros;

ao pé se adoça a fresca limonada.

Aqui se comprimentam; além chamam;

um se perde, outro se acha, outro convida.

Este corre; esta pára a ataviar-se,

por mostrar o cordão e o lenço novo.

Estirados na relva os velhos palram;

grita o rapaz. O amante, recostado

ao páu, por onde um braço lhe serpeia,

faz longa côrte á tímida futura,

que em resposta de amor lhe dá tremóços.

N'isto vôa o foguete, e atrôa as nuvens.

Lá sai a procissão; lá foram todos.

¡Ah! depois do jantar comido ás sombras,

cada um levará, volvendo a casa,

gratas lembranças para o anno inteiro.

VIII

O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES

OU

A MATTA DE S. SEBASTIÃO

Versos na plantação de uns carvalhos junto á egreja de S. Mamede da

Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia no

Domingo do Carnaval de 183...

I

N'este dia, em que o povo tumultuando

nos casaes, nas aldeias, nas cidades,

troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,

por copos, danças, máscaras, e risos

nas saturnaes christans; quando se espraia,

desde o seio de Roma aos fins da terra,

de um praser contagioso alta vertigem;

¿por que retreme ao golpe das enxadas

sob os meus pés a solitaria encosta?

* * * * *

¡Saude a vós, a vós louvor. Bemvindos,

montanhezes, fieis aos priscos usos!

O cântaro do estylo ahi está coroado,

risonho e prestes a inundar os copos;

o prémio á vista vos redobre as forças.

* * * * *

Rasgae co'o duro ferro a terra dura;

de vossos paes a matta veneranda

em torno de seu santo antigo dono

se accrescente por vós. Plantae, que é tempo,

no chão, sagrado de suor devoto,

ó presente annual, que o Ceo prospére.

* * * * *

Onde quer que elle jaz, abençoemos

as cinzas do homem bom, lá d'essas eras

que a pia usança introduziu primeiro.

¡Quanto a sua virtude era risonha!

--«Cada solteiro plantará n'este ermo

mais uma arvoresinha de anno em anno,

que lá em cima encontrará seu premio.»

¡Oh! estes rogos, sim, este pedido,

doce e desint'ressado, uncção respira;

manda mais do que as Leis; morrer não deve.

* * * * *

Produz, produz a miudo, ó Natureza,

por teu bem, por bem nosso, homens como esse.

Haja quem diga ao joven par, que ás aras

sobe apenas amante, e desce esposo:

--«Hoje, que são já fruto esp'ranças de hontem,

entrae sorrindo pelo chão da vida;

plantae, plantae um'arvore que o lembre.»

* * * * *

Quando a cabana festival se enrama,

se enflora a meza, e os aldeãos visinhos

veem festejar na casa um filho novo,

a mão paterna, de praser tremendo,

orne de um novo tronco o prédio avito.

* * * * *

¿Depois de suspirada e curta ausencia

volve um irmão das terras estrangeiras?

¿Convalesce um parente? ¿Em bem se acaba

suado, volumoso, eterno pleito,

que empobreceu o avô, o filho, e o neto?

¿Fizestes o adversario amigo vosso?

¿Sorriu-vos a ventura? ¿É farto o anno?

A sêrdes Reis, alçáreis monumentos;

¿que vale um monumento? O homem dos campos

melhores pode erguer a menos custo:

plante sobre o caminho arvores férteis.

Por elle o passageiro ardendo em calma

ache a sombra hospedeira que o recreie.

Por elle o pobre, que seu pão mendiga

de casal em casal, de monte em monte,

que não vê ceo, nem lar onde se aqueça,

nem feno onde descance, e em todo o mundo

só tem por património a caridade,

ache a fruta a pender em curvos ramos,

a acenar-lhe, a off'recer-se-lhe, a sorrir-lhe.

Assim, do bem de um só germinariam

mil bens communs; e do praser de um homem

o publico praser, publicas bençãos.

II

Se tendes de nascer, nascei mui breve,

sensiveis corações a quem Deus guarda,

a gloria de influir eguaes costumes.

Desde já nossas lagrimas de affecto

correm por vós; ao seio do futuro

nós vos lançamos desde cá louvores.

III

Sentemo-nos, em quanto os vossos filhos

aqui se embebem na tarefa honrosa,

sentemo-nos á sombra, a vós bem grata,

do carvalhal que as vossas mãos plantaram,

homens das cans, antigas testemunhas

dos tempos que não são.

* * * * *

Vós, deputados

das mortas gerações aos vivos de hoje

como pregões propheticos; thesoiro

de saudades, de dor, de experiencia;

bons velhos, á vossa alma taciturna

aprazem mais que a festa os pensamentos.

* * * * *

Falae: ¿d'onde vos nasce essa tristeza

profunda a um tempo e vaga, amarga e doce?

¿Será de enfeitiçada sympathia

que nos attrai á terra, ao chão da vida,

chão sempre cubiçado e sempre ingrato?

* * * * *

O coração, zeloso da existencia,

compara os dias seus do tronco aos dias,

e a conta desegual o opprime e o fecha.

¡Annos a nós, e seculos aos bosques!...

Planta o pae, mas a sombra hospéda os filhos;

netos, que não verá, gosarão d'ella;

e indiff'rentes incógnitos vindoiros

rirão contentes ao folhudo abrigo.

* * * * *

Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio

dispõe arvore fértil de esperanças,

que irá legada aos filhos de seus filhos.

Prophecias de amor lhe expande o seio,

sorri, e ama o que é seu, na esp'rança ao menos.

Mas feliz egualmente o que em seu predio

possue vaidoso um tronco hereditario.

* * * * *

Na réga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,

¿como ha-de não pensar em seus maiores?

Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram;

¿Como ha-de recusar-lhe uma saudade,

um suspiro, um suffragio, um elogio?

A gratidão medita á mesma sombra

onde já meditára o amor paterno.

Esta arvore mortal é o santo marco,

em que se juntam, se entrelaçam, crescem,

dos idos o interesse e o dos vindoiros;

nó de affeição, que os seculos reune.

* * * * *

¿Vedes vós essa mãe, que ha tantos annos

chora um filho alem-mar, em longes terras?

Mostrae-lhe um passageiro a dar á vella

para o porto feliz; ¡com que ternura

lhe não dará, chorando, um longo abraço,

que leve, que lh'o entregue, ao seu querido,

e todo o amor de mãe lhe exprima n'elle!...

¡E com quanto alvoroço o desterrado

não cingirá o amavel mensageiro!...

Eis o emblema da arvore, cruzando

viva e lembrada o Oceano das edades,

mensageira de int'resse aos paes e aos filhos.

IV

O presbyterio da montanha · 第 8 / 12 段