(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor sollícito se afana
em me afôfar o ninho, a vida em me inflorar;
se n'um retiro verde e mudo,
por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
sombras no estio, o inverno ao lar;
se a solidão que me apavora,
sómente o fôr vista de fóra;
se em seus recôncavos demora
gente feliz, povo de irmãos;
se do antigo viver, das crenças de outra edade,
vestigios guarda a soledade;
se poesia se vive entre estes aldeãos;
se a alegria, serena, isenta de pesares,
como a fresca saude, habita os puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e mares,
se Deus em toda a parte á Natureza ri...
coração meu, não desanimes,
gozos que não prevês, e cantos mais sublimes,
encontrarás talvez aqui.
¡Ah! sendo assim, ¡que importa a fama!
Tambem philoméla derrama
sua harmonia ás selvas que ama
longe de ouvintes e do sol.
Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria
que a viva, a lustrosa poesia,
de perolas que a flux borbóta o rouxinol?
Castanheira do Vouga
Outubro de 1826.
II
O SEPULCRO OU HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOÃO (POEMA)
INTRODUCÇÃO
(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)
(Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do
Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a
cavallo, transviados na montanha.)
I
--Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;
a velha era por força alguma bruxa.
Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!
--Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)
tres vezes t'o ensinou.
--Nem trinta vezes
que eu passasse por elle, o aprenderia;
a não ser pelo rasto que deixasse
esmurrando o nariz por essas lapas.
Já levo sem ferrage ambas as mulas;
perdeu-se o norte; não descubro casa,
nem gente, nem caminho, e é quasi noite.
Patrão, por meia legua mais ou menos,
não se deixa uma estrada como aquella,
que costeava o monte á beira da agua.
A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
--Dize um que vale dois, mas dois não digas.
Se tomámos o atalho em vez da estrada,
toda a culpa foi tua; eu não queria,
porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.
--Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,
com ar de santa, e palavrinhas manças,
nos rabiscou co'o pau no pó da estrada
tão claramente as idas, as venidas
d'esta serra sem fim, não lhe escapando
lomba, moiteira, torcicólo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mappa!
¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.
E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscos
não tinham diabrura ou nigromancia
capazes de encarchar um Santo em carne?
¿E quem me diz a mim que a grenha russa
não vai ao pé de nós? ¡talvez sentada
na anca da mula!... ¡_fúgite_, demonios!
Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;
quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!
¿que havemos de fazer nestas alturas?
--Tornarmos para traz.
--¿Por este escuro?
¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
¡co'um milhão de diabos!!...
--Pois fiquemos.
--E as mulas comam terra, como os sapos,
e nós carqueja.
--As noites são bem curtas.
--Se ao menos se avistasse alguma venda...
--Em rompendo a manhan teremos tudo.
Por agora apeemo-nos.
(_Apeiam-se._)
* * * * *
--No inferno
estoire entre um milhão de Satanazes
o que inventou primeiro andar de noite;
era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?
--Não é nada; uma pedra que rebola.
--¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito,
mas nem por isso engraço. ¿E aquelle bruto
lá em cima no pinhal, que guincha tanto!
--Algum mocho.
--Más balas o atravessem,
e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;
cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
valho por cinco ou seis; mas cá perdido,
e então de noite, um pisco me põe medo.
--Pois dorme.
--¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!
só se eu fôsse algum bêbado. Esta noite
nem pregar olho, nem largar das unhas
dois penedos; e ao pé já está reforço.
--Golgan, já que não foi por nossa escolha,
busquemos contentar-nos co'a poisada,
que inda não é tão má como o parece.
¡Quantos ha menos bem acomodados
por esse mundo agora! uns em cadeias,
outros entre ladrões, náufragos outros,
estes em luto, aquelles em doença.
Bastantes em colxões de plumas fôfas
revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,
cuidados tristes, asperos remorsos.
¡Quantos até nas salas mais alegres,
entre as luzes, e as muzicas, e as danças,
mas em face de um sôffrego banqueiro,
padecem mais que um reo chegando á fôrca
Não ha mal sem peor; qualquer estado
se se compara, é bom; com cara alegre
suavisam-se os incommodos; um fardo
n'um hombro impaciente é fardo e meio.
Quem não soffre um descommodo pequeno
nos grandes morre; um leve desagrado
dá realce ao prazer quando nos volta.
Qualquer estado, e pessimo que seja,
tem seu lado risonho; e é da prudencia
d'entre os picos da silva achar a amora.
_Amen_.--Brava o latim; dá ceia e cama.
--A falta d'esta ceia é novo adubo
do almoço de amanhan; e emquanto á cama,
¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?
Nem paredes nem tectos, que nos roubem
a viração da noite apoz a calma;
por entre essa quebrada dos penhascos
lá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;
sobre nós, e por baixo das estrellas,
pendendo como um lustre, este carvalho
cravejado de insectos que entre-luzem;
dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.
Vê; que soberba camara!; que leitos
desde a origem dos seculos nos guarda
no seio d'esta brenha a Natureza!
--Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha!
¡leva rumor! é bom pregar de coices.
Não durma, Sôr Doutor.
--Não tarda muito
que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhos
não devem ser os de uma noite d'estas!
--Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,
para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada
de casos que eu passei na minha vida;
tão rara, que podia ir á _Gazeta_!
* * * * *
Uma vez ia eu só; era em Novembro;
chuviscava e fazia um tal escuro
que era metter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a proposito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquelle; andava Christo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e andava o oiro aos pontapés da gente;
tambem... ¡já cá não torna! O grande caso
é que n'aquelle tempo era eu solteiro,
e rapaz bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,
que não pelos vintens; nem pela cara;
mas isto de casar co'um almocreve,
seja elle o diabo dos infernos,
parece a todas bem: é uma delicia
ter o seu homem só de vez em quando,
em logar do espião de um pegamaço
com residencia fixa em ar de abbade.
Mas... não é bom falar na vida alheia.
* * * * *
Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o _Chupista_. ¡Oh! que bolaxa
que eu pespeguei na cara do coécas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer creança lhe moia os queixos;
já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?
¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;
e andava com dez machos todo o anno
a correr quanto valle e monte havia
para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.
Que isto do fôro é bom, nem que pareça;
uns pagam-lhe borel, outros centeio,
queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
gallinhame por arte do diabo,
ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]
Não ha n'um pardieiro um desgraçado
que não deva pagar alguma nica.
Já vê donde me vinha a minha alcunha;
mas sem rasão; é porque andava ás ordens.
Tambem já tenho ouvido alguns autores,
tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
que é coisa bem mal feita a tal derriça;
Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.
Vamos cá co'o meu conto.
* * * * *
Era uma noite,
cuido que já lh'o disse, ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.
Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,
gósto de andar de noite havendo lua;
cá pelas brenhas não, que não sou lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de presuntos,
pela estrada real, co'os sete machos
a dormitar ao som da chocalhada.
Vinhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite, ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.
* * * * *
Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz não dá desgosto:
pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,
vendo os machos no pateo é uma alegria!...
¡aquillo até os olhos se lhes riem!
dão pinga, e de cear, e muitas vezes
vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que recebe o saque.
¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.
Não durma Sôr Doutor.
--Não durmo; acaba.
--¡Acabar! não acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarem; tinha um cachaço,...
por tal signal que até revia enxundia;
¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;
um sermãosinho d'elle atarantava
e punha tudo azul. Tinha a constancia
de arrumar prègações de duas horas.
N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,
já tinhamos dormido á regalada)
disse muito pausado: «Eu principio.»
Assim faço eu tambem. Todos devemos
tirar das prègações algum proveito.
Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;
porém tenha lá mão, que a levo errada.
* * * * *
Nesse dia á tardinha, na estalage
tinha entrado uma velha; era um diabo,
que isso... só visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo.
Tinha pela cabeça um lenço pardo
atado pela barba, um manteo ruço,
e uma mantinha exotica e de agoiro.
Tinha então uma cara não sei como;
nem parecia cara; era um nó cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas muito experta; e uns olhos como um bixo.
¡Tambem aquella rez tinha no corpo
muita pipa de sangue de creanças!
* * * * *
Cheguei eu á estalage, e ia com fome;
vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,
mando os frigir com mel, que é papa fina;
e então para quem tem de andar de noite
dizem que é bom, que livra do catarro,
já se sabe com quatro pingarolas.
Ia se preparando o meu guizado,
e era um cheiro tão bom pela cosinha,
que isso não ha dizer. Já dois gallegos,
e mais, tinham ceado; andavam tolos
a cochichar, e ás voltas pela casa,
um olho em mim, outro olho na tigella,
e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!
* * * * *
Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.
Mas o monstro da velha era uma estaca
ali muito direita ao pé dos ovos,
com cada olho aberto, ¡que te parto!
Era mesmo um olhar de inveja e zanga.
Logo eu tive má fé co'a tal menina
quando ella perguntou quem era o dono.
Porém quem mal não usa mal não cuida;
sentei-me á meza a codear nos ovos.
Ora agora o vereis: a minha amiga
amúa-se n'um canto, mais vermelha
que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.
Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
que a não ser por temer a Deus e a ella,
batia-lhe co'o prato pelas trombas.
Botava cada lagrima... ¡de punho!
dava cada suspiro, a excommungada,
¡que punha medo! accendo o meu cigarro,
pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.
Era já noite escura, e um vento frio
como o gran Satanaz.
* * * * *
¿Que diabo é isso?
ressona?; ou já na costa anda algum moiro?
--Avante; são as ramas que sussurram.
--Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada real por ser já tarde,
e a assobiar sósinho o _tiroliro_.
Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.
Á esquerda, como ahi, ficava um monte;
d'esta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e então mui longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem Roldão o andava áquellas horas.
Entrei logo a suar e a arripiar-me;
e as mulas n'um inferno de pinotes
sem quê nem para quê; davam taes rinchos,
que se fundia o chão; pregavam coices,
que assoviavam no ar; ¡que contradança!
era uma groza de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]
Aqui digo eu como dizia o Frade
n'outro sermão de um Santo; _não lh'o pinto
por não ter um pincel_. Mas faça ideia
que tal eu ficaria lobrigando
(¡eu te arrenego diabo!) uma luzerna
a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,
lá longe no pinhal. Que era bruxedo
tive eu logo de fé; muitos que m'o ouvem
riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;
que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!
Por força era algum sabbado lá d'ellas,
que as taes amigas juntam-se de noite
a fazer os seus sabbados, o mesmo
como nós no Natal á meia noite...
Ha muita comezana de creanças,
sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
e umas rizadas..... que até Deus se admira.
No meio anda um pretinho muito gordo,
que é o proprio diabo em carne e osso.
Diz então muita coisa a todas ellas,
dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
do que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
Untam-se co'uma untura que lá sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite até tal dia,
e ellas voltam-se a casa a armar já outras.
Isto sabia-o eu como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
e então é que dei tudo por perdido.
Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa
(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)
entrei eu co'as mãos postas para as mulas
a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,
pelas Almas Bemditas, que deixassem
todo aquelle motim, que me perdiam;
que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
e que pé ante pé viessem vindo;
que eu promettia uma ração dobrada.
Partimos. De repente desembésta
d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto
direito para nós como uma xára.
Com seis milhões de grozas de diabos!
¿quem havia de ser, senão a velha?
Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
chega ao cimo, e de lá muito sizuda
entra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)
a fazer-me uma cara dos infernos...
--¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
--Certo é que lembrou bem; tambem agora
lá me faz confusão ter visto a cara.
¿Escuro? isso era escuro como um prego;
não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;
¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
tão bem encasquetada no juizo,
que a podia pintar, e era pintura,
que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.
* * * * *
Mas o bom não foi isso; o mais bonito
foi entrar de repente o gallinhaço
nas canastras da carga em cantarolas,
a romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo ás cegas
sem as poder juntar. Foi se-me a noite
n'esta labutação; de cada canto
sentia um cacarejo, ia ás carreiras,
gallinha... por um oculo. Já rouco,
moido e desesp'rado, ao romper d'alva
vejo as minhas senhoras mui contentes
todas juntas n'um bando ao pé das mulas.
* * * * *
Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:
¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;
¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!
--Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?
--Para nós ambos de Fieis defuntos.
--De San João.
--¡Ah! sim; pois é fogueira,
e não é outra coisa. ¡Ora o diabo!
sempre tive uma colica soffrível.
Mas vamos nós a andar, se lhe parece.
Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
n'umas rasões que teve com meu tio,
que era barbeiro então, e o Padre Mestre
era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,
ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,
que era um tição que só á bofetada;
¡mas muito presumido! ¡e então por moças
dava o grande magano um cavaquinho!!...
Com que emfim, tinha o Padre este ditado:
aonde ha lume ha fumo; e eu então digo
que por força onde ha lume ha-de haver gente;
e que onde ha gente ha casa; e toda a casa
tem a sua cosinha, e então ceâmos.
E é partir de repente em quanto ha lume.
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II
Eis aqui um dialogo de ensanchas
sem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo--
grita o leitor perdendo as estribeiras.
¿Onde foi isto? ¿ou quando? ¿quem são elles?
¿onde vão? ¿d'onde veem?
* * * * *
Leitor amigo,
ha duas horas que soubéras tudo,
se o cruel arrieiro o permittisse;
mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.
Quanto a elle, presumo que o conheces;
o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um verso
não peor que outros muitos portuguezes:
Antonio Feliciano de Castilho.
Venho do Minho de assistir a bodas;
recolho me outra vez á Castanheira[3]
a casa do Prior, a fazer versos,
beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.
O theatro da scena é certo monte
de que me esquece o nome; o anno, e o dia,
Mil oitocentos e vinte e oito, á noite,
vespera de S. João. Se mais desejas,
é perguntar, que eu te respondo a tudo.
* * * * *
Mas o melhor (se queres um conselho)
é fazer-me um favor, ao qual protesto
ser toda a vida grato: anda comnosco;
a noite está bellissima; podemos
ir co'o nosso vagar pataratando,
e conduzindo as mulas pela redea.
Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites;
fica-te em paz, regala te, que eu juro
que estando em teu logar fazia o mesmo.
Se queres, faze ás paginas seguintes
onde vai mais Golgan (porque já agora
hei-de contar a historia por miudo)
faze, digo, a taes paginas o mesmo
que eu, tu, e elle, e nós, e vós, e elles,
fazemos ás dos _Martyres_ do Padre,
que são apezar d'isso uma obra prima.
Passa-as em claro, e dize que já leste.
Quem fala assim não quer suor alheio.
E adeus; até mais ver que vou com pressa.
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III
--Olhe lá, Sôr Doutor; diz um livrito,
que a gente sem falar é como os burros;
e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe,
para ver se se encurta este caminho,
o mais que se passou depois da historia.
Mas vá picando a mula; ¡olhe a fogueira!
* * * * *
Com que, como eu já disse, ao outro dia
vi as gallinhas ao redor das bestas;
torno-as a pôr na carga, e digo logo:
A Santa-Cruz não vão vocês de certo;
nem vocês, nem a carga dos presuntos,
nem nada que aqui vai, ¡com trinta infernos!
Servos de Deus tão bons, tão meus amigos,
¡haviam comer tal! ¡metter no corpo
talvez quanto bruxedo ha neste mundo!
Deus me livre do mais, que de encarrêgos
posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas
direito á Hespanha, e vendo-as a uns ciganos,
com carga e tudo.
--¿As mulas!
--Pois as mulas
tinham tantos diabos na muchilla
como as gallinhas, os boreis, e os ovos.
Mas eu era rapaz; se fosse agora,
não digo que o fizesse. O divertido
foi andar eu trez annos para quatro
a correr Portugal e Hespanha toda
a buscar confessor; ¡tudo ignorante!
Padre douto, nem um que me absolvesse.
Por fim achei o filho de um cigano,
dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.
Mas então penitencia não falemos;
se a quizesse rezar, ¡nem toda a vida!
Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro,
e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;
mas disse-me que havia até ser velho
mortificar o corpo co'um vergalho,
e com muitos jejuns. ¡Se eu fôra pato!
Sabe então o que fiz inda algum tempo?
era correr de chôto os meus pedaços,
e depois descançar.
* * * * *
Deixemos isto,
que não lhe importa muito, e a mim nem nada;
vim para a minha terra apenas pude,
muito pimpão, e cheio como um ovo.
Namorei, namoraram-me bastantes;
por encurtar rasões, casei com uma
que era filha do irmão de um primo ou tio
de um meu compadre Abreu, que era cunhado
da sogra d'esta mesma rapariga,
e enteado do irmão do Cura velho;
tudo gente limpinha, muito boa,
e temente ao Senhor, que é todo o caso.
Gastei para impôr Bulla os meus tanturrios,
¡e não foi lá tão pouco! ¡Veja agora:
¡para a gente casar largar dinheiro!
É como ir para a India ou para a fôrca,
e pagar inda em cima aos da sentença.
Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto,
disse me elle que a causa era nós termos
quatro humores no corpo, e d'aqui vinha
haver os quatro grãos na parentela;
que ella era minha prima, e que entre primos
havia os quatro grãos todos inteiros.
Não se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peças
não só os quatro grãos que se não viam,
mas ainda mais cá certa brincadeira.
* * * * *
Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me.
Aquelle mez primeiro é uma delicia;
foi todo elle um _cantate_; muito amigos,
muito beijo, e comer; muita broega,
muita romage, e tudo muito e muito.
Nunca houve um par assim tão contentinho;
nanja na aldeia e na comarca em roda;
era até amizade escandalosa.
Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
de fazer a vontade a toda a gente,
n'um dia santo á pratica da Missa
deu-me um foguete ¡caspite! Disse elle
que marido e mulher com tal namoro
era coisa mais vil que mil diabos.
Fizemos-lhe a vontade antes de muito;
ella entrou-me a azoar com trinta coisas,
e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
o asneirão do Juiz, que era vizinho,
tomou isto em trambolho, e ameaçou-me
de me encaixar no fundo dos infernos.
* * * * *
¿E então que lhe parece a entaladella?
Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a,
vem o Juiz, promette-me a enxovia.
É como o conto de um palerma velho
que ia a pé co'um rapaz e mais um burro.
--Bem sei.
--Pois sim senhor. Com que, tivemos,
não digo bem; teve ella oito ou dez filhos;
e sempre a dois e dois; forte coelha!
Entrei a dar á bruta; acudiu povo,
ella fugiu, mas eu fugi sem ella.
E d'então para cá desandou tudo.
E hoje ando aqui por moço de arrieiro,
a perder noites, e a estrompar as ventas.
Aqui está por que eu digo que este mundo
é coisa muito celebre! uns ovitos
e uma pinga de mel fizeram tudo.
........................................
* * * * *
¡Brava! ¿não ouve uns sinos que repicam?
¡olhe um foguete! ¡truz! ¡Viva o Vinagre!
¡e viva a ceia e a cama que estão perto!
IV
Com effeito, assim era; a poucos passos
já se ouvia tambor, gaita de folles,
risadas, bombas. Apressando as mulas
na direcção dos sons e da fogueira,
descemos uma encosta, a cujas abas,
entre uns poucos de antigos castanheiros,
uns cinco ou seis pastores se occupavam
a abobadar de murta uma fontinha.
Interromperam logo o seu trabalho
para nos vir saudar; mostraram pena
de ouvir que nos perdêramos no monte,
off'recendo á porfia os seus albergues.
Não findara a benevola contenda,
se um d'elles agarrando o freio á mula
me não posesse a andar; agradecendo
os desejos dos mais que inda ficavam,
segui affoitamente o nosso guia.
* * * * *
Uma ponte de pau que atravessámos
coberta de chorões, nos poz á borda
de um trigo já maduro e sussurrante,
contiguo ao seu casal. ¡Quanto eu folgara
de descrever tudo isto! Uma casinha
plantada ahi como risonha ilhota
n'um vasto mar de tremulas searas,
e clara como a neve, ou como a lua
que a espreitava do ceo por entre as folhas
de um esquivo parreiral. Junto ás paredes,
de rosas e limeiras revestidas,
canapés de cortiça apresentavam
a imagem do descanço e a do convite.
Não era necessario entrar a porta,
para já conhecer o domicilio
da hospedage e da paz; que as proprias auras,
como que em tão poeticas folhagens
se ouviam sussurrar: ¡«Bemvindo o estranho!»
* * * * *
Não longe lhe ficava a sua aldeia
na c'roa de um oiteiro; pensarieis,
vendo-as tão perto, e um bosque a separal-as,
a aldeia tão brilhante de fogueiras
e esta casa tão só mas tão alegre,
pensarieis, como eu, ver n'uma festa
moça ausente e feliz, amante e amada,
que entre o prazer commum não quer nem deve
ir desfazer seus pensamentos doces.
* * * * *
Visinho seu mui proximo era o templo,
aos valles do arredor alardeando
na sua torre branca um Anjo de oiro,
e a um lado a Residencia, occulta em parte
n'um ramilhete de altas cerejeiras.
* * * * *
Nunca mão de pintor juntou n'um quadro
objectos mais simpathicos. Tal como
trépido arroio em tacita espessura
das copas bebe a sombra, e envia ás copas,
do sol reflexo voadores raios,
do casal a presença alegra o templo;
a presença do templo está lançando
sobre o casal o sério da virtude.
Tudo isto sob um ceo de fertil benção,
sobre um chão de abundancia, e no ar mais puro!
--¡Meu Pae,!--grita o pastor entrando á pressa--
minhas irmans! ¡um hospede!--
* * * * *
A tal nome,
como se fosse á voz de alguma fada,
com repentina luz nos apparecem
creanças folgasans, esbeltas moças,
um ancião, e uma velha. Imagináreis
ver Graças, ver Amores, ver Napêas,
trajados de aldeãos, e honrando os lares
de Baucis e Philémon, que o parecem
na edade e na virtude os meus dois velhos.
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Não mora entre seáras a etiqueta;
mas sobre herdada meza de pinheiro
em troco adeja a cordeal franqueza,
o bom desejo adubo da abundancia,
e a amisade dos bons, filha do instincto,
que nasce qual relampago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao comprimento,
logo o segundo aos commodos; o resto
á conversa, e ao bulicio de tal noite.
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