deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome não seja, como
pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro
vôo; em que todas as causas santas e uteis se conheçam e respeitem; em
que nem a régia tribu de Judá seja, como outr'ora, apesinhada pela de
Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenária, captiva, e
escrava da de Judá.
Então quando o lenho sêcco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do
Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de forças, de
esperança, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos,
então os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi
mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleição, tornarão a assentar
ao-pé da arca santa a sua tenda humilde e venerada, não opulenta mas
dadivosa, tenda pobre e rôta, para que pelas aberturas penetrem melhor
até ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os
olhos d'elle entrevejam as estrellas.
¡Oh! ¡como volverão a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo!
Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os.
* * * * *
O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, não acredita em
malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma
verdade, que a sua posição d'elles lhes não deixou talvez ainda
perceber; verdade importante para applicações, verdade a cujo
escurecimento se pode imputar já muito e muito damno:
O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma
importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e
prosperidade do Estado, a que nenhuma instituição humana poderia
confrontar a sua.
Nas cidades é talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano é quasi um
pastor sem rebanho; não conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A
ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o
officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a
acabar com a esperança, e logo a caridade tambem; e a final talvez
tambem a fé, mal se inteirou de que todos seus esforços se haviam sempre
de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse
vencer o estrépito circumfuso, só serviria para lhe atrahir escárneos e
motejos, ou de fanatico, ou de tartufo.
Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscônditas
sobre tudo, ainda não é totalmente assim. Á entidade abstracta _Parocho_
se conserva, no respeito e benevolencia dos subdítos, um resto da sua
antiga majestade, da sua benéfica influencia, das suas altissimas
prerogativas.
Ainda é um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie
de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e
os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem
appellação para as consciencias; um censor, não em nome da Lei (como os
de Roma), porém em nome, e com delegação, e por inspiração, do Espirito
de Verdade, com quem se crê ter commercio no fundo do santuario.
Qualquer que seja a sua sciencia, é a ella que se recorre como á
principal.
Tal é, repito, a entidade _Parocho_ em abstracto.
XXIII
Isto posto, e acceito por certo, como é, pergunto: se não deverão
empregar-se as mais incessantes, as mais efficazes diligencias, para que
o provimento das parochias (das rusticas ao menos) recaia sempre em
homens de cultivado e provado entendimento, de sincera e illustrada Fé,
humanos e caritativos, desambiciosos, modestos, e de facil e aprasivel
trato.
Ninguem o negará, pois são elles as fontes, que, segundo sua qualidade,
teem de dessedentar e fertilisar, ou de esterilisar e consumir, a terra
que os rodeia.
N'estes agros tempos de contínua revolução e peleja, ou porque tão
momentosa ponderação não occorresse, ou porque a vista, de dentro da
cidade, não traspassa os muros d'ella, ou porque conveniencias pessoaes
e ephémeras, mas urgentes, mas gravissimas, tenham feito postergar
considerações de maior utilidade, mas de effeito mais tardío; as egrejas
ruraes, como as urbanas, jazem, pelo commum, peor que ao desamparo:
entregues, não como egrejas, a homens de oração e de esmola, mas, como
torres e castellos, a alcaides e capitães eleitoraes, que no dia do
conflicto arvorem e defendam o estandarte do seu bando.
¡Oh! que não sem rasão se collocou a rixosa urna dos suffragios
politicos na extranhada mansão dos serenos suffragios religiosos. A um
clero secularisado, competia um templo secularisado tambem.
* * * * *
E não ha aqui arguir esta ou aquella parcialidade; é peccado, que todas
ellas peccam; ou, para falar com mais justiça, é açoite que Deus mette
na mão de cada uma, quando lhe chega a sua hora de ephémero triumpho.
Se ellas bem considerassem n'isto (suppondo-as a todas, até ás mais
illusas, como as devemos suppôr, cordealmente empenhadas na civilisação
e no progresso), deixariam o uso d'esta arma, que para servir a revêzes
a favor de todas e contra todas, vem a ser, a final, para todas e para
cada uma, como se de feito não existira.
O direito mesmo da Guerra, com ser tão largo e licencioso, nem tudo
permitte. ¿Porque não ha-de logo, nas suas pelejas, a Politica
reconhecer limites, onde o Ceo e a rasão os teem marcado?
Combatam se os adversarios; mas não se envenenem as aguas; e se a
desavença é entre consanguineos, e em solo commum, não cortemos, para
aquecer o rancho dos nossos soldados, as oliveiras centannarias, que já
deram oleo, sombra, e paz a nossos avós, e que ainda podem liberalisar o
mesmo a nossos netos.
¿Por que é trazer aos festins profanos os vasos do Templo?
Se é chyméra a Religião, se Jesus não é em realidade senão «o Christo»,
vão fóra tartufías, que não deshonram menos a uma nação que a um
individuo; acabe-se de uma vez com _superstições_ importunas e
dispendiosas.
Mas se «o Christo» foi o Verbo; se o Verbo foi o sol; se o sol é ainda
agora a vida do genero humano; se a Cruz é o unico pezo que faz crescer
a quem a soffre; se na terra não ha luz senão a que vem de cima; se toda
a negação expira nos labios de quem chega a ouvir como se amiudam os
anhélitos do estertor, forcejae, forcejae para restituir, ó vós que
ainda o podeis, ao santuario do Deus vivo os unicos sacerdotes que elle
conhece, ao Povo os unicos oráculos em que elle pode crer, ás miserias o
seu antigo e tão amado refugio, aos vicíos e aos crimes o dique onde já
tantas vagas suas rebentaram em flor, e refugiram.
¿Não é assaz amplo o thesoiro que entre as mãos tendes de destinos
humanos?
¿Os exercitos e as armadas, os tribunaes, os governos, todas as
magistraturas, todos os magisterios, todas as exacções, todas as
administrações, não vos dão de sobejo com que pagar ou empenhar
amisades, zelos, e serviços, sem ser mistér que o povo de Deus venha,
escravo e deshonrado, desde a sua Jerusalem deserta e muda, carregar a
pedra e a areia para o vosso arco de triumpho?
Rachel chorosa chora os seus filhos, e não quer consolada porque elles
não existem para ella. Os moradores de Sião não entôam os seus
inspirados canticos, porque os trasladaram para a beira dos rios de
Babylonia. Ressuscitae para Rachel os seus filhos; reponde em Sião os
seus moradores.
A voz grande que se ouve em Rama prantear pela noite muda, calar-se-ha.
A Cidade santa restaurará as suas festas.
Não vos arreceeis de que, feriando os levitas, e despedindo-os das
vossas tendas para a da Arca santa, o exercito da vossa parcialidade,
qualquer que ella seja, se torne mais fraco.
Pelo contrario: então é que a victoria, filha das bençãos da terra e do
Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma auréola, sobre a hasta do vosso
estandarte, porque se dirá de toda a parte: «Eis ali os fortes, os que
bastam per si para se defenderem. Eis ali os justos, a quem o Senhor
outorgará dominação, porque elles lhe hão restituido os sacrificios.»
XXIV
Mas redescendâmos o estylo á lhaneza do nosso assumpto.
* * * * *
Logo que na legislação entrar mais _bom-senso_ que _politica_, mais
realidade que ficção, mais pensamento de semear que de ceifar, mais amor
do homem que de homens, o recrutamento e a disciplina da milicia sagrada
devolver-se-hão inteiramente, francamente, sem restricções mesquinhas e
nocivas, das mãos profanas para as dos seus superiores e arbitros
naturaes: os Prelados.
O Governo se gloriará de haver se desembaraçado de uma tarefa, de pouca
importancia aos olhos mundanos, e todavia cheia de incerteza, e de
responsabilidade incommensuravel. Gloriar-se-ha ainda mais, de haver
facultado com a sua restituição o incremento da religiosidade; por ella
o das virtudes domesticas; por ellas, o das virtudes politicas; por
tudo, o da prosperidade do Estado.
Quando cada Bispo, maioral responsavel e zeloso de uma profusa grei,
podér escolher por si mesmo, affeiçoar de espaço, collocar por sua mão,
os vigias de cada um dos seus rebanhos parciaes, ¿quem duvída de que
então os desacertos nas ponderadas escolhas hão-de ser tão raros, como
os acertos o são no actual systema, em que são as casualidades, quando
não as affeições ou os interesses, que predominam?
* * * * *
Quanto aos Bispos (honra a quem a merece, e justiça a todos), as
eleições do poder temporal teem merecido a geral approvação; teem
recahido, pelo commum, em varões de mui notoria sciencia e prudencia,
equidistantes dos dois oppostos fanatismos, concertados nos costumes, e
zelosos discretamente.
Graças, graças ao poder temporal, que já deu o primeiro passo, passo de
gigante, para a suspirada reformação. Agora os restantes hão de
seguir-se, porque são consequencia.
Logo que soube, e quiz, prepôr ao Episcopado varões taes, logo que
manifestou ao mundo que n'elles a todos os respeitos se fiava,
tacitamente se obrigou a lhes repôr... (estas suas usurpadas regalias,
ia eu dizer, e era um erro) estes seus onus, estes cahidos galhos da sua
cruz, este accrescimo de trabalhos e mortificações, este para uma
consciencia melindrosa martyrio das horas todas.
Seriam elles, elles mesmos, os Bispos, os que poderiam furtar os hombros
a tão duro redobramento de carga, se a caridade, obrigada nos do seu
officio, os não forçára a beijal-a com lagrimas, tomal-a com exultação,
e seguir via pelas asperezas do Calvario para o Ceo.
* * * * *
¿E que são em verdade os Parochos, ou antes: ¿que foram os Parochos
desde os antigos seculos da sua instituição, que foram, se não uns
coadjutores dos Prelados maiores, para fazerem chegar até aos minimos e
mais obscuros recantinhos das Diocéses a sua doutrina, a sua caridade, e
os seus exemplos?
Pois que os olhos, os ouvidos, os passos, e as mãos, de um só, e quasi
sempre velho e cançado, não podiam alcançar tão longe como o seu
espirito; medicos de populosos hospitaes de almas (e de corpos tambem),
não lhes chegando as forças para estarem dia e noite a todas as
cabeceiras, contarem todos os gemidos, ministrarem todos os remedios,
estudarem todos os symptomas, limparem todos os suores, padecerem em
todos e com todos, segundo a maravilhosa expressão do Apóstolo das
gentes; distribuiram em cada enfermaría quem os supprisse, quem os
fizesse sempre estar presentes, quem em seu nome, e segundo a sua
sciencia, receitasse e administrasse, e nos casos duvidosos os fizesse
de subito acudir.
¿Como póde portanto, quando militam as mesmas rasões que presidiram á
creação dos Parochos, consentir-se uma praxe, em que tudo vai
falsificado?
Dar ao medico, para seus ajudantes, homens escolhidos por homens
inexpertos e ignaros da sua arte, não pode ser; e não ha-de ser sempre;
e cabe nos esperar que nem continuará a ser por muito tempo.
O Episcopado vai reassumir a sua autoridade imprescriptivel, o
indispensavel respeito e obediencia dos seus primeiros subditos. Os
presbytérios civis, hoje de tantos corvos e abutres, vão ser como essas
torrinhas, que se branqueiam e se perfumam de incenso para morada de
pombas. As parochias reverdecerão: e florescerão, até ao possivel auge,
em creanças innocentes e instruidas, em adultos pios e laboriosos, em
mulheres castas e amantes do seu lar e dos seus deveres, em velhos
pacientes, resignados e conselheiros, em sólo bem cultivado e bem
festivo; e o Throno se alegrará com os novos reflexos de ventura, que
lhe virão de cada palmo da terra comprehendida no seu horizonte.
XXV
Não venha agora, no processo d'esta santificação, intrometter se o
_Cardeal-diabo_ do ciume, com máscara de amor da Liberdade. Ainda que a
máscara é de vidro, já d'aqui lh'a havemos de quebrar nas mãos,
batendo-lhe em cheio com tres nomes todos presados: França, Italia,
Inglaterra.
* * * * *
¿Que nação mais ciosa das suas immunidades, que a franceza? ¿Que nação
menos para consentir á Egreja o que de jus estricto lhe não compita?
Nenhuma.
Ora em França, bem sabemos todos que são unicamente os Prelados os que
formam o seu Clero. Educam-n-o longamente. Instruem-n o copiosamente,
por livros não escolhidos (como entre nós) pela Autoridade civil, ainda
que (de si se entende) sujeitos á sua inspecção. Acostumam n-o ás
praticas do seu não facil ministerio. Estudam, provam, e contraprovam, a
aptidão e especial préstimo de cada um. Aproveitam só os que n'esse
crivo pertinazmente bandejado sobrenadaram; e outra vez os escolhem á
mão, para os irem repartindo pelas Parochias do modo que mais
aproveitem; pois de ver está, que, differindo em indole e circumstancias
as povoações como os individuos, tal individuo, que em tal povoação
quadrará á justa, a afortunará afortunando-se; n'outra, que menos lhe
molde, valerá menos, trabalhando e padecendo mais.
* * * * *
O exemplo da Italia, tenho eu que ainda apérta melhor; porque, se lá os
Bispos são independentes, como em França, para o provimento de suas
egrejas, não é porque em mãos leigas esteja o sceptro do Estado. Ali o
Sceptro é Bago juntamente.
* * * * *
Documento, porém, sobre todos frisante nos offerece por ultimo a Gran
Bretanha.
Ali a Egreja Catholica, sem ser a do Estado, não protegida se não
tolerada, não acarinhada se não temida pelo seu progressivo, cada vez
mais rapido, mais assombroso, engrandecimento, gosa se, não obstante,
por longa e pacifica posse, d'este seu não _privilegio_, se não
_direito_ essencial; e os seus Bispos são pelo menos tão independentes
no tocante á cura de almas dentro de suas Diocéses, como dentro nas suas
os proprios Bispos protestantes.
XXVI
Ora pois: logo que entre nós se houver perfeito d'este modo a
regeneração do Clero pelos seus principes (unicos legitimos em tudo que
ao seu ministerio se refere) cabe esperar que a optima parte das nossas
populações ruraes se ha-de ir tambem insensivelmente regenerando, e que
a minha gente de S. Mamede do Monte será querida, e comprehendida até
por cortesãos, quando sahirem a folgar no campo algum estio.
Para então é que este livrinho, semelhante aos frutos que amadurecem em
casa e ás escuras, ha-de ter para mais alguem o sabor que eu já lhe
tomo.
* * * * *
Se elle consegue, para além das raias da minha expectação, fazer com que
um só captivo da Cidade cobre amor á vida solitária, ou que um unico
solitário aprenda a conhecer alguma parte da sua encoberta
bemaventurança, já não trocarei o pobre gosto de o ter escrito, pelos
maiores triumphos literarios.
FIM DO PROLOGO
Notas de Castilho a este Preambulo
NOTA I
Fontes de estudo
Como, durante a minha estada na serra, me não passava pela mente que
houvesse algum dia de bosquejar esta humilde Odyssêa dos sitios e gente
d'ella, nada trouxe apontado a tal respeito. Revolvendo as minhas
memorias não escritas, achei n'ellas consideraveis lacunas, mormente no
tocante á topographia, que eu desejava (quanto dado me fosse) completar.
N'esta pressa me soccorri á officiosa amisade do actual Prior de S.
Mamede da Castanheira, o Rev.^{do} Padre Antonio Jozé Rodrigues de
Campos, a cujo zelo devo o ter podido apresentar menos imperfeito o meu
painel, em que faltará tudo, á excepção de verdade nas coisas, e nos
retratos parecença.
NOTA II
Parochos
Na generalidade que estabeleço, por muito convencido, caberá fazer
algumas gloriosas excepções; e, sem ir mais longe, o meu Parocho, n'esta
freguesia de Santa Isabel[5], o Rev.^{do} Padre Jozé Jacintho Tavares, é
varão de copiosas Letras, tanto sacras como profanas, de sãos costumes,
sobredoirados de indole sociavel e amena, e incançavel na caridade. As
reparações e embellezamentos, com que se tem remoçado o templo em que
elle serve, nada são comparados com os soccorros de pão, de letras, e de
instrucção christan e civil, que já começam a disfrutar os indigentes da
sua freguesia. Largos são ainda os seus projectos; ajude-o a
Providencia; deixará formoso exemplo aos do seu officio, e muita saudade
filial de mulheres e homens prestaveis, em que elle haverá transformado,
pela educação, creancinhas ainda hontem desamparadas, e a pique de
perdimento. Não quiz perder este lanço de ajudar com um pequeno brado o
clamor da gratidão popular, que algum dia ha-de ser alto.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
Notas:
[1] O Doutor de capello José Feliciano de Castilho Barreto falleceu na
Castanheira do Vouga a 6 de Março de 1827, e foi enterrado na capella
mór da egreja parochial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os
seus restos mortaes para o jasigo da sua familia no cemiterio dos
Praseres em Lisboa, onde se conservam.
Os Editores
[2] Existe ainda este cedro que tem alcançado descommunal corpulencia.
Chamam-lhe por lá _o cedro do poeta_, ou _do Castilho_.
Os Editores.
[3] Ovidio--_Os Fastos_--Liv. VI.
[4] Allusão aos amargores da redacção da _Revista Universal Lisbonense_,
minuciosamente narrados _nas Memorias de Castilho_.
Os Editores.
[5] Castilho morava então na rua de S. Marçal.
Os Editores.
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
Sociedade editora
Livraria Moderna
95--RUA AUGUSTA--LISBOA
Obras completas de A. F. de Castilho
XX
O Presbyterio da Montanha
VOLUME II
[Figura]
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905
OBRAS COMPLETAS
DE
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
VOLUME 20.^o
VOLUMES PUBLICADOS:
I--Amor e melancolia.
II--A chave do enigma.
III--Cartas de Ecco e Narciso.
IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)
V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)
VI--A primavera (1.^o vol.)
VII--A primavera (2.^o vol.)
VIII--Vivos e mortos--Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.
IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)
X--Vivos e mortos (3.^o vol.)
XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)
XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)
XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)
XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)
XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)
XVI---Excavações poeticas (1.^o vol.)
XVII--Excavações poeticas (2.^o vol.)
XVIII--Excavações poeticas (3.^o vol.)
XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)
XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)
NO PRÉLO:
XXI--O Outono.
OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos
XX
O PRESBYTERIO DA MONTANHA
VOLUME II
[Figura]
LISBOA
Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_
LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
Rua Augusta, 95 || 45, Rua Ivens, 47
1905
I
A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
... Ibi haec incondita solus montibus et silvis studio jactabat
inani.
¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! ¿Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
nada avistou jamais, no amplissimo horizonte,
de mundo a tumultuar, de cidades a rir...
n'este ermo ignaro, frio, mudo...
aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!
¡o meu presente e o meu porvir!
Genio invisivel da montanha,
de astros, de sol, o ceo te banha;
o mar de longe te acompanha
no livre cantico sem fim.
Escada de Jacob da terra ao firmamento,
a mansão tua é monumento
da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.
Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
a variedades sobranceiro
mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
e do diluvio assolador.
Silencio e paz comtigo habita;
o ermo é como o eremita;
loucas vaidades não cogita;
ama o seu rustico trajar;
em apparente inercia ama que ferva occulto
de seus affectos o tumulto,
seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.
Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
sim; mas eu, frivolo, profano,
á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
¿que hei-de esperar? ¿que tenho aqui?
Toda a minh'alma se entristece,
e se confrange, e se ennoitece,
ao ver que a sorte lhe destece
de um sopro os aureos sonhos seus.
Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
sonhava mundo... ¡acho um deserto!
sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!
Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...
oiço... escuto... medito... e em vão quero entender
é como uns sons de ignota fala;
qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
sem me abalar, nem me embeber.
¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
que importa, ó montanha soturna,
que de perfumes sejas urna
da terra erguida sobre o altar?
¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
que o sol doirado, ao teu deserto
mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?
Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
bramirei:--«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
¡são mais pesares, mais saudades,
mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
mais tentações a dar-me fel!...»
¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
¡Tanto vate a ceifar louvores!...
¡Tanto moço a colher amores!...
¡Tantos loireiros e rosaes!...
E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
qual roble que geme indignado,
vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!
Assim ruge, baldão de vingativo nume,
esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cume
do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
Só o abutre de eterna fome,
que o grande coração algoz sem fim lhe come,
responde em ais á sua voz.
Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
que eu tanto amava! ¡hora fecunda
dos cantos meus! ¿por que me inunda
nova amargura o coração?
¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
a serra em luto se me encobre;
a nocturna mudez duplica a solidão.
Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
de luzeiros um labyrinto.
¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
é vento em selvas a rugir.
Calae, fugi, ventos agrestes;
sumi-vos, lampadas celestes;
n'um seio a delirios já prestes
não susciteis mais tentações.
Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
vós, astros, cifras de diamantes,
o arcano me aclarae lá d'essas regiões.
¡Oh! ¡se á minha razão, contradictoria, altiva,
que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
de vós, faroes do Ceo, baixasse a crença viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
¡se me volvesseis as ditosas
esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
com que se enfeita e esconde a Cruz!...
Tornar-se-me-hiam de improviso
a solidão, em paraizo;
a magua, em perenne sorriso;
em alto cantico, a mudez;
a mallograda lyra, o não colhido loiro,
em harpa augusta, em palmas d'oiro;
e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.
Delirios sempre vãos, fugi de um peito enfermo;
tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
ermo para ambições, é inferno, e não ermo;
para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
Gentis phantasmas de cidades,
vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
como um esquife em aureo veo.
¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
(embora em saudades me eu queime)!
O somno, as vigilias enchei-me
da vossa esplendida vizão.
¿Val o riso choroso as festas da loucura?
vinde, guiae-me á sepultura,
crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.
¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
não, no silvestre seio vosso,
nem de amenas ficções apascentar-me posso,
nem menos as posso esquecer.
¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
sondou jamais o abysmo escuro?
¡Apenas chego e já murmuro!
¿O de que tremo acaso sei?
Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
aqui me aguardem, recatados,
dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.