¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso da fortuna o rir, o

dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que

empunhassem, com animo feito, uma rabiça ou um foicinho!

¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e até imperios romanos, como

elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade....

só de o cuidar, tanto namora a phantasia!

¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras

minhas, a cabeça encanecida e regalada!

Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o

presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais

pequeno atravessasse correndo de um fôlego. Mas isto em solidão bem

solidão, onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem,

e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado e

esquecido de humanas vozes.

Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e

reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.

Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá

trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos.

Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoçador de quanto

existe.

A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa eólia entre

jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.

Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephémeras e

sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me

desbarataram na galé da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade)

nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do

Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.

Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos

que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em

cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia

escrever este epitaphio: _Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida

de.... Orae por elle_.[4] Vendem-se ainda primogenituras por menos que

prato de lentilhas.

Vingára-me (¡oh! ¡se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda

por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes,

appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os

seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.

Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.

* * * * *

--¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e

desejos?--dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca

faltam, escoimadores _ex-officio_ do alheio.

--Senhor meu,--lhe respondo eu já:--pois é por isso mesmo, de não

passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o

dar-lhes eu largas no papel.

Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados

de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio

a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras

gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o,

replantal-o, aformosental-o. E em lá vindo o florído Maio, ride-vos de

pagão que brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.

* * * * *

¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem por longe se pareça com

a de um viver remançado, em casa sem numero, nem espias, ao som da

Natureza, á lei da propria inclinação; sem ouvir horas que nos chamem,

sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar acções e palavras,

para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de

ociosos, que vos emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma

noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que são

a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento;

seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos não

vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de

esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na

meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens,

que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para

nada, pygmeus, histriões, da farça séria d'este mundo?

Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura,

ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis mais depressa

coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde

se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre

são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao

mesmo tempo: este, o _Te Deum_; aquelle, o _De profundis_; um, o

_Quomodo cecidit civitas plena populo_; outro, o _Cantemus Domino_;

qual, o _Miseremini mei_; qual, o _Ecce sacerdos magnus_.

Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade,

derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando

arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o

pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha

de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira.

Aqui, pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.

* * * * *

E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia; e, deixado o

palavrório que não sôa muito senão por ser vazio (como tambor de

foliões), dizei-me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem

que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado,

e não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de

praças, e reboliço de vizinhos, pois diante de suas janellas o que só se

meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão

hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou

borboletas?

¿Quem mais livre?

Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu,

sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o

cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos

convites. ¿Quem mais livre?

Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as

occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?

Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e

para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta,

ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem

como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho

corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar

senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da

obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir

com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a

alegria que se esconde.

Este _deus in nobis_, unica das divindades campestres em que se pode

crer, perguntae se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames

que pejam escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi todos os que

remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais

livre?

Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o

meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço, para folgar

entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume

que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio;

não ha que ciar se de mulher e filhas, que não dá a terra operas nem

bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle.

Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue

a pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a

ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco;

nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico

(especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os não maléficos tantos

ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe

levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do

chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis

praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?

Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas

destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio,

nada reluz na poisada que os attráia.

Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o

vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça

para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para

lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o

Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.

¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e

afortunado que o nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o

direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei

na matéria udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições

de boa ventura!

Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu

proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de

alguns d'estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por

inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou

podendo, se uma hora olhassem por si, adquirir, sem nenhuma

difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á

fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda,

florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os

visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons

costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a

de mais de retemperar corpo, animo, e coração, para se n'ella

saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto,

quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.

* * * * *

Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o

medicinalissimo _Livro da Solidão_ do Doutor Zimmermann. Aprenderiam a

perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e

a fazerem venturosos, quanto é dado havel-os n'este mundo tão instavel,

tão fugidio, tão calabreado de bens e males.

O homem na sociedade é um instrumento, que se gasta e quebra servindo;

na solidão é um homem. Na sociedade, é uma partícula irresistivelmente

arrebatada n'um redemoinho; na solidão um todo quieto.

Puericia, edade de oiro da vida, não torna jamais por onde uma vez

passou; mas na solidão se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o

homem, redimido dos cepos do mundo, e fôrro das humanas tirannias, se

faz em algum modo semelhante á creança; readquire o que quer que seja da

sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos.

¿Quem se lembraria de pôr um barco de cortiça (ainda que de seu natural

tivesse o ousal-o) n'um tanque do Passeio publico, cercado dos fumantes

do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? ¿quem o ousaria, mas

que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, até só

para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricaço em

torrear palacios.

Em quanto dá tempo aos passaros para irem picar no cêvo das armadilhas

que lhes andou dispondo, edifica á borda de um arroio uma azenha de dois

palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. Só no vêl-o voltear,

respingando aljôfares pelos ares, tem entretenimento para horas.

Alevanta ao pé uns paços nobres, que se encheriam com a familia de um

coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo

se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animálculos, em

que só o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam

enlevar.

¡A solidão! ¡a solidão!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e

pregoareis d'ella o que eu me não affoito a encarecer-vos.

* * * * *

Um só achaque hei-de eu impôr á boa da solidão, á gentil namorada de

Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser:

que, pois nos descalleja o coração, banhado nas suavidades da mãe

Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai,

assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando não as

podemos extirpar. No ermo ressôam mais alto os gemidos, como na calada

da noite se dão a ouvir mais claras as vozes.

Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita,

o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos,

quizera-se ter mãos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o coração,

que não tem para dar senão suspiros, no fundo do peito se confrange

todo, e se espedaça.

¡Cada uma d'aquellas curas dependeria de tão pouco! ¡sería tão

festejada! ¡tantos effeitos afortunados produziria! ¡deixaria, por corôa

de beneficios, tão sinceros, tão duradoiros agradecimentos!

* * * * *

Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas

alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o

coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos,

os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia

terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como

deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os

erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando.

Então sim, que haveria que se lhes invejar.

Dôr d'alma é, na verdade, não poder homem na solidão pagar por estes, e

por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, lá

estende os braços valedores até onde lhe é dado. Onde não chega a

remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendacões

poderosas, com as esperanças, com a presença, com a uncção da palavra

amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas.

Assim, se terá sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo

trabalhos, e no seio coração.

XXII

Isto presenciei eu:

O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural

pejo me veda transladar louvores, que por lá se lêem em todos os peitos,

contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que não pára

onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo

Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem

ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo.

Era para ver (se elle não poséra tanto em recatal-a) a alacridade, a

sôffrega alacridade, com que ia levar aqui um pão, que se devorava como

vida que em realidade era, ali o remedio para a doença; aos mal avindos,

a reconciliação; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a

paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordão para a

seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea,

cunhada de uma banda com a effigie do coração, da outra com a da Cruz

florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se cambía; o affecto

fraternal.

Ali, sim, que é o ser Parocho.

¡Oh officio divinamente instituido, como te hão degenerado annos frios

de descrença e desamor! ¡Com que maravilhoso laço não cifravas o que de

mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e

nas do mundo!

O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de

eleição, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os

exemplos, as ameaças, os anáthemas, as absolvições, os confortos, e os

jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam, á sombra

d'elle.

Entrados á vida, encontravamol-o, resplandecente de Fé, á nossa espera

diante da fonte da Graça, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos

purificar.

Arribados á edade da rasão e dos delirios, tornavamol-o a achar na

piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de

Apóstolo, a foragida paz do interior.

No consorcio, eram as suas mãos castas as que nos entregavam, com

bençãos d'alma e sincera prophecia, a mão tremente da futura mãe de

nossos filhos.

Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em

lagrimas, a que levava, como guia segura, o côro de todas as nossas á

presença do Senhor da Natureza.

Em nossas dissensões domesticas, elle o Anjo da concordancia, que

primeiro apparecia.

Nas nossas quédas, elle o primeiro braço que nos alçava.

Nas tribulações, elle o nosso mais previsto conselheiro.

Na enfermidade, elle o medico gratuito e não chamado.

Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e

aterrada o pão, o oleo, e o fardel das esperanças para o caminho.

Elle o que ainda nos seguia, depois que já todos os outros medicos iam

longe, e até nossos paes e nossos filhos nos deixavam sós. Com preces

fervorosas nos acompanhava, até que a terra nos submergisse; e ainda

então nos não largava, senão para ir instaurar novas preces por nós

sobre os altares.

Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com

quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua

pobreza, sempre paschoas-florídas para grandes e pequenos, só temido dos

maus, ainda que tambem d'esses respeitado.

Se carecia de progénie, se não tinha uma esposa, elle, que tão amenos

quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava

por irmãos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thálamo de

oiro a aguardal-o no paraizo, região que todos os dias entrevia atravéz

das folhas do seu breviário; e, se ainda no coração lhe podia alguma

ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem

se revía; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir

galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas

festas se remoçava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua

voz.

No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava

tambem. Se, perante a ara santa a Fé via n'elle um representante da

Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e

sobrehumano.

A hora em que elle expirava, hora de consternação e alaridos para todo

um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns

relampagos de duvidas sobre a justiça e a misericordia do ENTE SUPREMO;

duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehensão dos seus

olhos fechados, já não podia fulminar, mas que a sua presença, mal

chegavam a beijar-lhe os pés como a bemaventurado, promptamente

desvanecìa. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte não era mais

que somno; e bem se entendia como, ao cabo de tão prolixo, de tão zeloso

trabalhar, era rasão colher descanço e premio, como só lá em cima os

pode haver.

* * * * *

Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prospérrimas da

Christandade.

De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas tão raro,

que a dedo se apontam; e ainda se não hão-de crer, se não fôrem vistos

bem por miudo, e contrasteados bem de espaço.

De ninguem é a culpa, sendo de todos a desgraça.

Não; de ninguem é a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque

principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstição;

está agora no frio da incredulidade ¿Que lhe ha-de fazer? jazer-se com

elle, até que do alto lhe venha o remedio.

* * * * *

Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma

de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de Fé intrinzeca, nem um

phantasma.

A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecêra, pegou-se d'ella,

pelo contacto, primeiro á superior, depois á infima.

Ha doenças que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta.

A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada já

quer ir convalescendo; já convalesce em muitas partes, se em nenhuma se

acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a

mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe

(segundo todos os symptômas) de se restaurar.

Hoje o materialismo é especialmente plebeu.

Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e

descendo manso e manso, a luz, que adelgaçasse, que por derradeiro

desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo.

Mas nem de lá baixa, porque por lá faz ainda noite, nem se derrama da

Imprensa, de que a mean classe é representante.

O Poder, fingindo _proteger_, apenas _tolera_ os escassos restos da

crença. Se alguma vez lhes dá consideração, é quando se lhe antólha que

os poderá empregar, por material, para obras politicas a seu modo.

A Literatura, ou por especulação de popularidade, ou por extravagancia

de muito joven, ou porque o seculo XVIII do «Paiz modelo» só poude

chegar cá no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem á

unica Religião civilisadora, tão decepada e desgeitosa se avém, que, por

entre as suas expremidas lagrimas de compuncção, se lhe está vendo

voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo.

A sua religiosidade é um cálculo; ¡grande mal! é um cálculo

transparente; ¡mal ainda muito mais funesto!

Reconhece-se que, se de alguma coisa está convencida, não é da verdade

real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus

ouvintes a acreditem.

Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e

aqueça; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e ás escuras

por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba.

Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante «o _Christo_» (como lhe

ella sempre chama), que a sua cabeça ennastrada de loiros não fique,

mais ou menos, sobre-sahindo á pendida fronte coroada de espinhos.

¿Que poderá jamais conseguir para verdadeiras aleluias da Fé e da Moral,

este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo

do falso nome de Christianismo pregôa d'elle uma, ou outra, ou muitas,

paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas?

Quanto entre si concordavam as inspirações dos quatro Evangelistas,

tanto discrepam uns dos outros (e não raro de si mesmos) os novos

evangelhos d'estes missionarios sem missão. Á prima-vista se averigua

que lhes fallece a convicção, a coherencia, a logica, e a unidade. ¿Quem

se irá apóz taes innovadores? Ninguem.

Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar só valeriam para

acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religião de Jesu-Christo.

A Fé é uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a força, nem o poder da

terra tem a minima jurisdicção para alterar.

Ou a Fé toda completa, cabal, absoluta, sem um átomo de menos, sem um

átomo de mais... ou nenhuma Fé. Fraccional-a, decompôl-a, temperal-a

cada um para o seu paladar, é pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz

desbenzida, revirado com a cabeça para a terra, e os calcanhares contra

o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e até o atheismo, seria menos

descommodo e mais logico dobradamente.

* * * * *

Em quanto a Literatura assim acode á obra de Christo, como o poderia

fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, ¿como é que a

trata a autoridade mundana?

Como se fôra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora

desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabeça despojada do

diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para não cahir, ao sceptro que

a diante lhe caminha. ¡Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco

roborava os thronos com a sua benção, permitte, quasi, que os seus

inimigos o ludibriem!

A blasphemia, que vai picar, verme peçonhento, a raiz da arvore da vida,

d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as

multidões pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu

castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orçará apenas pelo dos crimes

leves, e indifferentes ao Estado.

* * * * *

Não é ainda tudo.

Aos ministros do culto, já de si por ventura tibios, como filhos e

herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra já meio derretido, luz

do mundo já mortiça, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e

relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os

nas temporalidades odiosas.

Repitâmol o: não é isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. É

uma calamidade providencial, que lá se encaminha para fins certamente

gloriosos, que não podemos enxergar.

Em Religião, como em Politica, somos nós, enfatuada geração de hoje,

mesquinho adubío n'um chão semeado, que outros hão-de ceifar em vindo a

quadra.

O presbyterio da montanha · 第 5 / 12 段