Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um gôrdo; e ainda

agora me está sabendo.

Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso

de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestíbulo de

areia parda e fina, á borda da agua.

Nympharum domus.....

não lhes faltando os competentes

.....vivo sedilia saxo.

O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os

comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria

folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite

recem-mugido.

Terminaram com uma dança no areal, por não haver melhor, e debandaram,

cada uma atraz do seu gado, quando já lá por cima branquejavam

estrellas. A fogueira serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na

corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as

levaria.

Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos, parecidas com

o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas,

uma usança ha ali, que só ali ha, e que eu aponto, não só porque me

ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não porque dará luz para se

entender o poema que a diante vai, com o titulo de _Domingo gordo dos

montanhezes_.

N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S. Sebastião, que já

sabeis orla o passal pela banda do poente, todos os moços solteiros da

freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o

quê, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para isso a

Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas

terras a folgar.

Nem o introductor, nem o tempo da introducção d'esta pratica, são já

hoje conhecidos. É uma tradição piedosa, uma lei moral, sem nenhum

genero de comminação, mas tão á risca obedecida, como se as tivera.

É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo

de desinteresse; pois na plantação quem só ganha é a selva, que se

dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.

Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a capellinha, ou de algum outro

Bemaventurado, com fama de boa-mão para casamentos, ainda se aventaria

um motivo pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que só da peste é

advogado!...

Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra, ¡e oxalá dure sempre! ¡e

oxalá por muitas partes o imitassem!

* * * * *

Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de nós

outros, bastam duas considerações: a d'elles é festa do espirito, e mais

do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem do espirito.

Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva lhes faz estar vendo

ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana; e do corpo

tambem, porque o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas

succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e bem jejuada quarentena.

Move suavemente os corações acompanhar a procissão, que da egreja sai

depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as

aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado

das suas cerejeiras já revestidas, atravessa o passal por entre as alas

das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se espairece

ao longe, como uma piedosa exultação, por entre os mattos

rejuvenescentes.

O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As

arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado

de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora todas suas

galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece

ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entôam canticos, como

os homens, as mulheres, e as creanças. A aleluia ressôa em toda a parte;

lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os corações

ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.

¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do

Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh! ¡que permutar de boas-festas! Mal

o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um

cartão alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.

Recolhida a procissão, tornam-se todos correndo a suas casas, a acabar

de as pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de

ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas;

crepíta o lume na cosinha revôlta; idéia-se um simulacro de altar, ou se

enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o

senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar

(quando mais não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da

familia falta á porta para receber a aspersão de agua benta, que elle ao

entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da benção: «Paz

a esta casa, e a todos que n'ella moram.»

Tal visitação, que (já se vê) se não conclue no primeiro, nem muitas

vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda de

prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada fogo; não pelos

saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se

apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.

* * * * *

No 1.^o de Maio põem, á entrada das habitações, _maias_, que são ramos

de sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com seus fuzos,

carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a

terra e a casa: a terra, para que dê linho comprido e sedoso; a casa,

para que se guarde e mantenha próspera.

¿Quem não vê n'estas maias outra degenerada herança dos nossos antigos

senhoreadores? No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo

domestico dos seus _Lares_, deuses protectores da poisada, e cujos

idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da

porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos

se vê ao pé d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade,

e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seus

_Fastos_ nol-o descreve. Brindavam-n-os com libações de bom comer e

beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de flores, e já de lan.

Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam

que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de

habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do

seu sangue.

Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do

mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas.

Vieram Lares _viaes_ (dos caminhos), _compitaes_ (das encruzilhadas),

_urbanos_ (os padroeiros de cada cidade), _publicos_ (os mantenedores

dos publicos edificios), _rusticos_ (os custodios do campo), _hostis_

(os amparadores contra inimigos), _marinhos_ (os guardiães dos navios).

É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se

haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas

praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem

boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos

desatinos e devassidões. Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a

familia; com a familia, os sãos costumes da creação. Ainda por cima,

fazia resplandecer luzeiros de esperança na cerração das adversidades; o

que dá coração e brios para as resistir.

Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia

Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, aliás, podem ser

documentos, além de outros, o nome de _lareira_, geralmente conservado

ao lastro da chaminé, e o proprio de _lar_, com que em Traz-os-Montes se

chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a

fogueira.

Já cada um inferirá que as _maias_ dos meus serranos, festejo que só á

casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como

quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de

ter, aquella origem.

Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito

christão, ainda mais poetico, chamado das Rogações ou Ladainhas de Maio.

Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e acompanhando em

chusma as entoadas preces da Egreja, a procissão, que lá se vai,

humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as bençãos do

Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos não devorem

a vinha ou seára; que intempéries do ar e trovejados granizos não

derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.

* * * * *

O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos

oiteiros, de noite pelos serões.

Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que

se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, não sem graça),

que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de

poetas desconhecidos.

A medo me rendo á tentação urgente de as mostrar; que, despojadas da sua

melodia, desquitadas das vozes tão frescas e juvenís das suas cantoras,

e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e

sombras em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão parecer-se

comsigo mesmas.

Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja differença na

substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podéra differir o

seu cadaver.

Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me

estão ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem

sobreceo verde á fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros,

não as contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil

maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com que umas rusticasinhas

de roca á cinta tratam o Santo Precursor. São amores velhos; não ha que

lhes dizer.

--¿San-João das barbas doiradas,

onde foste ter as orvalhadas?

--Fui as ter áquellas hortas,

recordar aquellas cachopas.

Recordae, recordae, perguiçosas,

que da fonte já veem as formosas,

com as talhas cheias de cravos,

que lh'os deram os seus namorados,

com as talhas cheias de flores,

que lh'as deram os seus amores.

San-João, rico cavalleiro,

companheiro de Nosso Senhor,

acompanhae a minha alma

quando d'este mundo fôr.

--¿Por que tendes, San-João,

esses sapatinhos brancos?

--Para passear ás moças

domingos e dias santos.

--¿D'onde vindes, San-João,

que assim cheirais á macella?

--Venho da serra da Estrella,

de fazer uma capella.

--¿D'onde vindes, San-João,

pela calma sem chapeo?

--Venho beber agua fresca,

que faz calor lá no ceo.

...................................

Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os aferidores e malsins da

Literatura, que, se me tomam, com isto nas mãos, dão comigo do avêsso.

Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. Á

noite accendem fogueiras, dançam, cantam, namoram, e galhofeiam em de

redor d'ellas.

Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao sereno, que lhes ha-de

n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as

hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.

Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e

preservativos; mas especialmente o de S. João do Monte, á conta do seu

nome bento.

Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta colhem ramos

orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio;

trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos,

apertando-se nas mãos.

A agua da fonte da manhan de S. João é como a primeira que chove em

Maio: torna o carão formoso.

* * * * *

Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo

descoberto, não correndo o tempo de invernia. São rebordans a granel,

entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto

um farto lombo de cevado rechína e fumega em vergante espeto de pau, a

pingar n'uma telha ou frigideira.

É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos

visinhos menos folgados, que todos então se convidam.

Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já então arripiada. Mas...

quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e

para a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os animos dos

convivas.

Á fé que lhes não falta por quê. O dia que apóz vem, é o dos finados;

dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos

quantos, com Fé ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.

¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem mais devaneador e

recolhido, que homens acostumados a solidão, curtidos nas duras

realidades da vida, remotos do cortesão bulicio, embotador pessimo de

toda a sensibilidade!

* * * * *

Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a noite não

quieta.

Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe, até se esvaecerem,

os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer

algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. ¡Oh! ¡se não se

elevarão elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo

amor, pela amisade, pela caridade!

Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz

bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura se

descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis côro de

Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da

povoação, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si não

podem requerer, esmola de orações, refrigerio para os ardores que lá

padecem.

Não ha seio tão escudado, que um santo horror o não estremeça; egoismo

tão empedrenido, que sustenha as lagrimas.

...Até que o solemne pregão transpõe e se esvai; e na calada se torna a

perceber o dobre longinquo da egreja.

Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o

interior.

Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que vão de aldeia em aldeia

_amentando_ as almas, arrastavam d'antes grilhões aos pés, o que ainda

augmentava o pavor do seu pregão.

Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes quem entre nós os

soffreria? Por lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se,

como exactores que são de um tributo da outra vida.

Desde o romper d'alva não descança a egreja de absorver povo. Todos os

caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos

os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem á porfia.

Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o moço em flor de annos; a

donzella; os irmãos, pequeninos e já orphãos, pela mão de sua mãe; todos

graves, cuidosos, taciturnos; todos lá por dentro orando; todos

anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali

assistirem ao incruento Sacrificio.

Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o semi-festim da

vespera é quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.

* * * * *

Emfim vem o Natal.

Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas

christianissima (quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe tão

em cheio, nem tanto com os animos e corações se coaduna, de veras crida

e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.

Víreis o Presépio de Belem, não já por caprichosas artes remedado, mas

em tão cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a

adoral o.

Disséreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vôo d'entre as

estrellas, de que se corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos

pegureiros com o pregão de «Gloria e Paz», com a nova de ser nascido o

Desejado das gentes.

¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem

pelo escuro em demanda do Menino!

Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso dentro

n'alma.

O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto,

é a santa Gruta.

Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.

O adro vê dançar as rondas de camponezes á roda de um monte de arvores

accezas, ao som da gaita e do tamboril.

Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.

Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as cantigas da

benta noite. Cada um d'estes córos é exclusivamente composto das

moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas

a mesma rivalidade, que já descobrimos entre os homens, quando no

Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso

arremêdo de combate.

É a qual dos bandos trará mais formosas quadras para entretecer com as

antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear.

Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o coração; e, sem vergonha,

se estão sentindo as faces humedecer-se.

Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que se estão

vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braços do Parocho o Menino,

a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Então é

que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e á

porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos,

os mui primorosos artefactos de pinhões e frutos sêccos.

¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que ali pendem ao collo de suas

mães! vão-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz lindezas

tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus

olhos tão azues, a bocca tão amorosa, as faces tão coradas como as

maçans que se lhe offerecem, é já a Elle que só cubiçam; e só choram,

porque o não deixam acompanhal-o.

* * * * *

Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.

¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a

destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?

É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.

* * * * *

Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de

humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores de S. Mamede da

Castanheira do Vouga.

XX

Que eu por lá versejasse, já a ninguem ficará sendo maravilha; antes,

sim, a podéra ser, que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas

as rasões d'isso de si mesmas se confessam.

Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me foram totalmente

desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos

jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.

Assim, só por desabhorrimento é que poetava de longe em longe; isto é:

poetava por fóra, e no papel, que no coração e no animo estava eu comigo

a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditarão os

que d'isto sabem) não foi a que se escreveu, se não a que deslizou

suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta,

suspira e medita.

Escrever só para si, não sei que ninguem escreva; é trabalho supérfluo,

e que, se dá fruto, o dá ruim, que de pêco e descorado nos desconsola.

¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho

de se corporificar para sahir a lume e correr por mãos e olhos, não

perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou

do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja

que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?

Isto dos livros não são senão uns retratos mortos, umas toadas,

reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os

passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles

appliquem os olhos e ouvidos, só podem perceber a totalidade, e

conjecturar as circumstancias.

O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros

de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda

para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder,

ás concepções e aos affectos.

* * * * *

Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que peor é) do livrinho,

está em que a maior e melhor parte dos condões e feitiços da montanha,

que ora cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis, então que eu os

tratava e d'elles vivia colmado, me não faziam os effeitos, que atravéz

dos vidros da saudade me produzem.

Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o perdido; que já

por isso dizia Rousseau, que nunca tão bem falaria da liberdade, como

entre ferros da Bastilha.

¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? é no meio do outono

a desvestir-se. ¿A do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que

tirita e se encanece de geada.

¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, não é paraiso, para

onde todos, todos, nos quizéramos tornar?

¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo extremo os

camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!»

Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, é

este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o

explica.

Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo

descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando

importunas obrigações me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia,

os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.

Pela conversação pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no

mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre

desencantamentos, desconsolos, rasões para os desprezar, ou para

fugil-os.

Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo

contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.

Lá, a benevolencia é semente de benevolencia, para dar cento por um.

Aqui, é grão que sempre degenéra, ou não germina, ou brota villans

ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.

Lá, o folgar é franco, e as festas são festas. Aqui, o folgar é escaço e

fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de

gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns

aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.

O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo mais

cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão roda; e em vez de o

esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua

mão, para escarmento a sevandijas e lição a paes que estão creando feras

bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de applaudil-o por medo,

apertar lhe a mão dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas,

com sabel-o expulso de muitas portas.

Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus

os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para macío

agazalho nas horas do somno ou da doença, para gala candida dos altares,

e a final para curativo de feridas.

Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a

sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de

tão bons serviços, poderia vir ainda a converter-se em papel para a

nossa Imprensa, isto é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e

absurdo, a ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de

descredito e odios, em disseminador de todos os principios de

dissolução, já moral, e já politica?! ¡Pôr-lhe ella a sua roca para

benção! ella, a boa filha das serras, fêmea sincera e verdadeira,

coração lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe ella

encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que

tão santas maximas e tão formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar

á sementeira o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que

vale o mesmo.

XXI

¡Que de vantagens para o ermo não são todas estas!

E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!

Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de espaço e tempo, e pela

contraposição, que se conhecem. ¡E eu malbaratei quasi tudo isso!...

........ munera nondum

Intellecta deum!....

Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão quebrantador martyrio

da experiencia,

..... Oh ubi campi!

¡Como me não agarrára, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro,

ao chão da vida facil, innocente, e obscura! ¡Como não borbotára em

hymnos o meu jubilo! ¡Como não saudára com lagrimas de gratidão a

aurora, tornando a encontral-a! ¡Que não palrára com as torrentes! ¡Que

noites desveladas sob o pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!

Em vez de rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar este painel

noticias de logares, e até de usos, tudo eu mesmo visitára com devoção

de peregrino; tudo revolvêra; com tudo me identificára.

As saudades, que de lá para aqui me estão salteando, d'aqui para lá já

não atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira

sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem

logo.

* * * * *

--O abdicar--dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e

hortelão de Salona--o abdicar é o começo do viver.

O presbyterio da montanha · 第 4 / 12 段