E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes um onus, um

sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se ouvem mães e paes

deploral-a como castigo e praga; lá na serra, onde ha trabalho

proporcionado a cada edade, lá na serra, onde, como em enxame bem

regido, todos os consumidores são productores; lá, onde só são

necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes são os mestres, o

exemplo lição, a laboriosidade e sobriedade herança; ninguem se

atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua

progénie. Lá os filhos são rebentões, que alegram, remoçam, e espécarão

a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.

* * * * *

Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres experimentadas em taes

lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se já prompta a

canastra que lhe ha-de servir de berço.

Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é

escrupulosamente velada, para que não venham bruxas malfazejas a

chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol candeia bem experta; e

ao clarão d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em pé

para que as não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as

amigas da casa.

Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão entoando com

a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do pé embalam brandamente

o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar

em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam

muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e

janellas.

* * * * *

Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenças a

graça, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu

sinto.

¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e tão

christan como ella é, praticam o mesmo que os legionários romanos

provavelmente ensinaram a nossas avós ha mil annos, e mais, pelo terem

visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mães e mulheres! ¡Cuidar que

estamos vendo, com pequena degeneração, o que o mais rico poeta da

Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente! E se não,

oiçâmol-o, e julgareis:

Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,

santo bosque, onde levam sacrificios

inda agora os Pontífices romanos.

Ali nasceu outr'ora, ali vivia

a que nossos avós chamavam Grane,

casta Nympha, de excelsos pretensores

pedida vezes mil e em vão pedida.

Era seu exercicio errar nos campos,

as feras perseguir com dardo agudo,

e as redes emboscar nos fundos valles.

Inda que aljava ao lado não trouxesse,

criam-n-a irman de Phebo; o parentesco

não poderia, ó Phebo, envergonhar-te.

Quando algum namorado a requestava,

tinha prompta a resposta.--«Aqui,--dizia--

ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...

Se preferes entrar n'aquella gruta,

sigo-te.»--Á gruta o crédulo voava;

ella torcia o passo, ia á carreira

das moitas na espessura homisiar-se;

d'ali desencantal-a era impossivel.

Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;

combateu lhe o rigor com brandos rogos,

e a sólita resposta obteve em prémio:

que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;

segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.

O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,

no usado esconderijo em vão confias;

olha como t'o observa, e t'o devassa.

Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços;

eil-o comtigo a sós na cava penha,

onde havias buscado o teu refugio.

Saciados os sôffregos desejos,

--«Em paga d'este goso--exclama o Nume--

dos quícios a tutella eu te confio;

pela honra perdida esta conserva.»

Assim falando, candida varinha

lhe entrega, com que os tétricos asares

das protegidas portas afugente.

Existem de brutal voracidade

umas infames aves; não já essas

que de Phineu a meza espoliavam,

mas da mesma relé: cabeça grande,

fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,

garra adunca; esvoaçam pela noite;

onde encontram creança ao desamparo,

que a ama deixou só, prestes a empólgam,

arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.

Diz que as lactentes vísceras co'os róstros

lhes picam, lhes devoram; teem as fauces

sempre repletas de sorvido sangue.

Do _estridor_ com que as trevas alvorótam,

lhes vem o nome: _estriges_ se nomeiam.

Estas pois, quer de si nascessem aves,

quer em aves, de velhas que antes foram,

fatal conjuro marso as encantasse,

penetraram de Proca no aposento.

Com cinco soes de edade, o innocentinho

era ao bando ferino egregio pasto.

Já co'as gulosas linguas ferem, sugam

o tenro peito nu; sôam do infante

os consternados trémulos vagidos,

com que, á falta de voz, auxilio pede.

Corre a ama assustada; acha nas faces

do caro alumno seu lavado em sangue

das brutas garras os crueis vestigios.

¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho,

que na côr arremeda as tardas folhas

já do rígido inverno bafejadas.

Corre a Grane; o successo lhe relata.

--«Cobra valor--a Nympha lhe responde;--

viverá teu alumno.»

Entrada ao berço,

acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.

--«Eis-me; enxugae as lágrimas--exclama;--

vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezes

de medronheiro com frondosa vara

fere da estancia as portas; outras tantas

co'a mesma vara o limiar sinála;

rega o ádito; as aguas com que o rega

encerram salutifera mistura.

Entranhas cruas de bimestre porca

toma nas mãos, e diz:

--«Aves da noite,

í-vos, deixae as puerís entranhas.

N'esta pequena victima tenrinha

o tenro pequenino aqui resgato;

é coração por coração; tomae-o;

por visceras são visceras; redima

esta existencia immunda outra mais nobre.»

Finda a sacra oblação, corta o deventre,

e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,

prohibindo do rito ás testemunhas

olhal-a então ninguem; por fim colloca

a vara de oxiacanta, o don de Jano,

na janellinha que dá luz ao quarto.

Consta que desde então não mais volveram

ao berço aves ruins; saude, cores,

tudo refloresceu no innocentinho.[3]

* * * * *

O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois côvados de

baêta encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe,

conforme o dia em que acerta. A madrinha dá um vestido, duas camisas, e

uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu

brio.

Este dia é quasi tão festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre

a benção que no primeiro dia se recebêra, e está salvo o interessante

pimpôlho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas

nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado.

XVI

Além d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado,

cada povoação celébra a sua, pública, no dia do Orago da sua capella.

Tem fogo do ar e salva de morteiros á Missa cantada; banqueteiam-se uns

aos outros; e, se o anno correu próspero, e as posses o consentem, andam

já desde a vespera á tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o

tambor, e despovôa-se a visinhança com o chamariz do fogo de vistas

nomeado de _armação_, ou _parreira_.

Por esta occasião, nas casas principaes, isto é, nas menos apertadas,

saltam-se até a meia-noite as danças, pela mór parte cantadas, do bom

Portugal velho; danças, das quaes, para fóra d'aquelle vivente archivo

de antiguidades, nem já, quasi, os nomes se conservam. São o _caracol_,

o _Senhor da serra_, o _lundú_, ou _landum_, o _escalhabardo_, a

_ribaldeira_, o _Francisco bandalho_, etc.

A excitação do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um

poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos

rapazes, fazem ás vezes com que ahi appareçam, como nas romarias, como

nos serões dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de

gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e á porfia, por espaço

de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.

* * * * *

Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.

Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, estão em pé,

um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se

ambos servem, é sempre das mais populares, e vai toda remançada, para

que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. Ás vezes, por desgarre ou

desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamação

accentuada.

O seu verso é o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos,

correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto

é: usam das quadras correntes em todo o Reino.

Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme

lhes convém.

Principiam (é obrigado) por uma especie de elogio, ou vénia, ao dono da

casa, se é em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se é em

terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios

amores; e d'ahi, muitas vezes sem transição, saltam para um genero entre

elles muito saboroso, que se poderá chamar o «rustico fescenino», se, de

envôlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os

dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham,

como os dois pastores virgilianos, com surriadas de impropérios sempre

ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos corações. Com a

mesma feição com que dizem, com a mesma ouvem; e tão avindos saem da

contenda, como n'ella entraram.

Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da

sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por

mostrarem assim que não vinham aparelhados para o duello, e que tudo

quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.

* * * * *

Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes

porfias, e em geral a todo o cantar aldeão; e é: que a primeira metade

de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do

sentido da segunda metade.

Os primeiros dois versos conteem uma sentença geral, uma verdade vulgar,

uma imagem campestre, a exposição succinta de qualquer facto, mas sem

relação alguma com o assumpto que se versa, o qual só nos dois versos

ultimos apparece.

Vão exemplos, visto não estar em academia, mas em pratica de amigos com

meus leitores:

O loireiro bate bate,

que eu bem o sinto bater.

Para comigo cantares

has-de tornar a nascer.

Á couve se come a folha;

come-se a raiz ao nabo.

Só te espero ver casado

sendo mulher o diabo.

Navio d'el-Rei é grande,

é grande e chega ao Brazil.

Se namorares alguma,

não seja á luz do candil.

Sequidão cria o centeio,

frescura cria os repolhos.

¡Quem me estreára comtigo,

menina, os lençoes de folhos!

Já se vê, por estas amostras, que a improvisação não é tão difficil

coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns

viajantes, d'estes que só viajam no seu quarto, embarcados na sua

poltrona.

É por cá o mesmo, que provavelmente será por toda a parte, sem exceptuar

a Italia, com que tanta bulha se nos faz.

_Al porto di Livorno

è giunto un bastimento.

Cara, morir mi sento!

mi sento, o Dio, mancar!_

XVII

Muito, porém, se enganára, quem inferisse que toda a poesia dos meus

serranos é de egual teor; porque, sobre conservarem muita xácara de bons

tempos, com as suas lacrimosas cantilenas tão singelas, tão simplices e

aprasiveis como ellas (o que já não seria pequeno cabedal), cantam, e ás

vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso

affecto e graça natural, que um poeta de nome não enjeitaria.

E ¿que muito? ¿Por que não haviam de nascer estros por ali, onde ha

tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, tão bons ocios na solidão,

tantos amores (¡e amores tão bem empregados!), e tão largos horizontes

para a saudade!

¿Por que não haviam elles de nascer, quando até pelas nossas

encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e

azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se

perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viçam, e não raro florejam,

talentos de estimação e de valia?

Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas

coisas lhes empecem (não falando no desamor que os esfria, e nas parvoas

invejas que os matam); aos montanhezes, afóra a Natureza, que lhes

abunda, tudo mais lhe mingúa. São poetas, sem adivinharem que ha poesia,

como de Hesíodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as

Musas, não invocadas, para o bemfadarem.

* * * * *

¡Oh! ¡Que de Hesíodos se não esperdiçam, e, por falta de um prodigio que

os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!

......................................................................

De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de verão

muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da

capella de S. Sebastião; ella ali perto, cantando e fiando em pé á

sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como

bem se pode crer, ¡enfeitiçados com a placidez de tão livres horas em

logares tão fugidos, tão sobranceiros ao mundo todo!

De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos

corados, não da memoria se não do espirito; e o espirito d'ella,

estava-se conhecendo que lhe residia no coração, tão bem, tão bem, tanto

a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameaço

de frio mataria.

Não sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras

de poesia senão as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de

madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias

das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias;

ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus

moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanças, os seus

rafeiros, toda a sua orchestra tão bem temperada para a alma; de noite

os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado.

Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, não ha encarecer o que

ella improvisava para as suas ovelhas, que a não entendiam; para mim,

que me occultava com mil cuidados para não afugentar tão melodiosa ave;

e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se

ao-pé da sua.

Era a inspiração lyrica mais formosa, se não a mais remontada. Eram os

objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus

affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras

destillando-se cada uma da sua ideia com a propria côr, com a propria

fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem

extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as

rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da

outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois

passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quanto a Arte requer, e só a

Natureza pode dar aos seus mimosos

......................................................................

¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!... Até já as suas ovelhas se

esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais

vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas.

Se ainda canta... já não é a terra quem a ouve. Remontou o vôo muito

mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as

scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e

virgem entre os Anjos, irman entre seus irmãos, entretece a sua voz

immortal no cantico sem limite

......................................................................

XVIII

Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem menção da sua Musica.

É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos dizer de muita; e

conserva puro e extréme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o

trajar, com os costumes; seria excellente oráculo para consultarem os

modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os

nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para cá a

peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se

ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa

creação.

Nas boas horas fique a musica italiana, pois que entrou, e nos cahiu, e

o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda, não se diga

que aposentámos nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer

vasquinha e falar chão.

Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o até (se já

não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a granel por essas

comedias e farças, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes.

Mas uma vez ou outra (_al de menos por cortezia_, como dizem os meus

serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre

das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas

da memoria, lá se ficam algures no coração, com quanto basta de vida

para ressurgirem ao primeiro aceno.

Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e

arbustos exóticos da mais admiravel louçania; mostre-nos lá,

emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a

papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da seára, quando meninos; a

papoila e o malmequer muito mais nos hão-de conversar com o coração um

só minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma

primavera.

Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez

n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com saudades os descantes

da serra.

Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a

dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos pés, a

sumir os seus píncaros florídos e trémulos pelas nuvens, admiro-a,

applaudo-a, e esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o coração.

Porém certas cantigas que eu sei... não as applaudi, não as admirei

quando as ouvi, mas senti-as repassar-me até ás fibras intimas;

assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em

substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do

silencio.

Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares,

da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter

encontrado.

E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas não são algumas, até para

orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!

* * * * *

¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de condão! ¡Se, em vez de vos falar do que

por vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos lá de subito, a

beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem

cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas,

rescendendo a amor e contentamento!

Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mãos

perítas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e

cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.

O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solidões,

edificaria como Amphião novas Thebas, attrahindo e congregando com a sua

lyra penedias e florestas.

¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final. Mas por ora, o

thermómetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.

Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se teem voltado;

e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; ¿mas

quando? sabe-o Elle.

Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer levantar-se.

Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em

alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta

corôa grangeára.

¿Que digo «custo»? ¿Onde ha ahi delicia como é o viajar caçador de

Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com

agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto

dos thesoiros que se tomam?

* * * * *

Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus

espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular feição de melancolia mui

suave, era a extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes

a perder de fôlego. É donosa coisa; mórmente pela noite, e ao longe...

A explicação d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o

costume de cantarem muitas vezes a sós por lombas descampadas e cumes de

oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com

ouvido em que se hospéde. Outras vezes é ao-pé de estrépito de aguas,

que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em paragens de eccos,

nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.

* * * * *

De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro por estirado valle,

ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e,

graças a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida...

comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram

assentadas mão por mão, e muito manas, á soalheira no seu aido.

Sustentam-se estas entoadas conversações, em prosa inteiramente desatada

de rithmo, e não obstante rimada, rimada por um modo tão insólito como

facil.

Exemplo:

¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:

--Ó ia, eu te digo ó Maria,

Ó iga, que se tu és minha amiga,

Ó á, botes as cabras para cá,

Ó enda para me ajudares a comer a merenda,

Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,

Ó ôas, e umas maçans muito bôas.

E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra

interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão no colloquio por

ter chegado a sua vez.

XIX

Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica.

Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.

* * * * *

As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos as de cada familia e as

de cada aldeia) são: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e

o Natal.

* * * * *

O Anno-bom não é ao presente senão um rebate para comesaina rasgada, e

se deitar uma can fora.

As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, já lá

vão.

Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras ao cabo se

desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do

anno os cachopinhos de cada povoação, todos em bando, o mais bem

arreados que podiam, com suas sacólas, ou alcôfas, ás costas, a cantarem

de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, até se

lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de

campanudos louvores á bizarria do pae ou mãe de familias, e desfechando

sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou pão branco, para a

ajuda do _refestêllo_; contribuição com força de Lei, mas de que todos

se desempenhavam á boa-mente.

* * * * *

O Carnaval, é como ainda nós por aqui o conhecemos nos seus dias aureos,

tríduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra

cada um, e de cada um contra todos.

São as pulhas, as peças, os esguichos, os pós, a laranja

.....que derruba o chapeo,

de que o bom Filinto com tanta saudade se lembrava lá em París, o

rabo-leva de tripas entufadas, a mão de ferrugem da chaminé com azeite

pelos fucinhos, as estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho com

sal, as filhós com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual

classico se conteem.

Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se não veja povoa nem

viva alma, duas coisas se hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e

apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra são

descargas de espingardaria. Ninguem tem caçadeira velha em termos de dar

fogo, que não saia com ella a salvar.

N'esta occasião (não sei por quê) o rio de S. Mamede parece marcar

fronteira entre duas nações inimigas; a metade cíterior, e a metade

ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na

sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios,

para lá lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia,

turbilhões de chascos, de apupos, de rugidos de buzinas, de buxas

accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os pés; retumbam pelo ouco

dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os

rolantes trovões centuplicados...

O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho,

visitando as povoações, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna

em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com séquito de rapazía a

abuzinar, e de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem poderá

ser o próprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo,

constante parodiador das suas mesmas obras, pois não é necessaria grande

perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram

diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por

embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era

folgado).

As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos redís e

apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um

Carnaval particular, um Carnaval nómada e silvestre, cosinhado e comido

ao ar livre, e a que ellas chamam «o seu gôrdo».

O _gôrdo_, para o qual de tempos se andam aparelhando, é feito por

varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e

algumas vezes tambem alguns moços seus parentes.

O presbyterio da montanha · 第 3 / 12 段