burel de meio pizão, côr de pinhão ou preta, collete comprido justo, sem
apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no
tear, e sem pizão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre
os hombros. A cabeça, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um
chapeo como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço
de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o ultimo da
magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite
dos seus sombreiros.
São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando
calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia
palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou
chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e
capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as
mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.
XII
A educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo
ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos
naturaes e religiosos, o afferro á justiça e á verdade, os differentes
amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o
respeito á velhice e ao infortunio.
As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas. Esses
discursos de cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora
deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam,
inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o
pensam.
Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons
lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mães, depois
de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambição.
Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para
folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em
saraus esplendidos.
Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam a nossa, que é melhor.
Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um só livro em
toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que
encher mais de um livro para nos envergonhar.
A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o
coração bem nascido dará gosto. A _mercê_ e o _vós_ de nossos maiores
são tratamentos para os raros casos em que não cabe o _tu_.
Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros.
O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou á meza do mais rico;
isto é, do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o anno; e o
abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a
geirasinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na
canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, lá para o
verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por
instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas
para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as
presenceia.
É um povo agricola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu
parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz «lavrador», e
«trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lord», em Roma
«cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sabio», ou «homem de Letras», e em
Lisboa «deputado», ou «millionario».
As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu
paquife de pâmpanos e espigas, e a letra _Ut operaretur terram, de qua
sumptus_.
* * * * *
¡Que impressão, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de
amor, me não fez o presenciar, como, ao revéz da pragmatica das cidades,
o trabalho das mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior
vergonha!!
Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o
sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas
do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal
roupido, carrear o adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na
roça dos mattos entre os seus operarios. A estes, ¿que os poderia
admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem
lh'a lesse, a não ser a admiração dos historiadores?
* * * * *
As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não poderiam deixar de
ser mais varonís do que os homens de muitas outras terras, e de todas as
deliciosas.
Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha, com o seu
costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vão
formando semelhante á precedente a geração seguinte, só são passatempos
do serão, á luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que
allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os
trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente
jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam á cabeça cestos,
que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mãos alvas
e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam á cabeça
montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan
sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua
grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em
bemaventurança para dez familias. Nas renques dos saxadores e dos
roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião não mais leve, deixal-os
muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.
Não ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo
custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo
no sangue a saude, que do sangue se côa ao leite, e do leite aos filhos.
Seriam as amasonas da paz, se não tivessem ambos os peitos muito bem
inteiros, e se os homens seus eguaes as não acompanhassem em todas as
lidas.
* * * * *
Uma usança patriarchal, ou homérica, d'este paiz, que moralmente parece
distar do nosso duas mil léguas, é a sujeição da mulher; facto que eu
não moraliso, mas só historio.
As mais graves, tanto como as mais somenos, não só á laia das Penélopes
e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio
até meia-perna; não só no tráfego de porta a dentro, na cosinha para a
familia e para os animaes domesticos; mas não se correm nem desdenham de
ministrar de pé, como servas, á meza de seus maridos e filhos, nem em
dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia
assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. São sempre aquillo: sempre
passivas, boas, e contentes.
XIII
Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão já minuciosas e pueris
estas noticias; mas hei-de já agora continual-as, e seja com vénia sua.
A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns
annos, quando o nivel da civilisação tiver tambem renteado as asperezas
das serras, alguem festejará encontrar estas antigualhas, nas folhas já
por ventura rôtas e descosidas d'este livro.
Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar já hoje ao commum da nossa
gente; mas então hão-de ser antigualhas fosseis, e portanto com
veneração duplicada venerandas.
* * * * *
A indole da gente é de si commedida e pacifica.
De todo o genero de vicios e desconcertos se poderão entre ella achar
amostras, que emfim, terra é, e não paraiso; mas nem tantas
proporcionalmente, nem tão feias e monstruosas em geral, como em outras
partes, e em quasi todas.
Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com
todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico;
ninguem é tão abastado, que possa eximir-se de trabalhar contínuo, para
se despender em vida de enredos, corrupção e maleficios; nem tão
extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o
despeito, o despenhem de salto em salto até ao fundo da depravação. É o
_inter utrumque_, a _aurea mediocritas_.
Conservam inteira a Fé religiosa.
Não lêem, nem conhecem, nem levariam á paciencia, jornaes que
desorientam, desencantam, e põem o genero humano em guerra viva comsigo
mesmo.
E muito menos lêem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda
novella, toda sophismadora de tudo, toda florída e venenosa, que por cá
nos trabalha, e de cujos herpes adoecem até as familias, que a maldizem,
e a repulsam da sua porta.
Por lá, não; o mal que se fizer, ha-de só provir da fragilidade, ou dos
impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na
consciencia remordimentos.
Uma apologia, uma deificacão para cada crime, nem possivel a julgam;
quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como
aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se
conchava.
D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais,
resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e
innocencia, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em graças
exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores
ponhâmos o exemplo:
* * * * *
Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade:
tendem á união, de que se originam as familias, e por onde a especie se
mantém.
Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior
arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e além do ocio lhes
fallecem tambem sobejidões de cabedaes, que estimulam e irritam as
phantasias, para o casamento se namoram, e não por alardo; para goso do
coração, e não da vaidade. Põem no merecer as diligencias que outros
põem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar
no repellir e despresar depois de saciados.
Não vivem os sexos n'uma guerra perpétua de seducções, de emboscadas,
enganando-se e sacrificando-se um ao outro.
A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em
desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou
no vão de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho,
meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali é que as
mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o são sem disfarces nem
encarecimentos; são-n-o pelas suas proprias graças, pois nem modistas,
nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem
lisonjeiros, nem romances, as transformaram. São-n-o pelo que são, e não
pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.
Palacios, creadagem, diamantes, não lhes vão lá supprir lindezas do
corpo, graças do animo, ou preciosidades do coração.
Não é entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor
artificial, estimuladas ou vencidas do exemplo, da occasião, do medo ao
ridiculo, e da audacia emprehendedora, não é ao abrigo do estrondo e
confusão de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras
declarações; é ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de suas
mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e
amigas, em derredor da merenda, á sombra das carvalheiras.
São amores que se não escondem, porque não teem de quê; amores que se
exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada
capella do festejo, ao som folgasão da _Mirontella_ roncada pela gaita
de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial.
No progresso de taes inclinações é sabedora e consentidora toda a
visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto
de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e
cahirem em infieis.
Ao consorcio da Egreja, antecede o dos corações, não menos obrigado a
lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de véstia commetteria galantear
a conhecida por _emprêgo_ de outrem, certo em que nenhuns lucros lhe
surtiria o empenho, senão só motejos e descredito.
D'este modo se estende ás vezes por annos, com uma constancia
verdadeiramente biblica, até ao dia da posse, o bem-querer d'estes
Jacobs e d'estas Rachéis.
¡Quantas Lisboetas de saráus, se quizerem ser sinceras, hão de confessar
que a escolha que n'um baile fizeram... só durou até que veio o baile
seguinte! ¡Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que
pelas duas orelhas que Deus lhes déra não ouviam dois ao mesmo tempo) se
poderia contar, perguntando á sua modista franceza quantos vestidos
novos lhes havia feito!
Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais
a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e
pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pôr á cabeça a gavella das
espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita d'este anno;
continual-o-ha na dos futuros, até que, tornada sua mulher, os cuidados
dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos
contados, o seu gosto.
Observação tão curiosa como verdadeira:
Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós, que a
variedade dos serviços rusticos tão a miudo lhes depara, rodeadas da
Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos
rebanhos, favorecidas pela solidão selvática e pelo silencio, e pelas
moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e
em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como
aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de
Enêas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bôdas, e as
nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de
fragilidade como a de Dido por phenómeno se apontam; e annos e annos se
devolvem, sem que um só se realise.
Quando porém se dá, e vem a lume filho não de benção, o peccado de amor
não se carrega de crueldade. O innocente não se faz victima expiatoria
dos culpados, perdendo a vida entre as mãos de quem lh'a deu; horror
nefandíssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro;
nem tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, á porta
lá ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em
lagrimas ás lagrimas dos filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor
para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes,
e se finarem sem heranças, nem lamentos, nem memorias.
Não, não. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral,
mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a
faria corar, que a tácita confissão da sua culpa. Sabe renunciar os
louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemão o seu
cadaver do palmito, symbolo pósthumo do feminil triumpho; tudo ousa;
tudo... como lhe fique para consolação da sua queda o encanto ineffavel
de apertar nos braços o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante,
a desamparasse, tudo tudo esquecêra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se
afortunada. De não ser donzella, nem esposa, harto a compensa a
consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o
sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade.
Estas resignadas victimas, immoladas por um amor, por outro amor
ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude,
produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi
em lustre a virgindade, são poucas; são rarissimas; custar-nos-hia a
encontrar uma. Quando porém a desencantasseis, lembrando vos do que
sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiseração
e respeito vos infundira.
* * * * *
Casas de perdição para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham
em ruas e ruas, e até já por villas e aldeias vão surdindo, não se
conhecem lá, nem se poderão tão cedo conhecer.
Como leprosa seria evitada, e pereceria á mingua, e de vergonha, a que
se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as
sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, são victimas
das victimas que ellas sacrificam.
Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se
transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos
casaes.
XIV
Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve
de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.
* * * * *
Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou
de jerarchia. O cálculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes,
acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As
palavras _dote_ e _escrituras_ apenas seriam entendidas.
Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e
economia, a ajuntar para _uma cama de roupa_, uma teia de estôpa, outra
de linho, uma peça de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma
panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires
de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da
fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.
O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um
anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia
grande.
Mal que este desponta, vê já de pé os dois afortunados, garridos e
bizarros com o seu _aceio_ dos domingos: ella, sobretudo, flammante como
uma Imagem, com arrecadas, cordões, e alfinetes sobre lenço de seda,
mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.
As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de
boa-mente lhes acodem, cada uma com o seu _melhorado_, convencidas como
estão (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da benção
matrimonial poderá vir apegada aos diches e galas que figuraram no
apertar das mãos.
Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se preparam de vespera
para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que sendo florído tem
mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro
(suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem
liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e lan; no que,
vai grande condão de conformidade de animos, perfeição de ajuntamento, e
dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados,
não faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.
O pretendente, com os seus apaniguados, espera já á porta da noiva a sua
sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de
pejo, e orvalhada com as lagrimas da mãe; e segue com o rancho, a pé,
caminho da egreja, levando ás costas as bençãos do pae, em que ainda por
lá se crê, a turbação no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom
agoiro, recitadas com fé por alguma velha mais sabida.
......................................................................
A egreja está já á sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar
enflorado de fresco, e a alampada atiçada.
A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas
cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a
todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do
sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso sobre os
deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo
não é interrompido com pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de
tropa, brados de mendigos, assobios de rapazes, martellar de artifices,
zabumbas de arlequins.
Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai
profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e
afugentar as evocadas memorias de Lia, de Rachel, e de Rebecca.
O que unicamente chega lá de fóra, é o chilrar de algum passaro sobre
alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rôla na matta de S.
Sebastião, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no
trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da
Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da progénie de Adão.
Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e
muito mais formosa benção.
* * * * *
É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus não ser
mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um só nome,
como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.
É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra, solemnissimo, e que, por
isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indeléveis e suaves
tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentações podesse
acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.
Quem se recordar de que proferiu o seu voto, e escutou com jubilo outro
egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de
obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde com o sol
entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias
naturaes com as virações, quem, repito, de tudo isto se recordar,
ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de
alguma vez devanear em si (mas que o não diga) que bem poderia ser que
alguns Anjos estivessem ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a
prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...
* * * * *
Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroçados,
e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, começando
logo no adro, de praso a praso, por toda a extensão do caminho até á
casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira,
roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas
ou mais floridas brota o monte.
Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e
ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, estão, postos
de antemão pelos muchachinhos que formam a primeira frente do préstito
triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os
quizer tomar; outro vazio, para a gratificação voluntaria, que ninguem
deixa de lhe lançar.
Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa, e industria mais esmerada;
foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de
seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes
naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos
padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem
concertadas que podem, um á moça, outro ao mancebo; os quaes, logo a
diante, de ordinario entre si os trocam; e junto á salva dos ramalhetes
se vê um abundante refresco de bebida e comida para todo o
acompanhamento, sendo o acepipe obrigado ás filhós de mel.
Em cada uma d'estas _estações_ chove de todas as partes a saraivada dos
confeitos; bebe-se á saúde dos «bem empregados» e «de quem d'ahi a nove
mezes ha-de vir.»
* * * * *
O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos convivas quantos
admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades
prestes para quem se quizer apresentar.
Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e
o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse «o
desposado» (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar
da direita se lhe dá a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece
entre aquellas gentes primitivas.
N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e
com um só talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer
durar a refeição dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu
bonissimo sentido, que não podia ser outro senão representar a
communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.
* * * * *
Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos,
dando se a rôdo comer e beber aos tangedores.
Em quanto dançam, algumas moças donzellas se furtam subtilmente á
companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre
os lençoes rosas de cheiro (se a estação as dá), e guarnecer a roca e
fuzo symbolicos de amores perfeitos.
Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita
da quinta que é meia-noite, ha já muito que os obsequiadores bondosos
teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo
suavissimas, apóz um dia todo por fora e por dentro tão festejado e tão
revôlto.....
XV
O nascer de cada filho é uma festa.
Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e mostra a experiencia que
se não enganam), crêem e repetem, que filhos ainda em casa pobre são
riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a
lhes acudir com mais larga mão; e que a meza, por ter mais Anjinhos ao
pé de si, se não ha-de fazer mais escaça, se não medrar á proporção de
tão bons hóspedes.