¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por mere

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Rita Farinha (Fev. 2009)

Obras completas de A. F. de Castilho

XIX

O Presbyterio da Montanha

VOLUME I

[Figura]

LISBOA

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

95, Rua Augusta, 95

1905

OBRAS COMPLETAS

DE

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 19.^o

VOLUMES PUBLICADOS:

I--Amor e melancolia.

II--A chave do enigma.

III--Cartas de Ecco e Narciso.

IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)

V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)

VI--A primavera (1.^o vol.)

VII--A primavera (2.^o vol.)

VIII--Vivos e mortos--Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.

IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)

X--Vivos e mortos (3.^o vol.)

XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)

XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)

XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)

XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)

XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)

XVI---Excavações poeticas (1.^o vol.)

XVII--Excavações poeticas (2.^o vol.)

XVIII--Excavações poeticas (3.^o vol.)

XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)

NO PRÈLO:

XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)

OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

XIX

O PRESBYTERIO DA MONTANHA

VOLUME I

[Figura]

LISBOA

Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_

LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA

Rua Augusta, 95 || 45, Rua Ivens, 47

1905

Advertencia dos Editores

Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos

antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais

de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que

ia publicar com o titulo de _O Presbyterio da montanha_, escreveu um

prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos

de distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as saudades

de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então fallecido Abbade de S.

Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo

concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a

publicar-se.

O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes

da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas,

fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como;

e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje

considerados especies bibliographicas de primeira raridade.

Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional

de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibliógrapho, e

escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.^a D.

Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece

ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortal

_Diccionario_, não declara se era dono de algum; menciona a obra,

apenas.

Quanto á parte poetica do livro projectado, essa, não impressa,

desappareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas

inteiras outras incompletas; materiaes truncados da collecção. Salvando

esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.

O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico de um edificio ainda em

construcção, e já em ruinas; é inquestionavelmente uma das obras mais

curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a

historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o

_folk-lore_, d'aquella região alpestre, tão portugueza, mas tão

desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um

archeologo-poeta.

Appareceu tambem uma _Introducção_ em verso sôlto a certo poema

intitulado _O Sepulcro, historia de uma noite de S. João_, projectado

pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico,

infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa

Introducção, no seu logar chronologico, por varios motivos: dá-nos

Castilho sob uma feição poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o

estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar,

a vida, os usos populares da montanha. O _Sepulcro_ é pois optimo

contribuinte d'este truncado banquete literario, e fôra imperdoavel,

apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borrão original, que

possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta

licção actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor

ditadas em 1864.

Além do _Sepulcro_, outras peças, portuguezas e latinas, já impressas

nas _Excavações_, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data,

pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume.

Facil é ao leitor intelligente o procural-as.

Á MEMORIA

DO

EXEMPLAR DE IRMÃOS

AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO

PRIOR DE

S. Mamede da Castanheira do Vouga

_Em testemunho publico e perenne_

_DE_

AFFECTO E GRATIDÃO

Offerece

_Antonio Feliciano de Castilho_

PREAMBULO

I

O livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o

classifical-o podesse por alguma via valer a pena.

Não é historico, nem ficticio; não é didactico, philosophico, nem

descriptivo; não é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada

de tudo isso, de tudo isso participa.

Nem sequer é um livro; é uma congérie de pequenas coisas, todas mais ou

menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos não

procurados, se não tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem

determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles

banquetes de aldeão, engenhados á pressa do que ha em casa,

_...dapibus mensas oneramus inemptis,_

para hospedar a cortesãos que lhe passaram pela porta. Não procura

enganal os]: com mãos limpas e coração lavado lhes põe diante o que só

para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu chão, cevado no seu

pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem;

algumas flores, já pode ser que as apresentará em vasos de barro; mas

como vos assoalha com bom rosto quanto possue, não se vos alardeia de

abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balcões

envidraçados. Como quer que vós d'elle o fiqueis, não ficará elle

descontente de si mesmo á despedida.

* * * * *

Foi o geral d'esta collecção, parte escrito de carreira, parte apenas

esboçado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis

annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas

abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e

ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem

atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanças.

Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazel-os, de

todo o modo me nasciam bem. Não tinham de apparecer entre gente; não os

educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim

sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.

Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse;

achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e

semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e

penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por

dentro faz a consciencia.

Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já

annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios;

reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.

II

Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu que

_se compõem_ para o Publico; e, bem hajam elles!: não levam á praça

senão o que teem averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de

parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto

alheio.

Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.

Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que teem de vir

para mim, se as quizerem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo;

as suas occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os

seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo

recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e

pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só vista de cima pelo ramo de

tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco

ella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui

(a fim de que não venham depois obrigar-me por divida que eu não

contraio), que a unica deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar

alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa

alheia, e nos segredos do visinho.

É o que faz com que, por mais futeis que pareçam as memorias, que alguns

escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por

acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente

são lidas com interesse.

É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de

antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda

particular ou casa rustica, onde os vasos e utensís do viver quotidiano

veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da

gente que ali houve.

Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do

forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes,

dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns

eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos

intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos

animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das

plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e

feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e

a lampada que allumiou calada os prazeres ou os somnos de seus senhores.

Os monumentos são artificiaes, e artificiosos; são estudados, e

emphaticos; a historia que elles resam é fria. Mas cá, o romance que

engenhamos, ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado, é

todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.

* * * * *

As _impressões de viagens_ estão sendo ao presente um genero de

Literatura mixta mui usado e mui querido.

Não admira: para os autores é facil; para os leitores, recreativo quando

menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco;

sem cançasso nem más poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por

aguas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica

para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que é repetir

algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em

corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a

espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem

som da sua creação.

A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos

atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa

casa e familia, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa

cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler

deitado.

* * * * *

Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o gosto de

conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são extranhos, e não medir

as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, é o maior

desconto do peregrinar, ¿por que se apeteceriam mais as viagens á

França, á Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás margens do Rheno, á Russia,

ao Egypto, á China, ou ainda á Lua, do que a um qualquer monte da nossa

terra, só conhecido de seus moradores e visinhos?

¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está

assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de

sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se

abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.

Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porém

bons; e tão bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal

productivos, nos seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e

pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos

córregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e

triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades

opulentas e festivas.

Estes, com falarem portuguez, são para vós estrangeiros, ou quasi. Como

taes, não vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com

quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente lá iria agora

enterrar os restos cançados da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe

lá ficou em quieto desterro para todo sempre.[1]

III

A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região o novo

Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e

sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia,

de que era eu parte inseparavel.

Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais florídos;

Lisboa, a do nosso berço e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam

pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não

houvera eu valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que então

cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos

sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado

e colhido ás mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os

outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais

amenas ou mais vívidas, por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas

de uma natureza quasi primitiva.

* * * * *

Passámos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o

viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a

tradição, o _bom fiar_ de certa moça mui santa, que junto d'elle vivia

n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da

sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido,

significando _pepinal_, ou _rio das terras dos pepinos_; pacifico rio,

que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e

verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter

enlevado na amenidade de tal painel.

Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro

cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe

interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho;

terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se

houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.

IV

A freguezia de S. Mamede não se vê em parte alguma; é dispersa, e

emboscada. A magreza da terra não dá para grandes espessuras de

povoação.

O aspecto do paiz, para quem só o atravessa é de inhospedeiro. Mas que

se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontanea e

desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em todos os

corações. É porque a solidão é de si mais affectuosa, e a pobreza mais

liberal e larga, que o rico povoado.

Esta differença e vantagem que os moradores levam á sua terra,

experimentámol-as nós ainda antes de chegarmos á egreja e residencia,

sahindo a receber o seu Pastor novo não só os maioraes, se não quasi

todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das

cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde

áquelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.

A egreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para o seu adro

muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoações em que a freguezia se

divide, nenhuma lhe é contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia

parochial, é o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como

serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por entre os plátanos, que

o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espêssas, crespas,

e lustrosas heras, onde jámais se esconderam e cantaram melros.

Ambos os edificios ficam no meio do _passal_, antiga quinta «das

Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso

deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali

teem o seu foco espiritual.

Um grande silencio rodeia largamente a casa da oração. O presbyterio não

lh'o quebra.

Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas

espaçoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal

unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras,

que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto

domicilio, proporcionado pelo que sempre deverá ser o pastor de tal

rebanho, não se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do

santuario, porque não poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez

mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa para além

a esconcear, descer, e afundir-se, até á borda do estreito, rumoroso, e

espumifero rio de S. Mamede.

Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a grande altura,

por cima das aguas escuras e raro alcançadas do sol, communica esta com

a ribanceira ulterior, não menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a

pique.

Da residencia, corôa de um dos dois alcantis, até ao moirisco logar de

Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio,

entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de

parte a parte os ladridos dos cães de gado, as cantigas do serão, e os

alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquelle _quasi-nada_ para os

ouvidos e olhos, é para os pés caminho dilatado, fadigoso, e não sem

perigos.

As duas veredas, que levam ás duas extremidades da ponte, giram enleadas

e perplexas, torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a

esquerda, como espavoridas do abysmo lá em baixo; descendo, tornando a

subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.

Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, são os unicos

entes vivos, que por ali se affoitam a tomar pé. Os seus frutos

vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vão sumir-se entre as

espumas arrebatadas.

Aquella ponte, vacillante sobre tal pégo e entre taes escarpas, com

poucas braças de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas

aguas, dá as sensações de um bello horror.

Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas esquecidas para

aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por

tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as táboas, gastadas

e rôtas da humidade, me gosava da viração transpirada pela corrente.

¿Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspiração de religiosa

poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em tão pequeno espaço,

como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja?

¡Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão escura, tão angustiada,

tão clamorosa, e com tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras

inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo

ferir-lhe o seio! Aquella egreja, tão serenamente alegre, tão aberta, o

dia inteiro, ao generoso sol dos campos, tão gorgeada a ambas suas

portas de passarinhos, tão garrida de espadanas sobre as campas do

pavimento, e nos seus cinco altares tão ridente de flores silvestres,

symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo

da Fé e das Esperanças! E entre o santuario e o rio, como intermedio e

transição dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiança,

verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola,

inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tácita como a

meditação, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas

para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores

de Deus para o firmamento.....

O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a

torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um

humilde e obscuro pastor de gado na Capadócia, e do qual toda a Egreja

do Oriente pregôa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou

martyr, por volta do anno 274 da nossa era.

O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o

vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos

arredores, para o Menino, já moço na valentia, ou para o moço, ainda

menino na innocencia.

Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos concertou.

V

Era a residencia, quando a ella chegámos, decrépita e caduca: apparencia

de choça fabricada de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior;

por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de

inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor

a havia em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.

A transformação foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na

casa remoçada entrou por vidraças abundancia de luz. O pateo

desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de

cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro

n'elle plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que

n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na

terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, é já, como

lh'o eu augurára nos meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu

tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.[2]

O novo Prior, o Rev.^{do} snr. Padre Antonio José Rodrigues de Campos, a

quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e

espirito cultivado por Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo

nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zéla

tudo aquillo com amor.

É para mim delicia o considerar, que á sombra grande d'aquelle cedro,

que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia

ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviario, este

livrinho das minhas memorias, em que deposíto o seu nome mollemente

reclinado entre tantas outras saudades minhas.

VI

Já os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu

sete annos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de 1834, o ninho em que

nasceram, sem pensarem em abrir o vôo que hoje abrem para o mundo, estas

poesias montesinhas.

Mas, como todo o seu assumpto se não limita ao que deixo esboçado,

peço-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por

alto, os arredores.

* * * * *

O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por

traz d'ellas até onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se

cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.

Por essas lombas inclinadas, fronteiras á encosta alta e erma de

Falgozelhe, se boleiam melancolica mas graciosamente as suas hortas, os

seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seáras,

que até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de

povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal,

por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, até ir

bater, lá ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastião, que lhe

servem de limite.

Seáras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de

avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da

Agricultura. ¿Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que

achar a casa do Creador, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia

das messes, e saudal a com a invocação de um Pastorinho santo?

O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre

duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a

egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai

mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura

sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja

antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas,

assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um

troço de lança enferrujado de musgo.

VII

Detenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé d'este altar, onde já

ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a

obscura historia d'este sitio.

¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por merecedoras de

attenção? Todo o passado é poetico; todo o evocar imagens humanas de sob

a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões,

mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha,

e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho

quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e

até festas.

Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da

Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela

margem de cá ás aguas do S. João do Monte, que logo a diante troca o

nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como

tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espiritos

levantados.

Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal uma velha, que o ouvira

em pequenina a seus paes, que o tinham recebido não sabia de quem)...

mas emfim, namorára-se, que o sabia ella, de certa moça de alem-rio,

guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro

grau de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto da sua vivenda entre

penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de

Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de serguilha, ou do seu

sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os

penedos pardos e as urzes côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do

precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que obedeciam á

sua voz melodiosa.

A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava

cantando n'aquellas solidões, parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a

estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido

entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a interrompesse,

porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.

Vel-a á sua vontade, não a via se não aos domingos na egreja; e nem

então, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias

muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe

que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a

fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das

aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para

communicar dois estados tão diversos.

* * * * *

Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é poesia; e poesia

não é vida. Ousou, e declarou-se a medo á sua formosa; não foi

repellido. Affoitou-se a mais: ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario

em confissão. O que entre elles se passou, não se sabe; taboas de

confessionario não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se

sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquella banda, e que

elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos,

sem dizer nada a ninguem, e não levando senão o fatinho que tinha no

corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o

seu amor, que não era pequeno.

Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el

Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e

para quê.....

No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento,

assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida, apegou-se

com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu

a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella

da sua invocação com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe,

onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os

irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a

avistava todos os domingos.....

Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria muito em semelhante

lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas tão altas e

escarpadas, porém mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas

quebradas, e por cujos visos, elle variára a sua infancia.

Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.

Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em

boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a

aventurar-se sobre aguas do mar.

Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se

divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir

como materiaes na edificação de parte da residencia, e da egreja nova,

que já sabeis lhe estão visinhas.

* * * * *

--¿Mas o fim de seus amores?--me perguntareis vós.

Memoria é essa que eu tambem procurei, porém não consegui desencantal-a.

O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a

casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada;

que este se ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e arribára a Cardeal; em

memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e

mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma

Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braços em baixo e

em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres

cravos, duas chagas, e uma corôa de espinhos.

Vê se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na

parede do arco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella

de S. Jorge permanecêra com egual honra em quanto ella durou.

Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma

póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e

onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rôto por

todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consorcio a

que o Padre Vigario e seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não

alcancei; e não quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me

lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino

com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da

minha serra.

A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer

apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhára com riqueza o abysmo que

os separava; e S. Jorge, que não é Santo para meias victorias, havia

forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.

Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de

pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome

ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os

recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber

á saúde da futura geração algumas malgas de vinho verde na sua casa da

Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. João do Monte.

VIII

A egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fôra o antigo oratorio

dos Condes da Feira; e a residencia, já depois duas vezes transformada,

albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fóros, e

lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como já tocámos, «das

Limeiras».

Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto,

havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardão, do Bispado

de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia

da que ao presente é, d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente

agora á freguezia de Agadão, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e

descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida,

casa, e quinta, com largas rendas e fóros para a sustentação de Parochia

sobre si.

N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos

hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus

amigos algum tempo do anno na montaria dos javalís, que a espessura das

moitas então creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a

phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando

o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra

edade.

IX

Explorámos as convisinhanças do templo e residencia. Estendâmos agora os

olhos até ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico

senhorio.

* * * * *

D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar

das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua

fonte muito fresca.

Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da

Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa

com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do

Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde

as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu

oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a

extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa,

nem outro algum dos logares que entram na sua abençoada confederação de

rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.

A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de

Falgarinho, de não mais que oito visinhos.

Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se,

n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres

pessoas.

Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores,

e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e agradavel

quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora

do Livramento.

Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte,

que a seus pés corre, está em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e

quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.

Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a

meio quarto de legua está para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de

quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceição.

Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo

bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.

Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos

Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu confluente

Alcafaz (nome arabe, que significa «o salto») nome que para ali está, ha

mais de setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a sua

origem, nem se corromper.

Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de

honrada memoria, berço de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de

um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze

almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros;

dista-nos um quarto de legua para nordeste.

Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que

toma este nome na juncção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de

pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a

apanhar á fresca.

Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se

a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia

da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de

onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz,

a quarto e meio de legua para nós.

Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta;

e no cimo se encontra a povoação de Falgozelhe, de setenta e uma almas,

posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade

occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que

á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.

Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de

pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso logar

da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora

da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o

delicioso de seus pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de

sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo,

com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle

rebanho.

Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de

se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.

Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda, de cincoenta almas, com

sua capella de S. Gonçalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da

egreja. Redonda se chama, por estar á borda de um leito semi-circular.

* * * * *

Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações

externas.

Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo

poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e

Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou annexa, que aínda

então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por

ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir.

X

O territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um corpulento ramo

do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer

dizer «abobada», ou montanha boleada á feição d'ella.

Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros

ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que merece. Mas,

sobre que nunca o visitei, apesar de tão visinho, recearia apoucar-lhe a

veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas

noticias que d'elle tive.

Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as

nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em

tempestades, em frutos magra, mas opíma em homens e mulheres de antiga

tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; é

um paiz de selvagens christãos, para o qual as rudes terras do meu S.

Mamede estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios

poderia estar a antiga Attica.

* * * * *

Dois monumentos accrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem

mesquinhas obras humanas ás grandiosas moles naturaes.

N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos principios d'este

seculo, uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou

menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem;

mas dizem que por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da

circumvisinhança, por occasião da guerra peninsular, commetteram

demolil-o; mas só lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura

em pé, e só é accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.

O outro monumento não é menos enigmatico, e deve estar farto de ver

passar seculos e desfazer-se gerações.

N'uma arremeçada crista, a duzentos passos da egreja do Espirito Santo

de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de Arca». É

uma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por

esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo

sido um arrancado para as obras da visinha egreja.

Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de

grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente

onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos,

só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente

apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e

pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por

baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de

cada lado. O ultimo, que está para o norte, tem de largura, por baixo

cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.

¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que eras, e para que fim,

se alevantou ali aquella, que á phantasia se figura bruta meza de

gigantes silvestres? ¿Sería obra de fortificação n'um systema de guerra

desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola,

industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lh'o rastreia.

Memoria de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, ¡a

que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem

letra, nem escultura tôsca, nem vestigio algum de arte nem de

architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!

Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais,

quando se adverte na semelhança que tem com os altares druidicos, ainda

hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.

Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Historias, que se

estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas

victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram

a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para

este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a

pesquizas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do

qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas)

não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.

Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a

pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus

affectos.

XI

Nada concita aos logares veneração, como a antiguidade.

Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além de Moiros,

Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo noticia

d'essas edades, com que fazer obra.

Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve

memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas terras, nem

ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam.

O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou

letra para enigmas.

Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra da sua lavoira, na primeira

valleira que se encontra á direita do caminho indo para Agueda, se vê

uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta

palmos; das quaes torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e

algumas porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.

E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se dá em uma

furna chamada «a buraca da cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva;

a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de

largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama

que fôra aberta pelos Moiros.

* * * * *

Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou se, dizem os

netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S.

João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros

por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.

N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a estancia, e

que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.

Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente

já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a

sua visinhança; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem

quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.

A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina aberta, pelos Moiros

sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem

para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e

prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de lá mana, muito fresca

e saborosa, mas em pequena copia.

* * * * *

Sobre as fortificações engenha cada um a sua hypóthese.

Ha quem as supponha posteriores á invenção da artilharia, por se lhe

figurar que só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros

as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por ali outros

vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que

elles por lá viveram. E se por lá nasceram e se crearam, não podiam

deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos,

que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das

montanhas mais energico.

* * * * *

Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto que o seu

nome, se christão não é (como de certo não é), tambem por arabe se não

reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?

Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que

podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella serrana

região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto

que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era

já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras.

Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em

tirar da terra pão com que se manterem; ¡quanto mais, erigirem

castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos

depois de sete seculos!

Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de

outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar

d'estes, se acalentaram creanças com versos do Alcorão. Outras arvores,

de que estas são remota descendencia, viram passar á sombra das suas

copas esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e

turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez

poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e

immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.

Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos,

que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e

serão sempre.

* * * * *

Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda

antigos. As novidades das civilisações são como a escravidão, e os

diluvios: tarde chegam a engulir as serras.

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se

os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela

conversação corrente d'aquellas aldeias e póvoas se poderia restaurar.

Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos, phraseado, e

construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de sésta de

segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas

de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das

balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.

Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como

o _nanja_ o _bofé_, o _canté_, o _quiçá_, e mil outros, sôam por lá sem

extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de

namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.

Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos a das

crenças e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e

abusões. São os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da

Fé. Abençoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os

ramos ou cerceal-a pelo pé.

O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu officio. Não ha curas nem

reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando á força lh'as

não ajudam ou contrariam.

Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de

apparições, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas,

thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mór parte dos

moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e

virtudes de certas praticas e fórmulas, para curar ou empecer.

Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, dão comtudo

sua côr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no

viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.

* * * * *

Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto

vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, são por

ora totalmente incognitos na serra. A moda não exerce por lá as suas

costumadas devastações de cabedaes, bons costumes, e saude. Os

vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma

uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal

renova as suas folhas e flores.

Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada ás costas das

suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mães,

mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o é) sem sahir da

freguesia. Trazem grandes chapeos pretos desabados, grande bordão

ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das

ladeiras, e tamancos cravejados.

O presbyterio da montanha · 第 1 / 12 段