Os azulejos e os medalhões da Bacalhôa mereciam ser tratados por mão de
mestre, mas já descrevendo-os como observador enamorado deles, pode
aproveitar à arte e à história desta indústria, despertando a atenção dos
entendidos.
Os medalhões são, sem dúvida, da escola ou das oficinas dos Della Robbia,
senão de Andrea, ou de Giovanni.
Os ladrilhos são de alguma fábrica da Espanha, Talavera ou Valência.
As cercaduras dos medalhões menores são de origem flamenga.
Os quadros historiados, os mitológicos, os alegóricos, os _groteschi_,
os _humoureschi_, uma cercadura formosíssima e um escudo com o brazão
dos Albuquerques, que há nas _casas de prazer_ juntas ao lago formam uma
coleção valiosíssima da indústria portuguesa, e, que importa muito para
a história deste ramo de cerâmica no país. Nada falta a esta coleção,
assinatura (Matos) numa parte, data (1565) em outra, e tudo ligado por
elementos decorativos a comprovar a sua procedência.
Quanto aqui enumero pertence indubitavelmente à restauração e inovamentos
de Albuquerque.
A julgar por destroços e restos de azulejos que se encontram nas
argamassas, ou de azulejos cerceados e recortados a cobrir as pequenas
paredes, que formam a caixa para as plantas dos alegretes e que mostram
ter para ali vindo de lugar apropriado, a coleção já foi mais variada.
Uns azulejos lisos remendando quadros do mesmo padrão, mas de relevo
cavado, provam ter havido reparação no azulejamento e alguns com
escorregamento de tintas dirão ter-se recorrido a um fabricante, que por
inábil houve de ser posto de parte.
Estas reparações deverão atribuir-se a D. Jerónimo Manuel, «o Bacalhau»,
que teve o morgado e habitou o palácio por bastantes anos antes e depois
da sua viagem à Índia, e, continuadas talvez por seu filho D. Jorge, que
também habitou o palácio, aonde faleceu em outubro de 1651.
Afonso de Albuquerque, filho, com sua mulher D.ᵃ Maria de Noronha,
vinculou a quinta em 1568; dez anos depois ainda esta dama vivia,
mas seu marido, já provecto, enviuvando, passou a segundas núpcias
com D.ᵃ Catarina de Menezes; pouco durou esta nova união de Afonso
de Albuquerque, porque em 1581 faleceu. De nenhum dos matrimónios
restaram filhos, mas houve um natural, D. João Afonso de Albuquerque,
que pretendeu suceder no morgado. Foi nele apossado, mas seguiu-se
porfiado litígio, movido pelo ramo de Fernando de Albuquerque, chamado na
instituição à administração do vínculo. Só em 1609 a causa foi decidida a
favor de D.ᵃ Maria de Mendonça, mulher de D. Jerónimo, o Bacalhau.
Estes cônjuges estabeleceram residência no palácio, aonde D. Jerónimo
faleceu em 1620. Já em 1607 o hospital, instituído por Afonso de
Albuquerque, estava em ruínas, e o palácio e quinta corriam-lhes
parelhas; é de crer, pois, que as reparações fossem do Bacalhau e seu
filho Jorge. Em 1623 ainda encontro residindo na quinta um 4.10 Real,
_ladrilhador_, que aqui poderia estar na reparação do azulejamento.
As ruas do jardim e as que correm ao longo dos muros do quadrângulo
superior tinham o pavimento de famoso tijolo de 0,20 × 0,10, de excelente
barro, bem fabricado e cozido, de que existem restos.
Estas ruas são orladas de alegretes para flores. Um arrendamento de 1674
impe ao rendeiro da quinta a obrigação de tosquiar o buxo do jardim e
ruas duas vezes por ano e limpar os craveiros dos alegretes.
Do lado do muro estes alegretes são a espaço interrompidos por cadeiras
de alvenaria revestidas de azulejo; do lado oposto, também a distâncias
certas, há uns cubos mais elevados para plantas de maior porte. O azulejo
destes cubos é sempre de qualidade superior ao dos alegretes, variando no
desenho e todo de relevo. Entre cubo e cubo e entre cadeira e cadeira,
nos panos de cada alegrete encontram-se quatro formosos azulejos de
relevo, assentes em diagonal: são dos mais apurados no gosto, no desenho,
nas tintas e no esmalte. O fundo destes azulejos é branco, os desenhos
folhas e flores de fantasia, e nuns aparecem uns frutos, que na fórma
se aproximam da romã (n.ᵒ 15). Os desenhos são combinados para quatro
azulejos. Os padrões n.ᵒs 11, 23, 25 e 33 encontro-os notados como puro
renascimento italiano[23], muitos outros podem assim ser classificados
e terão vindo feitos de Itália, ou serão fabricação portuguesa sobre
desenhos daquele país. Neles dão-se os característicos dos produtos
cerâmicos _sículo-árabes_: espessura do vidrado e colorido terminado a
meado por grossas gotas de tinta coaguladas[24]. Há mais dois padrões:
um (n.ᵒ 9) notou-o Haupt no alcaçar de Sevilha, outro (n.ᵒ 37) para
cercadura, em Santa Maria de Penha Verde[25]. A variedade no azulejamento
é extraordinária, quer as placas sejam lisas, de uma só cor, com desenhos
policromos, ou de relevo cavado e coloridos.
A mesma variedade se encontra nas cintas de azulejo, que emolduram
as portas e janelas, quer as paredes sejam nuas ou azulejadas,
distinguindo-se entre estas cercaduras as da _Casa da Índia_ (n.ᵒ 5),
de desenho fino, correto e de bom gosto, remendadas com uma imitação
mal produzida, e que foi noutras partes aproveitada para o mesmo
emolduramento.
A varanda coberta, ou lógia, que dá sobre o jardim, tem uma larga cinta
azulejada, e cinco quadros representando os rios Eufrates, Mondêgo, Nilo,
Danúbio e Douro.
A ornamentação policrómica da Bacalhôa prendeu a atenção do Sr. Theodor
Rogge, alemão, professor de desenho, e de volta ao seu país ocupou-se
dela, dedicando-lhe um artigo acompanhado de alguns desenhos, entre os
quais o quadro que representa o Douro.
Eis o que diz o ilustre professor:
«Depois da introdução das faianças italianas da Renascença, sentiu-se
a influência desta na decoração dos azulejos. As amostras mais belas
desta mudança de orientação fornece-as o palácio da Bacalhôa em Azeitão,
construído pelo filho do célebre herói da Índia, Afonso de Albuquerque.
A figura 3 (o Douro) mostra o sistema de um adorno de paredes por
azulejos na galeria ocidental do palácio e que abre sobre o jardim.
O desenho executado em azul, amarelo, verde e castanho sobre fundo branco
é circundado de uma bordadura de óvulos, e cobre a parede até à altura de
1,72m. Os painéis (_kartuschen_) policromos representam personificações
dos rios principais de Portugal.
A figura iluminada no quadrado à direita dá o detalhe de um desenho
composto de quatro azulejos. As bordaduras encontram-se na tabela
iluminada, em baixo à esquerda, fig. 4. A combinação destes elementos em
outras posições dá origem a uma infinidade de desenhos, que depois se
circundam de diferentes molduras.
Os pavilhões do jardim, as paredes e as galerias do lago artificial,
situado ao sul da quinta, são igualmente revestidos de ricos azulejos.
Até os bancos para descanso os têm. A instalação, toda cheia de encantos,
é obra bem inventada de um arquiteto talentoso, e que conhecia a fundo
este genero de decorações.
Os azulejos que adornam as galerias do lago são quase todos verdes com
ornamentos em relevo, à maneira dos azulejos espanhóis. No meio de uma
das paredes há as armas dos Albuquerques pintadas em azulejo.
O pavilhão central do lago contém três quadros igualmente distintos pela
forma e pela coloração. Um representa o rio Tejo e outro Suzana no banho.
No fundo, sobre um pórtico, lê-se a data de 1565, provavelmente o ano em
que os azulejos foram fabricados.
Também merecem menção as molduras das janelas do palácio, formadas por
azulejos com ornamentos de plantas em relevo, e que representam uma
decoração ornamental duradoura para fachadas.»[26]
O escrito do ilustre professor germânico mostra bem o apreço em que ele
tem a coleção variadíssima, dos barros esmaltados da Bacalhôa, coleção
trio quantiosa, que de longos anos abandonada e entregue à destruição e
à rapinagem, ainda não pôde aniquilar-se lhe o valor. Na Alemanha é tida
como uma maravilha, conhecida e apreciada; em Portugal, no próprio país
que a possui, passa quase ignorada.
O azulejo que vestia de alto a baixo as lógias do lago é em relevo
cavado, sobressaindo a verde, género hispano-mourisco, talvez das
fábricas de Valença ou de Aragão, pois me parece bem distinguir-se dos de
fabricação portugueza (n.ᵒ 6).
No fundo da lógia, mais ao occidente, há um quadro, também em azulejo,
com o brazão dos Albuquerques num escudo de forma muito caprichosa,
envolvido em ornatos de enrolados, género de _cartoccio_ típico do autor,
decorado com duas cabeças de sátiros. O escudo é esquartelado, como o
do portão meridional do pátio. No primeiro e quarto quartéis as armas
do reino com oito castelos na orla, esta roxa, certamente porque o fogo
alterou o vermelho, aqueles amarelos, as quinas azuis em campo branco, no
segundo e terceiro quartéis cinco lises amarelos em aspa sobre campo azul.
O azulejo dos pavilhões, que extremam as lógias, cobre totalmente as
paredes; é liso e com desenhos de cores variadas. O do primeiro é a
reprodução de um outro em relevo cavado, que forma a grande moldura da
parede ocidental do lago, com mudança na coloração.
Neste pavilhão distinguem-se pela beleza as duas tarjas, que no rodapé
e junto ao teto limitam o azulejamento das paredes; são pintadas
em quadrângulos de 1,27 × 0,135m. A tarja superior representava um
ininterrupto panorama de montes, castelos, habitações, riachos, a que dão
vida crianças que jogam, brincam, banham-se, que se ocupam em variados
misteres, ou em infantis folgares. A tarja inferior é uma delicadíssima,
composição de flores de fantasia, rematada nos ângulos da casa e nos
cunhais das portas e janelas por meios corpos fantásticos de homens ou
mulheres, que um capricho do desenho fez sair da extremidade de um ramo,
ou da corola de uma flor.
É no centro desta cercadura, na parede do fundo, que num _cartoccio_
está o nome do autor da composição, e que para evitar repetições lançou
aqui um traço de união para reconhecimento dos seus trabalhos, que no
azulejamento abundam. Repare-se na forma do pequeno _cartoccio_ que
contém a palavra MATOS, e ver-se-hão reproduzidos os seus traços no
emoldurado do escudo de armas da lógia occidental, o mesmo se dá nos
dois rios da lógia do Palacio da que olha o jardim. Há aqui também uns
caracóis, umas borboletas, e outros pequenos animais, que passam para
o revestimento dos assentos e alegretes de um quadrângulo cerrado de
muros, que serve de vestíbulo descoberto às galerias do lago; no quadro
que representa o Nilo lá se veem uns patos que nadam ou mergulham,
reproduzidos no quadro de Suzana no banho, e um pequenino ornato igual ao
que antecede e se segue ao nome MATOS.
O revestimento dos assentos e alegretes, de que falo, é uma bela
composição, género _grotesco_, talhada para os espaços que cobre; um
amador não desdenharia emoldurar estas composições de Matos, e tê-las no
seu gabinete; a cercadura do pavilhão junto até bem iria, por delicada,
no camarim de uma dama.
Pelo nome e época, este notável ceramista português será o Francisco
de Matos, que data de 1584 o azulejamento da capela de S. Roque (a
terceira da epístola) da igreja da Misericórdia de Lisboa. As composições
distanciam-se para serem postas a par: a de Lisboa é um desenho largo,
rasgado e firme, de mão amestrada, mas com arabescos gigantes; os
trabalhos da Bacalhôa são Horinhas mimosas, nascendo umas das hastes das
outras, como se o mesmo talo lhes fosse comum, personagens e animais de
fantasia, uns _putti_ graciosos e alegres, exuberantes de vida, ou uns
velhos de compridas barbas, que simbolisam os rios, alguns já mostrando
enfado de não verem vazios os cântaros, que há séculos sobraçam.
A composição do quadro de Suzana e do que lhe ficava fronteiro mostram
que Matos era um pintor de raça, capaz de abordar todos os géneros de
pintura. Sobre os barros, num trabalho em que tem de primar a ligeireza,
em que não há retoques nem mimos de execução, vê-se o génio valente do
artista, que se não prende, nem vacilla, um pincel que segue rápido a
inspiração que o dirige. Num acessório do quadro de Suzana, no pórtico
do palácio de Joaquim, lê-se a data 1565; num lago próximo nadam uns
patos como na água do Nilo da varanda oeste do palácio; no tocado de
Suzana nota-se um adorno de tecido ligeiro, igual na forma ao do segundo
medalhão do lago, parecendo que um deu a ideia do outro, e que o artista
neste se inspirou.
O quadro que lhe é fronteiro, a mais de meio destruído, parece
representar um festim, em que os comensais, mulheres e homens nus,
atacados de improviso se defendem. Vê-se ainda a parte de uma mesa,
alguns vasos por terra, um homem que puxa da espada, cuja bainha pende de
um estilingue, posto sobre as carnes, e algumas outras figuras.
Na parede do fundo um quadro, quase aniquilado, representava o Tejo.
De resto, não haverá no país, reunida, colecção mais variada e completa
de um só ceramista fabricante de azulejos. Esta cresce de merecimento e
valor pela autenticidade que lhe dá o nome do autor e data.
São numerosos os espécimenes, ferindo pelo traçado genial da composição e
pela mestria da execução. A ideia, a forma, a adaptação e aplicação dos
desenhos aos lugares, tudo denuncia um artista de primeira plana.
Francisco de Matos não foi só um pintor aprimorado, mas um ornamentador
excelente, um decorador de génio. Com as suas graciosas faixas
ornamentais, ou humorísticas, sabia matar a monotonia dos grandes palmos
de desenhos uniformes, as cores de que se servia eram mesmo calculadas
de modo a distanciar as composições; vestindo os alegretes de pinturas
grotescas, dava realce aos naturais adornos das flores e plantas,
recriando o olhar pela variedade. O rumorejar da água cadente ou batida
pelas asas das aves aquáticas, ou pelo saltar dos pequenos peixes,
seguravam o espírito a uma tristeza doce, mas sempre desalegre, e o génio
do artista soube imprimir nas suas composições uma certa vicia, distrair
o pensamento e soltá-lo de tristuras.
Os tetos destes pavilhões e lógias eram de estuque, apainelados, seguiam
o pendor dos madeiramentos e _pintados de várias histórias_, diz o tombo
de 1630. As coberturas piramidais dos pavilhões foram de lousas de
ardósia, de que apenas se encontraram restos.
Todo o azulejamento é assente por fiadas diagonais, com exceção dos
quadros, cujo assentamento é horizontal.