XI

O aparecimento das janelas de volta perfeita, a forma das abóbadas das

duas casas interiores, a dissemilhança dos azulejos do palácio e das

construções da quinta, alguns pedaços de azulejo de tipo mais antigo

metidos nas argamassas e as demais circunstâncias apontadas, deram-me

a opinião de que Albuquerque, filho, foi apenas inovador em grande dos

paços e quinta da _Condestablessa_, podendo até precisar-se o que é

primitivo e remodelação.

Os dois tipos arquitetónicos desmentem a inscrição de 1554.

No primeiro período da Renascença em Itália, no século XV, as edificações

formavam cubos pouco movimentados, com grandes cheios, em que rareavam

as janelas, o palácio florentino com a sua fachada nua e severa dava

ares de uma fortaleza, buscando-se apenas ferir a imaginação por

massas imponentes e de linhas ininterruptas. Os arquitetos, cheios de

considerações ainda pelas obras das gerações precedentes, deixavam-se

dominar por este fenómeno atávico, a que não é facil fugir-se num início.

Andrea Sansovino, o mestre que para lição nos mandou Lourenço de Medicis,

é mesmo tido como incurso neste pecadilho. Se na Bacalhôa encontramos

esbeltas torres e formosas lógias abertas por arcarias em colunatas,

temos também a janela a grandes espaços, sem uma linha sequer que corte

todo o edifício. Tem, pois, a Bacalhôa o característico da transição da

velha para a nova arte do último quartel do século XV para o XVI.

As faces que olham o pátio e quinta têm beleza na forma e tecido; as que

dão sobre o jardim, que comunicam diretamente com a parte mais luxuosa e

aformoseada, não lhes correspondem, sito nuas e pouco airosas; janelas

nada amplas, sem outra ornamentação mais que uma faixa de azulejo liso,

lançadas em largos vãos, e para quebrar tanta monotonia, lançaram-lhe uma

galeria de seis arcos. No andar térreo algumas frestas gradeadas dão-lhe

ares de cárceres para condenados. Em 1630 uma parede de limoeiros e

cidreiras aprumava-se junto da de alvenaria, matando tanta tristura.

Esta parte é o avesso de uma tapeçaria custosa. Quem projetou o palácio

parece não haver pensado em lhe lançar no reverso riquesas de policromia

de barros esmaltados, pavilhões e galerias elegantes como as do lago. Era

um desacerto, um erro, uma prova de mau gosto, que não daria o autor do

primitivo traçado; é possível, contudo, que não fosse completa a execução.

As outras duas faces têm a nobreza e o movimento que lhes dão torres e

arcarias. A face leste é simétrica. Dois torreões cilíndricos, esbeltos,

com cúpulas em gomos encimados por pirâmides, matam os ângulos. Terão o

aprumo de um Marte, de cuja raça descendem, mas de um Marte que despiu

a sua armadura para veranear no campo com damas gentis. No andar nobre

duas janelas por banda e no centro a porta de entrada, a que dá acesso

à escadaria, correndo paralela à parede do edifício e voltando sobre

si noutro lanço a alcançar a pequena varanda superior. As janelas e

portas têm por coroamento uma simples cornija horizontal, estimada pelos

primeiros seguidores da nova escola. Esta cornija, exceto na porta, é

separada uns 20 centímetros da aresta superior da verga por um cheio de

alvenaria.

Nichos com bustos correspondem superiormente a cada uma das janelas e

porta. Esta face dá para um pátio espaçoso cercado do norte e sul por

muros. Ao norte, sobre o rossio da quinta, abre a entrada principal. É um

pórtico, que parece haver sido restabelecido não haverá longos anos.

Duas pilastras de mármore da Arrábida de inferior qualidade, espaçadas

com relevo, suportam o entablamento, em cujo friso se acha a inscrição

de 1554. No centro vê-se o lugar para o escudo dos Albuquerques que se

encontra no chão ao lado, talhado conforme o que vem nos _Comentários_, e

que Albuquerque, filho, reclama para sua família, mas ainda por concluir,

faltando-lhe os leões, para o que se lhe deixou a necessária saliência

na pedra. Faltam ao pórtico as ombreiras. O portão do sul, que estava

completamente destruído, foi há pouco restabelecido, conforme o parceiro

a que faz frente, e levado ao mesmo estado; por cima pôs-se-lhe um outro

escudo de armas dos Albuquerques, esquartelado, tendo no 1.º e 4.º

quartéis o escudo de Portugal, no 2.º e 3.º cinco lises em aspa, adotado

por D. João Afonso de Albuquerque, juntando às quinas de Portugal os

lises que cabiam a sua mulher, por proceder da casa real de França[21], e

que fez pôr na torre de menagem da Codiceira por ele edificada.

Na fronteira do palácio há dois torreões circulares, reparados de novo

e com cúpulas em gomos, extremando uma colunata, que sustenta treze

arcos de pleno cimbre com medalhões circulares e nus nos seguintes. E

tudo de mármore da Arrábida. Este género de ornamentação dos seguintes,

criação de Brunellesco e muito querida dos arquitetos da primeira época

da Renascença, sabe-se bem que foi proscrita pelos artistas que se lhes

seguiram. Esta arcada sustentava a cobertura de uma bela galeria ao

rés-do-chão[22].

Pelo torreão setentrional do palácio passa-se deste pátio para a

quinta por uma porta sobre a qual se lê: «_Dirige Domine Deus meus in

conspecto tuo viam meam_». É apropriado o versículo, porque, descendo

uma escadaria curva e dupla, dá-se na rua, que conduzia às estações da

_Via-Sacra_.

A frente do palácio, que olha ao norte, não é simétrica em todas as suas

partes, mas do mais belo efeito perspetivo. Dois torreões, os mais altos,

extremam-na, como a do leste. Caminhando deste lado para o poente, há uma

janela com tarja de azulejo em volta, sobre ela a cornija, distanciada

como as outras, e por cima um nicho já ermo; seguem-se duas galerias

sobrepostas, abertas por escadas, verdadeiras lógias. A arcaria superior

repousa em sete colunas dóricas assentes num estilóbata: a inferior pousa

sobre quatro pilares assentes no pavimento.

Para ornar os seguintes dos três arcos inferiores, há quatro bustos de

alto relevo, saindo de outros tantos medalhões circulares—«_imagines

clypeatae_»—que atraem as atenções do amador.

Representarão pessoas de família? Representam os dos extremos homens, os

do centro damas. A julgar pelos tipos serão o infante D. João, mestre de

Santiago, de barba e farto bigode, e sua mulher D.ᵃ Isabel, a infanta D.ᵃ

Brites e seu marido, o infante D. Fernando, com a barba toda, mas sobre o

curto.

O espaço que vai destas lógias ao torreão occidental é ocupado por três

janelas desigualmente distanciadas. O serviço da galeria inferior para a

quinta é por uma graciosa escadinha em espiral.

Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica · 第 17 / 84 题