Num edículo, que encima a porta da entrada do palácio, vê-se um busto de
barro de boa execução. As proporções são as naturais. Mostra um varão na
força da vida, cabelo sobre curto e cuidado, barba despontada como na
época de João III, o rosto oval, o nariz aquilino e a fronte espaçosa, a
expressão é clara e de distinta serenidade. Veste de um tecido de malha,
virando-se como gola em bicos, deixa o pescoço a descoberto. Do ombro cai
até meio braço um adorno do mesmo tecido e também em bicos. Duas largas
faias, como pontas de um manto, traçam-se sobre o peito, ligando-se em
nós sobre os ombros talvez o _diplax_ dos filósofos. Não faltaram ao
busto com os últimos toques, foi trabalho bem tratado, é finalmente um
bom exemplar do género. Está ao alcance da vista, mas não permitindo a
opacidade do barro bem divisar os pequenos relevos faciais, quer ser
tocado com os olhos.
Na frente do que forma o assento da figura há um listrão com as
extremidades enroladas, como que destinado a um nome, que não tem, pois
mal ficava num retrato. Não lhe pude achar monograma, assinatura, ou
marca de auctor. É crido como a reprodução fiel de Albuquerque, filho. O
lugar que ocupa competia de direito ao senhor da casa.
Os bustos dos mais edículos desta frente do palácio, e que ainda
existem, são de fino mármore; pela distância a que ficam não podem bem
apreciar-se; parecem, todavia, bons e representam figuras mitológicas, ao
que pode julgar-se.
O busto em barro do senhor da propriedade acha-se em bom estado de
conservação e deve-o a uma excentricidade, para não dizer mais, de um
sucessor qualquer no morgado, que o fez cobrir de uma camada de gesso
para condizer na cor branca com os outros bustos e similar pedra.
Não é facto extraordinário ser em barro o retrato de quem podia tê-lo
em mármore ou bronze. São célebres os bustos em barro cozido do marquês
João Francisco Gonzaga de fins do século XV, outro da mesma época de
João Bentivoglio e ainda outros posso citar, de Carlos VIII e Niccolo da
Uzzano por Donatello.
* * * * *
No friso inferior à cornija que orna esta porta lê-se: «_Ecce elongavi
fugiens et mansi in solitudinem._»
Expressará os desejos de ocasião de Albuquerque, filho, quando aqui
escrevia os _Comentários do grande Afonso_; todavia, mais tarde,
encontramo-lo na administração municipal de Lisboa, ocupado de outros
negócios públicos e, nos últimos dias, talvez dementado pela idade,
peralta, requestando uma jovem fidalga, D.ᵃ Catarina de Menezes, com
quem casou, fazendo política ibérica contra a independência da pátria e
concorrendo a entrevistas com Cristóvão de Moura disfarçado com barbas
postiças[19].
X
Tentando apresentar como boa a ideia que concebi sobre as edificações
da Bacalhôa, e demonstrar as bases que me serviram para formar uma
opinião oposta a quanto se havia escrito e era geralmente aceite por bom,
poderei, por necessidade, tornar-me prolixo. Que me seja relevado o que
tiver de impertinente.
A quinta é dividida em dois terraplenos por um muro, que suporta as
terras mais altas. A cerca inferior condiz com a arquitetura do Palácio;
em ambos estes lugares os torreões cilíndricos com cúpulas de goramos, em
ambos azulejos monocromos e menos bons.
O terrapleno superior tem nos ângulos do norte dois pavilhões chamados um
_Casa da Índia_, por ter tido umas telas representando as cidades daquele
estado, nas quais mais brilhou o valor de Albuquerque, o Grande, o outro
_casa das pombas_. Nos ângulos do sul ficam num o palácio, no outro o
lago, _casa da perna_, e mais dois pavilhões ligados por lógias.
Os torreões da cerca inferior são seis e, descendo-se às minuciosidades
precisas, vê-se distintamente que os torreões dos ângulos foram
construídos com a cerca de muros e os intermediários feitos
posteriormente, para o que houve de rasgar-se o muro e não tanto como o
necessário, pois a parte que restou dentro dos torreões deu origem a que
estes se partissem por ali.
Quatro destes torreões, ou cubelos, como lhe chama o _Tombo_ do morgado,
foram aplicados a estações da Via-Sacra, com altares de mármore preto,
forrados de azulejos nas frentes e, por não bastarem, meteram-se-lhes de
permeio uns nichos nos muros para completarem os sete passos da paixão de
Cristo.
Naqueles tempos de religiosidade e fé mais vivida bem iam estes
exercícios, e o lugar escolhido, aonde já eram esvaídos os rumores do
palácio, era a isso acomodado.
Este recinto em 1528, pela venda dos Vila Real, era parque; pela formação
do tombo, em 1630, estava plantado de vinha, e assim continuou por mais
dois séculos, até que se destruiu as videiras.
No terrapleno superior em que está o palácio é onde se vê clara a
reforma de Albuquerque, filho, cujas construções se desviam do género
arquitetónico primitivo. É esta a parte mais aprimorada.
No remodelamento tentou-se acomodar variantes às novas construções.
Encontra-se aqui o torreão; trocou-se, porém, a forma cilíndrica pelo
cubo e substituiu-se a cúpula hemisférica por telhados piramidais.
As galerias sobre o lago não destoam das do palácio, mas aos pavilhões
que as extremam deu-se a cobertura de telhas acoruchadas das torres
angulares desta parte da quinta.
As ombreiras das portas e janelas do palácio são angulares, as das
edificações da cerca superior são de quarto de círculo.
Os muros do terrapleno inferior correm na sua altura com a inclinação,
ainda que ligeira, do terreno e são nus na coroa; os do terrapleno
superior são de nível no coroamento, como de nível lhes correm as ruas
paralelas, resguardadas com muros de suporte, que as limitam. Aqui mesmo
se conhece a remodelação, o antigo muro de argamassa distinta segue a
declividade do solo; para correr de nível com as ruas, houve de ser
levantado. Restam ainda nas paredes as réguas em que estavam pregadas as
telas.
O recinto superior foi outrora ocupado por jardins e pomares,
esmeradamente cuidado e ornamentado. Sobre todo o muro havia,
intervalados por pirâmides, pedestais quadrangulares, em que pousavam
esferas. De tudo ainda existem restos, carcomidos e a esfacelarem-se.
É bem sabido que D. Manuel tomou por empresa a esfera, e bem conhecida
é a proteção dispensada por este rei a Afonso, filho; Albuquerque, o
Grande, depois da tomada de Goa, bateu uma moeda a que chamou _esfera_,
e com esta figura no cunho; natural, pois, seria que o filho aqui
empregasse, como ornamento, o emblema que recordava os altos feitos
de seu pai e fanava das glórias pátrias, esquecendo que o rei com um
ultraje, que à sua régia alma não doeria, lhe vitimara quem lhe dera o
ser, ilustre nome e grossos cabedais.
A modéstia, por assim dizer, do terrapleno inferior fê-lo votar aos
exercícios íntimos de religião, a que as grandezas luxuosas não ficam bem.
No terrapleno superior, de uma opulência faustuosa, tudo se mundanalizou,
estando de envolta com versículos bíblicos figuras mitológicas e
celebridades da história dos povos, acotovelando-se, defrontando-se,
sobraçando-se.
Na galeria do palácio, que olha o poente, palestram amigavelmente o
Eufrates, o Mondêgo, o Nilo, o Danúbio e o Douro; por sobre a porta, que
daqui sai para o jardim, lê-se: «_Satiabor cum apparuerit gloria tua_»;
logo a seguir faz costas a uma cadeira um quadro em azulejo representando
o roubo de Europa. Continuando para o poente, há pela parede medalhões
de louça com bustos de Alexandre, Aníbal, capitães famosos e imperadores
romanos. Sobre as portas das _casas de prazer_ do lago, em nichos, havia
estatuetas representando as virtudes cardeais, a Justiça, a Prudência, a
Temperança e a Fortaleza.
Ía-se aqui com o costume dos tempos. Nas portas de S. Pedro de Roma,
Filarete emoldurava os quadros, que representam assuntos famosos
da história da igreja, com passagens de Esopo, e Rafael povoava as
bordaduras das tapeçarias, que representavam os atos dos apóstolos, de
figuras grotescas[20]. Disparatadas parcerias ainda fez Camões também
entre o Padre Eterno, Cypris, Cristo, as Nereidas, a Virgem e Marte.