IX

Num edículo, que encima a porta da entrada do palácio, vê-se um busto de

barro de boa execução. As proporções são as naturais. Mostra um varão na

força da vida, cabelo sobre curto e cuidado, barba despontada como na

época de João III, o rosto oval, o nariz aquilino e a fronte espaçosa, a

expressão é clara e de distinta serenidade. Veste de um tecido de malha,

virando-se como gola em bicos, deixa o pescoço a descoberto. Do ombro cai

até meio braço um adorno do mesmo tecido e também em bicos. Duas largas

faias, como pontas de um manto, traçam-se sobre o peito, ligando-se em

nós sobre os ombros talvez o _diplax_ dos filósofos. Não faltaram ao

busto com os últimos toques, foi trabalho bem tratado, é finalmente um

bom exemplar do género. Está ao alcance da vista, mas não permitindo a

opacidade do barro bem divisar os pequenos relevos faciais, quer ser

tocado com os olhos.

Na frente do que forma o assento da figura há um listrão com as

extremidades enroladas, como que destinado a um nome, que não tem, pois

mal ficava num retrato. Não lhe pude achar monograma, assinatura, ou

marca de auctor. É crido como a reprodução fiel de Albuquerque, filho. O

lugar que ocupa competia de direito ao senhor da casa.

Os bustos dos mais edículos desta frente do palácio, e que ainda

existem, são de fino mármore; pela distância a que ficam não podem bem

apreciar-se; parecem, todavia, bons e representam figuras mitológicas, ao

que pode julgar-se.

O busto em barro do senhor da propriedade acha-se em bom estado de

conservação e deve-o a uma excentricidade, para não dizer mais, de um

sucessor qualquer no morgado, que o fez cobrir de uma camada de gesso

para condizer na cor branca com os outros bustos e similar pedra.

Não é facto extraordinário ser em barro o retrato de quem podia tê-lo

em mármore ou bronze. São célebres os bustos em barro cozido do marquês

João Francisco Gonzaga de fins do século XV, outro da mesma época de

João Bentivoglio e ainda outros posso citar, de Carlos VIII e Niccolo da

Uzzano por Donatello.

* * * * *

No friso inferior à cornija que orna esta porta lê-se: «_Ecce elongavi

fugiens et mansi in solitudinem._»

Expressará os desejos de ocasião de Albuquerque, filho, quando aqui

escrevia os _Comentários do grande Afonso_; todavia, mais tarde,

encontramo-lo na administração municipal de Lisboa, ocupado de outros

negócios públicos e, nos últimos dias, talvez dementado pela idade,

peralta, requestando uma jovem fidalga, D.ᵃ Catarina de Menezes, com

quem casou, fazendo política ibérica contra a independência da pátria e

concorrendo a entrevistas com Cristóvão de Moura disfarçado com barbas

postiças[19].

X

Tentando apresentar como boa a ideia que concebi sobre as edificações

da Bacalhôa, e demonstrar as bases que me serviram para formar uma

opinião oposta a quanto se havia escrito e era geralmente aceite por bom,

poderei, por necessidade, tornar-me prolixo. Que me seja relevado o que

tiver de impertinente.

A quinta é dividida em dois terraplenos por um muro, que suporta as

terras mais altas. A cerca inferior condiz com a arquitetura do Palácio;

em ambos estes lugares os torreões cilíndricos com cúpulas de goramos, em

ambos azulejos monocromos e menos bons.

O terrapleno superior tem nos ângulos do norte dois pavilhões chamados um

_Casa da Índia_, por ter tido umas telas representando as cidades daquele

estado, nas quais mais brilhou o valor de Albuquerque, o Grande, o outro

_casa das pombas_. Nos ângulos do sul ficam num o palácio, no outro o

lago, _casa da perna_, e mais dois pavilhões ligados por lógias.

Os torreões da cerca inferior são seis e, descendo-se às minuciosidades

precisas, vê-se distintamente que os torreões dos ângulos foram

construídos com a cerca de muros e os intermediários feitos

posteriormente, para o que houve de rasgar-se o muro e não tanto como o

necessário, pois a parte que restou dentro dos torreões deu origem a que

estes se partissem por ali.

Quatro destes torreões, ou cubelos, como lhe chama o _Tombo_ do morgado,

foram aplicados a estações da Via-Sacra, com altares de mármore preto,

forrados de azulejos nas frentes e, por não bastarem, meteram-se-lhes de

permeio uns nichos nos muros para completarem os sete passos da paixão de

Cristo.

Naqueles tempos de religiosidade e fé mais vivida bem iam estes

exercícios, e o lugar escolhido, aonde já eram esvaídos os rumores do

palácio, era a isso acomodado.

Este recinto em 1528, pela venda dos Vila Real, era parque; pela formação

do tombo, em 1630, estava plantado de vinha, e assim continuou por mais

dois séculos, até que se destruiu as videiras.

No terrapleno superior em que está o palácio é onde se vê clara a

reforma de Albuquerque, filho, cujas construções se desviam do género

arquitetónico primitivo. É esta a parte mais aprimorada.

No remodelamento tentou-se acomodar variantes às novas construções.

Encontra-se aqui o torreão; trocou-se, porém, a forma cilíndrica pelo

cubo e substituiu-se a cúpula hemisférica por telhados piramidais.

As galerias sobre o lago não destoam das do palácio, mas aos pavilhões

que as extremam deu-se a cobertura de telhas acoruchadas das torres

angulares desta parte da quinta.

As ombreiras das portas e janelas do palácio são angulares, as das

edificações da cerca superior são de quarto de círculo.

Os muros do terrapleno inferior correm na sua altura com a inclinação,

ainda que ligeira, do terreno e são nus na coroa; os do terrapleno

superior são de nível no coroamento, como de nível lhes correm as ruas

paralelas, resguardadas com muros de suporte, que as limitam. Aqui mesmo

se conhece a remodelação, o antigo muro de argamassa distinta segue a

declividade do solo; para correr de nível com as ruas, houve de ser

levantado. Restam ainda nas paredes as réguas em que estavam pregadas as

telas.

O recinto superior foi outrora ocupado por jardins e pomares,

esmeradamente cuidado e ornamentado. Sobre todo o muro havia,

intervalados por pirâmides, pedestais quadrangulares, em que pousavam

esferas. De tudo ainda existem restos, carcomidos e a esfacelarem-se.

É bem sabido que D. Manuel tomou por empresa a esfera, e bem conhecida

é a proteção dispensada por este rei a Afonso, filho; Albuquerque, o

Grande, depois da tomada de Goa, bateu uma moeda a que chamou _esfera_,

e com esta figura no cunho; natural, pois, seria que o filho aqui

empregasse, como ornamento, o emblema que recordava os altos feitos

de seu pai e fanava das glórias pátrias, esquecendo que o rei com um

ultraje, que à sua régia alma não doeria, lhe vitimara quem lhe dera o

ser, ilustre nome e grossos cabedais.

A modéstia, por assim dizer, do terrapleno inferior fê-lo votar aos

exercícios íntimos de religião, a que as grandezas luxuosas não ficam bem.

No terrapleno superior, de uma opulência faustuosa, tudo se mundanalizou,

estando de envolta com versículos bíblicos figuras mitológicas e

celebridades da história dos povos, acotovelando-se, defrontando-se,

sobraçando-se.

Na galeria do palácio, que olha o poente, palestram amigavelmente o

Eufrates, o Mondêgo, o Nilo, o Danúbio e o Douro; por sobre a porta, que

daqui sai para o jardim, lê-se: «_Satiabor cum apparuerit gloria tua_»;

logo a seguir faz costas a uma cadeira um quadro em azulejo representando

o roubo de Europa. Continuando para o poente, há pela parede medalhões

de louça com bustos de Alexandre, Aníbal, capitães famosos e imperadores

romanos. Sobre as portas das _casas de prazer_ do lago, em nichos, havia

estatuetas representando as virtudes cardeais, a Justiça, a Prudência, a

Temperança e a Fortaleza.

Ía-se aqui com o costume dos tempos. Nas portas de S. Pedro de Roma,

Filarete emoldurava os quadros, que representam assuntos famosos

da história da igreja, com passagens de Esopo, e Rafael povoava as

bordaduras das tapeçarias, que representavam os atos dos apóstolos, de

figuras grotescas[20]. Disparatadas parcerias ainda fez Camões também

entre o Padre Eterno, Cypris, Cristo, as Nereidas, a Virgem e Marte.

Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica · 第 16 / 84 题