VIII

No friso do portão, que, pelo norte, dá entrada para o pátio do palácio,

lê-se a seguinte inscrição: «_Anno 1554—Alfonsus Albuquercus Alfonsi

Magni indorum debellatoris filius—sub Joanne III Portugaliae rege

condidit Anno MDLIIII._»

Esta inscrição, a fama tradicional de que a quinta e palácio haviam sido

delineados sobre os traços de uma das praças da Índia portuguesa, onde o

valor de Albuquerque mais brilhara (tradição que se deve ter por muito

graciosa), todas as notícias escriptas, ou impressas até hoje, levaram-me

a crer que quanto existia na Bacalhôa fora obra de Albuquerque, filho.

A inscrição devia julgar-se coeva e testemunha irrecusável, e a falta

de vestígios do _paço da condestablessa_, vendido pelos Vila Real,

explicava-a a mim mesmo, supondo-o construção nada recomendável, que o

novo proprietário arrasara para levantar fábrica aprimorada. Foi o acaso

que me despertou a atenção, e me chamou a observar mais acuradamente as

construções.

A queda do reboco da torre setentrional descobriu uma janela ampla e de

verga semicircular, que destoa completamente das demais e mostra que

a torre foi restaurada e sofreu modificação. Em baixo divisa-se uma

porta de iguais, uma que comunicava a torre com o pavimento térreo do

palácio. Outros vestígios foram aparecendo indicativos de alterações

na primitiva edificação. Leitura mais atenta do título da compra aos

Vila Real e sua confrontação com o título da instituição do vínculo,

documentos distanciados quarenta anos, comparados ainda com a tombação

do morgado, que descreve minuciosamente a casa e quinta, fez-me ver que

na propriedade havia em todas as três épocas (1528, 1558, 1630) não

só _paços_, mas _pomares, vinha, cerca de muros e oficinas agrárias

próximas_, tal como ainda hoje, em ruínas.

Uma vista rápida mostra um todo unido, não sem que o olho deixe de

resentir-se, como o ouvido, quando de entre um jogo de harmonias escapa

um acorde dissonante e rápido. As torres circulares, ou cubelos, como

lhes chama o tombo, e os edículos dos muros da quinta, comparados com

as construções similares do palácio representam uma só mão a lançar

os primitivos traços; mas se se deixar pousar a vista sobre o objeto,

que de leve a impressionou, há de notar-se alteração e modificação nos

lineamentos. Se se descer a minudências, então resalta de passo a passo a

reedificação e os inovamentos.

Conhecia o andar nobre do palácio; busquei, porém, examinar atentamente

o interior, e notei logo que a faixa de azulejos que cinge as salas não

corresponde ao que, neste género, há na parte superior da quinta.

O azulejamento destas salas é em xadrez, ou como nas lisonjas da armaria,

tecido de quadrados brancos com tiras verdes ou azuis, e é sobejamente

sabido que esta espécie de mosaico é anterior aos azulejos com desenhos a

cores, ou em relevo. Desci ao pavimento térreo, onde nunca tinha entrado,

e encontrei provas claras de outra edificação ali encerrada.

Há duas casas cobertas por abóbadas em ogiva e de arestas, cujas nervuras

nascem tão próximas do chão, a não restar dúvida de que o pavimento

correspondente deve achar-se muito soterrado, e de que se levantou

outro sobre ele para alcançar o novo nível. Na parede que divide estas

casas entre si houve um arco de volta perfeita, tecido de tijolo, cheio

posteriormente de alvenaria e que a queda do revestimento descobriu.

Na varanda coberta junta, vê-se o sobrearco de uma antiga porta para as

casas abobadadas, cuja soleira deve achar-se bastante funda.

Interiormente veem-se diversas comunicações de casa para casa, que foram

inutilisadas ou substituídas.

Depois do primeiro achado admirei-me, como é usual, de não ter dado por

outros sinais de reedificações e emendas.

A escadaria que dá entrada para o palácio tinha por guarda uns corrimãos

suportados por pilares intervalados com balaústres de mármore branco, e

no patamar superior ainda assim é; no médio, porém, formou-se um painel

massiço, enchendo os vãos da gradinata de alvenaria revestida de azulejos

de relevo, do género que mais abunda na quinta, e em tudo dissemilhante

do azulejamento interior do palácio. Ainda aqui há a notar que os

azulejos da escadaria são de três desenhos diferentes. No azulejamento

da parte superior da quinta encontram-se mesmo espécies de épocas muito

distintas.

Esta alteração na gradinata da escadaria não é restauração, mas remendo.

Em 1631 ainda todo o corrimão era sustentado por balaústres.

Nas duas galerias sobrepostas que olham a norte, vê-se que o estilóbata

sobre o qual pousam as colunas da arcaria superior é de pedra

dissemilhante da que lhe fica por debaixo, repetindo-se o facto nos arcos

da galeria superior, e dando-se aqui mais a circunstância de não serem de

pedra faceada os seguintes, nem terem medalhões de moldura relevada na

mesma pedra, como nos seguintes das demais arcarias. A pedra destes arcos

e do estilóbata é amarelada, branda e já a esboroar-se, enquanto o mais é

calcário rijo e branco, ou mármore da Arrábida, ainda que pouco escolhido.

Parece ter havido aqui grande reparação, em que se não atendeu a todas

as partes arquitetónicas. Uma parede de esbarro, reforçando a base da

arcaria inferior, vem de ajuda a este suposto. É de crer que estes

trabalhos fossem posteriores às obras de Albuquerque.

Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica · 第 15 / 84 题