A infanta D.ᵃ Brites gozou avultadas rendas; seu marido, o infante D.
Fernando, duque de Viseu e de Beja, foi o senhor mais rico do país; era
gastador e perdulário, largando loucamente os seus haveres. D.ᵃ Brites
em vinte e três anos de convivência com ele teve tempo à farta para lhe
tomar os usos, se já lhe não eram peculiares; foi faustosa, dissipadora,
dadivosa em demasia e, pelas facilidades de haver, não a embaraçavam
quantias. Seu cunhado Afonso V foi largo para a casa da infante; seu
genro, João II, desejou sempre agradar-lhe, e esforçou-se por lhe matar
o ressentimento dos atos, que razões de estado e a própria conservação
o fizeram praticar; seu filho Manuel, com consenso real, dava-lhe a
mãos largas as rendas da ordem de Cristo, cujo mestrado tinha, corno
regedor e administrador e, depois de alcançar o trono, concedia dadivosas
liberalidades a sua mãe.
O _livro 1.º dos Místicos_ abunda em mercês e concessões de grossas
rendas a D.ᵃ Brites; o estado era aquela família de Bórgias, todos
igualmente queriam parte nos despojos da sua vítima[17].
Numa carta de Sintra a 5 de outubro de 1485, D. Manuel, duque de Beja,
senhor de Viseu, da Covilhã, de Moura, de Serpa, das ilhas da Madeira,
dos Açores e de Cabo Verde, condestável de Portugal, como regedor e
governador da ordem da cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, doou a
sua mãe todas as rendas de bens dependentes da ordem, e que ela gozava,
por dois anos além da sua morte _para descargo da sua_ (da infante)
_consciência e pagamento de suas dívidas_. No dia 3 de abril do mesmo
ano, em Beja, já se tinha obrigado, na mesma qualidade de governador
da ordem de Cristo, ao pagamento das dívidas de seu pai, o infante
D. Fernando, e entre os credores acham-se um Abraão Beacar e outros
_tratantes_, que lhe tinham feito certos _empréstimos_, já avolumados
por D.ᵃ Brites, e tomado alguns arrendamentos pagos anticipadamente. As
_dívidas ameadas, segundo palavra de Pero Afonso, montariam a seiscentos
mil reais_.[18]
A carta de Sintra foi confirmada por D. Manuel, já rei, no dia 4 de
julho, e a de Beja no dia 5 do mesmo mês de 1496, ainda não passados seis
mezes da sua entronização, e ambas datadas de Barra-a-Barra em frente
de Lisboa, para onde D. Manuel fugira da peste, temendo comparecer no
tribunal de Deus, quando ainda o cadáver de seu primo D. João II não era
extinto.
D.ᵃ Brites, vivendo na corte de um rei artista por génio, frequentando
aquele meio, em que tanto se falava do que ia por Itália em matéria
de arte, da habilidade e perícia dos mestres, do gosto aprimorado e
magnificência dos príncipes Mecenas das artes, que contribuíam em grande
para o seu desenvolvimento, sabendo que aqueles príncipes aplicavam
avultadíssimas somas a faustosas construções, em que o novo estilo à
larga se expandia; que os maiores senhores protegiam e honravam os
artistas de verdadeiro mérito, convivendo quase familiarmente com os
mais celebrados, como que transformando os seus palácios em academias e
museus; não podia D. Brites, opulenta, faustosa, gastadora, princesa e
mãe de uma rainha, deixar de querer imitar aqueles que eram louvados e
prendiam as atenções da mais alta e culta sociedade.
D. João II tinha predileção por Setúbal; a quinta de Azeitão, que
o mestre de Santiago deixara a sua filha, era próxima do lugar de
residência da corte, em sítio delicioso, abundante de águas e capaz de
se levantar nele habitação principesca, e D.ᵃ Brites quereria ter casa
vizinha da corte e condigna da sua elevada hierarquia. D.ᵃ Brites, pois,
encomendaria os planos de um palácio de campo a arquiteto hábil e, não o
havendo no país, vir-lhe-ia o traçado, ou um artista da Itália, e este
delineou uma _vila_, que, em uma época de transição, saiu num género
medieval, amodernado por um florentino.
Como é muito usual suceder, o lugar escolhido para a nova edificação foi
o assento da antiga casa da quinta, a residência, talvez, do mordomo.
Quem atentamente observar o palácio e a quinta da Bacalhôa e os vir
minuciosamente encontrará nas edificações três idades e influências
das épocas. Duas casas com abóbadas ogivais, restos da habitação do
tempo do monteiro-mor João Vicente, ou do príncipe D. João, mestre de
Santiago, palácio e cerca torreada de D.ᵃ Brites, sua filha, construções
e decoração policrómica de Afonso de Albuquerque.
As velhas casas restam encravadas no meio das outras, como o caroço
daquele fruto. O palácio distingue-se pela forma cilíndrica das torres
e cintas azulejadas das salas. Os inovamentos de Albuquerque tomaram a
forma angular e os ornatos de barro esmaltado, os medalhões e azulejos
dão-lhes lugar à parte.
O palácio não é do infante D. João, porque o estilo vai muito fora do seu
tempo; a filha do condestável D. Afonso, marquesa de Vila Real, não teve
ocasião para levantá-lo; resta-nos, portanto, D.ᵃ Brites para construir,
e Albuquerque, filho, para reformar.