III

Já houve quem quisesse achar na Bacalhôa rastos do Sansovino. Nada há que

venha de reforço a este suposto, firmado apenas na valia (que a tem) do

seu andor; nada há também que se lhe anteponha. «Quem quer que fosse o

arquiteto era de primeira ordem. Há detalhes que revelam mais do que um

simples talento, tem uma palpitação de génio.»[3]

Se não fosse Sansovino o autor do projeto, no tempo que esteve em

Portugal, não seria extraordinário que ele, ou outro mestre de Itália,

delineasse no seu país, e enviasse para aqui o traçado e os planos do

palácio e quinta. Brunellesco, Alberti, Sangallo e outros arquitetos

italianos encarregavam-se destes trabalhos.

Não creio que a Bacalhôa seja contemporânea destes homens, como também

não creio que nascesse a meados do século XVI. Ao pé temos o palácio dos

Aveiros, levantado em princípios do segundo quartel daquele século, que

se mostra muito posterior em estilo arquitetónico ao palácio da Bacalhôa.

No Aveiro, está estampada a Renascença clássica, pura nas suas linhas

janela com cornija e frontão com busto no tímpano, a _mezzanina_,

pequenos claros, pórtico emoldurado em colunas dóricas com entablamento

da mesma ordem, cunhais rústicos. Na Bacalhôa vemos o torre de transição,

um estilo fugitivo, a janela com cornija e sem ela, emoldurada em

azulejos policromos e intervalada por largos cheios.

A Bacalhôa será talvez a edificação em que se estreou em Portugal o

estilo arquitetónico da Renascença, estreia de transição, dando-se de

mão à ogiva e a quanto lhe era ligado. Nada tem do estilo _manuelino_,

que ainda não era criado, mas também não obedece a qualquer estilo

puro. O palácio é _sui generis_, talvez a arte Fiorentina transportada

abruptamente para aqui, esfumada de umas tintas leves do solar medieval

nos torreões, em que se substituiu pela cúpula hemisférica em gomos e

com pirâmide no fecho, as obras de defesa, que coroavam os adarves dos

castelos senhoriais.

A Bacalhôa será uma correção ao palácio acastelado, quase medievo,

construído por D. João II em Alvito para o seu escrivão da puridade,

João Fernandes da Silveira. A disposição das salas e aposentos dos

dois palácios aproximam-se. A Bacalhôa tem a menos as bonitas janelas

geminadas que a nova arte proscrevera, mas em troca deram-lhe as

galerias abertas em arcadas, e a mais a elegância e regularidade das

fórmas, as tarjas azulejadas a fazer sobressair os portões, e as cúpulas

hemisféricas a realçar as torres cilíndricas.

E já que falei do palácio acastelado de Alvito seja-me lícito também

apresentar uma ideia, que apenas posso sustentar com alguns raciocínios.

Jorge Vazari, dando-nos conta de Contucci, diz-nos: _lavoró per quel

re_ (di Portugallo), _noite opere di scultura e d’arckítettura, e

particolarmente un bellissimo palazzo con quattro torri ed altri

edifici_.[4]

O Sr. Haupt supõe que este palácio traçado por Andrea Contucci seja o

dos barões em Alvito[5]. E porque não será o da Bacalhôa? Por ter este

apenas três torres? Pode estar incompleto, e também o de Alvito tem

cinco torres e não quatro.

Por não ser propriedade do rei? Mas era da sogra, mãe da rainha, e o

de Alvito, conforme uns, foi feito por D. João II; segundo a inscrição

lapidar, posta sobre a porta, foi feito pelo primeiro barão de Alvito a

mandado do rei.

O estilo arquitetónico do palácio da Bacalhôa, mais-valia de uma época de

transição e de um artista italiano hábil e imaginoso, do que o de Alvito,

mole robusta e pesada, aonde a nova arte se não deixa antever, e preso

pelos traços gerais e peças componentes ao passado que ainda o domina.

A sorte futura é que foi comum às duas edificações e as tornou irmãs, a

ruína e o abandono.

Atrás apresento a ideia de que o traçado do palácio e quinta da Bacalhôa,

se não é de Contucci, poderia ter vindo da Itália, contudo não posso

sustentá-la firmemente; o artista, que tudo delineou, tinha conhecimento

pleno do sítio para dar orientação às construções, aproveitar as

disposições do terreno e acomodar os reservatórios de água à situação das

nascentes, fazendo contribuir as águas para embelezamento das edificações

e aproveitamento das terras como agente agrícola.

Conto a Bacalhôa como obra do último quartel do século XV, mandada

executar por D.ᵃ Brites, filha do infante D. João, mestre de Santiago,

e mulher do infante D. Fernando, porque esta princesa, dama caprichosa

e de grandes teres, possuiu a propriedade por largos anos e no período

de maior efervescência da revolução artística de Itália, país que

atraía, por isso todas as atenções das altas classes e a que D. João II

recorreu para o restabelecimento das artes no seu reino. D. Brites amava

com extremo o seu neto, filho do duque de Viseu, D. Diogo; deu-lhe por

ocasião do seu casamento a Bacalhôa, e parece-me mais havê-lo feito como

oferta de um mimo fino, do que como dom valioso pelas rendas.

Não se me afigura que Albuquerque, filho, levantasse o palácio, porque

a projetá-lo em 1528, ano da compra, teria, quando não mais, ainda uns

laivos manuelinos; a erguê-lo em 1554, data lançada sobre o pórtico do

norte, seria todo Renascença, porque, na segunda metade deste século,

era omnipotente no país o classicismo puro, em que já se tinham alistado

os artistas nacionais. O pórtico, a que me refiro, é o que é de Afonso.

Se nas janelas do palácio vemos a nova arte, nas torres encontramos o

consórcio do passado com o presente, significando época de transição, as

galerias sob arcadas mostram-nos a lógia italiana, e por isto pode bem

crer-se que o palácio fosse delineado por artista escolhido pelo Medici,

ou por ele enviado a Portugal.

Inicios da Renascença em Portugal: Quinta e Palacio da Bacalhôa em Azeitão, monographia historico-artistica · 第 11 / 84 题