A Renascença já tinha invadido com vário sucesso todos os estados
cingidos pelo Adriático e pelo Mediterrâneo, em alguns já ficava em pleno
domínio, mas não lograva ainda transpor os Alpes.
Portugal achava-se sob a influência flamenga e resistia à invasão com os
demais países, em que ela dominava. Com o advento de D. João II ao trono
entrava um período de paz, e o novo imperador dava às forças do país uma
benéfica direção, encaminhada a seguir o desenvolvimento intelectual que
ia pela Europa. As espadas de África só serviam ao respeito do herói
de Toro, poucos ginetes fiéis bastavam para guarda da sua pessoa. Os
arquitetos de Santa Maria da Vitória eram extintos, a escola morta e os
discípulos, que ainda restavam, por medíocres, teimavam em conservar as
tradições rudimentares recebidas, ou recusavam-se a seguir a corrente,
que ameaçava levar no seu turbilhão a velha arte.
O caminho da Índia ainda não era rasgado, a fama das suas riquezas ainda
não podia seduzir os ânimos e arrastá-los para o militarismo comercial.
Para as explorações marítimas poucos homens bastavam, que mais para ali
os levava a glória de vencer os elementos, já que não podiam triunfar de
inimigos, do que um pensamento, uma ideia que dominasse o espírito.
Falava-se dos expedicionários ao desferrar das frotas, ou durante os
aprestos da expedição, depois recebiam-se as novas apenas como notícias
de pessoas, que se haviam julgado perdidas. Entre a saída e a notícia
mediava grande espaço; na corte só o rei se ocupava dos que iam em
demanda do desconhecido, e a esperança do sucesso só de longe em longe
vinha levantar o pensamento para aquelas empresas. Poucos da corte também
seriam capazes de compreender o alcance de negócios, a que não eram
afeitos, ou que o seu acanhado espírito não podia penetrar.
A revolução pacífica, que ia na Itália, chamava as atenções dos menos
ocupados, cativava os ânimos, em que o bailo tinha acesso, atraía algum
espírito esclarecido, e nenhum o era mais do que o rei, nem se arrojava
mais além do seu meio.
Os arquitetos só traçavam edifícios desengraçados; os artífices já não
talhavam na pedra finos rendilhados, não levantavam coruchéus elegantes,
nem baldaquinos de aprimorado lavor. O génio artístico esvaíra-se.
Urgia levantar as artes, dar-lhes impulso, fazê-las sair do torpor,
em que se tinham imergido. D. João II, grande em tudo, tinha a paixão
artística; longe era a Itália, ficavam de permeio os Pirinéus e os
Alpes, as comunicações eram demoradas, as notícias distanciadas, mas ao
rei aprazia ouvir falar do que ia por aquele país fadado para as artes,
dos príncipes italianos, mecenas dos artistas, e mostrava inveja destes
personagens, desejando ter no seu reino daqueles génios famosos, como
noutras épocas quereria ter babéis e experimentados capitães.
No desejo do desenvolvimento intelectual do país, D. João II enviava ao
estrangeiro mancebos prometedores a cursar as letras e as artes, e tanto
era o seu amor pela pintura, que nos seus raros ócios fazia desenhar
em sua presença, por um moço da câmara, os objetos que a sua fantasia
inspirava, e mostrava inveja dos conhecimentos artísticos do seu parente,
o imperador Maximiliano, e de outros príncipes[1].
Como Júlio II, como os Medici e outros senhores italianos, que não
desdenhavam discutir com os seus arquitetos as minúcias de um traçado,
João II de Portugal dava a Pantaleão Dias as linhas gerais do túmulo de
S. Pantaleão, que projetava para a catedral do Porto. A magnificência
dos Medici e o seu aprimorado gosto andavam em fama. D. João II viu
que ninguém melhor do que um dos daquela família podia fazer a escolha
de mestre capaz de levantar as artes num país em que elas estavam
prostradas, como em Portugal, e foi a Lourenço «o Magnífico» que o rei
se dirigiu, pedindo-lhe mestres que pudessem dar lição e ensinamento aos
artistas portugueses, traçando e presidindo à execução de trabalhos, que
servissem de molde para outras obras e areassem uma escola de artes.
Lourenço de Medici enviou Andrea Contucci, dito Sansovino, célebre
plástico, bom desenhador e famoso perspetivo[2], que estaria então na
força da vida e em toda a pujança do seu talento. Contucci veio para
Portugal por 1485, e demorou-se no país até à morte de D. João II, tendo,
entre outras obras, levantado um palácio para o rei, flanqueado por
quatro torres.