História do edifício—Estilo arquitetónico das construções Majólicas
policromas
I
O palácio e a quinta da Bacalhôa, em Azeitão, formam só por si um
monumento artístico da mais alta significação em Portugal. Desconhecido
dos amadores do belo, ignorado dos mestres da arte, não sonhado até por
aqueles a quem competiria a conservação de um monumento, que à nação
devia pertencer, desprezado largos anos pelos proprietários, resta por
estudar, e já tendia a desaparecer de todo aquele facho único, que pode
lançar luz sobre um período escuríssimo das artes em Portugal, e em que
se produzia a grande revolução artística chamada a Renascença.
Aquelas edificações não têm só o mérito de nos mostrarem o alvorecer das
artes, mas as construções primitivas refeitas pelo filho de Albuquerque,
o Grande, continuam a história da arte por quase todo o século XVI,
dando-nos exemplares formosos do gosto da época nos lineamentos gerais,
e especímenes cerâmicos das mais variadas espécies, ao passo que nos
fornecem testemunhos irrefutáveis das aptidões artísticas de obreiros
hábeis, mas desconhecidos e de outros, que, sem estas provas, não podiam
ser bem apreciados.
Na Itália, a arte moderna, com campeões valorosos como Brunellesco,
Alberti e Michelozzo, ainda sentiu por muito tempo resistência à sua
implantação.
Era dura a transição. De uma arquitetura toda fantasiosa e brincada
passava-se à acentuação das linhas, à subordinação a regras e preceitos
definidos. Não bastava calcular resistências, encher superfícies de
caprichosas edificações, que se levantavam até onde o obreiro mais
atrevido tinha vertigens, impunham-se as regras de simetria e ordem, as
proporções colhidas dos monumentos mais celebrados, subordinava-se o
traçado do edifício a um todo homogéneo, formando, como o homem, um ser
único e simétrico nas suas partes.
A coluna e o arco de pleno cimbre vinham proscrever a ogiva; o botaréu
ia ser excluído, deixando em seu lugar superfícies planas; os coruchéus,
que pareciam querer furar as nuvens, eram substituídos pelas cúpulas
hemisféricas, que nada têm de alteroso.
A agulha medieval com a sua ponta agudíssima, indicando as regiões
siderais, conduz a vista ao infinito e busca comunicar com a divindade;
a curva, a meia esfera, elevando-se de um ponto para cair depois no
nível de onde nasceu, como que limitam os domínios do homem, pondo termo
à sua atrevida audácia. O arrojo cede o lugar à ruão fria, e o homem
concentra-se no seu meio, só buscando Deus no espírito, entregando-se ao
mundo que o cerca, e renunciando a essas loucuras sublimes dos tempos
cavalheirosos em que pela audácia, pelos maiores cometimentos se havia de
tocar o que houvesse de maior.
A alta arquitetura e as artes decorativas, que, na Idade Média, quase
só estavam ao serviço da religião, elevando templos de uma majestade
esplendorosa, iam fabricar habitações aristocráticas de aprimorado gosto
e ornamentá-las de esculturas delicadas. O solar medieval com as suas
torres alterosas, armadas para a defesa desde a raiz até às cimeiras,
prenhe de masmorras, edificado em sítio forte, ia ficar ermo e ser
trocado pelo palácio assente na praça mais ampla da cidade, no vale mais
amenom serpenteado por mansos regatos, que só davam viço ao vergel.
A grande revolução artística tomara arraiais em Florença e, pouco a
pouco, ia conquistando os estados limítrofes. A Lombardia, vizinha
daquele centro artístico revolucionário, resistiu por muito tempo à
influência dos novos princípios. Outros estados, em que se achava
dividida a península itálica, pretenderam ligar a velha à nova arte, e
com as linhas arquiteturais dos dois sistemas formaram um estilo híbrido,
que quebrava toda a subordinação às duas escolas, não satisfazendo os
preceitos da velha, nem da arte renascida, deixando a descoberto as
suturas, que não deviam aparecer ferindo a vista do que buscava a beleza
harmoniosa.
A Itália, bebendo da Grécia o gosto do belo, tornara-se a pátria das
artes, e o génio artístico tomou por tal modo posse daquela raça
escolhida, que nem as desordens e calamidades, que por muito tempo lhe
pesaram, pôde destruir. À aptidão de seus filhos, à índole comercial das
repúblicas, que lhe alcançaram riqueza, auxiliadas pela situação do país,
deve a Itália o florescimento das artes no cair da Idade Média.
Os Medicis, os Sforza, os Malatesta, os duques de Urbino, os opulentos
banqueiros, os papas, os prelados das casas religiosas ricas, as
administrações das catedrais, todos à porfia auxiliavam o desenvolvimento
das artes, construindo luxuosos palácios, sumptuosos templos e outras
soberbas edificações, e para cada uma destas obras chamava-se uma coorte
de artistas desse exército numeroso, disperso por toda a península.