A morte de Luiz Garcia foi uma complicação mais. Passados os primeiros
dous mezes, Jorge pensou em realisar o casamento, sem apparato, como um
simples acto de interesse domestico, aliás necessario pela situação
em que se achavam as duas senhoras. O Sr. Antunes fora morar com ellas,
e era o chefe natural da familia; mas Jorge não esquecera que Luiz
Garcia nenhuma confiança tinha na pessoa do sogro; demais, entregara
directamente a Jorge a chefia da casa. Ora, cumpria legalisar e
sanctificar a designação do moribundo.
Mas, se isto lhe parecia claro e necessario, não se atrevia ainda assim
propôl-o á noiva, e por duas razões. A primeira era o natural
respeito á dor da filha, que elle podia magoar ainda mais falando-lhe
desde logo no casamento. Era a segunda a frieza e o silencio com que
esta o tratava depois da morte do pae. A differença era positiva e
inexplicavel; mas a boa fé explica tudo, e Jorge attribuiu essa nova
feição da moça ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara. Sabia
da paixão filial de Yayá; era testemunha dessa adoração constante,
que parecia contar com a eternidade da vida.
A ideia de falar a Estella apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a sem
esforço. Limitou-se a esperar, e ia alli com a assiduidade que lhe
permittia a condição de noivo. Ia ás noites, não todas; passava uma
ou duas horas, a atar e desatar uma conversação frouxa, muita vez sem
interesse. Sobre todos tres, mas principalmente sobre as duas, pesava
ainda a lembrança do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas
conversações intimas, e era elle quem forcejava por lhes dar a perdida
animação; temperava-a com algum dito folgazão, ouvido com
indifferença, quando não com tedio. Posto que o casamento de Jorge com
a enteada da filha estivesse tratado, elle nutria a esperança de que
alguma cousa o viria desfazer, e nessa carta incerta jogava todo o
futuro.
Uma noite, Jorge propoz directamente a Yayá a necessidade de apressar o
casamento.
Não sendo a ceremonia publica, disse elle, não daremos que falar aos
outros, se alguma cousa ha que falar...
--Quer a minha resposta hoje mesmo? interrompeu Yayá.
--Podia ser hoje.
Estella que estava presente, apoiou a reflexão de Jorge.--Convem
decidir quanto antes, disse ella; não vale a pena deixar passar mais
tempo sem utilidade.
--Sem utilidade, repetiu Yayá olhando para o tecto.
--Decerto...
Yayá baixou os olhos aos dous; fitou-os a um e outro, longo tempo, com
severidade; depois, retorquiu em tom rispido:
--Deixem-me ao menos o tempo de chorar meu pae!
Jorge proferiu algumas palavras de affeição; Estella não protestou
nem retorquiu; erguendo-se silenciosamente e deixou-os. O silencio foi
longo. Jorge não tomara á má parte a supplica da noiva; attribuiu-a
ao sentimento de piedade filial, que era nella mais forte que qualquer
outro.
--Yayá, disse elle, ninguem lhe nega o direito de chorar seu pae; se
insistimos é em beneficio da familia. Seu pae recommendou-me que
olhasse pelos seus, e eu quizera poder fazel-o, não como extranho, mas
como parente; por isso lembrei a conveniencia de realisar o casamento
quanto antes, mas se lhe parece que pode ser addiado...
--Pode.
--Até quando?
--Até um dia.
--Que dia?
--Sabbado de Alleluia, por exemplo.
--Falemos serio, disse Jorge.
--Serio? Dia de S. Nunca.
Jorge franziu a testa.
--Que quer isso dizer? Retira a sua palavra? Em todo o caso, tenho
direito de saber o motivo, porque algum motivo ha de haver...
Yayá tinha-se levantado, pegou-lhe na mão e levou-o até á janella. O
transtorno das feições era visivel; os olhos luziam de impaciencia,
emquanto a palavra parecia medrosa e recalcitrante. Pasmado do que via,
e curioso do que ella lhe iria dizer, Jorge não pensou sequer em a
aquietar; se lhe pegou nas mãos foi por um movimento instinctivo; mas
quando as sentiu geladas e tremulas ficou atterrado.
--Que tem Yayá? Você padece; vamos, fale, diga-me tudo. Já me não
ama?
--Se o não amo! disse vivamente a moça deitando os olhos ao ceu, como
a tomal-o por testemunha da sinceridade de seu coração; mas logo
depois arrependeu-se e continuou de um modo compassado e frio.--Amei-o;
não importa saber se muito ou pouco, mas amei-o. O senhor foi a
primeira pessoa que me fez bater o coração de um modo differente do
que elle batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas, que
me fizeram bem...
Jorge lançou-lhe o braço a cintura e conchegou-a ao coração.--Pois
sim, disse elle; eu repetirei essas palavras em todo o resto da nossa
vida. Seja boa, e sobretudo seja franca. Para que ha de negar o que se
está vendo? Eu sei que ainda me ama...
--Eu? disse a moça deslaçando-se-lhe dos braços. Eu tenho-lhe horror.
Jorge sorriu.--Horror, por que? disse elle. Mas o gesto da moça veiu
apagar-lhe o sorriso começado. Yayá levara as mãos ao seio, como se
quizera conter os impetos do coração; os olhos luziam-lhe de
extraordinario fulgor. Offegante, por alguns minutos, não pode
articular uma só palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:
--Que razão ha agora para que nos casemos? E depois de uma
pausa:--Tenho ciumes do passado, e o senhor amou já uma vez. Assim como
eu ia entregar-me ao senhor, com o coração limpo de qualquer outro
affecto, assim quizera que o senhor nunca houvesse amado a ninguem. Que
é o seu coração para mim? Um sobejo de outra; talvez nem isso; esse
mesmo resto não me pertence, não é meu; fiquemos neste ponto, e tome
cada um de nós a sua liberdade.
Yayá recusou outra explicação, aliás desnecessaria; a linguagem era
transparente. Jorge saiu dalli com o espirito transtornado e confuso. O
motivo da recusa, para ser sincero, era pueril ou romanesco demais;
nenhuma noiva teve ciumes de um amor anonymo e extincto; logo, a
allusão de Yayá não era vaga e sem objecto, mas ia direito á pessoa
de Estella. Seria isso? Jorge não queria crer e mal podia duvidar.
No dia seguinte, acabado o almoço, appareceu-lhe o pae de Estella.
--Yayá manda-lhe isto, disse elle saccando da algibeira uma carta.
Jorge recebeu-a presurosamente e abriu-a; leu estas palavras
unicas:--«Não posso ser sua mulher; esqueça-me e seja feliz.»
Empallideceu; tornou a ler a carta, sem a entender, posto que ella não
fosse mais do que a formula escripta e secca do que Yayá lhe dissera na
vespera. Mas entre as queixas e effusões de uma hora de desanimo e
aquella intimação, havia um abysmo; a carta trazia o cunho da
resolução definitiva, que elle não achara ou não quizera achar nas
declarações verbaes da moça.
--Yayá deu-lhe isto agora mesmo?
--Antes do almoço, respondeu o Sr. Antunes, cujo olhar forcejava por
soletrar no rosto de Jorge algumas linhas do drama que suppunha haver
lá dentro.
--Não lhe parece que Yayá anda triste? perguntou Jorge no fim de um
minuto.
--A morte do pae prostou-a muito.
Jorge foi dalli ao gabinete; o Sr. Antunes acompanhou-o. A
preoccupação do moço era uma chuva benefica ás esperanças do pae de
Estella, que todas pareciam reflorir. Como este falasse da filha com a
prolixidade astuta do pretendente, Jorge attentou n'uma ideia, que a
principio lhe pareceu absurda, mas com a qual se familiarisou a pouco e
pouco; mordeu-lhe o coração a suspeita de que o procedimento de Yayá
era uma desforra de Estella, uma como vingança posthuma. O inexplicavel
da carta podia justificar até certo ponto essa suspeita sem fundamento
nem verosimilhança, que afinal acabou por não achar nenhuma repulsa na
consciencia delle.
Duas horas depois Jorge escrevia estas poucas palavras á viuva de Luiz
Garcia:
«Yayá mandou-me ha pouco o incluso bilhete. Peço-lhe o favor de uma
explicação.»
A carta de Yayá fora escripta naquella manhã, depois de uma noite de
agitação e luta. Nem foi a unica. Yayá escrevera outra, menos
laconica, a Procopio Dias. Morto o pae, esse homem fora alli tres vezes,
sem trocar com a moça uma só palavra relativa á extranha confidencia
que lhe fizera antes. Eram visitas de meia hora, não mais; durante esse
curto lapso de tempo, Procopio Dias não discrepava um instante da
gravidade um pouco triste que adoptara. Não era o folgasão primitivo,
mas tambem não era um poeta desesperado e pallido; ficava a egual
distancia de um e outro modelo. Os acontecimentos pareciam
aconselhar-lhe uma discreta ausencia; mas, além de não ter melindres
nem escrupulos, floria-lhe no peito a esperança, a esperança tenaz dos
cabiçosos. Não a sussurrava ao ouvido da moça, nem a ostentava nos
olhos, na compostura, nos meneios, todos elles impregnados da submissão
de uma alma desenganada e passiva. Yayá tratava-o com bondade, já
agora mais constante; posto não lhe passasse pela cabeça a ideia de
vir a desposal-o, não lhe destoava o aspecto dessa paixão resignada e
muda.
Depois de soltar a palavra decisiva, Yayá entendeu que lhe devia dar a
forma ultima, desligando-se da solemne promessa. Não o fez sem muita
lagrima solitaria. A pobre creança amava o filho de Valeria com a
singeleza de um coração quasi adolescente, e só então mediu todo o
imperio que elle adquirira sobre ella. Mas duas circumstancias a
induziam ao desfecho; era a primeira a revelação de Procopio Dias,
confirmação de suas suspeitas; a segunda foi o espectaculo que se lhe
offereceu aos olhos, naquella noite, logo depois de se despedir do
noivo. Sabendo que a madrasta estava no gabinete do pae, alli foi ter e
espreitou pela fechadura; viu-a sentada com a cabeça inclinada ao
chão, desfeito o penteado, mas desfeito violentamente, como se lhe
mettera as mãos em um momento de desespero, e caindo-lhe o cabello em
ondas amplas sobre a espadua, com a desordem da peccadora evangelica.
Yayá não a viu sem que os olhos se humedecessem.
--Que se casem! disse a moça resolutamente.
Desligando-se da promessa feita, Yayá reflectiu que ia ficar só, e que
precisava forçosamente de um amparo; foi então que lhe lembrou
Procopio Dias. Não encarou a ideia sem repugnancia; acceitavel na
palestra, Procopio Dias era-lhe antipathico para a convivencia conjugal.
Não o podia amar, e, uma vez resoluta a acceital-o, começou logo de o
aborrecer. Que muito? Era um marido; não exigia outro merito. A carta
que lhe escreveu não saiu de um jacto, foi trabalhada e repizada; o
texto definitivo dizia que fosse alli sem demora para lhe falar de
objecto que interessava á felicidade de ambos. Isto, e nada mais que
uma lagrima, que lhe resvalou dos cilios no papel como um protesto contra
o que ia nelle escripto.
Raymundo, chamado para levar essa carta, recebeu-a depois de alguma
hesitação. Olhou para o papel e para a sinhá moça. Depois sacudiu a
cabeça com um ar de duvida. Yayá simulou não ver nada, mas o gesto do
preto impressionou-a. Ia affastar-se, Raymundo reteve-a dizendo:
--Yayá me desculpe... esta carta... Raymundo não gosta de falar
áquelle homem.
--Não lhe fales; basta deixar a carta em casa delle.
Raymundo não insistiu; acompanhou com os olhos a filha de seu antigo
senhor, abanando a cabeça com o mesmo ar de alguns momentos antes.
Depois olhou para a carta, como se quizesse adivinhar o que ia dentro.
Não era só presentimento, mas tambem deducção do que elle via
naquellas ultimas semanas. Tinham-lhe dado noticia do casamento;
falara-se nisso todos os dias antes da morte de Luiz Garcia. Morto este,
cessou toda a allusão ao projecto, que parecia dever executar-se dentro
de pouco tempo. O coração do preto dizia que aquella carta era alguma
cousa mais do que um recado sem consequencia. Quiz leval-a a Estella;
mas rejeitou o expediente, por lhe parecer infidelidade. Dez minutos
depois saiu em direcção á casa de Procopio Dias.
Entretanto, chegavam ás mãos de Estella o bilhete de Jorge e o de
Yayá. A viuva não podia crer o que lera. A carta da enteada era um
acto de insubordinação, inexplicavel na essencia e na forma: e se essa
carta a fez pasmar, a de Jorge fel-a gemer. O noivo desenganado recorria
á intervenção de Estella. A primeira amada desse homem era agora a
sua confidente, a quem elle escrevia sem saudade, sem remorso, talvez
sem hesitação.
--Sogra! concluiu Estella com amargura; e erguendo os olhos do papel
para o espelho, que pendia da parede fronteira, contemplou caladamente
as suas graças ainda em flor. Yayá entrou nessa occasião. A madrasta
chamou-a ao pé de si, e mostrando-lhe o bilhete que escrevera ao noivo,
perguntou-lhe o que queria dizer aquillo. A enteada ficou silenciosa
durante alguns segundos; mas a resolução deu-lhe força e
tranquillidade.
--Quer dizer o que ahi está escripto, respondeu ella; não posso casar
com o Dr. Jorge.
--Porque?
--Não posso.
--Porque? repetiu Estella com autoridade.
--Amo a outra pessoa.
--Não creio; tem de certo outro motivo.
--Que motivo?
--Nenhum que seja sensato, acudiu a madrasta, mas algum ha de haver, que
não seja esse. O passo que deu é grave; não é proprio de uma moça
obediente; chega a ser contrario á cortezia. Não importa; tudo se pode
explicar; explique-me esta carta.
Yayá não obedeceu á intimação da madrasta, e para tirar á recusa
qualquer apparencia offensiva, conservou um ar de modestia e
resignação. Estella não se deu por vencida; demonstrou-lhe que só um
motivo grave podia justificar semelhante procedimento, e que era
forçoso dizel-o ao noivo; lembrou-lhe finalmente a estima que sempre
houvera entre Jorge e o pae. Neste ponto Yayá estremeceu e fitou na
madrasta uns olhos que não eram os de pouco antes. Parecia-lhe
sacrilegio evocar o nome do pae. Não se pode ter; deu um passo e
interrompeu-a com sequidão:
--Não posso casar, porque a senhora gosta delle.
Estella, que já então estava sentada, ergueu-se de golpe ao ouvir esta
subita e inesperada explicação. A face pallida, que o traje de viuva
ainda mais empallidecia, tingiu-se de uns longes de vermelho. Podia ser
confusão ou indignação. Durante uma pausa relativamente longa, Yayá
não tirou os olhos da madrasta. Essas duas lampadas buscavam
examinar-lhe, no momento supremo todos os recantos da consciencia, e
todos os atalhos do passado. Não disse nada, para melhor gozar do abalo
que acabava de produzir em Estella; era o juro do sacrificio. Mas
Estella sentou-se dahi a pouco, e foi a primeira que rompeu o silencio.
--Tu estás maluca, disse ella tranquillamente. Quem te metteu
semelhante ideia na cabeça?
--Não examinemos agora quem foi ou o que foi que me fez adivinhar a
verdade, respondeu Yayá; basta saber que decidi romper o casamento, que
o mandei dizer ao Dr. Jorge, e que talvez dentro de poucos dias outra
pessoa lhe pedirá minha mão.
Estas palavras transtornaram de todo a viuva, que, atonita e irritada,
deu alguns passos na sala, buscando conter a explosão de seus
sentimentos. Yayá foi ter com ella, falou-lhe com brandura e
submissão.
--Não se zangue, mamãesinha, se lhe não disse antes o que fiz agora
mesmo; estava certa de que approvaria, ou me perdoaria, quando menos. O
homem de que lhe falo ama-me, e a senhora mesma não rejeitou a ideia de
me ver casada com elle.
--Não tens culpa da imprudencia que commetteste, disse Estella; porque
antes disso tinhas perdido a razão. Vem cá; disseste-me ahi uma
palavra absurda, e é preciso que me digas outra com que expliques a
primeira. Porque eu gosto delle? continuou depois de alguns
instantes. Que quer dizer com isso?
Yayá curvou a cabeça.
--Fala!
--Não direi nada; essa palavra explica tudo. Se gosta como eu creio, é
a sua felicidade que lhe trago, não digo a troco da minha, porque seria
lançar-lhe em rosto o sacrificio, mas a troco de uma illusão, e nada
mais. Não pense que lhe quero mal; não posso querer mal a quem me tem
ou teve alguma affeição e substituiu dignamente minha mãe. Se lhe
quizesse mal, é provavel que não fizesse o que fiz.
Em quanto falava a enteada, Estella tinha a fronte inclinada e
pensativa; attitude em que se conservou ainda durante algum tempo.
--Bem vê que acertei, disse Yayá; seu silencio confirma a minha
supposição.
--Eu! exclamou Estella estremecendo. Tu não entendes nada dos
sentimentos, não conheces o coração. Eu amal-o? eu? Não! não é
possivel!
--Talvez não, mas o que está feito, está feito.
A madrasta quiz retel-a, mas não pode; Yayá saiu sem dizer nada.
Estella ficou atordoada, confusa e até medrosa; reboavam-lhe aos
ouvidos as palavras de Yayá, não como um som exterior, mas como o
brado da propria consciencia. Venceu o abatimento, reagiu depressa como
lh'o pediam as circumstancias e a propria necessidade de sua natureza.
Não teve tempo de cogitar no modo por que a enteada chegara a suspeitar
um sentimento que ella recalcara no coração. Urgia reparar o mal feito
pela imprudencia da moça. Estella dispoz-se a responder desde logo á
carta de Jorge, e não sabia ainda claramente o que lhe havia de dizer.
Tratou primeiro de chamar Raymundo, e vendo que elle não acudia foi ter
com Yayá.
--Raymundo foi levar uma carta minha ao Procopio Dias, respondeu esta.
Estella caiu n'uma cadeira. Pela primeira vez, alumiou-lhe o espirito
uma ideia cruel: a ideia de que a suspeita de Yayá fosse mais do que
uma simples e innocente conjectura. Os olhos que lançou á moça ardiam
de indignação. Cobriu-os depressa, não para chorar, mas para fugir
aos da outra. O olhar de Estella fez vacillar por um instante a
convicção da enteada; a colera pareceu-lhe sincera e até excessiva;
mas o gesto que se lhe seguiu attenuou e desvaneceu a primeira
impressão. Yayá suppoz ver na attitude da madrasta uma confissão
involuntaria, uma expressão de abatimento e desespero, como de pessoa
que entrevê a felicidade propria e julga dever sacrifical-a á de
outrem. Era generosa. Caminhou para ella, dobrou as curvas, pousou-lhe
no regaço os braços, tremulos de commoção; com as mãos desviou as
de Estella e fitou-lhe os olhos, que estavam sombrios.
--Fui estouvada, confesso, disse ella; devia tel-a consultado antes de
fazer o que fiz. Mas eu temia a sua opposição, e não queria tornal-a
desgraçada. Sou mais moça que a senhora; se tivesse de consolar-me,
consolava-me despressa. Mas não tenho; não amava; cedi a um capricho,
e não sinto a menor dor ao despedir-me delle. Ande, perdôe-me; e
esteja certa de que não a amarei menos do que até agora.
Ergueu-se e procurou beijal-a. A madrasta recuou instinctivamente a
cabeça; era um resto de repugnancia, que a physionomia ingenua e pura
de Yayá para logo dissipou. Em tão verdes annos, sem nenhum trato
social, era licito suppôr na menina tamanha dissimulação? Estella
concluiu que a acção da enteada vinha, não de uma supposição
ultrajante, mas de um impulso desinteressado. Qualquer que fosse o
fundamento da suspeita, o procedimento da enteada trazia o cunho da
candura e da boa fé; assim pensando, Estella sentiu desopprimir-se-lhe
a alma. Não era generosa,--ou tinha sómente a generosidade fria e
altiva, que nasce da soberba. Mas não era insensivel, e o desinteresse
da menina tocou-lhe profundamente o coração. Inclinou-se para ella,
tomou-lhe a cabeça entre as mãos e fitou-a, com um olhar severo e
maternal ao mesmo tempo.
--Perdoo-te, disse finalmente, porque não sabes o que fizeste. A
intenção é que te salva do meu odio; digo mal, do meu desprezo. Se
queres medir bem a profundidade do abysmo que acabas de cavar, fica
sabendo que me injuriaste, pensando servir-me, e que o resultado do teu
erro pode talvez arrancar-te lagrimas amargas e inuteis. Teu castigo
será que só eu os enxugarei;--ouves bem? só eu.
Dizendo isto, soltou a cabeça da enteada com um gesto rispido, em que
havia ainda um pouco de irritação. Yayá estava pallida. Sentiu na
palavra secca e fria da madrasta um alento de indignação sincera; e a
alma caiu-lhe prostrada, mais ainda do que o corpo, que não podendo
suster-se, procurou amparar-se no movel que achou mais proximo. A
duvida, que já antes atravessara o espirito da moça, começou a
invadil-o. Yayá fitou Estella com o mais agudo de seus olhares,
acompanhou-a de um lado para outro, por que a madrasta, logo depois das
palavras que lhe disse, entrara a andar e a reflectir. Se a viuva era
sincera, Yayá acabava de fazer gratuitamente a sua propria desgraça;
foi o que a moça pensou. No atordoamento moral em que esta hypothese a
lançou, Yayá achou-se entre dous desejos, mal definidos, mas
inteiramente oppostos um ao outro. Quizera e não quizera ter-se
enganado; aspirava a conciliar o coração e a consciencia. Seu espirito
evocou a hora inicial da suspeita,--aquella funesta manhã, em que a
carta de Jorge foi lida por Estella; recordou o gesto da madrasta, o
tremor, a lividez, os vivos symptomas da consternação, do medo ou do
remorso. Seria engano aquillo? não era evidente que elles se haviam
amado, que se amavam ainda naquella occasião; e, dada affirmativa, era
acaso impossivel que Estella, ao menos, o amasse ainda hoje?
Yayá ateve-se a esta conclusão, embora confirmasse a ruina de suas
esperanças; a conclusão, porém, contrastava com a impassibilidade da
madrasta. Já então perdera Estella o alvoroço do primeiro momento.
Depois de alguns minutos de reflexão, parara em frente da enteada. Era
difficil ver na attitude quieta, no aspecto de matrona severa e digna
alguma cousa que se parecesse com as ancias, o triumpho ou o abatimento
de uma rival. Yayá deixou-se estar deante della, a fital-a e a
revolvel-a. A porção da alma que transparecia do rosto da viuva era
tão fria, tão indifferente, que mal se podia combinar com o sentimento
que Yayá lhe attribuia. Foi o que esta pensou ver com seus olhos
finamente sagazes; e no meio desse contraste entre o aspecto presente e
a revelação passada, Yayá acabou por não saber definitivamente onde
ficava a verdade, e esteve a ponto de lh'a pedir de joelhos.
Achavam-se então no gabinete de Luiz Garcia, defronte da secretaria,
onde o finado encontrara, com outros papeis, a carta que dera logar ás
conjecturas de Yayá. Não havia mudança nem no numero nem na
disposição dos moveis. Só a luz era differente, porque a daquelle dia
era viva e clara, coada atravez de uma atmosphera serena, como a vida
anterior dessa familia, ao passo que a de hoje vinha turva e meia
apagada pelas nuvens de um ceu chuvoso e triste. Na longa pausa que
houve entre a madrasta e a enteada, os unicos sons que se ouviam eram o
rufar da chuva na folhagem do jardim e o tic-tac de um relogio de
parede.
--Escuta, disse finalmente Estella; se alguma razão tens para crer que
amo esse homem, é necessrio mostrar-te a realidade das cousas.
Estella abriu duas ou tres gavetinhas da secretaria, e depois de alguma
busca entre os maços de cartas que ahi encontrou, tirou uma, abriu-a e
deu-a á enteada. Yayá recebeu-a com as mãos tremulas de curiosidade;
leu-a toda; devia ser a mesma que o pae mostrara á madrasta.
--Essa moça era a senhora? murmurou ella como se ainda esperasse
resposta negativa.
--Era eu.
Yayá deixou-se cair n'uma cadeira raza, a mesma em que Estella estivera
sentada, quando ouviu a confidencia do marido.
--Vês? disse Estella; foi por mim que elle fez o sacrificio de ir para
a guerra, sem esperança de ser retribuido nem de contar um dia com a
minha gratidão. Foi para a guerra, lutou, padeceu, fiel ao sentimento
que o tinha levado, até o ponto de o crer eterno. Eterno! Sabes quanto
durou essa eternidade de alguns annos. É duro de ouvir, minha filha,
mas não ha nada eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas
paixões morrem com o tempo. Um homem sacrifica o repouso, arrisca a
vida, affronta a vontade de sua mãe, rebella-se, e pede a morte; e essa
paixão violenta e extraordinaria acaba ás portas de um simples namoro,
entre duas chicaras de chá...
--A senhora não o amou nunca? interrompeu Yayá, ao sentir o tremor e o
despeito com que a madrasta proferira as ultimas palavras.
--Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estella. Eu era
humilde e obscura, elle distincto e considerado; differença que podia
desapparecer, se a natureza me houvesse dado outro coração. Medi toda
a distancia que nos separava e tratei simplesmente de evital-o. Foi
então que elle embarcou; interiormente approvei-o. Talvez lhe não
neguei um pouco de compaixão silenciosa, mas nada mais. Casamento entre
nós, era impossivel, ainda que todos trabalhassem para elle; era
impossivel, sim, porque o consideraria uma especie de favor, e eu tenho
em grande respeito a minha propria condição. Meu pae já me achava, em
pequena, uns arremeços de orgulho. Como querias tu que, com tal
sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente superior a mim? Era
preciso dar-me outra indole. Todas as felicidades do casamento achei-as
ao pé de teu pae. Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e
por isso acertada. Não tínhamos illusões; pudemos ser felizes sem
desencanto. Teu pae não tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais
timido que orgulhoso. Qualquer que fosse a razão do seu desapego ao
mundo, bastava que o tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns
annos de inteiro isolamento, sem conhecer o amargor, que é o que fica
no fundo da vida, sem necessidade da dissimulação... Minto; tive
necessidade de fingir, desde que aquelle homem aqui appareceu; era
necessario. Um dia teu pae mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão
encoberta que ahi se conta; podes imaginar se ouvi tranquilla. Mas fóra
desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? Não vi
nenhuma porta abrir-se-me por obsequio, nenhuma mão apertou a minha por
simples condescendencia. Não conheci a polidez humilhante, nem a
afabilidade sem calor. Meu nome não serviu de pasto á natural
curiosidade dos amigos de meu marido. Quem é ella? donde veiu? Ninguem
me perguntou donde vinha, não é verdade? Perguntaste-me quem era eu?
Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe, e eu amei-te, como se foras
minha filha. E para isso bastou-nos estender os braços; não foi
preciso descer nem subir.
--Não foi, bradou Yayá commovida, apertando-lhe as mãos.
--Já vês quem eu era e sou; uma especie de animal feroz, que prefere a
charneca ao jardim. Não me senti lisongeada com a paixão que inspirei;
rejeitei, talvez, um marido digno das ambições de qualquer mulher. Era
isto o que querias saber? Pois ahi tens a minha historia, a historia,
dessa carta, que já agora podemos rasgar...
Estella pegou na carta e rasgou-a lentamente, em pedaços miudos,
emquanto a enteada reflectia nas revelações que acabava de ouvir. A
madrasta deitou os fragmentos do papel á cesta.
--Resta concertar a imprudencia e casar, disse Estella dando á palavra
um tom galhofeiro.
--Não sei! murmurou Yayá. O que a senhora me disse é grave; não ha
sentimentos eternos. Parece que depois de tamanha paixão, qualquer
outro affecto não terá longa vida.
--Porque não? Não has de querer agora uma paixão, que o leve á
guerra; seria um desastre. Mas está nas tuas mãos fazer que elle te
ame sempre e muito.
Yayá reflectiu um instante.
--Jure-me que o não ama!
Estella franziu o sobr'olho; depois mostrou-lhe o bilhete que Jorge lhe
escrevera pouco antes, e cuja redacção dissiparia á moça qualquer
duvida em relação ao noivo. Era uma evasiva para lhe não confessar
nem mentir. A primeira vez que lhe negara o amor, foi antes um grito do
coração que queria enganar-se a si proprio: agora preferia calar-se. A
certeza da isenção de Jorge importava muito mais que a de Estella; a
alma de Yayá no primeiro instante, respirou á larga. O respeito que
tinha á madrasta, e um pouco de ciume retrospectivo que a mordia, ao
pensar naquella paixão tão violenta e tão desenganada, empeciam á
moça qualquer outra manifestação. Quando se achou a sós comsigo,
levava o espirito arejado da suspeita que o opprimira durante largos
mezes; mas o vento que o lavou das sombras, lá lhe queimou algumas das
flores desabotoadas ao calor do primeiro sol. A felicidade tinha um
travo de desgosto e humilhação; o coração tremia de medo.
Quando mais absorta estava nesse contraste de sensações, viu Raymundo
transpor a porta do jardim.