A fronte de Estella não tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia
no coração, como um mau hospede; e o espectaculo daquelles ultimos
mezes não fizera mais do que irrital-o. Mas a força moral de Estella
subjugou-o. A luta fora longa, violenta e cruel; a consciencia do dever
e o respeito de si propria acabaram vencendo. Talvez não fosse difficil
perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cançasso que deixam as
grandes tempestades moraes. A tempestade ninguem lh'a viu.
Não obstante, no dia em que a paixão dos dous lhe pareceu evidente,
Estella sentiu rugir-lhe no coração um vento de colera; vento forte e
instantaneo. Dessa vez, o olhar penetrante de Yayá não pode ler no
fundo da alma da madrasta; e por ventura lhe diminuiu a suspeita, quando
a viu contemplar sem irritação nem abatimento a situação nascida de
seu esforço unico.
Entretanto, a molestia, que solapava a existencia de Luiz Garcia,
aggravou-se por aquelle tempo, e o enfermo foi compellido a pedir alguns
mezes de licença. Chamado a vel-o, o medico reconheceu que a
enfermidade tocava ao desenlace, e com a enfermidade a vida. Não o
disse á familia, mas não o escondeu de Jorge, quando este directamente
lh'o perguntou.
--Está condemnado á morte, disse elle; a molestia devorou-o
lentamente, mas com segurança. Pode viver dous a tres mezes.
Jorge ficou atterrado, Os acontecimentos tinham tomado tal feição, que
elle já pedia a vida de Luiz Garcia. Quem lh'o dissera alguns annos
antes? Não sómente padeceria com a morte do enfermo, mas teria de ver
padecer Yayá, de cuja adoração filial era testemunha, e chegava a
receiar que o golpe lhe fosse fatal. Nada disse; affectou tranquillidade
e indifferença, mas entendeu que os successos o designavam a proteger a
familia e dispunha-se a assumir esse papel, quando fosse occasião.
Estella não receiou menos do que na molestia anterior; mas dessa vez
não interrogou Jorge, com quanto o visse falar ao medico. Nos ultimos
tempos, o seu silencio era mais continuo e habitual. Parecia
desinteressada de tudo, menos do marido. Suspeitou da gravidade da
molestia, interrogou o medico, e ouviu deste palavras de esperança:
--Não lhe peço esperanças illusorias, disse Estella; peço-lhe que me
diga toda a verdade.
--A verdade é cruel de dizer.
--Perdido? disse ella com voz surda.
O silencio do medico foi a confirmação d'aquella palavra. Estella
sentiu fugir-lhe todo o sangue; mas não soltou uma lagrima. Pode
reflectir no perigo de ser vista essa denuncia do mal, e dominou-se.
Quando se achou só comsigo, deu livre campo ás angustias; encarou a
catastrophe e pensou nas consequencias da morte e no incerto futuro que
a aguardava dentro de poucos dias. O futuro trouxe-a ao presente, o
presente levou-a ao passado. A vida só lhe dera alegrias medias e dores
maximas. Não foi a paixão que a levou ao casamento, mas sómente a
conveniencia e o raciocinio. No casamento achara os sentimentos de
apreço, a mutua consideração, a brandura das relações domesticas;
esse fogo, porém, cuja intensidade não dura, mas que é o férvido sol
dos primeiros dias, precursor necessario da tarde repousada e da noite
tranquilla, esse fogo, essa fusão de duas existencias, esse ardor
expansivo, condição de sua natureza moral, não os conheceu Estella.
Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar no casamento a paixão
sanctificada. Pois bem, se alguma cousa podia compensar-lhe a falta, era
a longa duração de uma felicidade segura, embora tibia; era
envelhecer sob a monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O
destino negava-lhe a compensação.
Não tinha Estella ao pé de si com quem repartisse as tristezas. O pae
seria o ultimo de todos. A viuvez deixal-a-hia sem familia. Esta ideia
trouxe outra,--a de apressar o casamento da enteada, de modo que nenhum
vinculo moral lhe sobrevivesse ao marido. Uma noite, tendo Luiz Garcia
adormecido, Estella deu a perceber á enteada que o estado do pae era
grave. Yayá empallideceu. Jorge fez um gesto de reprovação.
--A molestia não é leve de certo, disse este; nas não se segue dahi
que se deva...
--Tudo se deve prever, tornou Estella. Pela minha parte, entendo que
prevenir um caso fatal não é fazer com que elle se dê. Yayá sabe o
amor que lhe tem seu pae; seria para elle uma fortuna poder abençoal-a.
Vamos lá, continuou ella, pegando nas mãos de um e de outro, por que é
que se não casam?
Momentaneamente acanhados, nenhum delles assentiu nem recusou. Yayá
olhava espantada para a madrasta.
--O silencio é uma maneira de responder, continuou esta; querem dizer
que concordam commigo, não é? Nesse caso, seremos tres para fazer a
cousa mais simples do mundo, que é casar duas creaturas, que se amam...
Porque não a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro
de poucos dias, á capucha, cousa simples...
Yayá tinha emfim sahido do primeiro instante de estupefacção.--Mas,
papae, está mal? disse ella.
--Todos nós estamos mal, apezar de termos saude, respondeu Estella;
n'um dia cae a casa. A doença delle é grave, é coração...
--Tem razão, interveiu Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias,
duas semanas, quando muito, ou tres.
Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção de Estella.
Conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava essa
impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois
examinou-se a si proprio; sentiu que o amor que o dominava agora, posto
fosse profundo, não era violento, não lhe queimava o coração.
Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, não
foi importuno; foi antes licção e philosophia. Mentalmente sorriu. Era
elle o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto ás soluções tragicas;
agora, com egual sinceridade, entregava o coração a outra mulher. Na
fronte desta mal ousara roçar um osculo medroso e casto, elle, que
fizera a scena da Tijuca. O homem não era o mesmo. Embora a isenção
presente, Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria
sem amargura, mas com um travo de melancolia.
--Aquelle orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia elle.
No dia seguinte, Procopio Dias veiu accordal-o em casa.
--Quando chegou? perguntou Jorge.
--Hontem de tarde, a primeira visita que faço é esta. Demorei-me mais
do que queria; mas emfim cá estou,--cá estou, e mais magro. O senhor
é que me parece mais gordo.
Procopio Dias falou compridamente da politica argentina e da
magistratura de Buenos-Ayres; falou tambem um pouco das mulheres
platinas. De quando em quando, abria um claro, como para deixar que o
outro intercalasse alguma cousa menos extrangeira; Jorge, porém, falava
pouco e sem appetite; o constrangimento delle foi visivel quando
Procopio Dias o interrogou, acerca da familia de Luiz Garcia;
respondeu-lhe sem interesse. Procopio Dias fitou-o durante alguns
segundos; as rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.
--E Yayá! disse elle; parece-lhe então que nenhuma esperança...
Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz
explicativo. Procopio Dias começou a farejar a realidade, mas nenhuma
das linhas do rosto denunciou a impressão que esta lhe causara. Após
um silencio largo, entrou a rir de bom humor.
--Quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle. Saiba que volto curado.
Quando penso na molestia tenho vergonha; é verdade, tenho vergonha da
figura que fiz. Já sou muito maduro para cavallarias altas. A doença
ainda me durou algum tempo; sarei com a mudança de clima; o amor, ao
menos na minha edade, é uma especie de beri-beri... Hade ter-se rido de
mim; é justo, porque eu não faço hoje outra cousa.
Jorge contestou com um simples gesto; mas Procopio Dias falava com tanta
naturalidade, ria com tamanha franqueza, que a explicação deu á
conserva a vida que ella tendia a perder. Jorge foi mais expansivo, mais
alegre; não lhe confiou a nova situação, mas o segredo parecia
debruçar-se-lhe das palpebras e dos cantos da boca. Essa alegria era um
respiro da consciencia, que se sentia um pouco vexada em presença
daquelle homem, cuja confiança fora a origem de seu recente amor; era
tambem a satisfação de não ter conseguido ligal-o á filha de Luiz
Garcia; consorcio repugnante, hybrido, cujo resultado seria dar á moça
uma longa amargura sem certeza de resgate.
Quando Procopio Dias saiu d'alli ia suspeitoso da realidade.--Mas a
outra? dizia elle comsigo. Sacudiu os hombros, e não ficou mais
tranquillo. Levava já no peito um pouco de impaciencia e irritação;
tinha a fronte obscurecida por uma nuvem. Mais tarde allumiou-a um
clarão subito, ainda que frouxo, era um reflexo de esperança. Talvez
houvesse julgado com precipitação: era possivel attribuir a reserva de
Jorge, não á competencia pessoal, mas a uma maneira de entender as
maximas do decoro. Quem sabe? Elle podia ter-se arrependido de haver
permettido tanto. Essa reflexão arejou um pouco o espirito, sem lhe
tirar de lá o miasma corruptor. Era força conhecer a verdade. Nesse
mesmo dia, foi elle a Santa Thereza.
Luiz Garcia concedera n'aquella manhã a mão da filha. Na occasião em
que Procopio Dias alli entrou, tinha-a elle ao pé de si, e
contemplava-a com amor e saude,--duas vezes saudade, porque tambem a
morte os viria desunir. Entre si recordava os tempos em que elle e ella
eram, um para o outro, toda a terra e todo o ceu; e perguntava á
natureza se era justo sobrepor ao primeiro vinculo outro vinculo
extranho, e a natureza lhe respondia que não sómente era justo, mas
até necessario. Então o pae sentia-se feliz com a felicidade da filha,
cujo egoismo lhe ensinava a abnegação. Se ella devia amar a outrem,
que faria elle mais do que ceder? Quanto ao noivo eleito, merecia-lhe
todas as approvações; era o unico extranho que lhe penetrara um pouco
mais na intimidade; amante, bemquisto e opulento, podia dar á moça,
além da felicidade do coração, todas as vantagens sociaes, ainda as
mais solidas, ainda as mais frivolas:--e esse homem obscuro, enfastiado
e sceptico, saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilhão das
cousas, que elle não cobiçara nunca.
Uma noite bastou a Procopio Dias para conhecer a situação. Não
obstante as declarações do pretendente, que acceitou como sinceras,
Jorge buscou dissimulal-a. Se Procopio Dias não tornasse a ver a moça,
é possivel que o tempo lhe abafasse a paixão. Mas viu-a, e viu-a mais
bella do que a deixara.
--E a outra? dizia elle.
Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma ideia comsigo,
deante da qual Procopio Dias chegou a recuar. Esse ideia era envenenar
na propria origem a affeição recente; nada menos que denunciar a
madrasta á enteada. Se alguma cousa pudesse attenuar a perversidade de
semelhante recurso, era a persuasão que elle tinha de que diria a
verdade. Cria deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço
poderia fazer suppôr que o casamento da filha de Luiz Garcia era uma
suggestão da madrasta. Elle proprio achava essa combinação verosimil,
conveniente, reparadora.
--Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo.
A occasião veiu. Um pouco irritada com a assiduidade de Procopio Dias e
a confiança que parecia renascer nelle, Yayá assentou de lhe dizer
francamente que estava prestes a casar. Procopio Dias empallideceu.
Suppunha apenas provavel o que era já definitivo. Olhou longamente para
ella; a extincção da esperança não implicava a extincção do
desejo; pela contrario, vinha pungil-o e açulal-o. Seus olhos mostraram
então duas expressões diversas; a primeira involuntaria, a mesma com
que os dous velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar
terreno e mau; a segunda voluntaria, não de queixa, não de supplica,
mas de lastima. A ideia ruim tornava a arder-lhe no cerebro.
--Não sabia, disse elle, depois de curta pausa. Com quem?
--Com o Dr. Jorge.
--Ah!
Procopio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de
lastima.--Pobre moça! murmurou elle entre dentes. Yayá fitou-o
severamente; depois, sorriu e perguntou com alguma ironia:
--Não approva a escolha?
--A escolha é excellente, disse elle; mas ha circumstancias que fazem
do optimo pessimo. Ouça-me; a senhora sabe que eu a amei; suppõe
talvez que já não a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive
ideia de casar com a senhora; perdi a ideia, mas guardei o sentimento.
Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu cedo
á voz da consciencia, sem calcular com a sua approvação...
Fez uma pausa.
--Acabe, disse a moça.
--Ha cousas que um coração inexperiente não pode entender; cousas que
talvez se lhe não devam referir. Quer um conselho? não acceite o
casamento; desfaça-o, não para casar commigo, mas desfaça-o.
Yayá fez-se pallida. Procopio Dias, pasmado do proprio arrojo,
comprehendeu que havia ido muito longe naquellas poucas palavras; mas
já não havia meio de as explicar de modo verosimil. Como se fizesse um
monologo interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do labio,
emquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vitreo das fortes
concentrações. Yayá olhou para elle atonita e confusa: não sabia o
que pensasse, não podia ou não queria entender. Afinal, collingido
todas as forças, perguntou audazmente porque motivo lhe cumpria
desfazer o casamento.
--Qualquer que seja o motivo, disse elle, não lhe aconselho que o
acceite logo como decisivo. Reflicta antes de resolver; a
responsabilidade será sua, do mesmo modo que o beneficio ha de ser seu.
Meu conselho é que o desfaça.
--Porque muitas vezes o casamento é... é uma mascara, uma... Seu noivo
ama a outra pessoa... Que tem?
Yayá fizera-se livida. Terror, indignação, abatimento, sua alma
passou por todos esses estados, padeceu-os até simultaneamente, sem que
a boca achasse uma só palavra de resposta ou de protesto. A delação
fulminara-a; nunca Procopio Dias chegou a comprehender o motivo de
tamanho e tão subito effeito. O effeito aterrou-o em parte, e em parte
o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da decomposição
moral de todo o seu ser, essa bastou a resentir o golpe que elle mesmo
vibrara.
--Outra... Que outra? balbuciou Yayá segurando-lhe um dos braços.
Procopio Dias abanou a cabeça solemnemnte, como a dizer que não podia
ir mais longe. A esse gesto seguiu-se um silencio largo, durante o qual
a moça pode vencer a primeira commoção e reflectir sobre o que lhe
convinha entender.
--Ama a outra? disse ella. Quem quer que seja essa rival, já agora o
noivo é meu; e é natural que me ame mais do que a ella, visto que
prefere casar commigo...
Não obstante a firmeza que procurava dar á palavra, a palavra era
difficil e a voz parecia morrer-lhe na garganta. Procopio Dias
comprehendeu que a commoção estava apenas dominada, e que o veneno
penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse
aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa;
depois do regresso, achou-a senhora reflectida; naquella occasião, a
dor, occulta embora, como que lhe dava um encanto mais. Effectivamente o
rosto de Yayá trahia o estado do coração; os olhos não correspondiam
ao esforço que ella fazia para os fixar.
--Se lhe parece, esqueça o meu conselho, disse elle, e não me leve a
mal se lhe preguei um susto. Talvez o susto haja passado. Não importa;
creia que ha casamentos impossiveis; casamentos destinados a... não sei
a que... pode ser que a cousa nenhuma... ou a cousa muito grave, muito
grave.
--Cale-se! rugiu surdamente a moça.
Procopio Dias continuou:
--Uma só palavra, disse elle. Hade attribuir ao despeito o aviso que
lhe dei. É verdade; ha uma grande porção de despeito em mim. Porque
lhe falaria eu, se não tivesse um motivo pessoal? Esse homem trahiu-me;
eu tinha-lhe confiado o deposito do meu amor; elle abusou da confiança:
fez-se amado em meu logar. Não me queixo da senhora. A senhora não me
devia nada;--um pouco de sympathia, talvez;--no futuro, pode ser que me
deva tambem um pouco de gratidão.
Procopio Dias saiu logo depois destas palavras. Estava satisfeito; desde
que pode formular em um ou dous raciocinios o sentimento occulto que o
fazia agir, achou nelle a legitimidade de tudo o que acabava de dizer.
Era um duello; recebera um golpe na espadua, respondia com outro no
coração, mais certeiro e provavelmente mortal; e se não era duello,
era emboscada por emboscada; direito de represalia.
Prostrada com o golpe que acabava de receber, Yayá não teve sequer as
lagrimas do desespero nem as da indignação. Ha dores seccas, como ha
coleras mudas. A suspeita, que o tempo devia carcomer de todo, e que o
amor de Jorge ia já tornando problematica, essa ruim suspeita renascia
tão vivaz e pertinaz como alguns mezes antes, quando arrancou aos olhos
de Yayá as primeiras lagrimas de mulher. Não podia crer que o amor de
Jorge não fosse sincero; era-o; parecia-o, ao menos. Mas a existencia
do outro amor, não era já o coração que lh'o dizia, era uma voz
extranha que a vinha delatar: circumstancia nova, que fazia convalescer
a duvida anterior, até o ponto de lhe dar todos os visos da realidade.
Yayá sentia-se arrojada outra vez ao vasto e escuro espaço de suas
antigas cogitações;--erma, desamparada de toda protecção humana,
não lhe restava mais que duvidar e gemer, até achar na propria
ductilidade de seu espirito a força que lhe não podia dar nenhuma
origem exterior.
A madrasta foi ter com ella meia hora depois de sair Procopio Dias.
Pouco antes, o marido tivera tamanha afflicção, que Estella chegou a
receiar o ultimo golpe; agora ficava prostrado. Estella appareceu á
enteada com o olhar ainda assustado e o passo mal seguro; Yayá não viu
essa mudança, nem ouviu as primeiras palavras com que ella lhe falou do
pae. Olhava só, emquanto o coração parecia querer despedaçar-lhe a
arca do peito.
--Yayá, ande ter com seu pae; seu pae está hoje muito doente.
Vendo que a moça não se movia, Estella lançou-lhe o braço á roda da
cintura.--Vamos, disse. Yayá estremeceu toda; depois, mettendo-lhe as
mãos nos hombros, empurrou-a violentamente e caminhou para a porta.
--Yayá! bradou a madrasta.
A enteada voltou-se, e, estendendo o dedo sobre os labios, impoz-lhe
silencio. O olhar desvairado e inconscio parecia antes de loucura que de
indignação. Estella ficou estupefacta.
Luiz Garcia foi o laço que ainda pode conservar atadas essas duas
existencias, já agora antipathicas uma á outra. A vida delle era
necessaria a ambas. Uma punha nella todas as esperanças de um coração
credulo; outra apenas lhe dava aquella porção ultima, que não
desampara os necessitados. Tregoas houve, mas sombrias e violentas. Não
se falavam as duas, não trocavam um só olhar na ausencia de Luiz
Garcia; deante delle, mostravam-se como d'antes. Esta situação
incomportavel parecia, aliás, definitiva.
Jorge percebeu-a; elle proprio sentiu a principio o effeito de um
acontecimento, que não podia adivinhar e necessariamente era grave.
Yayá, porém, venceu-se depressa em relação a elle. A alma, se o
vento lh'a fizera dobrar, para logo retomou a posição dos outros dias;
mostrou-se terna com elle, affavel, impaciente de concluir o casamento.
Um só pensamento influia nella: confiscar aquelle homem, arrastal-o
comsigo, dominal-o depois, despedaçar de uma vez o laço que suppunha
atal-o ao coração da madrasta.
Marcou-se um sabbado para o casamento; mas os primeiros dias da semana
foram de tão mau agouro, que a familia resolveu deferil-o para melhor
occasião. O enfermo peiorou rapidamente. A molestia entrou no ultimo
periodo.
Yayá viu morrer tristemente o sol do sabbado, e não viu nascer mais
aprazivelmente o de domingo. Não pensava ainda na morte do pae, mas
alguma cousa lhe fazia tremer o coração. A presença de Jorge é que
lhe dava animo e conforto, posto que elle proprio se sentisse
apprehensivo com o desenlace proximo da enfermidade de Luiz Garcia.
Lenta e caprichosa nos primeiros tempos, a enfermidade teve rapido e
inflexivel o periodo ultimo. No fim de poucos dias a morte foi declarada
imminente. Estella, não obstante achar-se preparada para o golpe, mal
pode resistir ao primeiro abalo. Yayá ficou como douda. O pae fora a
sua primeira e continua adoração. Durante alguns annos não conheceu
outro mundo, outro affecto, outra familia, além daquelle homem grave e
terno, cujos olhos a protegiam e alumiavam. No primeiro instante não
pode crer na triste nova. Mas a realidade avultou a seus olhos, e foi
então que a alma tentou romper todos os elos e voar, antes d'elle, a
esperal-o na immensa vastidão azul, para emprehenderem juntos a
derradeira viagem. Não chorou nas primeiras horas; a dor trancara-lhe
as lagrimas; mas estas vieram logo depois, e ella as verteu em silencio,
suffocando os soluços, estorcendo-se na solidão da alcova.
Luiz Garcia reiterou a Jorge o pedido que lhe fizera um vez, em
relação á familia; mas agora restringia-o a Estella.
--Peço-lhe que não desampare os meus. Sei que morro, e quero ter a
certeza de que só deixo algumas saudades. O senhor vae casar com minha
filha; nada me inquieta a este respeito. Mas Estella, que não é mãe
de Yayá, ou é sómente mãe de coração, Estella vae ficar só, e eu
não quizera morrer com a ideia de que a deixo infeliz. Promette-me que
não a desamparará nunca?
Jorge prometteu. Estella, que estava presente, procurou tranquillisar o
enfermo, e pediu-lhe que não falasse tanto. Luiz Garcia não attendeu;
exaltou as virtudes da mulher, a dedicação, o zelo, a affeição que
lhe tinha.
--Digo-lhe que fui feliz, concluiu elle; minha alma era já velha,
quando a d'ella se lhe uniu, e comtudo... sim, minha alma rejuvenesceu
um pouco...
--Já tem falado muito, interrompeu Estella, descance, não quero que
diga mais nada.
Luiz Garcia pediu ainda á mulher e á filha que se amassem como até
alli. Tinha falado excessivamente; ficara abatido. D'alli em deante, a
morte não fez mais do que apoderar-se, trecho a trecho, da sua victima.
Já a noite d'esse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte
dia foi de angustia para as duas mulheres. Na manhã do outro começou a
agonia d'elle, que durou algumas horas.
Ao vel-o morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a
primeira vez que contemplavam a morte. Nenhuma d'ellas vira nunca
expirar uma só creatura humana, e a primeira que a seus olhos se
despedia da vida representava para ellas largos annos de affeição
terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava uma a outra.
N'esse instante solemne, abraçaram-se sem reflexão; a dor impelliu-as
com a mão de ferro, e, madrasta e enteada confundiram alli suas nobres,
tristes e inuteis lagrimas.
Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a afflicção duas das
mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raymundo, não pode
ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde ficou longo tempo sentado
no chão, com a cabeça encanecida entre os joelhos, sacudido pela
violencia dos soluços.