XV

A fronte de Estella não tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia

no coração, como um mau hospede; e o espectaculo daquelles ultimos

mezes não fizera mais do que irrital-o. Mas a força moral de Estella

subjugou-o. A luta fora longa, violenta e cruel; a consciencia do dever

e o respeito de si propria acabaram vencendo. Talvez não fosse difficil

perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cançasso que deixam as

grandes tempestades moraes. A tempestade ninguem lh'a viu.

Não obstante, no dia em que a paixão dos dous lhe pareceu evidente,

Estella sentiu rugir-lhe no coração um vento de colera; vento forte e

instantaneo. Dessa vez, o olhar penetrante de Yayá não pode ler no

fundo da alma da madrasta; e por ventura lhe diminuiu a suspeita, quando

a viu contemplar sem irritação nem abatimento a situação nascida de

seu esforço unico.

Entretanto, a molestia, que solapava a existencia de Luiz Garcia,

aggravou-se por aquelle tempo, e o enfermo foi compellido a pedir alguns

mezes de licença. Chamado a vel-o, o medico reconheceu que a

enfermidade tocava ao desenlace, e com a enfermidade a vida. Não o

disse á familia, mas não o escondeu de Jorge, quando este directamente

lh'o perguntou.

--Está condemnado á morte, disse elle; a molestia devorou-o

lentamente, mas com segurança. Pode viver dous a tres mezes.

Jorge ficou atterrado, Os acontecimentos tinham tomado tal feição, que

elle já pedia a vida de Luiz Garcia. Quem lh'o dissera alguns annos

antes? Não sómente padeceria com a morte do enfermo, mas teria de ver

padecer Yayá, de cuja adoração filial era testemunha, e chegava a

receiar que o golpe lhe fosse fatal. Nada disse; affectou tranquillidade

e indifferença, mas entendeu que os successos o designavam a proteger a

familia e dispunha-se a assumir esse papel, quando fosse occasião.

Estella não receiou menos do que na molestia anterior; mas dessa vez

não interrogou Jorge, com quanto o visse falar ao medico. Nos ultimos

tempos, o seu silencio era mais continuo e habitual. Parecia

desinteressada de tudo, menos do marido. Suspeitou da gravidade da

molestia, interrogou o medico, e ouviu deste palavras de esperança:

--Não lhe peço esperanças illusorias, disse Estella; peço-lhe que me

diga toda a verdade.

--A verdade é cruel de dizer.

--Perdido? disse ella com voz surda.

O silencio do medico foi a confirmação d'aquella palavra. Estella

sentiu fugir-lhe todo o sangue; mas não soltou uma lagrima. Pode

reflectir no perigo de ser vista essa denuncia do mal, e dominou-se.

Quando se achou só comsigo, deu livre campo ás angustias; encarou a

catastrophe e pensou nas consequencias da morte e no incerto futuro que

a aguardava dentro de poucos dias. O futuro trouxe-a ao presente, o

presente levou-a ao passado. A vida só lhe dera alegrias medias e dores

maximas. Não foi a paixão que a levou ao casamento, mas sómente a

conveniencia e o raciocinio. No casamento achara os sentimentos de

apreço, a mutua consideração, a brandura das relações domesticas;

esse fogo, porém, cuja intensidade não dura, mas que é o férvido sol

dos primeiros dias, precursor necessario da tarde repousada e da noite

tranquilla, esse fogo, essa fusão de duas existencias, esse ardor

expansivo, condição de sua natureza moral, não os conheceu Estella.

Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar no casamento a paixão

sanctificada. Pois bem, se alguma cousa podia compensar-lhe a falta, era

a longa duração de uma felicidade segura, embora tibia; era

envelhecer sob a monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O

destino negava-lhe a compensação.

Não tinha Estella ao pé de si com quem repartisse as tristezas. O pae

seria o ultimo de todos. A viuvez deixal-a-hia sem familia. Esta ideia

trouxe outra,--a de apressar o casamento da enteada, de modo que nenhum

vinculo moral lhe sobrevivesse ao marido. Uma noite, tendo Luiz Garcia

adormecido, Estella deu a perceber á enteada que o estado do pae era

grave. Yayá empallideceu. Jorge fez um gesto de reprovação.

--A molestia não é leve de certo, disse este; nas não se segue dahi

que se deva...

--Tudo se deve prever, tornou Estella. Pela minha parte, entendo que

prevenir um caso fatal não é fazer com que elle se dê. Yayá sabe o

amor que lhe tem seu pae; seria para elle uma fortuna poder abençoal-a.

Vamos lá, continuou ella, pegando nas mãos de um e de outro, por que é

que se não casam?

Momentaneamente acanhados, nenhum delles assentiu nem recusou. Yayá

olhava espantada para a madrasta.

--O silencio é uma maneira de responder, continuou esta; querem dizer

que concordam commigo, não é? Nesse caso, seremos tres para fazer a

cousa mais simples do mundo, que é casar duas creaturas, que se amam...

Porque não a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro

de poucos dias, á capucha, cousa simples...

Yayá tinha emfim sahido do primeiro instante de estupefacção.--Mas,

papae, está mal? disse ella.

--Todos nós estamos mal, apezar de termos saude, respondeu Estella;

n'um dia cae a casa. A doença delle é grave, é coração...

--Tem razão, interveiu Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias,

duas semanas, quando muito, ou tres.

Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção de Estella.

Conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava essa

impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois

examinou-se a si proprio; sentiu que o amor que o dominava agora, posto

fosse profundo, não era violento, não lhe queimava o coração.

Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, não

foi importuno; foi antes licção e philosophia. Mentalmente sorriu. Era

elle o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto ás soluções tragicas;

agora, com egual sinceridade, entregava o coração a outra mulher. Na

fronte desta mal ousara roçar um osculo medroso e casto, elle, que

fizera a scena da Tijuca. O homem não era o mesmo. Embora a isenção

presente, Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria

sem amargura, mas com um travo de melancolia.

--Aquelle orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia elle.

No dia seguinte, Procopio Dias veiu accordal-o em casa.

--Quando chegou? perguntou Jorge.

--Hontem de tarde, a primeira visita que faço é esta. Demorei-me mais

do que queria; mas emfim cá estou,--cá estou, e mais magro. O senhor

é que me parece mais gordo.

Procopio Dias falou compridamente da politica argentina e da

magistratura de Buenos-Ayres; falou tambem um pouco das mulheres

platinas. De quando em quando, abria um claro, como para deixar que o

outro intercalasse alguma cousa menos extrangeira; Jorge, porém, falava

pouco e sem appetite; o constrangimento delle foi visivel quando

Procopio Dias o interrogou, acerca da familia de Luiz Garcia;

respondeu-lhe sem interesse. Procopio Dias fitou-o durante alguns

segundos; as rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.

--E Yayá! disse elle; parece-lhe então que nenhuma esperança...

Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz

explicativo. Procopio Dias começou a farejar a realidade, mas nenhuma

das linhas do rosto denunciou a impressão que esta lhe causara. Após

um silencio largo, entrou a rir de bom humor.

--Quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle. Saiba que volto curado.

Quando penso na molestia tenho vergonha; é verdade, tenho vergonha da

figura que fiz. Já sou muito maduro para cavallarias altas. A doença

ainda me durou algum tempo; sarei com a mudança de clima; o amor, ao

menos na minha edade, é uma especie de beri-beri... Hade ter-se rido de

mim; é justo, porque eu não faço hoje outra cousa.

Jorge contestou com um simples gesto; mas Procopio Dias falava com tanta

naturalidade, ria com tamanha franqueza, que a explicação deu á

conserva a vida que ella tendia a perder. Jorge foi mais expansivo, mais

alegre; não lhe confiou a nova situação, mas o segredo parecia

debruçar-se-lhe das palpebras e dos cantos da boca. Essa alegria era um

respiro da consciencia, que se sentia um pouco vexada em presença

daquelle homem, cuja confiança fora a origem de seu recente amor; era

tambem a satisfação de não ter conseguido ligal-o á filha de Luiz

Garcia; consorcio repugnante, hybrido, cujo resultado seria dar á moça

uma longa amargura sem certeza de resgate.

Quando Procopio Dias saiu d'alli ia suspeitoso da realidade.--Mas a

outra? dizia elle comsigo. Sacudiu os hombros, e não ficou mais

tranquillo. Levava já no peito um pouco de impaciencia e irritação;

tinha a fronte obscurecida por uma nuvem. Mais tarde allumiou-a um

clarão subito, ainda que frouxo, era um reflexo de esperança. Talvez

houvesse julgado com precipitação: era possivel attribuir a reserva de

Jorge, não á competencia pessoal, mas a uma maneira de entender as

maximas do decoro. Quem sabe? Elle podia ter-se arrependido de haver

permettido tanto. Essa reflexão arejou um pouco o espirito, sem lhe

tirar de lá o miasma corruptor. Era força conhecer a verdade. Nesse

mesmo dia, foi elle a Santa Thereza.

Luiz Garcia concedera n'aquella manhã a mão da filha. Na occasião em

que Procopio Dias alli entrou, tinha-a elle ao pé de si, e

contemplava-a com amor e saude,--duas vezes saudade, porque tambem a

morte os viria desunir. Entre si recordava os tempos em que elle e ella

eram, um para o outro, toda a terra e todo o ceu; e perguntava á

natureza se era justo sobrepor ao primeiro vinculo outro vinculo

extranho, e a natureza lhe respondia que não sómente era justo, mas

até necessario. Então o pae sentia-se feliz com a felicidade da filha,

cujo egoismo lhe ensinava a abnegação. Se ella devia amar a outrem,

que faria elle mais do que ceder? Quanto ao noivo eleito, merecia-lhe

todas as approvações; era o unico extranho que lhe penetrara um pouco

mais na intimidade; amante, bemquisto e opulento, podia dar á moça,

além da felicidade do coração, todas as vantagens sociaes, ainda as

mais solidas, ainda as mais frivolas:--e esse homem obscuro, enfastiado

e sceptico, saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilhão das

cousas, que elle não cobiçara nunca.

Uma noite bastou a Procopio Dias para conhecer a situação. Não

obstante as declarações do pretendente, que acceitou como sinceras,

Jorge buscou dissimulal-a. Se Procopio Dias não tornasse a ver a moça,

é possivel que o tempo lhe abafasse a paixão. Mas viu-a, e viu-a mais

bella do que a deixara.

--E a outra? dizia elle.

Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma ideia comsigo,

deante da qual Procopio Dias chegou a recuar. Esse ideia era envenenar

na propria origem a affeição recente; nada menos que denunciar a

madrasta á enteada. Se alguma cousa pudesse attenuar a perversidade de

semelhante recurso, era a persuasão que elle tinha de que diria a

verdade. Cria deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço

poderia fazer suppôr que o casamento da filha de Luiz Garcia era uma

suggestão da madrasta. Elle proprio achava essa combinação verosimil,

conveniente, reparadora.

--Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo.

A occasião veiu. Um pouco irritada com a assiduidade de Procopio Dias e

a confiança que parecia renascer nelle, Yayá assentou de lhe dizer

francamente que estava prestes a casar. Procopio Dias empallideceu.

Suppunha apenas provavel o que era já definitivo. Olhou longamente para

ella; a extincção da esperança não implicava a extincção do

desejo; pela contrario, vinha pungil-o e açulal-o. Seus olhos mostraram

então duas expressões diversas; a primeira involuntaria, a mesma com

que os dous velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar

terreno e mau; a segunda voluntaria, não de queixa, não de supplica,

mas de lastima. A ideia ruim tornava a arder-lhe no cerebro.

--Não sabia, disse elle, depois de curta pausa. Com quem?

--Com o Dr. Jorge.

--Ah!

Procopio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de

lastima.--Pobre moça! murmurou elle entre dentes. Yayá fitou-o

severamente; depois, sorriu e perguntou com alguma ironia:

--Não approva a escolha?

--A escolha é excellente, disse elle; mas ha circumstancias que fazem

do optimo pessimo. Ouça-me; a senhora sabe que eu a amei; suppõe

talvez que já não a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive

ideia de casar com a senhora; perdi a ideia, mas guardei o sentimento.

Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu cedo

á voz da consciencia, sem calcular com a sua approvação...

Fez uma pausa.

--Acabe, disse a moça.

--Ha cousas que um coração inexperiente não pode entender; cousas que

talvez se lhe não devam referir. Quer um conselho? não acceite o

casamento; desfaça-o, não para casar commigo, mas desfaça-o.

Yayá fez-se pallida. Procopio Dias, pasmado do proprio arrojo,

comprehendeu que havia ido muito longe naquellas poucas palavras; mas

já não havia meio de as explicar de modo verosimil. Como se fizesse um

monologo interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do labio,

emquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vitreo das fortes

concentrações. Yayá olhou para elle atonita e confusa: não sabia o

que pensasse, não podia ou não queria entender. Afinal, collingido

todas as forças, perguntou audazmente porque motivo lhe cumpria

desfazer o casamento.

--Qualquer que seja o motivo, disse elle, não lhe aconselho que o

acceite logo como decisivo. Reflicta antes de resolver; a

responsabilidade será sua, do mesmo modo que o beneficio ha de ser seu.

Meu conselho é que o desfaça.

--Porque muitas vezes o casamento é... é uma mascara, uma... Seu noivo

ama a outra pessoa... Que tem?

Yayá fizera-se livida. Terror, indignação, abatimento, sua alma

passou por todos esses estados, padeceu-os até simultaneamente, sem que

a boca achasse uma só palavra de resposta ou de protesto. A delação

fulminara-a; nunca Procopio Dias chegou a comprehender o motivo de

tamanho e tão subito effeito. O effeito aterrou-o em parte, e em parte

o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da decomposição

moral de todo o seu ser, essa bastou a resentir o golpe que elle mesmo

vibrara.

--Outra... Que outra? balbuciou Yayá segurando-lhe um dos braços.

Procopio Dias abanou a cabeça solemnemnte, como a dizer que não podia

ir mais longe. A esse gesto seguiu-se um silencio largo, durante o qual

a moça pode vencer a primeira commoção e reflectir sobre o que lhe

convinha entender.

--Ama a outra? disse ella. Quem quer que seja essa rival, já agora o

noivo é meu; e é natural que me ame mais do que a ella, visto que

prefere casar commigo...

Não obstante a firmeza que procurava dar á palavra, a palavra era

difficil e a voz parecia morrer-lhe na garganta. Procopio Dias

comprehendeu que a commoção estava apenas dominada, e que o veneno

penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse

aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa;

depois do regresso, achou-a senhora reflectida; naquella occasião, a

dor, occulta embora, como que lhe dava um encanto mais. Effectivamente o

rosto de Yayá trahia o estado do coração; os olhos não correspondiam

ao esforço que ella fazia para os fixar.

--Se lhe parece, esqueça o meu conselho, disse elle, e não me leve a

mal se lhe preguei um susto. Talvez o susto haja passado. Não importa;

creia que ha casamentos impossiveis; casamentos destinados a... não sei

a que... pode ser que a cousa nenhuma... ou a cousa muito grave, muito

grave.

--Cale-se! rugiu surdamente a moça.

Procopio Dias continuou:

--Uma só palavra, disse elle. Hade attribuir ao despeito o aviso que

lhe dei. É verdade; ha uma grande porção de despeito em mim. Porque

lhe falaria eu, se não tivesse um motivo pessoal? Esse homem trahiu-me;

eu tinha-lhe confiado o deposito do meu amor; elle abusou da confiança:

fez-se amado em meu logar. Não me queixo da senhora. A senhora não me

devia nada;--um pouco de sympathia, talvez;--no futuro, pode ser que me

deva tambem um pouco de gratidão.

Procopio Dias saiu logo depois destas palavras. Estava satisfeito; desde

que pode formular em um ou dous raciocinios o sentimento occulto que o

fazia agir, achou nelle a legitimidade de tudo o que acabava de dizer.

Era um duello; recebera um golpe na espadua, respondia com outro no

coração, mais certeiro e provavelmente mortal; e se não era duello,

era emboscada por emboscada; direito de represalia.

Prostrada com o golpe que acabava de receber, Yayá não teve sequer as

lagrimas do desespero nem as da indignação. Ha dores seccas, como ha

coleras mudas. A suspeita, que o tempo devia carcomer de todo, e que o

amor de Jorge ia já tornando problematica, essa ruim suspeita renascia

tão vivaz e pertinaz como alguns mezes antes, quando arrancou aos olhos

de Yayá as primeiras lagrimas de mulher. Não podia crer que o amor de

Jorge não fosse sincero; era-o; parecia-o, ao menos. Mas a existencia

do outro amor, não era já o coração que lh'o dizia, era uma voz

extranha que a vinha delatar: circumstancia nova, que fazia convalescer

a duvida anterior, até o ponto de lhe dar todos os visos da realidade.

Yayá sentia-se arrojada outra vez ao vasto e escuro espaço de suas

antigas cogitações;--erma, desamparada de toda protecção humana,

não lhe restava mais que duvidar e gemer, até achar na propria

ductilidade de seu espirito a força que lhe não podia dar nenhuma

origem exterior.

A madrasta foi ter com ella meia hora depois de sair Procopio Dias.

Pouco antes, o marido tivera tamanha afflicção, que Estella chegou a

receiar o ultimo golpe; agora ficava prostrado. Estella appareceu á

enteada com o olhar ainda assustado e o passo mal seguro; Yayá não viu

essa mudança, nem ouviu as primeiras palavras com que ella lhe falou do

pae. Olhava só, emquanto o coração parecia querer despedaçar-lhe a

arca do peito.

--Yayá, ande ter com seu pae; seu pae está hoje muito doente.

Vendo que a moça não se movia, Estella lançou-lhe o braço á roda da

cintura.--Vamos, disse. Yayá estremeceu toda; depois, mettendo-lhe as

mãos nos hombros, empurrou-a violentamente e caminhou para a porta.

--Yayá! bradou a madrasta.

A enteada voltou-se, e, estendendo o dedo sobre os labios, impoz-lhe

silencio. O olhar desvairado e inconscio parecia antes de loucura que de

indignação. Estella ficou estupefacta.

Luiz Garcia foi o laço que ainda pode conservar atadas essas duas

existencias, já agora antipathicas uma á outra. A vida delle era

necessaria a ambas. Uma punha nella todas as esperanças de um coração

credulo; outra apenas lhe dava aquella porção ultima, que não

desampara os necessitados. Tregoas houve, mas sombrias e violentas. Não

se falavam as duas, não trocavam um só olhar na ausencia de Luiz

Garcia; deante delle, mostravam-se como d'antes. Esta situação

incomportavel parecia, aliás, definitiva.

Jorge percebeu-a; elle proprio sentiu a principio o effeito de um

acontecimento, que não podia adivinhar e necessariamente era grave.

Yayá, porém, venceu-se depressa em relação a elle. A alma, se o

vento lh'a fizera dobrar, para logo retomou a posição dos outros dias;

mostrou-se terna com elle, affavel, impaciente de concluir o casamento.

Um só pensamento influia nella: confiscar aquelle homem, arrastal-o

comsigo, dominal-o depois, despedaçar de uma vez o laço que suppunha

atal-o ao coração da madrasta.

Marcou-se um sabbado para o casamento; mas os primeiros dias da semana

foram de tão mau agouro, que a familia resolveu deferil-o para melhor

occasião. O enfermo peiorou rapidamente. A molestia entrou no ultimo

periodo.

Yayá viu morrer tristemente o sol do sabbado, e não viu nascer mais

aprazivelmente o de domingo. Não pensava ainda na morte do pae, mas

alguma cousa lhe fazia tremer o coração. A presença de Jorge é que

lhe dava animo e conforto, posto que elle proprio se sentisse

apprehensivo com o desenlace proximo da enfermidade de Luiz Garcia.

Lenta e caprichosa nos primeiros tempos, a enfermidade teve rapido e

inflexivel o periodo ultimo. No fim de poucos dias a morte foi declarada

imminente. Estella, não obstante achar-se preparada para o golpe, mal

pode resistir ao primeiro abalo. Yayá ficou como douda. O pae fora a

sua primeira e continua adoração. Durante alguns annos não conheceu

outro mundo, outro affecto, outra familia, além daquelle homem grave e

terno, cujos olhos a protegiam e alumiavam. No primeiro instante não

pode crer na triste nova. Mas a realidade avultou a seus olhos, e foi

então que a alma tentou romper todos os elos e voar, antes d'elle, a

esperal-o na immensa vastidão azul, para emprehenderem juntos a

derradeira viagem. Não chorou nas primeiras horas; a dor trancara-lhe

as lagrimas; mas estas vieram logo depois, e ella as verteu em silencio,

suffocando os soluços, estorcendo-se na solidão da alcova.

Luiz Garcia reiterou a Jorge o pedido que lhe fizera um vez, em

relação á familia; mas agora restringia-o a Estella.

--Peço-lhe que não desampare os meus. Sei que morro, e quero ter a

certeza de que só deixo algumas saudades. O senhor vae casar com minha

filha; nada me inquieta a este respeito. Mas Estella, que não é mãe

de Yayá, ou é sómente mãe de coração, Estella vae ficar só, e eu

não quizera morrer com a ideia de que a deixo infeliz. Promette-me que

não a desamparará nunca?

Jorge prometteu. Estella, que estava presente, procurou tranquillisar o

enfermo, e pediu-lhe que não falasse tanto. Luiz Garcia não attendeu;

exaltou as virtudes da mulher, a dedicação, o zelo, a affeição que

lhe tinha.

--Digo-lhe que fui feliz, concluiu elle; minha alma era já velha,

quando a d'ella se lhe uniu, e comtudo... sim, minha alma rejuvenesceu

um pouco...

--Já tem falado muito, interrompeu Estella, descance, não quero que

diga mais nada.

Luiz Garcia pediu ainda á mulher e á filha que se amassem como até

alli. Tinha falado excessivamente; ficara abatido. D'alli em deante, a

morte não fez mais do que apoderar-se, trecho a trecho, da sua victima.

Já a noite d'esse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte

dia foi de angustia para as duas mulheres. Na manhã do outro começou a

agonia d'elle, que durou algumas horas.

Ao vel-o morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a

primeira vez que contemplavam a morte. Nenhuma d'ellas vira nunca

expirar uma só creatura humana, e a primeira que a seus olhos se

despedia da vida representava para ellas largos annos de affeição

terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava uma a outra.

N'esse instante solemne, abraçaram-se sem reflexão; a dor impelliu-as

com a mão de ferro, e, madrasta e enteada confundiram alli suas nobres,

tristes e inuteis lagrimas.

Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a afflicção duas das

mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raymundo, não pode

ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde ficou longo tempo sentado

no chão, com a cabeça encanecida entre os joelhos, sacudido pela

violencia dos soluços.

Yayá Garcia · 第 23 / 26 题