Era noite fechada, quando Jorge chegou á casa de Estella. O Sr. Antunes
estava á porta e talvez contava com a visita; recebeu-o com alvoroço e
tristeza.
Quatro mezes haviam decorrido depois da scena da Tijuca, e durante esse
tempo Jorge fora muitas vezes á casa da rua de D. Luiza. Não lhe
fugira Estella nem o maltratara; usou a mesma serenidade e frieza de
outro tempo, falando-lhe pouco, é certo, mas com tamanha isenção, que
parecia não ter havido entre elles o menor dissentimento.
Pela sua parte, Jorge forcejava por apagar a lembrança daquelle
episodio, havendo-se com o respeito e consideração que lhe pareciam
bastantes para resgatar a estima perdida. Ás vezes ficavam a sós na
sala, porque o Sr. Antunes inventava algum motivo que o obrigasse a
eclipses parciaes, com o fim unico, dizia elle comsigo,--de ajudar a
natureza. Mas sobretudo nessas occasiões, aliás propicias, não
transpunha Jorge a linha que a si mesmo traçara, não lhe sussurrava
uma unica palavra amorosa, não lhe deitava um só olhar que a pudesse
fazer corar ou reagir. Qualquer allusão á scena da Tijuca, ainda de
submissão, seria prejudicial á causa de Jorge; elle evitava esse erro
trivial, nada dizendo que proxima ou remotamente pudesse lembral-a á
moça. Falavam pouco e de cousas indifferentes, como pessoas de nenhuma
intimidade.
Foi só quando perdeu de todo a esperança de a vencer pelos meios
ordinarios, que elle acceitou a proposta de se alistar no exercito. No
dia em que lhes deu a noticia, a impressão no pae e na filha foi
profunda, mas diversa, porque o pae ficou totalmente consternado e
morto, ao passo que a filha sentiu a alma respirar livremente, e se uma
voz secreta e medrosa lhe disse: não o deixes ir; outra mais dominadora
e forte lhe bradou que a partida era a liberdade e a paz. A viagem, a
distancia, o tempo, a natureza das occupações militares deviam
arrancar ao moço um sentimento que Estella temia fosse origem de
dissenções domesticas, e que em todo o caso a abatia a seus proprios
olhos.
--É então amanhã? perguntou o Sr. Antunes fazendo entrar o joven
capitão.
--Amanhã.
Estella recebeu-o como das outras vezes, sem embargo do pae, que parecia
apostado em lhe tornar amargos esses ultimos instantes. A tristeza do
Sr. Antunes era mortal. Elle pertencia á phalange daquelles espiritos
que, atravez dos annos e ainda nos regelos do inverno, conservam as
calcinhas da primeira edade, e para quem a vida tem sempre o aspecto dos
castellos de cartas que construiram na infancia. Uma vez penetrado da
ideia de casar a filha com o bacharel, viveu della, como se a vira
praticada. O incidente da guerra não lhe desvendou a realidade da
situação, mas pareceu-lhe que adiava o seu desejo, e bastava a
consternal-o. Agora que via fardado o filho de Valeria, prestes a
embarcar no dia seguinte, creu devéras na separação. Após meia hora
de conversa, o Sr. Antunes retirou-se alguns minutos da sala; ia ver
charutos.
--Tome um dos meus, disse Jorge.
--Nada; os seus são muito fortes.
Nunca os charutos de Jorge padeceram semelhante accusação da parte do
Sr. Antunes, que fumava regularmente os do filho como havia fumado os do
pae. Estella ficou humilhada com a resposta e a acção. Jorge que
estava de pé, junto a uma mesa, viu sair o pae de Estella, e ficou a
olhar para o chão. A moça cravou os olhos no trabalho, que estava
fazendo.
Jorge ergueu emfim os olhos e pousou-os na moça, cuja belleza lhe
pareceu naquella noite ainda mais limpida e espiritual, justamente
porque elle começava a vel-a atravez do nimbo da saudade. Ella attendia
ao trabalho com uma quietação laboriosa. As mãos, que podiam
emparelhar com as mais puras, moviam as agulhas sem apparente commoção
nem tremor. Ao mancebo já não humilhava esse aspecto indifferente e
digno; podia medir, em si mesmo, a differença das situações, o
caminho vencido, desde as primeiras ideias a respeito de Estella. Mas os
minutos corriam e o silencio acanhava-o cada vez mais; emfim, resolveu
rompel-o, e rompel-o de modo que tirasse daquelle minuto ou a salvação
ou o naufragio da vida que ia emprehender. Deu dous passos para Estella.
--Talvez não nos vejamos mais, disse elle.
--Porque? disse Estella sem levantar os olhos.
--Posso ficar enterrado no Paraguay.
--Sua mãe não gostaria de ouvir isso...
Seguiram-se ainda dous minutos. Jorge poz toda a alma nestas palavras,
ditas em voz baixa e triste:
--Embarco amanhã para o sul. Não é o patriotismo que me leva, é o
amor que lhe tenho, amor grande e sincero, que ninguem poderá
arrancar-me do coração. Se morrer, a senhora será o meu ultimo
pensamento; se viver, não quero outra gloria que não seja a de me
sentir amado. Uma e outra cousa dependem só da senhora. Diga-me; devo
morrer ou viver?
Estella tinha erguido a cabeça; quando elle acabou achava-se de pé.
Fitou-o alguns instantes com uma expressão muda e fria. A vaidade da
mulher podia contentar-se daquella solemne reparação, e perdoar; mas o
orgulho de Estella venceu, e não deu logar a nenhum outro sentimento de
justiça ou de humanidade. Um geito ironico torceu-lhe o labio, donde
saiu esta palavra má e desdenhosa:
--O senhor é um tonto.
Quando o pae voltou á sala, instantes depois, Jorge estava com uma das
mãos no encosto de uma cadeira, pallido como um defunto. Estella fora
até á porta da alcova da sala, resolvida a fechar-se por dentro.
O Sr. Antunes não tinha observação; mas, ao ver o rosto dos dous,
não era muito difficil adivinhar que alguma cousa se passara entre
elles. Adivinhou-o; comtudo, não atinara bem o que seria, se uma scena
de dolorosa despedida, se outra cousa menos propicia a seus calculos.
Foi ao joven capitão e pediu-lhe que se sentasse; mas Jorge declarou
que ia sair e despediu-se. Sem encarar Estella, estendeu-lhe a mão, que
ella apertou com o ar mais tranquillo do mundo. O pae espreitava uma
lagrima furtiva, um gesto disfarçado, qualquer cousa que falasse em
favor de suas esperanças. Nada; Estella não baixou o rosto nem
escondeu os olhos. Jorge, sim; não obstante o esforço que fazia,
tremia-lhe a mão ao apertar a do escrevente.
O Sr. Antunes acompanhou-o até a porta. Alli, antes de a abrir, quiz
abraçar o moço official.
--Dê-me essa triste honra, disse elle; creia que estes braços são de
amigo.
Jorge deixou-se ir, sem enthusiasmo; mas quando sentiu o corpo do pae de
Estella, pareceu-lhe que abraçava uma parte da moça, e apertou-o
fortemente ao peito. Esta manifestação lisonjeou extremamente o outro;
chegou a commovel-o.
--Conte commigo, murmurou elle; fico para ajudal-o.
Jorge ouviu-o, apertou-lhe machinalmente as mãos, recebeu um abraço
ultimo e atirou-se á rua.
Intoleravel é a dor que não deixa sequer e direito de arguir a
fortuna. O mais duro dos sacrificios é o que não tem as consolações
da consciencia. Essa dor padecia-a Jorge; esse sacrificio ia consumal-o.
Não foi dalli para casa; não ousaria encarar sua mãe. Durante a
primeira hora que se seguiu á saída da casa de Estella, não pode
reger os pensamentos; elles cruzavam-lhe o cerebro sem ordem nem
deducção. O coração batia-lhe rijo na arca do peito; de quando em
quando o corpo era tomado de calefrios. Ia despeitado, humilhado, com um
dente de remorso no coração. Quizera de um só gesto eliminar a scena
daquella noite, quando menos apagal-a da lembrança. As palavras de
Estella retiniam-lhe ao ouvido como um silvo de vento colerico; elle
trazia no espirito a figura desdenhosa da moça, o gesto sem ternura, os
olhos sem misericordia. Ao mesmo tempo, lembrava-lhe a scena da Tijuca,
e alguma cousa lhe dizia que essa noite era a desforra daquella manhã.
Ora sentia-se odioso, ora ridiculo.
--Tua mãe é quem tem razão, bradava uma voz interior; ias descer a
uma alliança indigna de ti; e se não soubeste respeitar nem a tua
pessoa nem o nome de teus paes, justo é que pagues o erro indo correr a
sorte da guerra. A vida não é uma egloga virgiliana, é uma
convenção natural, que se não acceita com restricções, nem se
infringe sem penalidade. Ha duas naturezas, e a natureza social é tão
legitima e tão imperiosa como a outra. Não se contrariam,
completam-se; são as duas metades do homem, e tu ias ceder á primeira,
desrespeitando as leis necessarias da segunda.
--Quem tem razão és tu, dizia-lhe outra voz contrária, porque essa
mulher vale mais que seu destino, e a lei do coração é anterior e
superior ás outras leis. Não ias descer; ias fazel-a subir; ias
emendar o equivoco da fortuna; escuta a voz de Deus e deixa aos homens o
que vem dos homens.
Jorge caminhava assim, levado de sensações contrarias, até que ouviu
bater meia-noite e caminhou para casa, cançado e oppresso. Valeria
esperava-o sem haver dormido. Essa dedicação silenciosa, occulta,
vulgar nas mães, natural naquella vespera de uma separação acerba e
longa, foi como um balsamo ao coração dolorido do rapaz. Foi tambem um
remorso. Pungiu-lhe a consciencia ao ver que esperdiçara algumas horas
longe da creatura, a quem verdadeiramente ia deixar saudades, unica
pessoa que pediria a Deus por elle. Valeria adivinhara onde estaria o
filho, e tremia de medo á proporção que as horas passavam, receiosa
de que, amando-o Estella, um e outro houvessem subtrahido a sua ventura
ao jugo das leis sociaes, indo refugiar-se em algum ignorado recanto.
Pensou isso, e fraqueou, e arrependeu-se, duvidando de si e da rectidão
de seus actos. Não duvidava da natureza do mal; mas não excedia a elle
o remedio escolhido? Suppondo que esse pensamento era a sua primeira
punição, reagiu fortemente, colligindo as energias abatidas e
dispersas e voltou a ser a mulher que era, com todas as suas fortes
qualidades naturaes ou contrahidas. De mais, a que viria o
arrependimento, se era tarde?
O filho entrou com as feições recompostas, mas tristes. Valeria
recebeu-o sem nenhuma expressão de censura ou magua. Nada lhe disse;
elle pouco falou e despediram-se sem expansão, aquella ultima noite que
ia o moço dormir sob o tecto de seus paes.
A noite foi para elle afflicta e melancholica. Quasi inteira gastou-a em
inventariar a vida que ia acabar, em dar busca aos papeis, queimar as
cartas dos amigos, repartir algumas prendas, e finalmente em escrever
disposições testamentarias e cartas a pessoas intimas. Perto das
quatro horas deitou-se; ás sete estava de pé. Valeria havia-se-lhe
antecipado. Algumas pessoas foram despedir-se delle e acompanhar a mãe
no solemne momento da despedida. Entre essas figurava o pae de Estella,
cuja tristeza, que era sincera, trazia uma mascara ainda mais triste.
Veiu emfim o momento da despedida. Valeria dominara-se até onde pode;
mas o ultimo instante concentrava tantas dores, que era impossivel
resistir-lhe. A organização moral da viuva era forte, mas a
resistencia fora prolongada, e a vontade gastou-se nesse esforço de
todos os dias. Quando soou o instante definitivo da separação
rebentaram dos olhos as lagrimas, não tumultuosas, cortadas de vozes e
gemidos, mas dessas outras que retalham silenciosamente as faces, resto
de uma dignidade que cede a custo á lei da natureza. Ella estendeu os
braços, ainda formosos, sobre os hombros do filho; nessa postura
contemplou-o algum tempo; depois beijou-o e apertou-o estreitamente ao
coração.
--Vae, meu filho, disse com voz firme. Eu fico rogando a Deus por ti;
Deus é bom e te restituirá a meus braços. Serve a tua patria, e
lembra-te de tua mãe!
Foram as ultimas palavras. Jorge não as ouviu; tinha o espirito
prostrado e surdo. Chorou tambem, menos silenciosamente que Valeria, mas
as mesmas lagrimas afflictas.
--Adeus, querida mamãe! disse elle arracando-se emfim de seus braços.
Saiu; Valeria não o viu sair; dera costas a todos e foi lastimar na
alcova seu voluntario infortunio.
Pouco tempo depois, perdendo de vista a cidade natal, sentiu Jorge que
dobrara a primeira lauda de seu destino, e ia encetar outra, escripta
com sangue. O espectaculo do mar abateu-o ainda mais: alargava-se-lhe a
solidão até o infinito. Os poucos dias da viagem desfiou-os nessa
atonia moral que succede ás catastrophes. Emfim, aportou a
Montevidéu,--seguindo dalli ao Paraguay.
A segunda viagem, as gentes extranhas, as novas cousas, o movimento do
theatro da guerra, produziram nelle saudavel transformação. O espirito
elastico e mobil sacudiu as sombras de pezar que o ennoiteciam, e, uma
vez voltado o rosto para o lado do perigo, começou de enxergar, não a
morte obscura ou ainda gloriosa, mas o triumpho e o laureado regresso.
Bebido o primeiro hausto da campanha, Jorge sentiu-se homem. A hora das
frivolidades acabara; a que começava era a do sacrificio austero e
diuturno. Ia encarar trabalhos não sabidos, expôr-se a perigos
inopinaveis; mas ia resoluto e firme, com a fronte serena e clara e o
lume da confiança acceso no coração.
V
As primeiras cartas de Jorge foram todas á mãe. Eram longas e
derramadas, enthusiasticas, descuidosas e até pueris. Descontada a
escassa porção de realidade que podia haver nellas, ficava um calculo,
que o coração de Valeria comprehendeu; era adoçar-lhe a ausencia e
dissipar-lhe as apprehensões.
Cedo se familiarisou Jorge com a vida militar. O exercito, acampado em
Tuyuty, não iniciava operações novas; tratava-se de reunir os
elementos necessarios para proseguir a campanha de modo seguro e
decisivo. Não havendo nenhuma acção grande, em que pudesse provar as
forças e amestrar-se, Jorge buscava as occasiões de algum perigo, as
commissões arriscadas, cujo exito dependesse de espirito atrevido,
sagacidade e paciencia. Esse desejo captou-lhe a sympathia dos chefes
immediatos.
O coronel que o commandava attentou nelle; sentiu-lhe a alma juvenil
atravez do olhar brando e repousado. Ao mesmo tempo observou que, no
meio dos gozos faceis e multiplos do acampamento, convertido pela
inacção em povoado de recreio, Jorge conservava um retrahimento
monachal, um casto horror de tudo o que pudesse divertil-o de curar das
armas, ou sómente de pensar nellas. O coronel era homem de seu officio;
amava a guerra pela guerra; morreu talvez de nostalgia no regaço da
paz. Era bravo e rispido. O que lhe destoou a principio na pessoa de
Jorge, foi o alinho e um resto de seus ademanes de sala. Jorge,
entretanto, sem perder desde logo o geito da vida civil, foi creando com
o tempo a crosta de campanha. O desejo de trabalhar, de arriscar-se, de
temperar a alma ao fogo do perigo, trocou os sentimentos do coronel, que
entreviu nelle um bom companheiro de armas, e ao fim de pouco tempo
procurou distinguil-o.
Posto que Jorge falasse do coronel nas cartas que escrevia á mãe, não
o dava como amigo seu, nem tinha amigos no acampamento, ou se os tinha
não os considerava taes. Ouvia confidencias de muitos, animava as
esperanças de uns, consolava as penas de outros, nunca abria porém a
porta do coração á curiosidade transeunte. Devia ser entretanto
interessante uma pagina sómente da vida daquelle militar, joven,
bonito, abastado, que não ia ao theatro nem aos saraus do acampamento,
que ria poucas vezes e mal, que só falava da guerra, quando falava de
alguma cousa.
Um dia, um major do Ceará foi achal-o sentado em um resto de carreta
inutil, lançado em sitio escuso, ora a olhar para o horizonte, ora a
traçar com a ponta da espada uma _estrella_ no chão.
--Capitão, disse o major, parece que você está vendo estrellas ao
meio dia?
Jorge sorriu do gracejo, mas não deixou de continuar, nos demais dias,
a traçar estrellas no chão ou a procural-as nas campinas do ceu. Os
officiaes, arrastados pela sympathia, não lhe ficavam presos pela
convivencia; Jorge era, não só taciturno, mas desegual, ora docil, ora
rispido, muitas vezes distrahido e absorto. Era distrahido, sobretudo,
quando recebia cartas do Rio de Janeiro, entre as quaes rara vez
acontecia que não viesse alguma do Sr. Antunes. O pae de Estella regava
com a agua salobra de seu estylo a esperança que não perdera. As suas
cartas eram epithalamios disfarçados. Falava muito de si, e muito mais
da filha, cuja alma, dizia elle, andava singularmente triste e
acabrunhada. Jorge resistia ao desejo de falar tambem de Estella; mais
de uma vez o nome da moça lhe caía dos bicos da penna; elle o riscava
logo, assim como riscava qualquer phrase que pudesse parecer allusiva
aos seus sentimentos; as que escrevia ao pae da moça eram seccas, sem
especial interesse, polidas e frias.
Um dia, porém, antes de meado o anno de 1867, não pode resistir á
necessidade de segredar o amor a alguem ou proclamal-o aos quatro ventos
do ceu. Ninguem havia ao pé delle que merecesse a confidencia; Jorge
alargou os olhos e lembrou-se de Luiz Garcia, unica pessoa extranha a
quem confiara metade do segredo que havia levado para a guerra. Os
corações discretos são raros; a maioria não é de gaviões brancos
que, ainda feridos, voam calados, como diz a trova; a maioria é das
pêgas, que contam tudo ou quasi tudo.
Já nesse tempo o coração de Jorge padecera grande transformação. O
amor, sem minguar de intensidade, mudara de natureza, convertendo-se em
uma especie de adoração mystica, sentimento profundo e forte, que
parecia respirar atmosphera mais alta que a do resto da creação. Elle
mesmo o disse na carta a Luiz Garcia, sem lhe denunciar o nome da
pessoa, nem nenhuma circumstancia que podesse pol-o na pista da
realidade; exigiu-lhe absoluto silencio e contou-lhe o que sentia:
«Não importa saber quem é, disse elle;--o essencial é saber que amo
a mais nobre creatura do mundo, e o triste é que não sómente não sou
amado, mas até estou certo de que sou aborrecido.
«Minha mãe illudiu-se quando suppoz que meu amor achara echo em outro
coração. Talvez desistisse de me mandar ao Paraguay, se soubesse que
esta paixão solitaria era o meu proprio castigo. Era; já o não é. A
paixão veiu commigo, apezar do que lhe ouvi na vespera de embarcar; e
se não cresceu, é por que não podia crescer. Mas transformou-se. De
creança tonta, que era, fez-se homem de juizo. Uma crise, algumas
legoas de permeio, poucos mezes de intervallo, foram bastantes a operar
o milagre.
«Não sei se a verei mais, porque uma bala pode pôr termo a meus dias,
quando eu menos o esperar. Se a vir, ignoro os sentimentos com que ella
me receberá. Mas de um ou de outro modo, este amor morrerá commigo, e o
seu nome será a ultima palavra que ha de sair de meus labios.
«Meu amor não sabe já o que seja impaciencia ou ciume ou
exclusivismo: é uma fé religiosa, que pode viver inteira em muitos
corações. Talvez o senhor me não comprehenda. Os homens graves ficam
surdos a estas subtilezas do coração. Os frivolos não as entendem. Eu
mesmo não sei explicar o que sinto, mas sinto alguma cousa nova, uma
saudade sem esperança, mas tambem sem desespero: é o que me basta.»
Jorge releu o escripto, e ora o achava claro de mais, ora obscuro.
Hesitou ainda algum tempo; emfim, dobrou a carta, fechou-a e remetteu-a
para o Rio de Janeiro.
Quando a resposta lhe chegou ás mãos, preparava-se o exercito para
deixar Tuyuty. Jorge estava todo entregue aos cuidados da guerra, a
sonhar batalhas, a acutilar mentalmente os soldados de Lopez. A resposta
de Luiz Garcia dizia pouco ou nada do objecto da carta de Jorge;
compunha-se quasi toda de conselhos e reflexões, dadas em linguagem
sobria e medida, reflexões e conselhos relativos quasi exclusivamente
aos deveres de homem e de soldado.
Jorge esperava aquillo mesmo; conhecia, ainda que pouco, o genio sêcco
e gelido de Luiz Garcia. Comtudo, ficou momentaneamente desapontado e
triste. Seria certo que nenhum coração sympathisava com seus secretos
infortunios ou suas venturas solitarias? Ao cabo de largos mezes de
separação, nem Estella pensaria nelle, nem elle achava pessoa com quem
partisse o pão das saudades, ultimo alimento de um amor sem conjuge. A
consciencia da solidão moral abateu-o um instante; esvaiu-se-lhe toda a
força accumulada durante aquelles mezes, e a alma caiu de bruços.
Poucos dias depois operou-se a marcha de Tuyuty a Tuyu-Cué, a que se
seguiu uma serie de acções e movimentos, em que houve muita pagina de
Plutarcho. Só então pode Jorge encarar o verdadeiro rosto á guerra, a
cujo principio não assistira; figurou em mais de uma jornada heroica,
correu perigos, mostrou-se valoroso e paciente. O coronel adorava-o;
sentia-se tomado de admiração deante daquelle mancebo, que combatia
durante a batalha e calava depois da victoria, que communicava o ardor
aos soldados, não recuava de nenhuma empreza, ainda a mais arriscada, e
a quem uma estrella parecia proteger com suas azas de luz.
Notou elle uma vez, em um dos combates mortiferos de Dezembro de 1868,
anno e meio depois da carta de Luiz Garcia, que a temeridade do mancebo
parecia ir além dos limites do costume, e que em vez de um homem que
combatia, era elle um homem que queria morrer. A fortuna salvou-o. Findo
o combate, recolhidos os feridos, repousados os corpos, o coronel foi
ter com elle na barraca, e achou-o tristemente quieto, com os olhos
inchados e parados. O coronel não reparou nisso; entrou a felicital-o
pelo comportamento que tivera, ainda que um pouco excessivo. Jorge
tinha-se respeitosamente erguido e olhava para o coronel sem dizer
palavra. Este encarou-o e viu-lhe signaes de abatimento.
--Que diabo tem você, capitão?
--Nada, respondeu o moço.
--Recebeu hontem cartas do Rio de Janeiro?
--Uma: de minha mãe.
--Está boa?
--De perfeita saude.
--Nesse caso...
O coronel parou e reflectiu; depois continuou:
--Já sei o que é.
--O que é! exclamou Jorge procurando sorrir.
--Ha-de fazer-se, continuou o coronel; a cousa está a caminho, ha-de
fazer-se, não lhe digo mais nada.
E bateu-lhe no hombro, com um gesto que tanto podia dizer: «socegue,
capitão», como: «parabens, senhor major.» Jorge entendeu esse
trocadilho gesticular, e apertou as mãos do coronel, agradecendo-lhe,
não o posto que lhe annunciava, mas a affeição que lhe tinha. O
coronel encarou-o paternalmente alguns minutos.
--Subir! Não sonham com outra cousa, rosnava elle comsigo.
E saiu.
Jorge ficou só, accendeu um cigarro, que não pode fumar até o fim.
Depois sentou-se desabotoou a farda, tirou uma carta, abriu-a e releu
algumas linhas do fim. A carta era de Luiz Garcia. Dava-lhe noticias de
sua mãe, que, por motivos de doença, fora tomar aguas a Minas, e
rematava com estas palavras assombrosas:
«... Resta-me dizer-lhe, se em alguma cousa lhe pode interessar minha
vida, que sabbado passado contrahí segundas nupcias. Minha mulher é a
filha do Sr. Antunes. Sua mãe serviu-nos de madrinha.»
Com os olhos fitos nessas poucas linhas, Jorge parecia alheio a tudo
mais. O papel, recebido na vespera, estava amarrotado, como se lhe
passara pelas mãos durante um anno. Olhava, relia e não podia
entender; quando chegava a entender, não podia acreditar. O casamento
de Estella era a seu ver um absurdo; mas após os intervallos de duvida,
a realidade apossava-se delle. A razão mostrava-lhe que semelhante
noticia devia ser certa. No fim de dous dias, tinha elle comprehendido
alguma cousa do silencio de sua mãe: o motivo era, sem duvida, o mesmo
que a impellira a mandal-o ao Paraguay. Nunca lhe falara de Estella, nem
do casamento de Luiz Garcia, silencio calculado para de todo extinguir
em seu coração os derradeiros murmurios de um amor sem echo.
Jorge sentiu então um phenomeno proprio de taes crises--um movimento de
odio a todo o genero humano, desde sua mãe até o seu inimigo.
Tornou-se descortez, violento, deliberadamente mau: effeito transitorio,
ao qual succedeu um abatimento profundo. Ferido dahi a dias em Lomas
Valentinas, retirou-se por alguns mezes do exercito, cujas operações
só continuaram depois de meado o anno seguinte. Jorge teve parte nas
jornadas de Pirebebuy e Campo Grande, não já na qualidade de capitão,
mas na de major, cuja patente lhe foi concedida depois de Lomas
Valentinas. No fim do anno estava tenente-coronel, commandava um
batalhão, e recebia os abraços de seu antigo commandante, contente de
o ver sagrado heroe.
Um acontecimento inesperado e desastroso veiu ainda golpeal-o
cruelmente, logo depois de Março de 1870, quando, acabada a guerra,
estava elle em Assumpção. Valeria fallecera. Luiz Garcia lhe deu essa
triste noticia, que elle antes adivinhou do que leu, porque as ultimas
cartas já lhe faziam presentir o lugubre desenlace. Jorge adorava a
mãe.
Se só a contra-gosto viera para a guerra, não é menos certo que esta
o cobrira de louros, e que elle os quizera depositar no regaço de
Valeria. O destino decidiu por outro modo, como se quizesse contrastar
cada um de seus favores fazendo-lhe sangrar o coração.
No fim de Outubro volveu ao Rio de Janeiro, Tinham passado quatro annos
justos. Penetrando a barra e descortinando a cidade natal, Jorge
comparava os tempos, as angustias e as esperanças da partida com a
gloria e o abatimento do regresso. Não se sentia feliz nem infeliz, mas
nesse estado medio, que é a condição vulgar da vida humana.
Comparava-se ao mar daquella manhã, nem borrascoso nem quieto, mas
levemente empolado e crespo, tão prestes a adormecer de todo, como a
crescer e arremeçar-se á praia. Que aragem somnolenta ou que tufão
destruidor, viria roçar por elle a aza invisivel? Jorge não o
prescrutou. Trazia os olhos no passado e no presente; deixou ao tempo os
casos do futuro.