Luiz Garcia pouco trabalho teve no animo de Jorge. A resolução deste,
uma vez declarada, não recuou mais. Não desconhecia o moço que a
empreza a que mettia hombros era crespa de difficuldades. A guerra,
sobretudo depois do desastre de Curupaity, promettia durar muito; não
havia desanimo, e o governo era auxiliado efficazmente pela população.
Jorge obteve uma patente de capitão de voluntarios.
Vinte dias depois da conversa no terraço da rua dos Invalidos,
apresentou-se Jorge em Santa Theresa, fardado e prompto, de tal modo
porém que era ainda difficil separar o casquilho do militar. A mesma
tesoura que lhe cortava os fraques, talhara a farda de capitão. Trazia
á cintura uma banda vermelha, cujas pontas caíam graciosamente ao
lado. Calçava um botim reluzente, sobre o qual assentava a calça de
fino panno. Inclinado levemente á direita, o boné não lhe
desconcertava o cabello, penteado ao estylo de todos os dias; o bigode
tinha as mesmas guias longas, agudas e lustrosas.
Luiz Garcia não pode furtar-se a um sentimento de pena, ao vel-o entrar
fardado e prestes a seguir para o sul. Pareceu-lhe descobrir por traz
delle o perfil da morte, com o eterno sorriso sem labios. Mas esse
sentimento de commiseração passou; lembrou-lhe logo a ultima palavra
da viuva, e não pode deixar de condemnal-o. Viu até, com certa
repulsa, esse coração de vinte e quatro annos, que ia arriscar a vida
propria, e talvez a de sua mãe, para não rejeitar um sentimento mau.
--Estou a seu gosto? perguntou Jorge com um ar de benevola ironia.
--Ha de estar melhor no fim da guerra, Sr. general, respondeu o outro.
--General? Pode ser.
Dizendo isto, Jorge entrou a falar de suas esperanças e futuros. A
imaginação começava a dissipar a melancolia. Elle via já naquillo
uma aventura romanesca e mysteriosa; sentia-se uma resurreição de
cavalleiro medievo, saindo a combater por amor de sua dama, castellã
opulenta e formosa que o esperaria na varanda gothica, com a alma nos
olhos e os olhos na ponte levadiça. A ideia da morte ou da mutilação
não vinha agitar-lhe ao rosto suas azas pallidas e sangrentas. O que
elle tinha deante de si eram os campos infinitos da esperança. Comtudo,
o momento era grave, e difficilmente podia o espirito esquivar-se á
reflexão intermittente. Além disso, Jorge subira a Santa Theresa com a
resolução de contar tudo a Luiz Garcia, afim de deixar um confidente
austero e unico de seus amores; mas a palavra não se atrevia a sair do
coração. Ou a edade do outro ou a indole de suas relações tolhia
essa confidencia intima; ainda mais do que uma e outra razão, havia
naquelle momento o gesto singularmente preoccupado e duro de Luiz
Garcia. Jorge deu de mão ao projecto.
--Dê-me o abraço de despedida, disse elle; embarco amanhã.
--Já amanhã!
--Vim despedir-me do senhor.
Luiz Garcia considerou-o silenciosamente durante dous ou tres minutos;
depois apertou-lhe as mãos.
--Vá, disse; trabalhe pela terra; não se poupe a trabalhos, nem se
exponha sem utilidade; em todo o caso, obedeça á disciplina, e não se
esqueça um só dia de sua mãe.
Jorge saiu e desceu a passo largo e trémulo na direcção da rua de D.
Luiza. A meio caminho parou, como se quizesse tomar outra direcção;
ergueu os hombros e proseguiu. Ia mergulhado em si mesmo, e só deu
accordo ao parar deante de uma casa daquella rua.
Antes de lá entrar, vejamos quem eram os moradores.
O defunto marido de Valeria, no tempo em que advogava, tinha um
escrevente, que, mais ainda do que escrevente, era seu homem de
confiança; Chamava-se o Sr. Antunes. Foram serviços de certa ordem que
os ligaram mais intimamente. A fortuna troca ás vezes os calculos da
natureza; uma e outra iam de accordo na pessoa daquelle homem, nado e
creado para as funcções subalternas. Familiar com todas as formas da
adulação, o Sr. Antunes ia do elogio hyperbolico até o silencio
opportuno. Tornou-se dentro de pouco, não só um escrevente laborioso e
pontual, mas tambem, e sobretudo, um _fac-totum_ do desembargador, seu
braço direito, desde os recados eleitoraes até ás compras domesticas,
vasta escala em que entrava o papel de confidente das entreprezas
amorosas. Assim que, nunca lhe fez mingua a protecção do
desembargador. Viu crescer-lhe o ordenado, multiplicarem-se-lhe as
gratificações; foi admittido a comer algumas vezes em casa, nos dias
communs, quando não havia visitas de ceremonia. Nas occasiões mais
solemnes era elle o primeiro que se esquivava. Ao cabo de tres annos de
convivencia tinha consolidado a situação.
Justamente nesse tempo succedeu morrer-lhe a mulher, de quem lhe ficou
uma filha de dez annos, menina interessante, que algumas vezes visitara
a casa do desembargador. Este fez o enterro da mãe e pagou o luto da
filha e do pae. O Sr. Antunes, que não era de extremas philosophias,
tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como
quer o Ecclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor
Pangloss; entendia que ha larga ponderação de males e bens, e que a
arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal. Morta a
mulher, alcançou do desembargador um enxoval completo para fazer entrar
a filha n'um collegio, visto que até então nada aprendera, e já
agora não podia deixal-a sósinha em casa. O desembargador dera o
enxoval; algumas vezes pagou o ensino; as visitas amiudaram-se; a
creança, que era bonita e boa, entrou manso e manso no coração de
Valeria que a recebeu em casa, no dia em que a pequena concluiu os
estudos.
Estella--era o seu nome,--tinha então dezeseis annos. Pouco antes
fallecera o desembargador. O Sr. Antunes recebeu dous golpes em vez de
um: o de o ver morrer, e o de o não ver testar. As aneurismas têm
dessas perfidias inopinaveis. Afim de emendar a mão á fortuna, o pae
de Estella concentrou na viuva a attenção que até então repartira
entre ella e o marido; facto que aliás decorria da propria obrigação
moral em que se achava para com a familia do desembargador. Estella
devia a essa familia educação e carinho; podia talvez vir a dever-lhe
um dote, um marido e consideração. Quem sabe? Talvez o coração de
Jorge vinculasse as duas familias. Esta ambição affagava-a o Sr.
Antunes no mais profundo de sua alma.
Jorge estava prestes a concluir os estudos em S. Paulo; ia na metade do
quarto anno. Vindo á Capital durante as férias, achou-se deante de uma
situação inesperada; a mãe esboçara um projecto de casamento para
elle. A noiva escolhida era ainda parenta remota de Jorge. Chamava-se
Eulalia. Tinha dezenove annos na certidão de baptismo e trinta no
cerebro. Era uma moça sem illusões nem vaidades, talvez sem paixões,
dotada de juizo recto e coração simples, e sobre tudo isso uma belleza
sem macula e uma elegancia sem espavento.--Uma perola! dizia Valeria
quando insinuou ao filho a conveniencia de casar com Eulalia. A perola,
entretanto, não parecia anciosa de ornar a fronte de ninguem. Quando
Valeria fez as primeiras sondagens no coração da joven parenta, achou
alli uma agua tranquilla, sem curso nem recurso de marés. Tratou de
saber se alguma brisa lhe roçara a aza, e descobriu que não; então
chamou em seu auxilio o sirocco e o pampeiro. Não foi difficil a
Eulalia perceber os desejos da viuva, nem resistiu quando chegou a
entendel-a. A razão disse-lhe que o casamento era acceitavel; esperou.
Valeria ficou satisfeita com o resultado, e deu-se pressa em sondar as
disposições de Jorge, quando elle voltou no fim do anno.
Graças á sua arte de assediar as vontades alheias, Valeria alcançou
do filho uma resposta condicional. Era já alguma cousa. O motivo da
insistencia da viuva era complexo; eram as qualidades da parenta, a
affeição grande que lhe votava, o receio de morrer subitamente e a
confiança que tinha em si mesma para conhecer e eleger caracteres.
Durante o ultimo anno da Faculdade, Jorge pensou algumas vezes no
casamento como se pensa n'um projecto remoto; mas, á proporção que o
tempo corria, o coração ia-se-lhe tornando retrahido e medroso. Uma
vez formado, deu de mão á ideia; não teve a franqueza de o declarar
á mãe, e Valeria esperou confiadamente que o coração do filho
dissesse n'outra lingua aquillo que ella já lhe havia dito na sua.
Para conhecer exactamente o motivo da repulsa de Jorge em relação a
uma moça, cujas qualidades deviam tentar qualquer outro, convem não
esquecer que essas qualidades eram justamente as mais avêssas á indole
do filho de Valeria. Não bastava ser elegante e bonita, discreta e
mansa; era preciso alguma cousa mais, que exactamente correspondesse á
imaginação delle; faltava-lhe um grão de romanesco.
A isto accrescia um sentimento novo, que se apossou delle, ao cabo de
tres semanas depois da chegada ao Rio de Janeiro. A vista quotidiana de
Estella produziu em Jorge uma impressão forte. Posto vivessem na mesma
casa, era difficil acharem-se nunca a sós, porque a filha do escrevente
passava todo o tempo ao pé da viuva; circumstancia que não teve a
virtude de mudar o curso aos acontecimentos. Não podendo passar de
palavras geraes e extranhas ao que lhe quizera confiar, Jorge falava-lhe
com os olhos,--linguagem que a moça não entendia, ou fingia não
entender. A imperturbavel seriedade de Estella foi um aguilhão mais,
não menos cruel que a gentileza de suas formas, e certo ar de
resolução que lhe transparecia do rosto quieto e pallido.
Pallida era, mas sem nenhum tom de melancolia ascetica. Tinha os olhos
grandes escuros, com uma expressão de virilidade moral, que dava á
belleza de Estella o principal caracteristico. Uma por uma, as feições
da moça eram graciosas e delicadas, mas a impressão que deixava o todo
estava longe da meiguice natural do sexo. Usualmente, trazia roupas
pretas, côr que preferia a todas as outras. Nu de enfeites, o vestido
punha-lhe em relevo o talhe esbelto, elevado e flexivel. Nem usava nunca
trazel-o de outro modo, sem embargo de algum dixe ou renda com que a
viuva a presenteava de quando em quando; rejeitava de si toda a sorte de
ornatos; nem folhos, nem brincos, nem aneis. Ao primeiro aspecto
dissera-se um Diogenes feminino, cuja capa, atravez das roturas, deixava
entrever a vaidade da belleza que quer affirmar-se tal qual é, sem
nenhum outro artificio. Mas, conhecido o caracter da moça, eram dous os
motivos--um sentimento natural de simplicidade, e, mais ainda, a
consideração de que os meios do pae não davam para custosos atavios,
e assim não lhe convinha affeiçoar-se ao luxo.
--Porque não põe os brincos que mamãe lhe deu a semana passada?
perguntou Jorge a Estella, um dia, em que havia gente de fóra a jantar.
--Os presentes mais queridos guardam-se, respondeu ella olhando para a
viuva.
Valeria apertou-lhe a ponta do queixo entre o pollegar e o
indicador:--Poeta! exclamou sorpudo. Você não precisa de brincos para
ser bonita, mas vá pol-os, que lhe ficam bem.
Foi a primeira e ultima vez que Estella os poz. A intenção era patente
de mais para não ser notada, e Jorge não esqueceu nem a resposta da
moça nem o constrangimento com que obedeceu. Não podia suppôr-lhe
ingratidão, porque via a affeição com que Estella tratava a mãe. Em
relação a elle não parecia haver affeição egual, mas havia
certamente respeito e consideração, rara vez familiaridade, e ainda
assim, uma familiaridade enluvada, um ar de visita de pouco tempo.
Jorge começou a achar mais agradavel a casa do que a rua; e as noites,
quando não havia pessoas de fora, passava-as á volta de uma mesa,
lendo ou jogando com as duas, ou vendo-as trabalhar, em quanto contava
anedoctas da academia, lia as correspondencias do Paraguay e de
Buenos-Ayres, ou simplesmente alguma pagina de romance. Nessa vida, meio
patriarchal, as horas corriam depressa, tão depressa, que elle não as
sentia. Ao cabo de cinco a seis semanas, fez-se elle seu proprio
confessor, examinou a consciencia, descobriu lá dentro alguma cousa que
não era a phantasia sensual do primeiro instante, e, longe da
absolver-se, condemnou-se á crua penitencia de abstenção. Voltou aos
antigos habitos e deixou os serões domesticos. Mas a applicação do
remedio, por mais sincera que fosse, já não podia muito contra a
acção do mal. Estella frequentava-lhe tenazmente a memoria; e na rua,
no theatro, nas assembléas a que ía, o perfil severo da moça vinha
metter-se entre elle e a realidade. Se pudesse deixar de a ver, a
convalescença não era ainda difficil; mas como fugir á lembrança de
uma mulher, cuja figura lhe apparecia durante algumas horas de cada dia?
Demais, a somnambula que elle tinha no cerebro vinha auxiliar a
fatalidade das circumstancias. No fim de um mez, a indole do sentimento
havia mudado: era mais pura; mas o sentimento não parecia disposto a
esvair-se: era mais violento.
Como o Sr. Antunes levasse a filha, uma noite, a visitar pessoa de sua
amizade, Jorge aproveitou a circumstancia para insinuar a Valeria a
conveniencia de restituir Estella a seu pae.
--Porque? perguntou a viuva.
--Sempre é um tropeço, uma pessoa extranha mettida entre
nós,--replicou Jorge. Não lhe nego que tem boas qualidades; mas... é
uma pessoa extranha.
--Que importa, se me dou bem com ella? Conheço-a desde pequena; é uma
companhia melhor que qualquer outra. Mas porque te lembras disso agora?
--Estive pensando na responsabilidade que pesa sobre nós. Se fosse
nossa parenta, vá, não se podia dispensar a obrigação; mas não
sendo, creio que era melhor libertarmo-nos.
--Descança; quando fôr tempo, caso-a. O que não admitto é algum
marido de pouco mais ou menos. Ha-de ser pessoa que a mereça. Não
sabes o que vale aquella menina. Não é só boa, tem certa elevação
de sentimentos; nunca me desattendeu e nunca me adulou.
Jorge confirmou com a cabeça e não disse mais nada. O que acabava de
fazer não passava de uma tentativa sincera, mas frouxa, para arredar
Estella da casa; era o imposto pago á consciencia; Quite com ella,
entregou-se aos acontecimentos, confessando a si mesmo que o perigo não
era tão grave, nem o remedio tão urgente; finalmente, que elle era
homem.
No meio de semelhante situação, que sentia ou que pensava Estella?
Estella amava-o. No instante em que descobriu esse sentimento em si
mesma, pareceu-lhe que o futuro se lhe rasgava largo e luminoso; mas foi
só nesse instante. Tão depressa descobriu o sentimento, como tratou de
o estrangular ou dissimular,--trancal-o ao menos no mais escuso do
coração, como se fora uma vergonha ou um peccado.
--Nunca? jurou ella a si mesma.
Estella era o vivo contraste do pae, tinha a alma acima do destino. Era
orgulhosa, tão orgulhosa que chegava a fazer da inferioridade uma
aureola; mas o orgulho não lhe derivava de inveja impotente ou de
esteril ambição; era uma força, não um vicio,--era o seu broquel de
diamante,--o que a preservava do mal, como o do anjo de Tasso defendia
as cidades castas e santas. Foi esse sentimento que lhe fechou os
ouvidos ás suggestões do outro. Simples aggregada ou protegida, não
se julgava com direito a sonhar outra posição superior e independente;
e dado que fosse possivel obtel-a, é licito affirmar que recusara,
porque, a seus olhos seria um favor, e a sua taça de gratidão estava
cheia. Valeria, que tambem era orgulhosa, descobrira-lhe essa qualidade,
e não lhe ficou querendo mal; ao contrario, veiu a aprecial-a melhor.
Pois o orgulho de Estella não lhe fez sómente calar o coração,
infundiu-lhe a confiança moral necessaria para viver tranquilla no
centro mesmo do perigo. Jorge não percebera nunca os sentimentos que
inspirara; e, por outro lado, nunca viu a possibilidade de os inspirar
um dia. Estella só lhe manifestava o frio respeito e a fria dignidade.
Um dia, vagando uma casa de Valeria no caminho da Tijuca, determinou-se
a viuva a ir examinal-a, antes de a alugar outra vez. Foi acompanhada do
filho e de Estella. Sairam cedo, e a viagem foi alegre para a moça, que
pela primeira vez ia áquelle arrabalde. Quando a carruagem parou,
suppunha Estella que mal tivera tempo de sair da rua dos Invalidos.
A casa precisava de alguns reparos; um mestre de obras, que já alli
estava, acompanhou a familia de sala em sala e de alcova em alcova. Só
elle e Valeria falavam; Estella não tinha voto consultivo, e Jorge
parecia indifferente. Que lhe importava a elle o rebôco de uma parede
ou o concerto de um soalho? Elle gracejava, ria ou sussurrava ao ouvido
de Estella um epigramma a respeito do mestre de obras, cuja prosodia era
execravel. Estella, que sorria com elle, cerrava entretanto o gesto aos
epigrammas.
De sala em sala, chegaram a uma pequena varanda, onde uma circumstancia
nova os deteve algum tempo. N'uma das extremidades da varanda havia um
pombal velho, onde elles foram achar, esquecido ou abandonado, um casal
de pombos. As duas aves, após vinte e quatro horas de solidão,
pareciam saudar as pessoas que alli appareciam repentinamente.
--Coitadinhos! disse Estella logo que entrou na varanda.
Valeria prestou um minuto de attenção, talvez meio, e seguiu a ver a
casa. Estella ficara a olhar para os dous pombos, e não a viu sair.
--Quer leval-os? disse a voz de Jorge.
A moça voltou-se e respondeu que não:--Comtudo, continuou ella, era
bom dal-os a alguem para não morrerem á fome. São tão bonitos!
--Mas porque não os ha de levar a senhora mesma?
--Vou pedir ao mestre que os tire dalli, disse ella dando um passo para
dentro.
--Não é preciso: eu vou tiral-os.
Estella recusou, mas o bacharel resolvera e ia satisfazer elle proprio o
desejo da moça. O pombal não ficava ao alcance da mão; era preciso
trepar ao parapeito da varanda, crescer na ponta dos pés e estender o
braço. Ainda assim, precisaria contar com a boa vontade dos pombos.
Jorge trepou ao parapeito. Se perdesse o equilibrio poderia cair ao
chão da chacara; para evital-o, Jorge lançou a mão esquerda a um
ferro que havia na columna do canto, e que o amparou; depois esticou o
corpo e alcançou com a mão o pombal. Um dos pombos ficou logo seguro;
o outro, a principio arisco, foi colhido depois de algum esforço.
Estella recebeu-os; Jorge saltou ao chão.
--A Sra. D. Valeria, se visse isto, havia de ralhar, disse Estella.
--Grande façanha! respondeu Jorge sacudindo com o lenço as mãos e a
aba do fraque.
--Podia cair.
--Mas não caí; foi um risco que passou. São bonitinhos, não são?
continuou elle apontando para os pombos que Estella tinha entre as
mãos.
A moça respondeu com um gesto e deu alguns passos, afim de ir ter com a
viuva. Jorge deteve-a, mettendo-se entre ella e a porta.
--Não se vá embora, disse elle.
--Que é? perguntou Estella erguendo tranquillamente os grandes olhos
limpidos.
--Disfarçada!
Estella baixou silenciosamente a cabeça e buscou dar outra volta para
entrar na sala ao pé; Jorge, porém, interceptou-lhe de novo o caminho.
--Deixe-me passar, disse ella sem colera nem supplica.
Jorge recuara até a porta, unica das tres que estava aberta. Era
arriscado o que fazia; mas, além de que Valeria e o mestre estavam no
pavimento superior,--elle ouvia-lhes os passos,--perdera naquella
occasião toda a lucidez de espirito. Era deserto o logar, e
naturalmente seria longo o tempo de que poderia dispôr para lhe dizer
tudo. Mas os labios ficaram cerrados alguns instantes, em quanto os
olhos diziam a eloquencia da paixão mal contida e prestes a irromper.
Não insistiu Estella, mas ficou diante delle, quieta e sem arrogancia,
como esperando ser obedecida. Jorge quizera-a supplicante ou desvairada;
a tranquillidade feria-lhe o amor proprio, fazendo-lhe ver que o perigo
era nenhum, e revellando, em todo caso, a mais dura indifferença. Quem
era ella para o affrontar assim? Era a segunda vez que formulava essa
pergunta; tinha-a feito nas primeiras auroras da paixão. Desta vez a
resposta foi deploravel. Cravando os olhos em Estella, disse com voz
tremula, mas imperiosa:
--Não ha de sair daqui, sem me dizer se gosta de mim. Vamos; responda!
Não sabe o que lhe pode custar esse silencio?
Não obtendo resposta, continuou depois de alguma pausa:
--É animosa! Saiba que posso vir a odial-a e que talvez já a odeio;
saiba tambem que posso tirar vingança de seus despresos, e chegarei a
ser cruel, se fôr necessario.
Estella suspirou apenas, e foi encostar-se ao parapeito, a olhar para a
chacara. Era sua intenção não irrital-o, com a resposta secca e má
que lhe dictava o coração, e esperar que Valeria descesse. Entretanto,
na posição em que ficara tinha as costas voltadas para Jorge,
circumstancia que não era intencional, mas que pareceu a este um
simples meio de lhe significar o seu desdem. A irritação de Jorge foi
grande. Após uns dous ou tres minutos de silencio, Jorge caminhou na
direcção do parapeito, onde estava Estella, com a cabeça inclinada, a
beijar a cabeça dos pombos, que tinha encostados ao seio. Deteve-se,
sem que a moça mudasse de posição. Contemplou-a ainda um instante, e
se Estella olhasse para elle veria que a expressão dos olhos era de
respeitosa ternura e nada mais.
Esse instante, porém, voou depressa, e com elle a consideração.
Inclinando-se para a moça, Jorge falou de um modo que nem a educação
nem a indole, mas só o despeito explicava.
--Porque hade gastar com esses animaes, uns beijos que podem ter melhor
emprego?
Estella estremeceu toda e ergueu para o moço uns olhos que fuzilavam de
indignação. Já não estava pallida, mas livida. Estupefacta, não
sabia que dissesse ou fizesse, e infelizmente não sabia tambem que a
pergunta de Jorge, por mais offensiva que lhe parecesse, não era ainda
a maxima injuria. Não era; Jorge tinha uma nuvem deante de si, atravez
da qual não podia ver nem o seu decoro pessoal nem a dignidade da
mulher amada; via só a mulher indifferente. Lançou-lhe as mãos
treabeça, puxou-a até si e antes que ella pudesse fugir ou gritar,
encheu-lhe a boca de beijos.
Soltos com o movimento, os pombos esvoaçaram sobre a cabeça de ambos,
e foram pousar outra vez na casinha de pau, onde nenhuma fatalidade
moral os condemnava áquelle amor sem esperança, áquella colera sem
dignidade.
Estella suffocara um gemido e cobrira o rosto com as mãos. Ouviam-se as
vozes de Valeria e do mestre, que se approximavam; Jorge teve um
instante de incerteza e hesitação; mas a reacção operara-se, e,
além disso, urgia apagar os vestigios daquella scena, de maneira que os
não visse a viuva.
--Ahi vem mamãe,--disse elle baixinho a Estella; não tive culpa no que
fiz, por que gosto muito da senhora.
Estella voltou-se para fora e enxugou o rosto; dahi a pouco entraram
Valeria e o mestre. Este saiu logo depois, tendo ajustado as obras que
era indispensavel fazer na casa. Valeria irritada com a vista dos
estragos que encontrou, criticava o desleixo dos inquilinos. Só depois
dos primeiros instantes reparou que nenhum dos dous lhe respondia nada,
Jorge parecia acanhado, e Estella triste. Posto houvesse enxugado as
lagrimas, Estella tinha o rosto desfeito e murchos os bellos olhos.
Jorge não ousava olhar para a mãe nem para Estella; olhava para a
ponta dos botins, onde ficara um pouco da caliça do parapeito; tinha as
mãos nas costas e estava arrimado a um portal. Valeria reparou na
attitude dos dous; mas como possuia a qualidade de dissimular as
impressões, não alterou nem o gesto nem a voz. Os olhos é que nunca
mais os deixaram.
Dahi a nada metteram-se no carro. Era tarde. A viagem foi quasi
inteiramente silenciosa; pelo menos, só Valeria disse algumas palavras.
Chegando á rua dos Invalidos, a viuva suspeitava que alguma cousa havia
entre os dous e grave. Todo aquelle dia meditou nos meios de conhecer a
natureza e os pormenores da situação, e nada achou melhor do que
interrogar directamente um delles. Jorge saíra de casa logo depois e
não voltou para jantar; Estella não sorriu em todo esse dia e quasi
não falou.
Não foi preciso interrogal-a. Logo na seguinte manhã, acabando de
levantar-se, entrou-lhe Estella na alcova, e pediu alguns minutos de
attenção. Expoz-lhe a necessidade de voltar para casa; estava moça,
devia ir prestar ao pae os serviços que elle precisaria de alguem e
tinha o direito de exigir da filha. Não era ingratidão, accrescentava;
levaria dalli saudades eternas; voltaria muitas vezes; seria sempre
obediente e grata. Cedia sómente á necessidade de acompanhar o pae.
Este pedido confirmava a suspeita de Valeria, mas só esclarecia metade
da situação. A retirada de Estella era um meio de fugir a Jorge ou de
lhe falar mais livremente? Valeria tratou de prescrutar o coração da
moça, dizendo-lhe que a razão dada era insufficiente e que alguma
causa occulta a movia; depois, recordou-lhe a amizade que lhe tinha e a
confiança a que Estella não devia faltar.
--Vamos lá, disse ella; confessa tudo.
Estella affirmou que nada mais havia; mas, insistindo a viuva, respondeu
curvando a cabeça,--o que importava meia confissão. Valeria lutou
ainda muito tempo; empregou a brandura e a intimação, mas a moça não
cedeu mais nada.
--Bem, disse a viuva; faça-se a tua vontade.
Foi assim que Estella, ao cabo de algum tempo de residencia na casa de
Valeria, regressou á casa do pae, na rua de D. Luiza. O Sr. Antunes
ficou desorientado com a noticia; disse que vivia perfeitamente só;
achou pouco decoroso e menos justo o procedimento de Estella, em
relação á viuva do desembargador; gastou largos conceitos, que lhe
não aproveitaram, porque Estella não recuou da resolução, nem a
viuva tentou dissuadil-a.
A separação não valia nada ou valia cousa peor; fez recrudescer o
amor de Jorge, por isso mesmo que entre um e outro rasgava espaço á
imaginação. Duas forças reagiram no coração do rapaz; o obstaculo,
que tornava mais intenso o amor, e o remorso que o fazia mais
respeitoso. Nenhum resentimento lhe ficara da resolução de Estella;
sentia-se culpado, e mais ainda, sentia-se victima da fuga da moça. Nem
tudo isso seria effeito sómente da paixão; cabia uma parte de
influencia á severidade do caracter de Estella, que acabou por incutir
no espirito de Jorge ideia differente da que elle a seu respeito fazia.
Valeria descobriu a pouco e pouco a inefficacia do remedio que
acceitara; estava certa da paixão do filho, e via que, longe de
expirar, entrava pela vida adeante, menos estouvada talvez, mas não
menos sincera e profunda; soube que Jorge frequentava a casa da rua de
D. Luiza; estremeceu pelo futuro e cogitou no modo de estrangular as
esperanças em flôr.
--Ou ella já o ama ou pode vir a amal-o, dizia comsigo.
Valeria encarava os dous desenlaces possiveis da situação, se a moça
lhe amasse o filho: ou seria a quéda de Estella, que a viuva estimava
muito, ou o consorcio dos dous, solução que lhe repugnava aos
sentimentos, ideias e projectos. Jamais consentiria em semelhante
alliança. Urgia prompto remedio.
Voltou energicamente ao projecto de casar o filho com Eulalia, e o
intimou a obedecer-lhe. Jorge começou resistindo e acabou dissimulando;
mas o artificio não illudiu a mãe. Valeria chamou logo em seu auxilio
a joven parenta. Eulalia, que tivera tempo de reflectir, francamente lhe
disse que não estava disposta a ser sua nora, porque Jorge não a
amaria nunca; e comquanto, não visse no casamento uma pagina de
romance, entendia que a antipathia ou total indifferença era o mais
frouxo dos vinculos conjugaes.
Desamparada desse lado, a viuva cogitou então a viagem á Europa; e,
quando elle lh'a recusou, recorreu á guerra do Paraguay. Não sem custo
lançou mão desse meio, violento para ambos; mas, uma vez adoptado,
luziu-lhe mais a vantagem do que lhe negrejou o perigo. Assim foi que de
um incidente, comparativamente minimo, resultara aquelle desfecho grave,
e de um caso domestico saía uma acção patriotica.