A hora aprazada era incommoda para Luiz Garcia, cujos habitos de
trabalho mal soffriam interrupção. Não obstante, foi á rua dos
Invalidos.
Valeria Gomes era viuva de um desembargador honorario, fallecido cêrca
de dous annos antes, a quem o pae de Luiz Garcia devera alguns obsequios
e a quem este prestara outros. Não havia entre ella e Luiz Garcia
relações assiduas ou estreitas; mas a viuva e seu finado marido sempre
o tiveram em boa conta e o tratavam com muito carinho. Defunto o
desembargador, Valeria recorrera duas ou tres vezes aos serviços de
Luiz Garcia; com tudo, era a primeira vez que o fazia com tamanha
solemnidade.
Valeria recebeu-o affectuosamente, estendendo-lhe a mão, ainda fresca,
apezar dos annos, que subiam de quarenta e oito. Era alta e robusta. A
cabeça, forte e levantada, parecia protestar pela altivez da attitude
contra a molleza e tristura dos olhos. Estes eram negros, a sobrancelha
basta, o cabello abundante, listrado de alguns fios de prata. Posto não
andasse alegre nos ultimos tempos, estava naquelle dia singularmente
preoccupada. Logo que entraram na sala, deixou-se cair n'uma poltrona;
caiu e ficou silenciosa alguns instantes. Luiz Garcia sentou-se
tranquillamente na cadeira que ella lhe designou.
--Sr. Luiz Garcia, disse a viuva; esta guerra do Paraguay é longa, e
ninguem sabe quando acabará. Vieram noticias hoje?
--Não me consta.
--As de hontem não me animaram nada, continuou a viuva depois de um
instante. Não creio na paz que o Lopez veiu propor. Tenho medo que isto
acabe mal.
--Póde ser, mas não dependendo de nós...
--Porque não? Eu creio que é chegado o momento de fazerem todas as
mães um grande esforço e darem exemplos de valor, que não serão
perdidos. Pela minha parte trabalho com o meu Jorge para que vá
alistar-se como voluntario; podemos arranjar-lhe um posto de alferes ou
tenente; voltará major ou coronel. Elle, entretanto, resiste até hoje;
não é falta de coragem nem de patriotismo; sei que tem sentimentos
generosos. Comtudo, resiste...
--Que razão dá elle?
--Diz que não quer separar-se de mim.
--A razão é boa.
--Sim, porque tambem a mim custaria a separação. Mas não se trata do
que eu ou elle podemos sentir: trata-se de cousa mais grave,--da patria,
que está acima de nós.
Valeria proferiu estas palavras com certa animação, que a Luiz Garcia
pareceu mais simulada que sincera. Não acreditou no motivo publico. O
interesse que a viuva mostrava agora em relação á sorte da campanha
era totalmente novo para elle. Excluido o motivo publico, algum haveria
que ella não quizera ou não podia revellar. Justificaria elle
semelhante resolução? Não se atreveu a formular a suspeita e a
duvida; limitou-se a dissuadil-a, dizendo que um homem de mais ou de
menos não pesaria nada na balança do destino, e desde que ao filho
repugnava a separação era mais prudente não insistir. Valeria
redarguia a todas essas reflexões com algumas ideias geraes acerca da
necessidade de dar fortes exemplos ás mães. Quando foi preciso variar
de resposta, declarou que entrava no projecto um pouco de interesse
pessoal.
--Jorge está formado, disse ella; mas não tem quéda para a profissão
de advogado nem para a de juiz. Goza por em quanto a vida; mas os dias
passam, e a ociosidade faz-se natureza com o tempo. Eu quizera dar-lhe
um nome illustre. Se fôr para a guerra, poderá voltar coronel, tomar
gôsto ás armas, seguil-as e honrar assim o nome de seu pae.
--Bem; mas vejamos outra consideração. Se elle morrer?
Valeria empallideceu e esteve alguns minutos calada, emquanto Luiz
Garcia olhava para ella, a ver se lhe adivinhava o trabalho interior da
reflexão, esquecendo que a ideia de um desastre possivel devia ter-lhe
accudido, desde muito, e se não recuara deante della, é porque a
resolução era inabalavel.
--Pensei na morte, disse Valeria dahi a pouco; e, na verdade, antes a
obscuridade de meu filho que um desastre... mas repelli essa ideia. A
consideração superior de que lhe falei deve vencer qualquer outra.
Em seguida, como para impedir que elle insistisse nas reflexões
apresentadas antes, disse-lhe claramente que, deante da recusa de Jorge,
contava com o influxo de seus conselhos.
--O senhor é nosso amigo, explicou ella; seu pae tambem foi nosso
amigo. Sabe que um e outro sempre nos mereceram muita consideração. Em
todo caso, não quizera recorrer a outra pessoa.
Luiz Garcia não respondeu logo; não tinha animo de acceitar a
incumbencia e não queria abertamente recusar; procurava um meio de
esquivar-se á resposta. Valeria insistiu por modo que era impossivel
calar mais tempo.
--O que me pede é muito grave, disse elle; se o Dr. Jorge der algum
peso a meus conselhos e seguir para a guerra, assumo uma porção de
responsabilidade, que não só me ha-de gravar a consciencia, como
influirá para alterar nossas relações e diminuir talvez a amizade
benevola que sempre achei nesta casa. O obsequio que hoje exige de mim,
quem sabe se m'o não lançará em rosto um dia como acto de leviandade?
--Nunca.
--Nesse dia, observou Luiz Garcia sorrindo levemente, ha-de ser tão
sincera como hoje.
--Oh! o senhor está com ideias negras! Eu não creio na morte; creio
só na vida e na gloria. A guerra começou ha pouco e ha já tanto
heroe! Meu filho será um delles.
--Não creio em presentimentos.
--Recusa?
--Não me atrevo a acceitar.
Valeria ficou abatida com a resposta. Após alguns minutos de silencio,
ergueu-se e foi buscar o lenço que deixara sobre um movel, ao entrar na
sala. Enxugou o rosto, e ficou a olhar para o chão, com um dos braços
cahidos, em attitude meditativa. Luiz Garcia começou a reflectir no
modo de a dissuadir efficazmente. Seu scepticismo não o fazia duro aos
males alheios, e Valeria parecia padecer naquelle instante, qualquer que
fosse a sinceridade de suas declarações. Elle quizera achar um meio de
conciliar os desejos da viuva com a sua propria neutralidade,--o que era
puramente difficil.
--Seu filho não é creança, disse elle; está com vinte e quatro annos;
pode decidir por si, e naturalmente não me dirá outra cousa... Demais,
é duvidoso que se deixe levar por minhas suggestões, depois de
resistir aos desejos de sua mãe.
--Elle respeita-o muito.
Respeitar não era o verbo pertinente; attender fora mais cabido, porque
exprimia a verdadeira natureza das relações entre um e outro. Mas a
viuva lançava mão de todos os recursos para obter de Luiz Garcia que a
ajudasse em persuadir o filho. Como elle lhe dissesse ainda uma vez que
não podia acceitar a incumbencia, viu-a morder o labio e fazer um gesto
de despeito. Luiz Garcia adoptou então um meio termo:
--Prometto-lhe uma cousa, disse elle; irei sondal-o, discutir com elle
os prós e os contras do seu projecto, e se o achar mais inclinado...
Valeria abanou a cabeça.
--Não faça isso; desde já lhe digo que será tempo perdido. Jorge
ha-de repetir-lhe as mesmas razões que me deu, e o senhor as acceitará
naturalmente. Se alguma cousa lhe mereço, se não morreu em seu
coração a amizade que o ligou a nossa familia, peço-lhe que me ajude
francamente neste empenho, com a autoridade de sua pessoa. Entre nisto,
como eu mesma, disposto a vencel-o e convencel-o. Faz-me este obsequio?
Luiz Garcia reflectiu um instante.
--Faço, disse elle frouxamente.
Valeria mostrou-se reanimada com a resposta; disse-lhe que fosse lá
jantar naquelle mesmo dia ou no outro. Elle recusou duas vezes; mas não
pode resistir ás instancias da viuva, e prometteu ir no dia seguinte. A
promessa era um meio, não só de pôr termo á insistencia da viuva,
mas tambem de encaminhar-se a saber qual era a mola secreta da acção
daquella senhora. A honra nacional era certamente o colorido nobre e
augusto de algum pensamento reservado e menos collectivo. Luiz Garcia
abriu velas á reflexão e conjecturou muito. Afinal não duvidava do
empenho patriotico de Valeria, mas perguntava a si mesmo se ella
quereria colher da acção que ia praticar alguma vantagem especialmente
sua.
--O coração humano é a região do inesperado, dizia comsigo o
sceptico subindo as escadas da repartição.
Na repartição soube da chegada de tristes noticias do Paraguay. Os
alliados tinham atacado Curupaity e recuado com grandes perdas: o
inimigo parecia mais forte do que nunca. Suppunha-se até que as
propostas de paz não tinham sido mais do que um engodo para fortalecer
a defesa. Assim, a sorte das armas vinha reforçar os argumentos de
Valeria. Luiz Garcia adivinhou tudo o que ella lhe diria no dia
seguinte.
No dia seguinte foi elle jantar á rua dos Invalidos. Achou a viuva
menos consternada do que deveria estar, á vista das noticias da
vespera, se por ventura os successos da guerra a preoccupassem tanto
como dizia. Pareceu-lhe até mais serena. Ella ia e vinha com um ar
satisfeito e resoluto. Tinha um sorriso para cada cousa que ouvia, um
carinho, uma familiaridade, uma intenção de agradar e seduzir, que
Luiz Garcia estudava com os olhos agudos da suspeita.
Jorge, pelo contrario, mostrava-se retrahido e mudo. Luiz Garcia, á
mesa do jantar, examinava-lhe a furto a expressão dos olhos tristes e a
ruga desenhada entre as sobrancelhas, gesto que indicava nelle o
despeito e a irritação. Na verdade, era duro enviar para a guerra um
dos mais bellos ornamentos da paz. Naquelles olhos não morava
habitualmente a tristeza; elles eram, de costume, brandos e pacificos.
Um bigode negro e basto, obra commum da natureza e do cabelleireiro,
cobria-lhe o labio e dava ao rosto a expressão viril que este não
tinha. A estatura esbelta e nobre era a unica feição que absolutamente
podia ser militar. Elegante, occupava Jorge um dos primeiros logares
entre os _dandies_ da rua do Ouvidor; alli podia ter nascido, alli
poderia talvez morrer.
Valeria acertava quando dizia não achar no filho nenhum amor á
profissão de advogado. Jorge sabia muita cousa do que aprendera; tinha
intelligencia prompta, rapida comprehensão e memoria vivissima. Não
era profundo; abrangia mais do que penetrava. Sobretudo, era uma
intelligencia theorica; para elle, o praxista representava o barbaro.
Possuindo muitos bens, que lhe davam para viver á farta, empregava uma
particula do tempo em advogar o menos que podia--apenas o bastante para
ter o nome no portal do escriptorio e no almanack de Laemmert. Nenhuma
experiencia contrastava nelle os impetos da juventude e os arroubos da
imaginação. A imaginação era o seu lado fraco, por que não a tinha
creadora e limpida, mas vaga, tumultuosa e esteril. Era generoso e bom,
mas padecia um pouco de fatuidade, que lhe diminuia a bondade nativa.
Havia alli a massa de um homem futuro, á espera que os annos, cuja
acção é lenta, opportuna e inevitavel, lhe dessem fixidez ao caracter
e virilidade á razão.
Não foi alegre nem animado o jantar. Falaram a principio de cousas
indifferentes; depois Valeria fez recahir a conversação nas ultimas
noticias do Paraguay. Luiz Garcia declarou que lhe não pareciam tão
más, como diziam as gazetas, sem comtudo negar que se tratava de um
serio revez.
--É guerra para seis mezes, concluiu elle.
--Só?
Esta pergunta foi a primeira palavra de Jorge, que até então não
fizera mais do que ouvir e comer. Valeria tomou a outra ponta do
dialogo, e confirmou a opinião de Luiz Garcia. Mas o filho continuou a
não intervir. Acabado o jantar, Valeria ergueu-se; Luiz Garcia fez o
mesmo; a viuva, pousando-lhe a mão no hombro, disse em tom familiar e
intencional:
--Sem ceremonia; eu volto já.
Uma vez sós os dous homens, Luiz Garcia achou de bom aviso ir de ponto
em branco ao assumpto que alli os reuníra.
--Não tem vontade de ir tambem ao Paraguay? perguntou elle logo que
Valeria desappareceu no corredor.
--Nenhuma. Comtudo, acabarei por ahi.
--Sim?
--Mamãe não deseja outra cousa, e o senhor mesmo sei que é dessa
opinião.
Uma resposta negativa roçou os labios de Luiz Garcia; a tempo a
reprimiu, confirmando com o silencio a pia fraude de Valeria. Tinha nas
mãos o meio de inutilisar o effeito do equivoco: era mostrar-se
indifferente. Jorge distraía-se em equilibrar um palito na borda de um
calix; o interlocutor, depois de olhar para elle, rompeu emfim a larga
pausa:
--Mas porque motivo cede hoje, depois de recusar tanto tempo?
Jorge ergueu os olhos, fez-lhe um signal e foram para o terraço.
--O senhor é amigo velho de nossa casa, disse elle; posso confiar-lhe
tudo. Mamãe quer mandar-me para a guerra, porque não póde impedir os
movimentos do meu coração.
--Algum namoro, concluiu friamente Luiz Garcia.
--Uma paixão.
--Está certo do que diz?
--Estou.
--Não creio, tornou Luiz Garcia depois de um instante.
--Porque não? Ella conta com a distancia e o tempo, para matar um amor
que suppõe não haver creado raizes profundas.
Luiz Garcia dera alguns passos, acompanhado pelo filho de Valeria; parou
um instante, depois continuaram ambos a passear de um para outro lado. O
primeiro reflectia na explicação, que lhe pareceu verosimil, se o amor
do rapaz era indigno de seu nome. Essa pergunta não se animou a
fazel-a; mas procurou uma vereda tortuosa para ir dar com ella.
--Uma viagem á Europa, observou Luiz Garcia depois de curto silencio,
produziria o mesmo resultado, sem outro risco mais que...
--Recusei a viagem; foi então que ella pensou na guerra.
--Mas se ella quizesse ir á Europa, o senhor recusaria acompanhal-a?
--Não; mas mamãe detesta o mar; não viajaria nunca. É possivel que,
se eu resistisse até á ultima, em relação á guerra, ella vencesse a
repugnancia ao mar e iriamos os dous...
--E porque não resistiu?
--Primeiramente, porque estava cançado de recusar. Ha mez e meio que
dura esta luta entre nós. Hoje, á vista das noticias do sul, falou-me
com tal instancia que cedi de uma vez. A segunda razão foi um
sentimento mau--mas justificavel. Escolho a guerra, afim de que se
alguma cousa me acontecer, ella sinta o remorso de me haver perdido.
Luiz Garcia parou e encarou silenciosamente o mancebo.
--Sei o que quer dizer esse olhar, continuou este; acha-me feroz, e eu
sou apenas natural. O sentimento mau teve só um minuto de duração.
Passou. Ficou-me uma sombra de remorso. Não accuso mamãe; sei as
lagrimas que lhe vae custar a separação...
--Ainda é tempo de recuar.
--O que está feito, está feito, disse Jorge erguendo os hombros.
--Sabe que mais? Acho mau gosto dar a este negocio um desenlace epico.
Que tem que fazer nisto a guerra do Paraguay? Vou suggerir-lhe um meio
de arranjaras cousas. Ceda metade sómente; vá á Europa sósinho,
volte no fim de dous ou tres annos...
Jorge sorriu desdenhosamente.
--Seu conselho mostra a differença de nossas edades, disse elle. Se eu
fosse para a Europa, que sacrificio faria á pessoa a quem amo? Pelo
contrario, a sacrificada era ella. Eu ia divertir-me, passear, ver
cousas novas, talvez achar novos amores. Indo á guerra, é differente;
sacrifico o repouso e arrisco a vida; é alguma cousa. Separados,
embora, não me negará sua estima...
--Sua estima? disse Luiz Garcia admirado.
Não continuou; mas Jorge comprehendeu, por aquella só palavra, a que
classe de mulheres elle suppunha pertencer a eleita de seu coração.
Fez um gesto; não se animou a dizer nada. Arrependeu-se talvez de haver
dito tanto. Sem ousar recommendar-lhe silencio, começou a insinual-o
delicadamente; tactica escusada, porque Luiz Garcia não era homem de
revelar o que se lhe confiava; e perigosa, porque fazia crescer as
proporções do mysterio. Luiz Garcia sorriu interiormente ao sentir a
arte cautelosa de Jorge; e quando ella lhe pareceu enfadonha:
--Descance, disse elle; não receie que eu vá publicar seus amores.
Repito-lhe o conselho: não se atire de cabeça para baixo n'uma
aventura sem fundo. Ir para a guerra é muito nobre, mas hade ser levado
de outros sentimentos. Um desaccordo por motivo de namoro, não é
o Porto Alegre nem o Polydoro, é um padre que lhe deve pôr termo.
Jorge sorriu com ar affavel, e despediu-se de Luiz Garcia; foi dalli
vestir-se para ir ao theatro. Luiz Garcia estava mais do que nunca
resoluto a deixar que os acontecimentos tivessem livre curso, sem
nenhuma intervenção sua. Logo que Jorge saiu, dispoz-se a fazer o
mesmo, despedindo-se de Valeria. Esta acompanhou-o ate á porta da sala.
--Não me diz nada? perguntou ella quando o viu prestes a transpor a
porta.
--Que lhe hei-de dizer?
--Falou a meu filho?
--Falei.
--Achou-o disposto?
--Não digo que não.
--Mas de má vontade?
--Não digo que sim.
Valeria sorriu com uma ponta de despeito.
--Vejo que este assumpto o aborrece.
Luiz Garcia disse que não. Valeria encostou-se ao portal.
--Ninguem! exclamou ella. Não tenho ninguem a meu lado. Só; ficarei
só.
--Sejamos francos, disse Luiz Garcia; seu filho cede, mas cede
violentado, e não vejo que se possa fazer delle um heroe. Que motivo
tão forte a obriga a exigir desse moço um sacrificio superior a suas
posses?
Valeria não respondeu.
--Sei o motivo, disse elle d'ahi a um instante.
--Sabe?
--Suspeito; e se me permitte ser franco, direi que o acho singular, pelo
menos não ha proporções entre a causa e o effeito. Seu filho ama.
Trata-se de uma mulher de certa especie? São correrias da mocidade, e
as delle não são taes que façam escandalo, creio eu. Trata-se de
alguma moça, cuja alliança lhe não pareça acceitavel? Nada lhe direi
a tal respeito; mas reflicta primeiro antes de o mandar ao Paraguay.
Valeria prendeu a mão direita de Luiz Garcia entre as suas; reflectiu
longo tempo; depois disse com voz sumida:
Supponha... que se trata... de uma senhora casada?
Luiz Garcia curvou a cabeça com um gesto de assentimento. Como seus
olhos baixassem ao chão não pode ver no rosto da viuva uma ligeira cor
que avermelhou e desappareceu. Se lh'a visse, se a fitasse
imperiosamente, talvez a viuva baixasse os olhos envergonhada de haver
mentido. Luiz Garcia não viu nada. Calou-se, approvou a viuva, e
prometteu auxilial-a.
Era noite quando Luiz Garcia saiu da casa de Valeria. Ia aborrecido de
tudo, da mãe e do filho,--de suas relações naquella casa, das
circumstancias em que se via posto. Galgando a ladeira a pé, detendo-se
de quando em quando a olhar para baixo, ia como apprehensivo do futuro,
supersticioso, tomado de temores intermittentes e inexplicaveis. Não
tardou a apparecer-lhe a luz da casa, e, dahi a pouco, a ouvir a
cantilena solitaria do escravo e as notas rudimentaes da marimba. Eram
as vozes da paz; elle apertou o passo e refugiou-se na solidão.