Observava Maria através das grades.
Iam as ruas d'Evora coalhadas de soldados miguelistas, e ao convento
chegavam novas da retirada de Santarem.
--É o fim da guerra, descança--dizia-lhe uma freira de meia edade,
amarela de cera, vislumbres de juventude no olhar vivo, que tambem
observava para fóra.
--De quantas batalhas o tem dito--respondeu Maria com desanimo.
E lançou um olhar de desesperança á fria cella, nua, sem conforto, á
cama, á arca, a essa cruz negra que era o sêllo do captiveiro.
--A guerra prolongar-se-ha como os pesadêlos que me endoidecem n'este
carcere.
--Para que has de descoroçoar?
Ouvia-a, muito abatida, sem desfitar os bandos.
--O peior está passado--continuou a freira.
E n'um suspiro:
--És nova, tens vida para tudo.
--Ha quanto tempo que m'o diz!
--Desde que viestes.
--Não podia ser mais feliz, encontrando tão bom coração.
--Podias, se me tivesses conhecido mais cedo. Aconselhar-te-ia de
outra forma, e decerto não estarias aqui.
--Agora não tem remedio!
Continuavam a olhar para fóra.
--Admira-me não avistar o pae.
--Não deve ter muita vontade de ver-te, nem suppõe que terás grande
gosto em o encontrar--disse a freira com amargura.
--O mal que elle me tem feito!--murmurou Maria.
--Conheço muito bem o senhor meu primo! Era outro que tal o senhor meu
pae, Deus lhe perdôe. Tinham mulheres e filhas por escravas, e
serviam-se d'estas prisões para se desfazerem das filhas segundas,
para imporem casamentos ás morgadas como nós. Infelizes tempos!
Desgraçadas que somos!
Fixou Maria novos grupos, e perguntou:
--Se o pae continua a acompanhar D. Miguel, como desde que saiu
desesperado d'aqui, deve ter vindo com elle.
--Sim. Ha de estar na cidade.
--Só se lhe succedeu alguma coisa...
--Quanto a isso está descançada. O infante viu a guerra de longe, não
é como o senhor D. Pedro, que acode ás baterias debaixo de fogo,
aponta as peças como um artilheiro, e apparece no ardôr da peleja a
animar os seus.
--A não ser da vez que foi ao Porto para incitar o cerco...
--Que por signal andou abandalhando-se em Braga, com mulheres de má
nota, fazendo flostrias a cavallo para lhes agradar, emquanto que
outros morriam pela sua teimosia de ter cadeias atulhadas de
innocentes, e conventos cheios de desgraçadas como nós.
Na preocupação da rua, Maria respondeu:
--Então é porque não quer ser visto.
--Sabe os sentimentos que inspira.
E encarando com ella.
--Não é por lhe querer bem que pensas n'elle, não é verdade?
Maria titubeou:
--Apesar de me pretender enterrar em vida, apesar do que fez á mãe...
--Se elle tivesse vergonha nem voltava a esta terra, onde veiu deixar
os ossos da desgraçada. Soube-se dos seus maus tratos, e todos lh'o
levaram a mal, acredita. Olha que muitos que se dizem realistas, e o
applaudem e a outros que taes, é só por medo d'essas viboras, que se
vingam nos inermes, e fogem a sete pés dos que estão armados.
Maria abraçou-se a ella, chorando:
--Perdôe-me, D. Anna, mas como lhe hei de querer, se me tem tratado
cruelmente, se torturou a desgraçadinha, se lançou João no horrôr da
guerra...
--Deixa-o, filha, não penses mais n'elle. É como se tivesse morrido. E
pede a Deus que ainda lhe possas pagar em caridade, nos seus ultimos
dias, que os ha de ter bem negros!
--O mal que lhe desejo me venha a mim.
--Elle não pensa mais em ti, descança. Ha que tempos não me escreve,
não me força a responder-lhe n'essas cartas em que te dou a caminho
da profissão, n'uma vida de penitencia.
--Tem sido tão bôa para mim.
--O que mais me custa, Maria, é conter-me, lançar ao papel essas
mentiras, em vez de lhe dizer as duras verdades que merece!
--Ninguem o convence.
--E elle tirava-te logo d'aqui.
--Se suspeitasse o que a tia tem sido para mim!
--Não ha remedio senão dissimular, que felizmente ha de ser por pouco
tempo.
--Agradeço lhe a bôa intenção, D. Anna, mas já não espero ver fim a
isto.
--Pois não vês que a falta das cartas em que elle teimava para que
professasses, não querendo que um dia viesses a casar, mostra que já
não tem cabeça para nada? Sempre que os liberaes ganhavam um palmo de
terreno, apertava-me elle para que te lançassem o habito. Agora não
tuge nem muge. Que mais queres?
--Talvez desconfie da sua amizade por mim.
--Como? se só tu a conheces, e não ha muito tempo, porque ao principio
fui para ti o que tinha sido para todas, retrahida, reservada! Quando
me encerraram aqui, os escandalos com que enxovalham a casa de Deus,
que, como tens visto, serve para as mais torpes devassidões, não me
desmoralisaram como ao geral das que cá veem parar. Fizeram-me
conservar á parte, sem me prestar a ditos e mexericos, sem beberetes
na cella ou na grade, sem dar confiança a nenhuma. Segui sempre com
sympathia os liberaes, porque bem sabia que elles libertariam as
pobres enclausuradas. Mas não me manifestei aqui dentro, porque de
nada servia, como as freiras constitucionaes postas a pão e agua no
carcere, forçadas a penitencias vergonhosas diante d'essa communidade
de descaradas, transferidas para longe dos seus. Calei-me sempre, mas
trago no exercito libertador soldados armados e pagos por mim, por via
de encubertos liberaes d'esta terra que fazem o mesmo, a occultas,
para que não os roubem e assassinem.
--Pois tem feito isso?
--Tenho. Mas ai de mim se o suspeitassem!
--Ah! D. Anna, que tem sido a minha verdadeira mãe!
--Não quiz que soffresses o que eu soffri. E tenho o gosto de te haver
salvo de vez. Sem mim, ao teu genio assomado, caías nos enganos que te
armaram, professavas, e adeus para sempre.
--E se elle morrer, faço-o, tia!
--Está a acabar a guerra, foste feliz!
--Quantas vezes o tenho acreditado, e quantas a realidade me
entristeceu!
Recordou a sua longa espectativa, passando por alternativas dolorosas,
ora esperando João no dia seguinte, ora julgando nunca mais o vêr.
Acompanhara-o em espirito, no desembarque no Mindello, e tivera a
mesma desillusão que elles, ao appellarem para os manifestos, na
repugnancia de derramar sangue, contando mais com a adhesão em massa
do que com a dolorosa guerra civil.
Exultára na recepção do Porto, a cidade em delirio, damas de azul e
branco, lançando mais flores a esses queridos soldados, por entre a
tempestade dos vivas aos libertadores.
Mas em breve tornaram-se em lagrimas os risos, em crepes os laços
bicolores, em chuva de granadas as de rosas, e em bravas vivandeiras
as donzellas, que os realistas offereciam em pasto á soldadesca, como
premio do assalto.
Como desejaria estar entre ellas, correr animosa ás trincheiras,
servir polvora e bala aos luctadores, accudir aos feridos, estar ao
lado de João quando o trouxeram n'uma maca, exangue!
Logo sobre as noticias da entrada triumphal viera a sangueira, a
chacina dos combates, investidas ferozes contra o Porto, e a cidade em
risco de invasão, laços constitucionaes deitados fóra, gente prestes a
fugir pela barra, militares rapando os guerreiros bigodes.
Tão pouco estavel era ainda a causa, que d'um momento para o outro se
receiava a prisão, o supplicio; e os que, como João, luctavam, tinham
agora a dupla certeza da morte, ou no campo, ou na forca.
Que desditosa influencia a sua n'esse rapaz, arrancado ao socego da
terra, ao conforto da casa, para dormir ao relento, passar a fome do
cerco, tremer inquieto sob esse maldito bombardeamento, usado pelos
miguelistas em requintes de tortura, em tiros descompassados, para
maior sobresalto, á hora do jantar para tirar o socego da meza, em
pontaria aos hospitaes para augmentar o horror.
Tremia aos symptomas do cannibalismo da lucta, o prazer do pormenor em
que um general communicava terem ficado os bravos officiaes do
Batalhão Sagrado com as cabeças abertas de meio a meio, pelos celebres
dragões de Chaves que depois se passaram para os liberaes; o auto de
fé planeado pelos frades de S. Francisco, deitando fogo ao convento
para queimarem o batalhão de caçadores 5, quando os soldados dormiam
fatigados da batalha de Ponte Ferreira!
Para a fazerem professar, no interesse do dote, na avidez de dadivas
do morgado, no odio ao noivo liberal, aggravavam-lhe as freiras as más
novas, dando os constitucionaes como perdidos, e mostrando o evidente
castigo do ceu na morte de certos voluntarios academicos, a quem
attribuiam profanações no convento de Santo Antonio do Livramento, de
Angra, accusando-os, como outr'ora aos Templarios e aos Judeus, de
fazerem alvo da imagem do santo no nicho da frontaria.
A todos os momentos receiava a noticia de que João morrera, e um dia
as freiras, qual mais havia de arreliar «a do malhado», foram dar-lhe
hypocritas condolencias porque elle recolhera ao hospital, gravemente
ferido n'uma d'essas teimosas sortidas que dizimavam a guarnição.
Tivera-o por morto, como lhe insinuavam, negando frouxamente, mas
falando-lhe das consolações que a egreja reservava a todas as dôres,
insistindo em que se votasse ao divino esposo, já que tão
misericordiosamente a libertára dos laços do mundo.
Tomára então a tia, para com a abbadessa e as mais ferozes madres, o
compromisso de a decidir, e, recolhendo se a catechisal-a, abrira-se
com ella.
Começára por uma reprehensão, em que o olhar brilhára apaixonado, e o
rosto pallido, enrugado, se fôra animando gradualmente, até dar longes
de outros tempos, da juventude impetuosa e ardente, do momento em que
amára e fôra amada, em que se tornára mulher e devia ser mãe.
--Que mal que fizeste em resistir! Como desperdiçaste a mocidade. Em
nome d'umas formulas vasias sacrificou-te, e a elle, o teu orgulho! E
se te morrer? Que recordação te fica para evocares o breve tempo que
não volta mais?
Insistira, ao vêl-a debulhar-se em lagrimas:
--Chora, desabafa, que deves sentir um mortal remorso; chora as duas
vidas que despedaçaste, e convence-te de que nunca o amaste, porque o
verdadeiro amor não raciocina, porque é a suprema lei da vida, tudo se
lhe amolda, e elle não!
--Que hei-de fazer agora, senão professar--bradava ella,
arrepelando-se.
--O teu orgulho ainda! Cala-te, vaidosa, que darias mais uma pessima
freira. Vive para elle, é o teu dever.
--Para elle? E se morreu?
--Vive para a memoria d'elle, mas nunca a dentro d'um mosteiro, porque
deves lembrar o mal que d'estas casas te adveiu.
--Então que hei-de fazer?
--Porque não pensaste em fugir d'aqui, em ires acudir-lhe, pôr-te á
sua cabeceira, tratal-o, acarinhal-o, cerrar-lhe os olhos se Deus o
levar, como fazem as fortes mulheres que estão velando o leito
d'outros feridos, as que não desampararam os maridos na retirada e na
emigração?
E como ella a olhasse como pasmada:
--É que ha mulheres, e mulheres; e as mais felizes, como tu, pelo amor
que lhes dedicam, são afinal as que menos o merecem!
--Tenha dó de mim, não me trate d'essa fórma!--supplicava ella.
Então compadecera-se D. Anna, e pedira-lhe, mudando de tom:
--Não tornas mais a falar em profissão, haja o que houver?
--Não, não torno.
--Pois bem. Ouve-me agora serenamente. Que te disseram d'elle? Que
estava ferido? Pois bem, ha-de curar-se, e eu tenho maneira de saber
exactamente o seu estado, mas não dês credito senão ao que eu te
disser, e cala-te com isto.
Depois, n'um enthusiasmo que contrastava com a estudada placidez
usual:
--Que elle viva ou morra, os liberaes hão de triumphar, pois ao que se
tem soffrido não é possivel vencel-os, pelo desespero com que se
batem. Os conventos acabaram, e temos de saír todas d'estes logares de
maldição. Mas os votos ninguem os tira, os padres não casarão as que
os tiverem. E aquellas que perderem a mocidade, já nada do mundo lh'a
póde restituir!
Então afogaram-a as lagrimas, e revelou-se tal qual era:
--Tambem me contrariaram um amor. Fugi com o meu noivo, mataram-m'o,
mas tenho vivido desde então evocando as horas em que me pertenceu. E
esse amor foi o meu culto aqui dentro, a minha religião, porque a
outra perdi-a pouco a pouco, ao vêr da parte de dentro os ministros do
Senhor e as suas esposas, os que communicam com Deus, os
intermediarios da sua graça, do seu perdão!
Conseguiu D. Anna saber d'elle, e pôl-os em relações. Melhorára
depressa, era já alferes, e a Torre e Espada assignalara-lhe a ferida.
Depois tivera-o a dois passos, na divisão do duque da Terceira que
atravessou n'um relampago do Algarve a Lisboa, levando adiante de si
os miguelistas, que fugiram espavoridos d'esses dois mil homens,
incitando em desforra as populações a tratarem-os como lobos.
E o fanatismo catholico dos soldados e das tropas apunhalou no
Algarve, queimou vivos e arrastou á cauda dos cavallos os prisioneiros
liberaes; martyrisou em Beja portadores de ordens; queimou dois
constitucionaes forçando as irmãs a assistirem á execução; despedaçou
á machadada trinta e cinco presos politicos no castello de Extremôz,
incluindo uma creança de seis annos!
Atravessára Telles Jordão o Tejo para fulminar os liberaes, como
esmagava os presos de S. Julião da Barra, mas ao vêl-os armados,
decididos, o valentão que esbofeteava os miseros encarcerados, lhes
sujava a comida e os obrigava a rezar o Terço, fugiu covardemente, até
que o alcançaram em Cacilhas, vingando os camaradas torturados.
E fugiram de Lisboa os miguelistas que ainda na vespera, em requintes
de barbaridade, tinham enforcado um liberal, para o impedirem de gosar
o triumpho dos seus, já na Outra Banda; que haviam ensanguentado a
cidade em barbaras repressões.
Mas nem d'essa vez findára a guerra!
Os miguelistas, que haviam recusado salvar a esquadra, aprisionada no
Tejo pelos franceses, dando em troca a liberdade aos afflictos
prisioneiros voltaram á carga e encheram de cadaveres, de ruinas, os
arredores da capital.
Saldanha descercára Lisboa, e D. Pedro, em homenagem, mandou collocar
no pedestal da estatua de D. José o medalhão do avô, o marquez de
Pombal, que os jesuitas haviam arrancado. E assim a epopeia liberal,
ligada á obra de Vinte, á tentativa patriotica de 1817, mostrou se o
logico desenvolvimento da obra de Pombal, que se desenvolvia,
alargando a todas as ordens religiosas, fautôras do retrocesso,
incitadoras dos morticinios, a extincção dos jesuitas.
Arrastara-se a lucta sanguinaria, e de retirada em retirada tinham
vindo parar ali as forças, ainda importantes, que os mais teimosos
pretendiam levar ao campo, a uma derradeira tentativa.
Olhavam Maria e D. Anna os grupos de soldados, querendo lêr-lhes no
rosto as decisões d'essa hora suprema, em que as divisões de Saldanha
e Terceira avançavam contra Evora para os esmagar, ou reduzir á
rendição.
De dentro chegavam-lhes successivas noticias, andavam já em
negociações, decidira capitular o conselho de guerra, e estava
assignada a paz.
Ouviram ao longe o hymno constitucional, confirmando a noticia, e ao
som da musica, ao ruido atroador dos vivas que se approximavam,
desappareceram, cabisbaixos, os soldados de D. Miguel, e a rua ficou
deserta, emquanto ao longe avançava a onda libertadora.
--E João viria com esses?--exclamava Maria, em lagrimas de jubilo,
abraçada á freira.
Ganhára o enthusiasmo a cidade opprimida, dos carceres do convento
irrompiam freiras desgrenhadas a saudarem das grades a victoria.
Chamaram Maria ao parlatorio, e as duas mulheres desceram logo.
Em vez de João, esperava-as o morgado.
Por excepção não se embriágara, na dôr do derruir das ultimas
esperanças, e parecia ebrio, cambaleando, pallido, coberto de suor
frio, o olhar pasmado, as palpebres cerrando-se a meudo.
Custava-lhe a encarar a luz, como se o deslumbrasse a evidencia do
triumpho.
Depois de saudar ligeiramente a prima, dirigiu-se á filha:
--Menina, prepare-se para me acompanhar.
Maria recuou attónita. Dava-se o que receiára. Tentava o pae
reapossar-se d'ella.
--Aonde, senhor?--perguntou afflicta.
Fazendo-se forte no ultimo poder que lhe restava, retorquiu o morgado:
--Não aprendeu a ser obediente? Pois ainda está em edade de se tornar
bem ensinada. Obedeça-me!