XII

Observava Maria através das grades.

Iam as ruas d'Evora coalhadas de soldados miguelistas, e ao convento

chegavam novas da retirada de Santarem.

--É o fim da guerra, descança--dizia-lhe uma freira de meia edade,

amarela de cera, vislumbres de juventude no olhar vivo, que tambem

observava para fóra.

--De quantas batalhas o tem dito--respondeu Maria com desanimo.

E lançou um olhar de desesperança á fria cella, nua, sem conforto, á

cama, á arca, a essa cruz negra que era o sêllo do captiveiro.

--A guerra prolongar-se-ha como os pesadêlos que me endoidecem n'este

carcere.

--Para que has de descoroçoar?

Ouvia-a, muito abatida, sem desfitar os bandos.

--O peior está passado--continuou a freira.

E n'um suspiro:

--És nova, tens vida para tudo.

--Ha quanto tempo que m'o diz!

--Desde que viestes.

--Não podia ser mais feliz, encontrando tão bom coração.

--Podias, se me tivesses conhecido mais cedo. Aconselhar-te-ia de

outra forma, e decerto não estarias aqui.

--Agora não tem remedio!

Continuavam a olhar para fóra.

--Admira-me não avistar o pae.

--Não deve ter muita vontade de ver-te, nem suppõe que terás grande

gosto em o encontrar--disse a freira com amargura.

--O mal que elle me tem feito!--murmurou Maria.

--Conheço muito bem o senhor meu primo! Era outro que tal o senhor meu

pae, Deus lhe perdôe. Tinham mulheres e filhas por escravas, e

serviam-se d'estas prisões para se desfazerem das filhas segundas,

para imporem casamentos ás morgadas como nós. Infelizes tempos!

Desgraçadas que somos!

Fixou Maria novos grupos, e perguntou:

--Se o pae continua a acompanhar D. Miguel, como desde que saiu

desesperado d'aqui, deve ter vindo com elle.

--Sim. Ha de estar na cidade.

--Só se lhe succedeu alguma coisa...

--Quanto a isso está descançada. O infante viu a guerra de longe, não

é como o senhor D. Pedro, que acode ás baterias debaixo de fogo,

aponta as peças como um artilheiro, e apparece no ardôr da peleja a

animar os seus.

--A não ser da vez que foi ao Porto para incitar o cerco...

--Que por signal andou abandalhando-se em Braga, com mulheres de má

nota, fazendo flostrias a cavallo para lhes agradar, emquanto que

outros morriam pela sua teimosia de ter cadeias atulhadas de

innocentes, e conventos cheios de desgraçadas como nós.

Na preocupação da rua, Maria respondeu:

--Então é porque não quer ser visto.

--Sabe os sentimentos que inspira.

E encarando com ella.

--Não é por lhe querer bem que pensas n'elle, não é verdade?

Maria titubeou:

--Apesar de me pretender enterrar em vida, apesar do que fez á mãe...

--Se elle tivesse vergonha nem voltava a esta terra, onde veiu deixar

os ossos da desgraçada. Soube-se dos seus maus tratos, e todos lh'o

levaram a mal, acredita. Olha que muitos que se dizem realistas, e o

applaudem e a outros que taes, é só por medo d'essas viboras, que se

vingam nos inermes, e fogem a sete pés dos que estão armados.

Maria abraçou-se a ella, chorando:

--Perdôe-me, D. Anna, mas como lhe hei de querer, se me tem tratado

cruelmente, se torturou a desgraçadinha, se lançou João no horrôr da

guerra...

--Deixa-o, filha, não penses mais n'elle. É como se tivesse morrido. E

pede a Deus que ainda lhe possas pagar em caridade, nos seus ultimos

dias, que os ha de ter bem negros!

--O mal que lhe desejo me venha a mim.

--Elle não pensa mais em ti, descança. Ha que tempos não me escreve,

não me força a responder-lhe n'essas cartas em que te dou a caminho

da profissão, n'uma vida de penitencia.

--Tem sido tão bôa para mim.

--O que mais me custa, Maria, é conter-me, lançar ao papel essas

mentiras, em vez de lhe dizer as duras verdades que merece!

--Ninguem o convence.

--E elle tirava-te logo d'aqui.

--Se suspeitasse o que a tia tem sido para mim!

--Não ha remedio senão dissimular, que felizmente ha de ser por pouco

tempo.

--Agradeço lhe a bôa intenção, D. Anna, mas já não espero ver fim a

isto.

--Pois não vês que a falta das cartas em que elle teimava para que

professasses, não querendo que um dia viesses a casar, mostra que já

não tem cabeça para nada? Sempre que os liberaes ganhavam um palmo de

terreno, apertava-me elle para que te lançassem o habito. Agora não

tuge nem muge. Que mais queres?

--Talvez desconfie da sua amizade por mim.

--Como? se só tu a conheces, e não ha muito tempo, porque ao principio

fui para ti o que tinha sido para todas, retrahida, reservada! Quando

me encerraram aqui, os escandalos com que enxovalham a casa de Deus,

que, como tens visto, serve para as mais torpes devassidões, não me

desmoralisaram como ao geral das que cá veem parar. Fizeram-me

conservar á parte, sem me prestar a ditos e mexericos, sem beberetes

na cella ou na grade, sem dar confiança a nenhuma. Segui sempre com

sympathia os liberaes, porque bem sabia que elles libertariam as

pobres enclausuradas. Mas não me manifestei aqui dentro, porque de

nada servia, como as freiras constitucionaes postas a pão e agua no

carcere, forçadas a penitencias vergonhosas diante d'essa communidade

de descaradas, transferidas para longe dos seus. Calei-me sempre, mas

trago no exercito libertador soldados armados e pagos por mim, por via

de encubertos liberaes d'esta terra que fazem o mesmo, a occultas,

para que não os roubem e assassinem.

--Pois tem feito isso?

--Tenho. Mas ai de mim se o suspeitassem!

--Ah! D. Anna, que tem sido a minha verdadeira mãe!

--Não quiz que soffresses o que eu soffri. E tenho o gosto de te haver

salvo de vez. Sem mim, ao teu genio assomado, caías nos enganos que te

armaram, professavas, e adeus para sempre.

--E se elle morrer, faço-o, tia!

--Está a acabar a guerra, foste feliz!

--Quantas vezes o tenho acreditado, e quantas a realidade me

entristeceu!

Recordou a sua longa espectativa, passando por alternativas dolorosas,

ora esperando João no dia seguinte, ora julgando nunca mais o vêr.

Acompanhara-o em espirito, no desembarque no Mindello, e tivera a

mesma desillusão que elles, ao appellarem para os manifestos, na

repugnancia de derramar sangue, contando mais com a adhesão em massa

do que com a dolorosa guerra civil.

Exultára na recepção do Porto, a cidade em delirio, damas de azul e

branco, lançando mais flores a esses queridos soldados, por entre a

tempestade dos vivas aos libertadores.

Mas em breve tornaram-se em lagrimas os risos, em crepes os laços

bicolores, em chuva de granadas as de rosas, e em bravas vivandeiras

as donzellas, que os realistas offereciam em pasto á soldadesca, como

premio do assalto.

Como desejaria estar entre ellas, correr animosa ás trincheiras,

servir polvora e bala aos luctadores, accudir aos feridos, estar ao

lado de João quando o trouxeram n'uma maca, exangue!

Logo sobre as noticias da entrada triumphal viera a sangueira, a

chacina dos combates, investidas ferozes contra o Porto, e a cidade em

risco de invasão, laços constitucionaes deitados fóra, gente prestes a

fugir pela barra, militares rapando os guerreiros bigodes.

Tão pouco estavel era ainda a causa, que d'um momento para o outro se

receiava a prisão, o supplicio; e os que, como João, luctavam, tinham

agora a dupla certeza da morte, ou no campo, ou na forca.

Que desditosa influencia a sua n'esse rapaz, arrancado ao socego da

terra, ao conforto da casa, para dormir ao relento, passar a fome do

cerco, tremer inquieto sob esse maldito bombardeamento, usado pelos

miguelistas em requintes de tortura, em tiros descompassados, para

maior sobresalto, á hora do jantar para tirar o socego da meza, em

pontaria aos hospitaes para augmentar o horror.

Tremia aos symptomas do cannibalismo da lucta, o prazer do pormenor em

que um general communicava terem ficado os bravos officiaes do

Batalhão Sagrado com as cabeças abertas de meio a meio, pelos celebres

dragões de Chaves que depois se passaram para os liberaes; o auto de

fé planeado pelos frades de S. Francisco, deitando fogo ao convento

para queimarem o batalhão de caçadores 5, quando os soldados dormiam

fatigados da batalha de Ponte Ferreira!

Para a fazerem professar, no interesse do dote, na avidez de dadivas

do morgado, no odio ao noivo liberal, aggravavam-lhe as freiras as más

novas, dando os constitucionaes como perdidos, e mostrando o evidente

castigo do ceu na morte de certos voluntarios academicos, a quem

attribuiam profanações no convento de Santo Antonio do Livramento, de

Angra, accusando-os, como outr'ora aos Templarios e aos Judeus, de

fazerem alvo da imagem do santo no nicho da frontaria.

A todos os momentos receiava a noticia de que João morrera, e um dia

as freiras, qual mais havia de arreliar «a do malhado», foram dar-lhe

hypocritas condolencias porque elle recolhera ao hospital, gravemente

ferido n'uma d'essas teimosas sortidas que dizimavam a guarnição.

Tivera-o por morto, como lhe insinuavam, negando frouxamente, mas

falando-lhe das consolações que a egreja reservava a todas as dôres,

insistindo em que se votasse ao divino esposo, já que tão

misericordiosamente a libertára dos laços do mundo.

Tomára então a tia, para com a abbadessa e as mais ferozes madres, o

compromisso de a decidir, e, recolhendo se a catechisal-a, abrira-se

com ella.

Começára por uma reprehensão, em que o olhar brilhára apaixonado, e o

rosto pallido, enrugado, se fôra animando gradualmente, até dar longes

de outros tempos, da juventude impetuosa e ardente, do momento em que

amára e fôra amada, em que se tornára mulher e devia ser mãe.

--Que mal que fizeste em resistir! Como desperdiçaste a mocidade. Em

nome d'umas formulas vasias sacrificou-te, e a elle, o teu orgulho! E

se te morrer? Que recordação te fica para evocares o breve tempo que

não volta mais?

Insistira, ao vêl-a debulhar-se em lagrimas:

--Chora, desabafa, que deves sentir um mortal remorso; chora as duas

vidas que despedaçaste, e convence-te de que nunca o amaste, porque o

verdadeiro amor não raciocina, porque é a suprema lei da vida, tudo se

lhe amolda, e elle não!

--Que hei-de fazer agora, senão professar--bradava ella,

arrepelando-se.

--O teu orgulho ainda! Cala-te, vaidosa, que darias mais uma pessima

freira. Vive para elle, é o teu dever.

--Para elle? E se morreu?

--Vive para a memoria d'elle, mas nunca a dentro d'um mosteiro, porque

deves lembrar o mal que d'estas casas te adveiu.

--Então que hei-de fazer?

--Porque não pensaste em fugir d'aqui, em ires acudir-lhe, pôr-te á

sua cabeceira, tratal-o, acarinhal-o, cerrar-lhe os olhos se Deus o

levar, como fazem as fortes mulheres que estão velando o leito

d'outros feridos, as que não desampararam os maridos na retirada e na

emigração?

E como ella a olhasse como pasmada:

--É que ha mulheres, e mulheres; e as mais felizes, como tu, pelo amor

que lhes dedicam, são afinal as que menos o merecem!

--Tenha dó de mim, não me trate d'essa fórma!--supplicava ella.

Então compadecera-se D. Anna, e pedira-lhe, mudando de tom:

--Não tornas mais a falar em profissão, haja o que houver?

--Não, não torno.

--Pois bem. Ouve-me agora serenamente. Que te disseram d'elle? Que

estava ferido? Pois bem, ha-de curar-se, e eu tenho maneira de saber

exactamente o seu estado, mas não dês credito senão ao que eu te

disser, e cala-te com isto.

Depois, n'um enthusiasmo que contrastava com a estudada placidez

usual:

--Que elle viva ou morra, os liberaes hão de triumphar, pois ao que se

tem soffrido não é possivel vencel-os, pelo desespero com que se

batem. Os conventos acabaram, e temos de saír todas d'estes logares de

maldição. Mas os votos ninguem os tira, os padres não casarão as que

os tiverem. E aquellas que perderem a mocidade, já nada do mundo lh'a

póde restituir!

Então afogaram-a as lagrimas, e revelou-se tal qual era:

--Tambem me contrariaram um amor. Fugi com o meu noivo, mataram-m'o,

mas tenho vivido desde então evocando as horas em que me pertenceu. E

esse amor foi o meu culto aqui dentro, a minha religião, porque a

outra perdi-a pouco a pouco, ao vêr da parte de dentro os ministros do

Senhor e as suas esposas, os que communicam com Deus, os

intermediarios da sua graça, do seu perdão!

Conseguiu D. Anna saber d'elle, e pôl-os em relações. Melhorára

depressa, era já alferes, e a Torre e Espada assignalara-lhe a ferida.

Depois tivera-o a dois passos, na divisão do duque da Terceira que

atravessou n'um relampago do Algarve a Lisboa, levando adiante de si

os miguelistas, que fugiram espavoridos d'esses dois mil homens,

incitando em desforra as populações a tratarem-os como lobos.

E o fanatismo catholico dos soldados e das tropas apunhalou no

Algarve, queimou vivos e arrastou á cauda dos cavallos os prisioneiros

liberaes; martyrisou em Beja portadores de ordens; queimou dois

constitucionaes forçando as irmãs a assistirem á execução; despedaçou

á machadada trinta e cinco presos politicos no castello de Extremôz,

incluindo uma creança de seis annos!

Atravessára Telles Jordão o Tejo para fulminar os liberaes, como

esmagava os presos de S. Julião da Barra, mas ao vêl-os armados,

decididos, o valentão que esbofeteava os miseros encarcerados, lhes

sujava a comida e os obrigava a rezar o Terço, fugiu covardemente, até

que o alcançaram em Cacilhas, vingando os camaradas torturados.

E fugiram de Lisboa os miguelistas que ainda na vespera, em requintes

de barbaridade, tinham enforcado um liberal, para o impedirem de gosar

o triumpho dos seus, já na Outra Banda; que haviam ensanguentado a

cidade em barbaras repressões.

Mas nem d'essa vez findára a guerra!

Os miguelistas, que haviam recusado salvar a esquadra, aprisionada no

Tejo pelos franceses, dando em troca a liberdade aos afflictos

prisioneiros voltaram á carga e encheram de cadaveres, de ruinas, os

arredores da capital.

Saldanha descercára Lisboa, e D. Pedro, em homenagem, mandou collocar

no pedestal da estatua de D. José o medalhão do avô, o marquez de

Pombal, que os jesuitas haviam arrancado. E assim a epopeia liberal,

ligada á obra de Vinte, á tentativa patriotica de 1817, mostrou se o

logico desenvolvimento da obra de Pombal, que se desenvolvia,

alargando a todas as ordens religiosas, fautôras do retrocesso,

incitadoras dos morticinios, a extincção dos jesuitas.

Arrastara-se a lucta sanguinaria, e de retirada em retirada tinham

vindo parar ali as forças, ainda importantes, que os mais teimosos

pretendiam levar ao campo, a uma derradeira tentativa.

Olhavam Maria e D. Anna os grupos de soldados, querendo lêr-lhes no

rosto as decisões d'essa hora suprema, em que as divisões de Saldanha

e Terceira avançavam contra Evora para os esmagar, ou reduzir á

rendição.

De dentro chegavam-lhes successivas noticias, andavam já em

negociações, decidira capitular o conselho de guerra, e estava

assignada a paz.

Ouviram ao longe o hymno constitucional, confirmando a noticia, e ao

som da musica, ao ruido atroador dos vivas que se approximavam,

desappareceram, cabisbaixos, os soldados de D. Miguel, e a rua ficou

deserta, emquanto ao longe avançava a onda libertadora.

--E João viria com esses?--exclamava Maria, em lagrimas de jubilo,

abraçada á freira.

Ganhára o enthusiasmo a cidade opprimida, dos carceres do convento

irrompiam freiras desgrenhadas a saudarem das grades a victoria.

Chamaram Maria ao parlatorio, e as duas mulheres desceram logo.

Em vez de João, esperava-as o morgado.

Por excepção não se embriágara, na dôr do derruir das ultimas

esperanças, e parecia ebrio, cambaleando, pallido, coberto de suor

frio, o olhar pasmado, as palpebres cerrando-se a meudo.

Custava-lhe a encarar a luz, como se o deslumbrasse a evidencia do

triumpho.

Depois de saudar ligeiramente a prima, dirigiu-se á filha:

--Menina, prepare-se para me acompanhar.

Maria recuou attónita. Dava-se o que receiára. Tentava o pae

reapossar-se d'ella.

--Aonde, senhor?--perguntou afflicta.

Fazendo-se forte no ultimo poder que lhe restava, retorquiu o morgado:

--Não aprendeu a ser obediente? Pois ainda está em edade de se tornar

bem ensinada. Obedeça-me!

Os Bravos do Mindello Romance Historico · 第 15 / 19 题