D. Anna falou n'uma voz grave:

--Senhor, não lhe basta o mal que tem causado? Não se dá por

satisfeito?

Descarregou Martinho Vasques a colera que para ellas reservara,

reduzido á impotencia pela convenção de Evora Monte:

--Que significam essas palavras, prima?

--Que felizmente já posso desabafar e dizer-lhe tudo o que sinto, sem

receio de que Maria soffra por minha causa.

--A prima sempre foi uma doida!--explodiu elle--Vejo que fiz mal em

confiar-lhe minha filha. Mas estou a tempo de emendar o erro.

E voltando-se para Maria:

--Porque espera? Não ouviu o que lhe mandei?

--Escusa exaltar-se, senhor--respondeu a freira--Esta menina está sob

a guarda do mosteiro, e só póde saír por ordem superior.

--Reclamo-a eu, seu pae, com o mesmo direito com que a entreguei.

--Mas felizmente os seus já não governam, e agora já não se entregam

victimas aos algozes.

--Tia!--interveiu Maria--pelo amor de Deus não o offenda. Bem lhe

basta o seu desgosto.

--Ainda não estás pervertida, filha. Pois bem, vamos, que a dignidade

do teu nome impõe-te o dever de seguires teu pae, embora vencido.

--É tarde, pae!

--Que significa isso!

--Já me sacrifiquei bastante. Não posso mais.

--Então recusas te a acompanhar-me?

--O senhor já nada representa para ella. Não quiz sepultal-a viva

n'uma tumba? Faça de contas que a matou, como á mãe, e retire-se. Quem

procede como o senhor, perde o direito a ser tratado como pae. E vá

esconder-se, para não passar pela vergonha de ter a sorte que merece.

Tiniram esporas na portaria, arrastaram-se espadas, e passos d'homem

subiram a escada do locutorio.

Era João.

Tendo ouvido as ultimas palavras, dirigiu-se respeitoso ao morgado:

--Senhor, tanto reconheço os seus sagrados direitos, que peço

respeitosamente a v. ex.{a} a mão de sua filha.

Elle recuou um passo:

--Vem zombar dos meus cabellos brancos?

Levou a mão ao lado, para arrancar da espada, mas deixou pender os

braços, desanimado.

--Quebrei-a na esquina da rua a minha velha companheira para não a

entregar aos seus. Estou desarmado. Póde insultar-me!

Tinham as duas mulheres abandonado a grade e, correndo á sala das

visitas, metiam-se de permeio.

João respondeu commovido:

--Senhor, acolhemos a todos com o perdão, abrimos os braços aos

camaradas a quem a sorte das armas foi adversa, e n'esta hora solemne

não ha logar para rancores. Fraternisam os filhos da mesma terra. Pois

perdôe-nos tambem v. ex.{a}, e a nossa alegria lhe fará esquecer os

seus desgostos.

Dava as mãos a Maria, devorando-lhe com os olhos o rosto muito branco,

onde as olheiras pareciam mais fundas, e a dentro d'ellas maiores os

bellos olhos claros, que a melancolia enriquecera de ternura.

Embevecia-se ella no tostado rosto de João, envolto na fina barba,

bebendo a vida n'esse firme olhar que adquirira lampejos de energia

varonil.

--O vosso perdão não passa de uma caridade de phariseus!--atirára-lhe

o morgado em resposta.

Debalde procurava D. Anna convencel-o, emquanto João e Maria se

contemplavam, anciosos por se abraçarem.

Ainda ella teve coração para sentir o desespero do pae:

--Fique comnosco, senhor! Na nossa ventura ha logar para si.

--Não! Não!--retorquiu teimoso o velho--Já não tenho filha, já não

tenho familia! O meu logar é junto do principe proscripto.

Revia D. Miguel na commoção da retirada, abotoado na sobrecasaca azul,

de chapéu á Napoleão; dando a mão a beijar ao povo fanatisado, com

cuja ignorancia se identificava, merecendo o mesmo perdão pela

inconsciencia em que viviam; alheio ás transformações do tempo,

contando ainda com o milagre; victima tambem, elle o chefe dos

algozes, victima da mãe quo o incitára, do anterior estado social que

o educára, o tornára a sua bandeira, o seu symbolo, e agora o

arrastava comsigo.

João tambem lhe pediu.

--Não! Não!--insistia o morgado--Somos o passado, que não transige!

Tambem ha de chegar o nosso dia, e S. Miguel Archanjo ha de voltar!

Adeus, filha desventurada. O meu logar é junto d'elle.

Ainda correram á janella.

Afastava-se aniquilado, braços pendentes, sem o bordão que lhe dava o

ar magestoso, sem a espada a que se apoiava, desempenando-se;

irreconciliavel como o passado que ia afogar na sombra do tumulo a sua

amarga desesperança.

* * * * *

--Só tu me restas, João!--e Maria deitou-se-lhe ao pescoço.

--Ha quanto tempo que podia ser!--queixou-se elle, ainda cioso da

felicidade esperdiçada.

--Não te amava tanto como agora! Sinto-o hoje, porque só sabe amar

quem soffreu muito!

Os Bravos do Mindello Romance Historico · 第 16 / 19 题