Pelo caminho, baloiçada na traquitana que tomaram no alto das Covas,
ainda lhe echoavam aos ouvidos as palavras de Josepha:
«Não o merecia».
E o que diria elle ao saber que destruira n'um momento o que bastante
lhe custára a conseguir? Era capaz de descrer d'ella.
Roubar-lh'o-ia a prima, que tanto sympathisava com elle?
Mas não havia de deixar morrer a mãe á mingua. Deus não lh'o
perdoaria, e para sempre esse peccado ameaçaria a sua felicidade.
João, que era prudente e rasoavel, comprehendel-a-ia.
E se Josepha a intrigasse? Logo aquella triste coincidencia de estar
na Praia. E ao lembrar-se que elle se encontrava em perigo de vida,
davam-lhe furias de saltar do carro, de fugir para junto da prima.
Que cobardia a sua! Abandonal-o quando se arriscava, envolvido em tudo
aquillo por causa d'ella!
Dominava-a, porém, o pavoroso abandono da velha, e via-a como a creada
a pintara, gaguejando, a cama por fazer, atulhada em cisco, envolvida
em trapos! Desgraçada!
Na sua ingenuidade parecia-lhe assim melhor para todos. Imaginava uma
grande scena de reconciliação, o pae abraçando-a quando se lhe
deitasse aos pés a pedir perdão, e fr. Angelico abençoando-a em nome
de Deus, limpando uma lagrima.
Agora não lhe parecia mau o frade, n'aquelle ar compungido.
E crendo possivel pôr tudo em bem, ainda esperava falar a João na
propria quinta, e talvez, quem sabe, ganhar pouco a pouco, pela
submissão, a boa vontade do pae, podendo ser que viesse a casar por
consentimento d'elle.
Esfarrapava n'um momento a suave visão o echo dos gritos de Josepha,
a lembrança das indignações de João quando soubera do desagravo de S.
Francisco.
Sendo impossivel contentar a todos, limitar-se-ia ao que a levava ali,
vêr a mãe, tranquilisar-se a respeito do seu estado.
Chegaram, e, como se já contassem com elles, ninguem appareceu.
Deixou-as o frade na casa de entrada, e foi em procura do morgado.
Recordou-se da cilada armada a João, dos maus tratos a que só a
justiça a pudera arrancar, mas, longe de intimidar-se, sentiu que a
emancipára a saída da casa paterna, dando-lhe a consciencia da propria
individualidade.
Alarmou-a um grito da mãe, um grito de desespero, rouco, abafado pela
porta, vindo do interior.
Ia accudir-lhe, mas conteve-a D. Victoria, e ella propria reconheceu
então que perdera o direito de entrar como d'antes.
Appareceu o frade, mostrando-se confuso, transtornado, apparentando
vir offegante como de uma grande discussão.
Repetiam-se os gritos de D. Perpetua e, como incommodado por elles,
disse á pressa fr. Angelico:
--Accusou-me de desleal o senhor morgado por a ter introduzido aqui.
Diz que a senhora só póde entrar n'esta casa como filha arrependida e
submissa, e até sem esperança de um perdão, que só a sua conducta
poderá merecer. E Deus me perdoe ter procurado semelhantes trabalhos
por minhas mãos!
Teve Maria um impeto de voltar para traz, mas os gritos da mãe
pregavam-a ao sobrado.
Fez-se luz no seu espirito, não duvidou que o frade fôra expressamente
preparar-lhe aquella situação.
E n'um relance comparou a vida que levava em casa da prima, sem poder
vêr João, senão vigiada. Era-lhe mais doloroso tel-o junto a si, sem
poder desabafar.
Ali, tratando da mãe, parecer-lhe-ia menos penosa a espera.
Decidira-se em casa de Josepha, apesar das suas solicitações. Tinha
por melhor esperar ali.
E respondeu gravemente ao frade que sim, que ficava de vez, desde que
o pae não duvidava acceital-a.
Despedira-se, applaudindo-a, D. Victoria, desejosa de se vêr livre
d'ella, e Maria, de olhos enxutos, cabeça erguida, caminhou após o
frade em direcção ao seu quarto, aonde agora estava D. Perpetua.
Então fr. Angelico, retomando o ar de dominio de outros tempos,
reprehendeu-a severamente:
--Lembre-se que a sua desobediencia trouxe a deshonra e a desgraça a
esta casa, e que a doença de sua mãe é o justo castigo de Deus.
--Representou bem o seu papel--respondeu-lhe Maria--mas não julgue que
me illudiu, nem creia que se ha-de rir de mim.
Abriu a porta, fechada por fóra, e tirou a chave. No leito soltava a
mãe phrases incomprehensiveis.
Sabia que a esperavam, e os seus berros tinham sido para que não
ficasse, para que não tornasse a caír nas mãos dos seus algozes.
O estado em que a viu fortaleceu Maria na consciencia do dever
cumprido.
Vibrava o seu corpo fragil n'uma energia de ferro. Olhava para tudo
como senhora, como morgada, e revoltava-a aquelle abandono.
Ia ao pae para reclamar um medico, e dar então ordem á casa.
Mas D. Perpetua, temendo ficar só, chamou-a afflicta para junto de si:
--Filha, não sei se tornarei a vêr-te, que elles são capazes de te
fechar, ou até de te estrangularem, como já me teem querido fazer.
E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinação:
--Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de
ser a ti, filha, que não creio no fr. Angelico nem nos outros
malditos!
Sacudia-a a convulsão, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca
arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria
limpava compadecida.
--Quero confessar-me a ti, sim, filha--voltava ella n'uma insistencia
pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber--Tenho
um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que estás uma mulher,
pódes comprehender-me e perdoar-me.
Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar:
--Fui rapariga como tu, e não tive a felicidade de encontrar um rapaz
como o que amas, que é o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha
tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! São
destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-me ditosa fui
ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor.
N'uma explosão de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse,
contou-lhe a torpe ligação ao frade, a maneira como elle a explorára e
como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella.
Então Maria comprehendeu o sentido das allusões de João e Josepha,
certos sorrisos surprehendidos em beiços de creadas.
Quando a viu mais tranquilla, aliviada pelo desabafo da sua miseria,
saíu Maria, cada vez mais resoluta.
Encontrou o frade no escriptorio:
--Fez-me minha mãe certas revelações, creio que me comprehende...
E a perturbação de fr. Angelico mostrava-lhe que sim.
--Não voltará a esta casa, sob pena do pae nunca mais o deixar saír.
Desculpe-se como puder. Aos seus processos, não lhe será difficil.
Muito enfiado, levantou-se fr. Angelico da papeleira, e deixando a
escripta como estava, compoz o habito, desejando vêr-se muito longe
d'ali.
Encontrou o morgado á meza, e não teve meio de esquivar-se
immediatamente.
Podia levantar suspeitas, que lhe seriam fataes, e resignou-se a
acompanhal-o ao jantar, no supplicio de não poder comer.
Repentinamente Maria entrou e dirigiu-se a Martinho Vasques:
--A sua benção, pae.
Tomou-lhe a mão e beijou-lh'a, sem que elle, perturbado, podesse
retirar-lh'a.
Sempre de pé, declarou n'uma voz sumida:
--Conforme as suas palavras, procurarei merecer o seu perdão tratando
da mãe.
Pôz o morgado os olhos no prato, e não respondeu palavra.
Muito servilmente, para captar a benevolencia d'ella, interveiu o
frade:
--Volta a viver como outr'ora, foram as palavras de seu pae. Tenha a
bondade de sentar-se--e offereceu-lhe uma cadeira--que eu tenho de
levar até ao fim a missão de que me encarreguei.
Chamou a creada, mandou pôr-lhe talher, e voltou-se para Martinho, que
continuava comendo, como se nada fosse com elle:
--O senhor morgado perdoará, porque Deus tambem perdoou!
--Com licença, pae!--disse Maria sentando-se.
E emquanto redobrava o pasmo de Martinho, ella adquiria maior firmeza,
mais sangue frio.
Reapossava-se do seu logar, succedia á mãe como dona da casa, para
depois succeder ao pae como senhora absoluta de tudo.
Mal teve ensejo, ergueu-se o frade, a despedir-se.
--Tenha a bondade de mandar immediatamente um bom medico, que não se
póde abandonar uma creatura de Deus no estado a que chegou a mãe.
Para se furtar ao cumprimento da filha, ergueu-se Martinho e
agarrou-se ao franciscano:
--Venha d'ahi, fr. Angelico, beber uma golada para o caminho.
Sentiu-os afastar, discutindo, e então chamou as creadas,
reprehendeu-as, tratando-as de desmazeladas, e levou adiante de si,
tremendo de medo, para arranjarem o quarto, as que ainda ha pouco se
riam da velha.
No dia seguinte, depois de almoçarem sem trocar palavra, veiu o
medico, que observou demoradamente D. Perpetua.
Levou-o Maria á presença do pae, a quem elle expoz a situação da
doente. Devia ter sido chamado mais cedo. Talvez nas Caldas da Rainha
podesse obter melhoras. Ali ficaria entrevada de todo.
Ouviu-o o fidalgo com má sombra, sem responder.
No seu impenetravel mutismo, meditava na maneira de sahir d'aquella
situação, peior que a anterior, a casa governada pela filha, o exemplo
d'essa arrogancia mostrando-lhe bem o que ella faria quando João
voltasse da Praia e começasse a rondar por ali.
Animava-o, porém, a confiança de que triumphasse a esquadra
miguelista, desfazendo o castello de cartas do minusculo reino
liberal.
Então recolhel-a-ia a um convento, até a levar para Lisboa, ou a casar
com o primo, se ainda a podesse render pela clausura, ou a fazel-a
professar.
Descançava Maria no banco do pomar, onde passava as tardes com João,
pensando n'elle, quando uma creada a foi chamar:
--Venha vêr, menina, venha vêr que coisa tão linda. É a esquadra do
senhor D. Miguel.
Subiu assustada ao mirante, e viu ao largo, no pégo do mar, vinda de
oeste, a infinita linha dos navios, carregados de pannos, rebocando
enfiadas de grandes barcos que, n'uma bordada ao sul da Terceira,
tinham ido reunir ás ilhas de baixo para o desembarque. Rindo
inconscientes, as creadas comparavam a resteas d'alhos a correntêza de
lanchas.
Aterrava-a o grande poder, que ia talvez roubar-lhe para sempre o seu
noivo, a sua ventura.
No torreão, munido de oculo, contava o morgado a nau, as fragatas, as
corvetas, e considerava como positivo o triumpho dos seus.
Até ao pôr do sol viram-os sempre, parecendo fixos no mesmo ponto; mas
ao romper da manhã, quando Maria os procurava inquieta, já não os
avistou.
Por volta das onze horas começaram a ouvir-se estampidos muito
distantes. Estava travado o combate, mas não era contra o castello,
cujas muralhas se avistavam da quinta.
Só podia ser na villa da Praia, onde estava João!
E n'uma desesperada angustia figurava-se-lhe o horror de carnificinas,
como a do Pico do Selleiro.
Ao começo da noite, encostada ao ralo, ouviu passar homens do
trabalho, que vinham da cidade, falando alterados, decerto commentando
as noticias da batalha.
Gritavam «viva a nau encalhada», mas essa phrase nada lhe fazia
comprehender.
Chamou o pae um rancho, e perguntou-lhe o que se passára.
Responderam n'uma attitude hostil, repetindo os vivas, e um explicou
que a nau _D. João VI_ estava perdida.
--Isso póde lá ser, homem de Deus--contestou Martinho--Uma nau de tres
pontes, que é a flôr da nossa marinha!
Insistiram, e accrescentaram:
--A nau encalhou, e os realistas foram todos pescados!