XI

Pelo caminho, baloiçada na traquitana que tomaram no alto das Covas,

ainda lhe echoavam aos ouvidos as palavras de Josepha:

«Não o merecia».

E o que diria elle ao saber que destruira n'um momento o que bastante

lhe custára a conseguir? Era capaz de descrer d'ella.

Roubar-lh'o-ia a prima, que tanto sympathisava com elle?

Mas não havia de deixar morrer a mãe á mingua. Deus não lh'o

perdoaria, e para sempre esse peccado ameaçaria a sua felicidade.

João, que era prudente e rasoavel, comprehendel-a-ia.

E se Josepha a intrigasse? Logo aquella triste coincidencia de estar

na Praia. E ao lembrar-se que elle se encontrava em perigo de vida,

davam-lhe furias de saltar do carro, de fugir para junto da prima.

Que cobardia a sua! Abandonal-o quando se arriscava, envolvido em tudo

aquillo por causa d'ella!

Dominava-a, porém, o pavoroso abandono da velha, e via-a como a creada

a pintara, gaguejando, a cama por fazer, atulhada em cisco, envolvida

em trapos! Desgraçada!

Na sua ingenuidade parecia-lhe assim melhor para todos. Imaginava uma

grande scena de reconciliação, o pae abraçando-a quando se lhe

deitasse aos pés a pedir perdão, e fr. Angelico abençoando-a em nome

de Deus, limpando uma lagrima.

Agora não lhe parecia mau o frade, n'aquelle ar compungido.

E crendo possivel pôr tudo em bem, ainda esperava falar a João na

propria quinta, e talvez, quem sabe, ganhar pouco a pouco, pela

submissão, a boa vontade do pae, podendo ser que viesse a casar por

consentimento d'elle.

Esfarrapava n'um momento a suave visão o echo dos gritos de Josepha,

a lembrança das indignações de João quando soubera do desagravo de S.

Francisco.

Sendo impossivel contentar a todos, limitar-se-ia ao que a levava ali,

vêr a mãe, tranquilisar-se a respeito do seu estado.

Chegaram, e, como se já contassem com elles, ninguem appareceu.

Deixou-as o frade na casa de entrada, e foi em procura do morgado.

Recordou-se da cilada armada a João, dos maus tratos a que só a

justiça a pudera arrancar, mas, longe de intimidar-se, sentiu que a

emancipára a saída da casa paterna, dando-lhe a consciencia da propria

individualidade.

Alarmou-a um grito da mãe, um grito de desespero, rouco, abafado pela

porta, vindo do interior.

Ia accudir-lhe, mas conteve-a D. Victoria, e ella propria reconheceu

então que perdera o direito de entrar como d'antes.

Appareceu o frade, mostrando-se confuso, transtornado, apparentando

vir offegante como de uma grande discussão.

Repetiam-se os gritos de D. Perpetua e, como incommodado por elles,

disse á pressa fr. Angelico:

--Accusou-me de desleal o senhor morgado por a ter introduzido aqui.

Diz que a senhora só póde entrar n'esta casa como filha arrependida e

submissa, e até sem esperança de um perdão, que só a sua conducta

poderá merecer. E Deus me perdoe ter procurado semelhantes trabalhos

por minhas mãos!

Teve Maria um impeto de voltar para traz, mas os gritos da mãe

pregavam-a ao sobrado.

Fez-se luz no seu espirito, não duvidou que o frade fôra expressamente

preparar-lhe aquella situação.

E n'um relance comparou a vida que levava em casa da prima, sem poder

vêr João, senão vigiada. Era-lhe mais doloroso tel-o junto a si, sem

poder desabafar.

Ali, tratando da mãe, parecer-lhe-ia menos penosa a espera.

Decidira-se em casa de Josepha, apesar das suas solicitações. Tinha

por melhor esperar ali.

E respondeu gravemente ao frade que sim, que ficava de vez, desde que

o pae não duvidava acceital-a.

Despedira-se, applaudindo-a, D. Victoria, desejosa de se vêr livre

d'ella, e Maria, de olhos enxutos, cabeça erguida, caminhou após o

frade em direcção ao seu quarto, aonde agora estava D. Perpetua.

Então fr. Angelico, retomando o ar de dominio de outros tempos,

reprehendeu-a severamente:

--Lembre-se que a sua desobediencia trouxe a deshonra e a desgraça a

esta casa, e que a doença de sua mãe é o justo castigo de Deus.

--Representou bem o seu papel--respondeu-lhe Maria--mas não julgue que

me illudiu, nem creia que se ha-de rir de mim.

Abriu a porta, fechada por fóra, e tirou a chave. No leito soltava a

mãe phrases incomprehensiveis.

Sabia que a esperavam, e os seus berros tinham sido para que não

ficasse, para que não tornasse a caír nas mãos dos seus algozes.

O estado em que a viu fortaleceu Maria na consciencia do dever

cumprido.

Vibrava o seu corpo fragil n'uma energia de ferro. Olhava para tudo

como senhora, como morgada, e revoltava-a aquelle abandono.

Ia ao pae para reclamar um medico, e dar então ordem á casa.

Mas D. Perpetua, temendo ficar só, chamou-a afflicta para junto de si:

--Filha, não sei se tornarei a vêr-te, que elles são capazes de te

fechar, ou até de te estrangularem, como já me teem querido fazer.

E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinação:

--Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de

ser a ti, filha, que não creio no fr. Angelico nem nos outros

malditos!

Sacudia-a a convulsão, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca

arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria

limpava compadecida.

--Quero confessar-me a ti, sim, filha--voltava ella n'uma insistencia

pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber--Tenho

um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que estás uma mulher,

pódes comprehender-me e perdoar-me.

Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar:

--Fui rapariga como tu, e não tive a felicidade de encontrar um rapaz

como o que amas, que é o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha

tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! São

destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-me ditosa fui

ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor.

N'uma explosão de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse,

contou-lhe a torpe ligação ao frade, a maneira como elle a explorára e

como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella.

Então Maria comprehendeu o sentido das allusões de João e Josepha,

certos sorrisos surprehendidos em beiços de creadas.

Quando a viu mais tranquilla, aliviada pelo desabafo da sua miseria,

saíu Maria, cada vez mais resoluta.

Encontrou o frade no escriptorio:

--Fez-me minha mãe certas revelações, creio que me comprehende...

E a perturbação de fr. Angelico mostrava-lhe que sim.

--Não voltará a esta casa, sob pena do pae nunca mais o deixar saír.

Desculpe-se como puder. Aos seus processos, não lhe será difficil.

Muito enfiado, levantou-se fr. Angelico da papeleira, e deixando a

escripta como estava, compoz o habito, desejando vêr-se muito longe

d'ali.

Encontrou o morgado á meza, e não teve meio de esquivar-se

immediatamente.

Podia levantar suspeitas, que lhe seriam fataes, e resignou-se a

acompanhal-o ao jantar, no supplicio de não poder comer.

Repentinamente Maria entrou e dirigiu-se a Martinho Vasques:

--A sua benção, pae.

Tomou-lhe a mão e beijou-lh'a, sem que elle, perturbado, podesse

retirar-lh'a.

Sempre de pé, declarou n'uma voz sumida:

--Conforme as suas palavras, procurarei merecer o seu perdão tratando

da mãe.

Pôz o morgado os olhos no prato, e não respondeu palavra.

Muito servilmente, para captar a benevolencia d'ella, interveiu o

frade:

--Volta a viver como outr'ora, foram as palavras de seu pae. Tenha a

bondade de sentar-se--e offereceu-lhe uma cadeira--que eu tenho de

levar até ao fim a missão de que me encarreguei.

Chamou a creada, mandou pôr-lhe talher, e voltou-se para Martinho, que

continuava comendo, como se nada fosse com elle:

--O senhor morgado perdoará, porque Deus tambem perdoou!

--Com licença, pae!--disse Maria sentando-se.

E emquanto redobrava o pasmo de Martinho, ella adquiria maior firmeza,

mais sangue frio.

Reapossava-se do seu logar, succedia á mãe como dona da casa, para

depois succeder ao pae como senhora absoluta de tudo.

Mal teve ensejo, ergueu-se o frade, a despedir-se.

--Tenha a bondade de mandar immediatamente um bom medico, que não se

póde abandonar uma creatura de Deus no estado a que chegou a mãe.

Para se furtar ao cumprimento da filha, ergueu-se Martinho e

agarrou-se ao franciscano:

--Venha d'ahi, fr. Angelico, beber uma golada para o caminho.

Sentiu-os afastar, discutindo, e então chamou as creadas,

reprehendeu-as, tratando-as de desmazeladas, e levou adiante de si,

tremendo de medo, para arranjarem o quarto, as que ainda ha pouco se

riam da velha.

No dia seguinte, depois de almoçarem sem trocar palavra, veiu o

medico, que observou demoradamente D. Perpetua.

Levou-o Maria á presença do pae, a quem elle expoz a situação da

doente. Devia ter sido chamado mais cedo. Talvez nas Caldas da Rainha

podesse obter melhoras. Ali ficaria entrevada de todo.

Ouviu-o o fidalgo com má sombra, sem responder.

No seu impenetravel mutismo, meditava na maneira de sahir d'aquella

situação, peior que a anterior, a casa governada pela filha, o exemplo

d'essa arrogancia mostrando-lhe bem o que ella faria quando João

voltasse da Praia e começasse a rondar por ali.

Animava-o, porém, a confiança de que triumphasse a esquadra

miguelista, desfazendo o castello de cartas do minusculo reino

liberal.

Então recolhel-a-ia a um convento, até a levar para Lisboa, ou a casar

com o primo, se ainda a podesse render pela clausura, ou a fazel-a

professar.

Descançava Maria no banco do pomar, onde passava as tardes com João,

pensando n'elle, quando uma creada a foi chamar:

--Venha vêr, menina, venha vêr que coisa tão linda. É a esquadra do

senhor D. Miguel.

Subiu assustada ao mirante, e viu ao largo, no pégo do mar, vinda de

oeste, a infinita linha dos navios, carregados de pannos, rebocando

enfiadas de grandes barcos que, n'uma bordada ao sul da Terceira,

tinham ido reunir ás ilhas de baixo para o desembarque. Rindo

inconscientes, as creadas comparavam a resteas d'alhos a correntêza de

lanchas.

Aterrava-a o grande poder, que ia talvez roubar-lhe para sempre o seu

noivo, a sua ventura.

No torreão, munido de oculo, contava o morgado a nau, as fragatas, as

corvetas, e considerava como positivo o triumpho dos seus.

Até ao pôr do sol viram-os sempre, parecendo fixos no mesmo ponto; mas

ao romper da manhã, quando Maria os procurava inquieta, já não os

avistou.

Por volta das onze horas começaram a ouvir-se estampidos muito

distantes. Estava travado o combate, mas não era contra o castello,

cujas muralhas se avistavam da quinta.

Só podia ser na villa da Praia, onde estava João!

E n'uma desesperada angustia figurava-se-lhe o horror de carnificinas,

como a do Pico do Selleiro.

Ao começo da noite, encostada ao ralo, ouviu passar homens do

trabalho, que vinham da cidade, falando alterados, decerto commentando

as noticias da batalha.

Gritavam «viva a nau encalhada», mas essa phrase nada lhe fazia

comprehender.

Chamou o pae um rancho, e perguntou-lhe o que se passára.

Responderam n'uma attitude hostil, repetindo os vivas, e um explicou

que a nau _D. João VI_ estava perdida.

--Isso póde lá ser, homem de Deus--contestou Martinho--Uma nau de tres

pontes, que é a flôr da nossa marinha!

Insistiram, e accrescentaram:

--A nau encalhou, e os realistas foram todos pescados!

Os Bravos do Mindello Romance Historico · 第 12 / 19 题