Bloqueado por temporaes de inverno, dias de chuva torrencial, grandes
frios, installára-se fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria na
quinta dos Folhadaes, mandando como senhor, dirigindo a casa, cujo
governo D. Perpetua abandonára, para se refugiar no quarto de Maria,
horrorisada por adivinhal-o catechizando creadas pelo escuro dos
grandes corredores.
Enclausurada voluntariamente com a filha, prohibida de sahir do
quarto, comiam ali ambas depois de prévia revista do morgado ou do
frade ao que recebiam, não fossem cartas escondidas.
Só os dois homens pois iam á meza, e ali passavam quasi de uma á
outra refeição, não se decidindo a arrostar a frieza da adega, nem o
chavascal do campo.
Aparada em alguidares e em celhas pingava agua do tecto, alastrado de
bolôr; pelas frinchas das janellas empenadas soprava um vento cortante
que os fazia tiritar sob os capotes.
Desforravam-se a bebericar aguardente, quando a criada foi annunciar o
senhor juiz corregedor.
--Justiça em minha casa!--exclamou o morgado, pondo-se de pé.
Chegou á janela e olhou para fóra. Não cessára de chover.
--Com um tempo d'estes! Deve ser coisa grave.
Voltou-se para o frade:
--Descobriria a alçada que eu dei dinheiro para os guerrilhas?
Tranquillisou-o logo fr. Angelico:
--Quanto a isso descance v. ex.{a} Não invoquei o seu nome, por causa
das secretas vinganças que os pedreiros livres costumam tirar de quem
os guerreia. Lembre-se dos lentes de Condeixa.
--Sim, sim, fez bem. Má gente. Mas se não é por isso, que querem de
mim?
--O mesmo que pretendem dos outros. Intimidar os partidarios do
throno e do altar. E como as suas opiniões são bem conhecidas...
--Mas eu nunca as manifestei, não saio de casa, não me saliento...
Voltou-se para a criada:
--Elle vem só?
--Saberá v. ex.{a} que sim senhor.
--Se eu fugisse, fr. Angelico?
--Não me parece que haja razão para isso.
--É exactamente por não saber o motivo que receio.
--Agora! Agora!--accudiu o frade, já desanuviado.--Imaginam que está
por ahi alguem escondido, e como andam á procura do João Moniz e do
Joaquim d'Almeida...
--Pois lembra bem, deve ser isso--concordou o morgado.--Que hei de
fazer n'esse caso?
--Recebel-o ás bôas, deixal-o dar busca á sua vontade, e ficaremos
livres d'elle.
--Pois hei de franquear-lhe minha casa?
--Que remedio, se pode entrar á força. Estão de cima. É aguentar e
cara alegre, emquanto não chegam melhores dias.
--Vá então recebel-o em meu nome, e desculpe-me. Diga que estou
doente.
--Eu, senhor! Não sabe v. ex.{a} o odio que nos votam esses adeptos de
Satanaz! O pobre de mim até foi na lista que elles mandaram ao nosso
provincial, intimando-o a prohibir os franciscanos de defenderem a
causa do throno e do altar.
--Não posso ver gente de justiça, e demais a mais justiça d'esta!
--Tenha paciencia, que nos havemos de vingar de tudo. Vá attendel-o v.
ex.{a}, ponha-se ás bôas, trate-o o melhor que puder, para não dar
logar a que exhorbite, e tenho para mim que o ha de confundir a sua
respeitabilidade. Eu ficarei rogando a Deus...
--Isso é que não. Ou me acompanha, ou não o recebo, e faça o que
melhor lhe parecer.
Olhou irritado para os campos innundados de agua:
--Tivesse cá a gente de trabalho, e outro gallo lhe cantára. Mas
assim, não ha com que lhe dar uma lição, que elle com certeza não vem
só, nem com as mãos a abanar.
E como visse retrahir-se o frade:
--Ande d'ahi, já lhe disse.
Apavorado, pediu fr. Angelico, de mãos postas:
--Só se v. ex.{a} me promette ser conciliador. Disse o Divino Mestre,
que se o inimigo nos offender na face esquerda devemos offerecer-lhe a
direita.
--Isso aconselharia aos frades, que aos fidalgos não!--respondeu
irritado Martinho.
--Pois n'esse estado de espirito, meu senhor, Deus me defenda.
--O melhor é falar vossa reverendissima. Eu acompanho-o, mas
permitto-lhe todas as habilidades conciliadoras, porque tambem prefiro
que não me incommodem.
--É Deus que o illumina, senhor morgado. Assim verá que fica tudo em
bem.
--Mande-o entrar para a sala dos retratos--disse o morgado á
criada--peça desculpa da demora, e que já lá vamos.
Estremeceu o frade de novo:
--Ah! Senhor do ceu! Basta o tempo que o fizemos esperar para o
esbirro já estar como uma bicha. Que carantonha que não vae fazer!
Bebeu mais aguardente o fidalgo, tirou o capote, mirou-se, compoz os
bofes, puchou os punhos de rendas, e lançou a fr. Angelico um olhar de
desdem:
--Você já não conheceu o homem de côrte. Pois fique sabendo que me vi
muita vez nos regios paços de Queluz, e sei bem a etiqueta das salas.
Verá como procedo, e como, sem o humilhar, por que elles estão de
cima, lhe farei sentir a differença que vae de um fidalgo a um
traficante de sentenças. Basta o logar onde o recebo para o
envergonhar do seu baixo nascimento. E certas coisas que lhe direi ao
correr do pello...
--Não me perca v. ex.{a}, por amor de Deus! Deixe-me ficar no meu
cantinho!
--Não, que você é manhoso como os que o são e, se eu me desmanchar,
meterá a sua colherada. Beba uma pinga para cobrar animo, e vamos
dar-lhe uma lição mestra já que cá veiu meter o nariz.
Tomou novo alento ao beber, o frade, mas ainda aconselhou:
--Lembre-se v. ex.{a} que os demonios teem o poder na mão, e por algum
tempo. Além da victoria do Pico do Selleiro, ainda foi por elles o
temporal que destroçou a esquadra de sua magestade, depois de tomar a
Madeira, quando vinha fazer o mesmo a esta desgraçada terra. Primeiro
que se arme em Lisboa outra frota para vir até cá ... Não se esqueça
v. ex.{a} d'isto. Agora são elles quem manda.
Ao entrar na sala, empertigou-se mais o morgado em respeito ao
scenario aonde ultimamente só raras vezes se mostrava, télas
escurecidas pelo tempo destacando nas paredes caiadas, o cadeirado de
coiro e pregaria amarela, o grande buffete carregado de finos buzios
rosados, de amplas conchas de madreperola, os reposteiros vermelhos
onde pompeava o seu brazão, com longes de capoeira.
Saudou o juiz n'uma pirueta cortez:
--Desculpe v. s.{a} a involuntaria demora. A justiça é como se entrasse
em minha casa el-rei, que vossa senhoria já representou, e em nome de
quem continuará um dia a exercer o mando, como é timbre de homens
d'ordem.
Mordeu os labios o magistrado ao tratamento e ao remoque, mas,
contando com peior acolhimento, saudou por sua vez o morgado:
--Está v. s.{a} em sua casa, e sou eu que tenho de escusar-me de o vir
incommodar.
Córou Martinho Vasques á falta de excellencia, e o frade, que o
percebeu, muito animado pelo tom ordeiro do juiz, interveiu:
--Permitta-me v. ex.{a}, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro,
que aponte a sua senhoria os achaques...
Mas o corregedor, sem fazer caso, interrompeu-o, dirigindo um novo
golpe á prosapia de fidalgo:
--Não julgue, senhor Soeiro, que venho aqui por causa das tristes
perturbações fomentadas pelos mal intencionados que exploram as
disenções de irmãos. Calcula decerto o grave motivo que me traz por
semelhante tempo...
Ferido no seu orgulho, julgou conveniente o morgado dar-lhe desde logo
a lição projectada, e forçando um sorriso que o tornava mais feio,
respondeu:
--Quem não deve, não teme, e se eu tivesse que receiar das justiças,
ou não estaria á mercê d'ellas, ou a minha porta achar-se-ia guardada,
com o direito de que sempre usaram em Portugal fidalgos de solar.
Apontou para fóra o juiz, n'um gesto amavel:
--Foi informado o tribunal de que ha aqui um quinteiro brigão, o que,
para evitar algum desacato d'esse desordeiro, me forçou a vir
convenientemente acompanhado, não por causa de v. s.{a}, mas por via
d'elle.
Trocaram um olhar fr. Angelico e o morgado. A escolta lembrava logo
uma prisão. E a referencia á cilada fazia-lhe receiar que João ou o
veterano o tivessem denunciado como conspirador.
Triumpharam os propositos conciliadores que ditava o mêdo, e o frade
adiantou-se, muito curvado:
--Perdôe v. ex.{a}, senhor corregedor, não lhe ter offerecido já alguma
coisa quente, uma chavena de café, uma magnifica aguardente da lavra
do fidalgo, para o preservar de uma peitogueira...
Sorriu muito lhano o magistrado:
--Lembrou bem vossa reverendissima, e acceito de bôa vontade, com o
que provo os meus amigaveis intuitos.
Saíu por um momento, muito lépido, o frade a dar ordens; e o morgado,
fazendo um exforço, recalcou as offensas, e submeteu-se ao receio da
escolta:
--Vejo que v. ex.{a} não me conhece, por attribuir á minha atitude
intuitos diversos da justificadissima surpreza...
--Oh! De modo algum.
--E como v. ex.{a} não é da ilha, permitta-me que me apresente,
fazendo-o tomar relações com os meus antepassados, que não lhe podia
ter dado melhor companhia, pois não a ha mais escolhida n'esta terra,
nem lá fóra é frequente a que se lhe possa comparar.
--Já os estive admirando assim que entrei, e conheço-os por tradicção,
como conheço a v. ex.{a} mais do que imagina.
Envaideceu Martinho a homenagem do tratamento e, attribuindo-o ao
effeito d'essa berrante linhagem, insistiu no proposito de desenrolar
os pergaminhos.
--Perde-se a minha geração na noite dos tempos, entroncando-se por
muitas vezes no ramo da dynastia, mas a mais proxima representante é
esta minha trisavó, que morreu em Odivellas em cheiro de santidade.
Apontou um retrato de moldura oval, que tão bem ia ao rostinho envolto
na toalha:
--É soror Thereza de Jesus, que em formosura desbancou a madre Paula,
senhora de Melres, e conhecida por isso no convento pela _Melrinha_,
ao que allude o segundo quartel do meu brazão, tres melrinhos de oiro
sobre purpura. Era já fidalga, filha do senhor de Villar de Corvos,
representado no primeiro quartel por aquelle corvo de prata em campo
azul, mas el-rei o senhor D. João V--e curvou-se como se estivesse na
presença do monarcha--houve por bem, ao conceder-lhe o alvará de
legitimação do filho, dar a meu bisavô o titulo de moço fidalgo da
casa real, com serviço no paço.
Orgulhava-se apontando outro retrato, um homemzarrão em corpo inteiro,
grande cabelleira em caracoes, tricornio debaixo do braço:
--É meu visavô, D. Francisco, com quem, dizem, me pareço muito.
Batendo-se como um heroe, conquistou para o nosso nome um immorredoiro
prestigio, merecendo pelos seus feitos d'armas, e pela particular
predilecção que sempre nutriu el-rei por minha visavó, as doações com
que se creou o nosso morgado.
Indicou-lhe outro retrato, em meio corpo:
--Este é meu pae, D. Fernando, intimo d'el-rei o senhor D. Pedro III,
que o teve em alta estima. A esse prestigio de que sempre gosámos no
paço, deve minha irmã, D. Mafalda, o honroso logar de dama de honor da
rainha senhora D. Carlota Joaquina.
Era a dama que enchia outra grande téla, em trajo de côrte, vestida a
azul e vermelho, toucado de plumas, opulenta de rotundidades que a
tornavam celebre nos lubricos bailados da rainha, sua rival em fama.
Por sua vez, indicou o juiz um retrato:
--Este, que como os meninos postos de castigo está voltado para a
parede, brilha para mim atravez da tela. Conheço-o, é D. Bernardo, o
amigo dedicado do grande marquez de Pombal, que veiu a esta terra
cumprir a ordem de expulsão dos jesuitas. Porque não honra v. ex.{a} as
nobres tradições d'este seu avô? Porque não reconhece que as nossas
ideias teem raizes bem fundadas, e que já foram defendidas por bons
fidalgos, como v. ex.{a} classifica os da sua geração?
Respondeu gravemente Martinho Vasques:
--Este infeliz foi transviado, corrompeu-o o mal do tempo, e a sua
alma deve estar no purgatorio, aguardando o juizo final, feliz ainda
assim por levar em seu favôr os serviços que filhos e netos teem
prestado ao throno e ao altar. Os verdadeiros principios da minha
familia são os religiosos; nasceu e creou-se meu visavô no convento;
auxiliou meu pae a restauração religiosa da senhora rainha D. Maria,
que santa gloria haja, e foi minha irmã uma das fundadoras do culto da
Senhora da Rocha.
Voltára o frade, á frente da creada com a bandeja de dôces, a chicara
do Japão com o café, e a garrafinha dourada com aguardente, a tempo
de auxiliar a defeza dos bons principios:
--O timbre e lustre da linhagem, excellentissimo senhor, é D.
Francisco, que em serviço d'el-rei e gloria do reino, andou no
cruzeiro d'Angola defendendo para a nação os rebanhos de escravos de
que os malditos estrangeiros queriam lançar mão. Perseguido um dia por
um negreiro hollandez refugiou-se na costa, e com tanta felicidade que
poude dar auxilio a um barco portuguez que carregava _ébano_ para o
Brasil. Não queriam obedecer os malditos pretos, e elle, n'uma
patriotica decisão, desembarcou com uma manga de arcabuzeiros. Não
intimidaram aos ferozes selvagens os elmos, as couraças, nem as
grandes armas apoiadas nas forquilhas. E quando D. Francisco, ao
cravar no sólo a nossa gloriosa bandeira, viu que não se deitavam por
terra, curvando-se ante o lábaro sagrado que levára á Africa a
religião de Christo, mandou-lhes dar uma surriada de arcabuzes,
emquanto o navio os varejava de metralha. E de toda essa multidão
bravia que nutrira a louca ideia de, com settas de cana, emplumadas de
pennas de gallinha, defender mulheres e filhos, não ficou um para
amostra. Dos nossos apenas foi ferido esse bravo dos bravos, com uma
azagaiada na nadega, que toda a vida o fez sentar de banda.
Muito ancho, accrescentou o morgado:
--É o feito que commemora aquella cabeça de negro, em fundo de prata,
do meu brazão; e a esse alto tropheu de familia corresponde aquelle
outro emblema, as mãos de ouro em vermelho, como fartando-se d'esse
sangue derramado em prol da nação.
Muito risonho commentou o juiz, que tomára o café e provára um calice
da justamente celebrada aguardente:
--Pois conheço-o tão bem, D. Martinho, que me admiro não vêr-lhe sobre
as armas o distinctivo dos bastardos reaes.
--V. ex.{a} confunde-me!
--É um direito que só lhe contestam os primos do Alemtejo, dizendo que
n'esse tempo entrava em Odivellas o sequito do rei, até ao ultimo
lacaio, que todas as freiras reclamavam os mesmos prazeres que a madre
Paula, que as santas monjas não recusavam a esmola das graças
corporaes, e que vibrava o mosteiro em alegres risos de muitas
creanças.
--Sei que meus primos falam por inveja--retorquiu o morgado--mas não
deixam de reconhecer a superioridade do meu ramo, tanto que requestam
para seu filho a mão de minha filha.
Aproveitou o juiz o ensejo:
--Desculpe v. ex.{a} o meu involuntario esquecimento. Como está sua
excellentissima filha?
--Bem, muito obrigado a v. ex.{a}
--Já que me deu o prazer de conhecer os seus antepassados, desejava
ter a honra de ser apresentado á senhora D. Maria, cujos dotes de
espirito tanto me elogiam.
Trocaram novo olhar o morgado e o frade, e acudiu fr. Angelico ao amo:
--Sua excellencia disse «bem», porque felizmente não é coisa de
gravidade, mas a pobre menina não se póde levantar da cama, constipada
por esta frialdade...
Estranhou o juiz n'uma inflexão grave:
--Parece que o contrariou o meu desejo.
--De modo algum.
--Não m'o recuse pois. O seu ligeiro incommodo não a impedirá de certo
de vir á sala.
Interveiu de novo o frade:
--Trata-se de um caso de certa gravidade, que só para não assustar o
senhor morgado, fingimos considerar sem importancia.
--Acho conveniente--retorquiu o juiz--que se não meta onde não é
chamado. Dirigia-me ao senhor Soeiro, e creio que elle, que tanto se
orgulha da sua nobreza, não ignora que os fidalgos dizem timbrar em
não mentir.
--E não mentem, senhor!--protestou o morgado.
--Mantenha então a primeira resposta, de que sua filha se encontrava
de perfeita saude.
Encolhera-se o frade, e Martinho Vasques dirigiu-se ao juiz, mudando
de tom:
--Antes de mais nada: Que significa semelhante insistencia?
--Sabe-o tão bem como eu.
--Sinto apenas uma certa estranheza...
--Tratando de sua filha, calcula decerto ao que venho. Vá, um bom
movimento! Ponha de parte os seus escrupulos e torne felizes aquelles
que uma honesta inclinação destinaram um ao outro.
Passou no olhar do morgado um lampejo de rancor; mordeu furioso os
labios, mas conteve-se ante o receio de ser dado por cumplice dos
revoltosos, e de vêr confiscados os bens.
Ainda assim entendeu dar por finda a visita:
--Se v. ex.{a} não tem outro assumpto a tratar...
Redarguiu energicamente o magistrado:
--Vejo que comprehendeu o sentido das minhas palavras. Tenho pois todo
o direito a uma resposta.
Fazendo esforços para se não exceder, respondeu o morgado:
--Minha filha casará com o primo D. Luiz de Sousa, a quem está
prometida ha muito.
--É essa a sua ultima palavra?
--Naturalmente.
--Desejava conhecer a resposta da senhora D. Maria.
--Lá vem outra vez com minha filha!
Accorreu de novo fr. Angelico:
--As filhas só podem ter a vontade dos paes.
Tornou a pedir o juiz:
--Satisfaça v. ex.{a} o meu pedido, e retirar-me-hei com a resposta da
senhora D. Maria, seja qual fôr.
--Senhor, a sua insistencia!
--Não se exalte. Quero estabelecer a harmonia e não desejo usar de
outros processos.
--Ameaça-me?
--Não. Lembro-lhe apenas quem sou, e o respeito que me é devido.
--Pois lembre-se tambem em casa de quem está, diante d'estas nobres
figuras, e reconheça que, em vez da atitude pacifica em que se
disfarça, levou a sua audacia, apoiada na escolta, a ponto de me
tratar como um igual quando eu sou um fidalgo, e o senhor, apezar do
seu cargo não passa de um plebeu.
--Assim é. Na minha familia não ha femeas que tivessem servido de cano
de esgôto para a transfusão do sangue real. Não me orgulho do que
envergonha gente de bem. Quanto a esses mostrengos de narizes
coloridos pela aguardente, só podem interessar a Lavater, que teria
muito que estudar n'aquellas physionomias. Quanto a mim nada me
importam, e de grande paciencia dei provas ouvindo-lhe as historietas
do brazão.
E como o frade se interpozesse, querendo abrandar o morgado, que
bufava, apopletico:
--Entremos no assumpto que aqui me traz. Recebeu a justiça uma queixa
de que jaz ha muito tempo em carcere privado e recebe maus tratos, a
senhora D. Maria. A insistencia com que recusou apresentar-m'a
confirma a queixa. Ora nem v. ex.{a} nem pessoa alguma póde encarcerar
por seu arbitrio quem quer que seja.
Martinho Vasques desabafou:
--Sente-se bem, no irritante do seu falar, que por terem vencido uma
escaramuça, e haver o temporal desviado a esquadra, tem o rei na
barriga, e se lançam em desenfreadas vinganças. Agora trazem a
anarchia ao seio da familia! Já nem respeitam a santidade do lar!
--O despotismo familiar não o respeitamos, nem o consentimos. É da
lei, que temos obrigação de cumprir.
--Essas malditas leis constitucionaes...
--Já as ordenações do reino o prohibiam, mas eram letra morta as
medidas que defendiam os fracos, pois gosavam da impunidade os
poderosos como v. ex.{a}. Hoje a lei é egual para todos, quer premeie
quer castigue. Eu proprio, por esta mesma diligencia posso ser julgado
se me exceder. São regalias que custaram muito sangue, e hão de custar
ainda mais. Mas o poder despotico de maltratar, de torturar, acabou
para sempre!
--Se quer que o respeite--bradou o morgado--não alluda mais ás
intrigas tecidas por um atrevido que fui forçado a expulsar d'esta
casa.
--Saiba, senhor, que a justiça não se rebaixa a intrigas. Ha uma
queixa em fórma, com testemunhas, contra o seu procedimento.
--Uma queixa d'esses reles soldados...
--Foi apresentada por uma fidalga, sua parenta, a sr.{a} D. Victoria,
digna portanto de todo o credito.
--Ah! Espertezas da menina Josepha da Esperança! Essa namoradeira é
outra que tal! Se eu lhe tivesse arrancado as orelhas não era ella que
ia enredar-me...
--Vem dos mesmos illustres avós que v. ex.{a}, essa dama que maltrata.
Mas não me pertence apreciar se o seu procedimento é ou não de
fidalgo.
Fazia esforços fr. Angelico por conter Martinho.
O juiz dirigiu-se a elle:
--Queira vossa reverendissima aconselhar o seu amigo. É conveniente
evitar aparatos incommodos. Não desejo chamar a minha gente para
testemunhar o encarceramento da senhora D. Maria, o que redundaria
n'um processo crime, com pena de cadeia. Basta-me que lhe possa falar
livremente, e esquecerei tudo o que desagradavel se tem passado.
Arrastando-o para um canto, tentava o frade convencer o morgado,
falando-lhe em voz baixa, acaloradamente mas, não conseguindo
decidil-o a apresentar Maria, ainda pretendeu abrandar o juiz:
--Se é necessario o testemunho do ministro do Senhor, aqui estou eu
prompto a jurar, pelo santo nome de Deus, que s. ex.{a} é incapaz de
opprimir sua filha, sendo, pelo contrario, o modelo dos Paes.
Já enfadado, retorquiu-lhe o corregedor:
--Vá vossa reverendissima buscar a senhora D. Maria, ou obrigam-me a
praticar uma violencia, em que tambem será envolvido.
Desculpou-se o frade para com o fidalgo, indicando-lhe o magistrado
n'um gesto:
--Deus é contra o escandalo.
Dirigiu-se á porta, para ir chamal-a.
--Seja assim--disse Martinho Vasques--vá buscal-a, e este senhor
reconhecerá a sem razão das accusações dirigidas contra mim.
Depois de a vir intimidando pelo corredor, apresentou Maria fr.
Angelico:
--Aqui a tem, senhor.
Occupada com a pacificação da ilha, a captura dos guerrilheiros, a
investigação das cumplicidades, não pudera a justiça intervir mais
cedo.
Estava Maria ao corrente dos seus esforços. Apezar da continua
vigilancia, recebia cartas que o moço de cavallariça lhe metia da
cocheira por uma greta do sobrado, onde introduzia as respostas,
depois de bater devagarinho para baixo.
Durante mezes interminaveis ambicionára esse momento, mas agora
sentia-se fraquejar ao ter de queixar-se do pae, ao quebrar, ante o
novo amor, a linha de obediencia, o respeito de filha, o periodo de
submissão.
Compadeceu-se do velho, cujo rosto transtornado vira de soslaio, e
sentia-se sem forças para realisar o que planeára no seu desespero.
Mas horrorisava-a o que a mãe soffrera, captiva d'esse homem que, por
se dizer seu progenitor, por um direito que era alheio ao seu
consentimento, a maltratára de palavras, a magoára brutalmente, e a
fechára á chave no quarto, prohibindo-lhe os passeios, os
entretenimentos, a correspondencia, o convivio.
No absoluto isolamento dos primeiros dias horrorisara-se ante a
annulação da individualidade, a suppressão da consciencia, que era a
educação preconisada pelo pae. Ao visitar d'antes a prima Josepha
envergonhava-se de não saber tocar cravo, de não conhecer os livros
em que ella lhe falava, e que só a furto podia devorar, porque, no
entender do morgado, a leitura pervertia a mulher. Não sabia bordar
como ella, nem fazer os pequeninos enfeites que por toda a casa lhe
denotavam a educação e o gosto.
Depois, quando o frade lhe foi aconselhar uma submissão ainda mais
completa, não só nos actos externos, mas nos seus sentimentos mais
intimos, revoltou-se energicamente. E saíu corrido fr. Angelico,
queixando se de que o demonio, por intermedio do jacobino, se apossára
inteiramente d'ella.
Por fim a mãe, exasperada pelo abandono, vendo o frade senhor da casa,
pastoreando o rebanho das creadas, passou a odial-o, como odiava o
esposo, comprehendendo o baixo interesse que o ligára a ella, emquanto
do sacco das despezas lhe podia ir dando suas peças, e tornára-se
cumplice da filha, protegendo-lhe a correspondencia, avisando-a do que
elles projectavam, animando-a a insurgir-se, a libertar-se d'elles.
E n'esses dias enfadonhos, n'essas infindaveis noites de inverno,
contava lhe insulto a insulto, offensa a offensa, grosseria a
grosseria, o seu martyrio de trinta annos.
Prohibira-lhe o marido as idas á egreja, sua unica distração, mandando
dizer missa na capella da quinta, para lhe tirar esse pretexto de
saír; impedira-a de fazer visitas; negára-a ás pessoas que a
procuravam; afastára-lhe os derradeiros parentes, que ainda arrostavam
com o seu mau modo para não a desampararem; offendera-a, humilhára-a
em intimidades suspeitas com serviçaes, com rendeiras, e fizera d'ella
aquelle trapo, envelhecera-a aos cincoenta annos, moera-a, tornára-a
negra por dentro, matára-a lentamente: que sem punhal ou veneno tambem
se mata!
Seguia o pae já com ella o systema; nunca vira com bons olhos Josepha,
e por fim expulsára-a; queria entregal-a a um homem a quem
recommendaria os seus processos, e tornal-a-ia uma escrava por sua
vez.
Oh! Antes morrer!
Esperava dia a dia a promettida intervenção da autoridade, e tinha-a
antecipadamente como o momento em que passaria a pertencer a João.
Como elle era differente! Como seria ditosa ao seu lado, no
enthusiasmo d'esse amor juvenil, na meiguice do olhar, na delicadeza
do seu trato, na suavidade das suas falas. Com que direito pois lhe
prohibiam a sua parte de felicidade n'este mundo, se tivera a suprema
ventura de a poder realisar?
Espreitava por dentro dos ralos a chegada da justiça, adivinhando-a em
todos os vultos que divisava ao longe, nos carroções que denunciava o
estrepito distante, e só n'essa manhã tivera a fortuna de a vêr
chegar.
Tremendo, abraçada á mãe, a quem n'esses dias de dôr quizera mais que
em toda uma vida de afastamento, de seccura, aguardou que a fossem
buscar.
Parecia-lhe de mau agouro a demora.
Quando o frade a chamou, seguiu-a D. Perpetua n'um repente tão
aggressivo que fr. Angelico receiou um desacato.
Que triste que era o seu noivado! pensava Maria, ao encaminhar-se para
a sala, crente de que a esse rompimento seguiria o consorcio.
Revoltou-se o juiz ao vêr-lhe os olhos pisados de chorar, as faces
pallidas, cavadas, a agitação em que tremia.
Pediu-lhe que se sentasse, e perguntou-lhe se era verdade ter sido
maltratada, e encontrar-se prohibida de toda a communicação.
Acobardou-se ella ante o tom grave da pergunta, e levando o lenço aos
olhos, rompeu a chorar, sem responder.
--Não preciso melhor confirmação--disse o juiz erguendo-se, e
dirigindo-se a Martinho Vasques--É o caso da lei, abuso do poder
paternal. Sou pois forçado a cumprir o que se me requer, o deposito
judicial em casa do mais proximo parente.
--Protesto contra semelhante violencia, e juro que lavarei esta
afronta com sangue!--bradou o morgado.
E increpou violentamente a filha:
--Basta de comedia, menina. Diga claramente se lhe fiz algum mal.
--Nenhum, senhor!--respondeu ella, abandonada de toda a energia,
aniquilada pela commoção que, sobre a longa espectativa, lhe esgotava
a resistencia.
Mas D. Perpetua, que ficára entre portas a vigiar, desconfiada, entrou
bradando como louca:
--Senhor juiz, minha filha tem mêdo da fera! Este perverso bateu-lhe,
como me bate em mim, e a pobre ainda tem os braços cheios de nodoas
negras. É verdade que a tem fechada como a um cão, e manda ameaçal-a
todos os dias por esse frade, que já se atreveu a levantar a mão para
ella.
Por unica resposta, disse o juiz:
--Tenha a bondade, minha senhora, de mandar a sua filha o necessario
para que me acompanhe immediatamente.
Saíu promptamente a velha, dirigindo a fr. Angelico um olhar de
triumpho.
Olhar injectado de sangue, labios tremulos, ergueu-se o morgado em
passo mal seguro, e dirigiu-se a Maria, que instinctivamente se
refugiou por traz do magistrado.
Este interpoz-se, na energia da sua figurinha secca, nervosa, fronte
avincada, bôcca accentuada com firmeza, olhar vivo de argumentador, o
ar decidido de homem novo, habituado aos grandes lances:
--Que faz, senhor?
--Quero despedir-me de minha filha!--tartamudeou Martinho--Não me
assiste esse direito?
Replicou o corregedor com repugnancia:
--Esta senhora não o evitaria, se fosse um movimento sincero. Está
n'essa repulsão o seu maior castigo.
Atirou-se o fidalgo, esmagado, para uma cadeira, os olhos queimados de
lagrimas de desespero, fechando os punhos em crispações nervosas:
--Ah! Que se eu a abraçasse, ia esta noite ceiar com Christo!
Entrou D. Perpetua, já de manto, o rebuço deitado para traz, ajudou-a
a vestir a saia de merino, atou-lhe o capuz á cintura e deitou-lh'o
pela cabeça, emquanto ella se despedia, abraçando-a e beijando-a:
--Perdôe-me o passo que vou dar, e peça a Deus que me faça feliz.
--Não o serás!--exclamou o pae--porque eu te amaldiçôo! Permitta o
Senhor, filha desnaturada, que caias tão baixo que ainda venhas aqui
de rastos, coberta de bichos, pedir uma côdea á porta d'esta casa que
deshonraste. Deus te amaldiçôe, como eu te amaldiçôo!
--Vamos, minha senhora, tenha coragem!--disse o juiz, dando o braço a
Maria, e encaminhando-se para a porta, sem se despedir, indignado por
semelhantes palavras.
--Eu vou comtigo, não fico nem mais um dia n'esta casa--murmurou-lhe
ao ouvido D. Perpetua.
E cobrindo-se poz-se ao lado da filha.
De um salto, o fidalgo tomou a porta, e deteve-a, emquanto o juiz e
Maria se afastavam.
--Onde vaes?
--Sigo minha filha.
--Isso é que não. A ti governo eu! Has de obedecer-me cegamente, has
de ficar onde eu quizer, entendes bem, onde eu quizer!
Fechou a porta violentamente, e empurrou-a para dentro.
De joelhos, mãos postas, ella supplicava:
--Por amôr de Deus! Deixa-me acompanhal-a!
--Não! Has de pagar por ella.
* * * * *
Já na sége, para onde se deixára arrastar atordoada, reparou Maria na
falta da mãe, e pelos gritos comprehendeu o que se passava.
Pediu ao juiz que a fosse buscar, mas elle desculpou-se com a lei, que
não o autorizava a tanto.
N'uma grande amargura, Maria exclamou sentidamente:
--Então, senhor juiz, para que serve a liberdade, se ainda se pode
opprimir uma mulher!
X
Agora viam-se, falavam-se, estavam ali juntos um do outro, no vão da
janela, um degrau acima do sobrado, como n'um nicho, sentados nos
poiaes de pedra, os joelhos tocando-se, as mãos dadas, tão perto os
labios, que só os impedia de passarem a tarde n'um longo beijo o olhar
vigilante da tia Victorina, a mãe de Josepha da Esperança, enterrada
na poltrona, roca á cinta, fiando massarocas para a Francisca da Bica,
grande tecedeira, que as lançava no tear em guardanapos, lençoes e
colchas, a trinta reis a vara.
Para impedir o escandalo de se falarem da janela abaixo,
permittia-lhes, aos domingos, a dona da casa, esse curto
desabafo em que pesava com a sua presidencia, impassivel, entre a
commoda negra, de pés recurvos, e a porta de vidraça da escura alcova
onde dormiam as raparigas.
Nos outros dias, ao passar para o castello e para casa, via-a João ao
postigo do grande ralo, de riscas em diagonal pintadas a verde, com
remates de pinhas nos rectangulos divididos pelos columnellos, manchas
rubras de cravos nos recantos, no alto gaiolas de cana onde saltitavam
canarios.
Dominava-os a tristeza da casa, em que pairava a viuvez de D.
Victoria, entristecendo a propria filha a quem faltava a distração das
tardes na quinta, para onde, mal acabava de jantar, partia sentada na
burrinha, que o moço tangia, escudeirando-a.
Maria, olheirenta, emmagrecida, definhada pela vida tão differente que
ali levava, fechada n'uma casa pequena, acostumada como estava a
passar ao ar livre o dia inteiro, queixou-se, dominada por uma
inconsolavel melancholia:
--João, desde que saí de casa só tenho chorado. Foi praga que me
rogaram. Ha de ser a maldição do pae!
Em vão pretendia elle reagir contra o desanimo que tambem o
ganhára:
--Não penses n'isso. Temos que passar por este tributo. A nossa
felicidade fará esquecer estas horas amargas, e até teu pae se cançará
da sua teima, e ha de abençoar-te e querer-te ditosa.
--Oh! O pae! Não o conheces bem. Mas ainda elle me queira sempre mal,
paciencia. O que mais me custa é a mãe.
--Está costumada, não soffre tanto como tu.
--Deu-lhe volta ao juizo a minha saída, ficou a emprehender n'aquillo,
e como lhe fechassem as portas atirou-se da janella abaixo para me vir
vêr.
--Coitada.
--Tem estado á morte, e eu receio que morra sem a tornar a vêr.
Sobresaltou-se João:
--Acautela-te! Póde ser um estratagema para te obrigarem a voltar a
casa.
--Não. Infelizmente é verdade.
--E como o soubeste?
--Está por ahi tudo cheio.
--Sim. Eu tambem o ouvi, mas tive-o por maroteira de fr. Angelico.
Encarou-o Maria aterrada:
--Foi a tua funesta hostilidade á religião que te inspirou
esse falso testemunho, pois o frade nunca mais voltou á quinta desde
que eu vim para aqui.
Elle ficou mais receioso ainda:
--Pois tu defendes esse homem, que tanto mal nos fez, que denunciou a
minha visita, para que me espancassem, e se atreveu a pôr-te as mãos?
--Não o defendo, não; mas temo por mim e por ti essa tua inclinação
contra tudo o que respeita á egreja. Ainda te póde dar de rosto.
--Agora, Maria, é que tenho razão para estar triste porque já me não
pareces a mesma!
--Não sei porquê--retorquiu offendida.
Atalhou João, para não a desgostar mais:
--Mas o que ha de tua mãe?
--Assim que soube que o Malaquias, o mulato, moço do sineiro da Sé,
fôra encanelar-lhe a perna, mandei-o chamar, e só depois de lhe acenar
com uma pataca é que aquelle recancha se decidiu a vir coxeando até
cá, pois tinha ordem de não dizer nada.
--Era então verdade?
--Sim. Esteve mais de um mez sem se virar, abandonada de todos, e até
foi despedida uma creada porque a tratava caridosamente.
--Pobre senhora!
--Essa veiu cá, e contou-me horrores. Vive no meu quarto, fechada como
eu, arrastando-se pegada a um pausinho. E dão-lhe convulsões que fica
de bôca á banda, tomada de um lado. Para ali vive como um môcho, a
penar, a penar, que antes o Senhor se lembrasse d'ella, Deus me
perdõe!
Elle tomou uma decisão:
--Pois meu amôr, em vez de a lamentarmos, o que não lhe serve de nada,
tratemos de a arrancar d'essa maldita casa. Requer-se uma acção de
separação, prova-se com o testemunho da creada e do mulato o carcere
privado, vae lá a justiça, e...
--Exactamente como a mim. Mas de que me serviu, se sou tão infeliz
como d'antes ... talvez ainda mais? De que servem essas leis, de que
vocês fazem tantos escarceus, se me tiraram de uma prisão para me
meterem n'outra, não nos deixando casar, como desejamos, senão quando
eu tiver vinte e cinco annos; se permittem que uma pobre mulher esteja
encerrada, pela vontade do marido, embora um juiz ouvisse que ella não
queria viver em casa? Não, a felicidade não depende da alçada das
leis, nem da vontade dos homens; a felicidade está na mão de Deus, e
os que, como nós, o teem offendido, não a podem esperar nem
n'este mundo, nem no outro!
Encarou-a João, como a lêr-lhe no olhar, e depois respondeu commovido:
--Dizes bem, dizes, não depende das leis a felicidade, nem de nós
proprios, mas dos que nos educaram, dos que nos formaram o espirito, e
que governam sempre dentro em nós. O que os principios porque nos
batemos hão-de impedir d'aqui em diante, é a sementeira do mal, o
obscurecimento dos cerebros, a aniquilação das consciencias.
E sobresaltado por uma desconfiança, que como um relampago o
esclareceu:
--Por mais que negues, anda frade n'isto! Não é assim?
Accentuou-lhe a suspeita a confusão d'ella:
--Dize-me tudo. Não pódes ter segredos para mim! Sou como teu marido,
desde que por minha causa abandonaste teu pae. Falaste com algum
religioso?
Negou ella, frouxamente:
--Não, não falei.
--Perdôa, mas não te acredito. Veiu aqui alguma d'essas aves de mau
agouro!
--Como me custa ouvir-te falar assim!
--Mas veiu ou não veiu algum santo ministro do Senhor?
--O padre mestre, confessor de minha tia, sim. Vem cá muitas vezes
esse santo homem: que eu distingo bem fr. Angelico d'elle, mas nem me
falou, nem eu ouvi o que diziam.
--Então é intriga tecida por elle! Tem cá entrada. Mas que admiração,
se em cada rua ha um convento, se a cidade é d'elles mais que dos
moradores!
E aproximando-se muito, tomando-lhe as mãos, n'uma voz grave, mas
baixa como um murmurio, para que não o ouvisse D. Victoria:
--Ah, minha querida Maria, que te querem roubar-me! Por amor de Deus
desvia-te d'elles, não lhes dês ouvidos, considera antecipadamente
como envenenadas as suas palavras! Querem separar-te de mim, pretendem
desforrar-se do meu triumpho. E se ainda me queres bem, como o
provaste, recusa-te a ouvil-os, quer falem em nome de tua mãe, que
desgraçaram, porque foram elles que a inutilisaram, pergunta-lh'o um
dia, se puderes; quer te falem em nome de Deus, que trazem sempre nos
labios, tendo o demonio no coração!
Maria respondeu com lagrimas na voz:
--Pois pódes duvidar de mim, ao passo que dei! Eu, uma
morgada, esquecer-me do respeito que devo ao meu nome, por amor de ti!
Eu, uma fidalga, expôr-me a commentarios vergonhosos...
E não poude mais. Afogada n'um choro convulso, que disfarçava tapando
a bocca com o lenço, virando para as gelosias os olhos requeimados.
Então confessou-lhe tudo.
A convite do padre mestre, resolvera ir D. Victoria a uma festa em S.
Francisco. Quizera leval-a comsigo, e aos favores que lhe devia não se
pudera recusar. Como ia de manto, ninguem a conheceria. Não tencionava
confessar-lh'o, para o não desgostar.
Houve missa cantada, distrahiu-se com a cantoria e com as ceremonias,
que não via ha tantos annos, mas ao sermão cuidou morrer de vergonha.
Bradára um frade contra os desacatos, falára de Christo crivado de
tiros, calices profanados em orgias, altares escolhidos para sentinas;
indicára horriveis castigos para os constitucionaes e para as mulheres
que os seguissem, alvejando intencionalmente as desgraçadas que
abandonavam os paes para seguirem soldados, arrastadas por baixos
apetites, tratando-as a todas por furias e prostitutas,
indignas de se aproximarem da mêsa da communhão.
Chorára a dentro do biôco, parecendo-lhe que, como bofetadas, a
escaldavam esses insultos, e que todos se voltavam para ella, como se
o seu peccado fosse visivel através do manto, e a fulminassem os
crentes em piedosa indignação.
--Trahiram-te, meu pobre amor! Ah! que cobardes! Pois não comprehendes
que tudo isso foi forjado para te intimidar! Tua prima decerto não
chorou, tenho a certeza.
--Até se levantou para se ir embora em meio do sermão, e já se zangou
com o padre mestre pela linda festa para que nos convidára. Elle
desculpou-se, coitado, que todos os sermões eram assim, que se tornava
necessario combater o erro, responder com a guerra aos inimigos da fé!
--Hypocrita! Mas Christo prégou uma religião de paz e de amôr, e elles
querem o odio e a vingança! Christo foi o primeiro liberal, apontando
a egualdade e a fraternidade. Christo prégou a pobreza e a humildade,
e elles são ricos e poderosos. Acredita-me, os verdadeiros christãos
somos nós!
Pelo bem que lhe queria, dava-lhe João a ingenua interpretação
do tempo, porque só gradualmente a poderia emancipar.
Ella sentia-se desafogada com as explicações, porque tambem a chocára
a grossaria, o baixo espirito interesseiro dos industriaes da fé.
--Mas se vocês são assim, e eu acredito que, pelo menos tu, és como
dizes, para que horrorisam os crentes com esses aggravos?
--Que lucravamos com isso, tontinha! São elles que os inventam e
praticam, e mostram depois as cruzes derrubadas, para incitarem contra
nós esse pobre povo que queremos emancipar.
Por fim Maria resignou-se. Tinha de ser d'elle. Estava escripto que
para o conseguir haveria de passar todos aquelles tragos. Pois que
remedio. E João confiava mais n'aquelle fatalismo, na teimosia d'ella
em levar a sua ávante, que em a ter convencido das artimanhas
fradescas.
Parecia-lhe que mal tinham começado a falar, e já os interrompia a
tosse pontual de D. Victoria.
--Josepha, fecha-me aquella janela, filha. Em caíndo a tarde, começa a
peitogueira ás voltas commigo.
Era da praxe n'esta altura interessar-se João pela saude d'ella, não o
fazendo ao principio para não cercear o tempo da entrevista,
e poder demorar-se depois, um pouco mais, junto de Maria.
Deixara-se sempre illudir a velha.
--Aquelle peito era uma panela a ferver, a referver, á tardinha
principalmente. Bastante gastára em promessas a S. Braz e Santa
Margarida, advogados contra o mal da garganta, e a S. Tude, protector
contra a tosse, mas cada vez se sentia peior.
Trazia João engatilhado um repertorio de drogas e esvasiava as
algibeiras de uma provisão de papeis e embrulhinhos.
--Aquella era a receita de um xarope, invenção da tia Pulcheria, que
lhe tirára uma tosse convulsa, depois de já ter sido chamado o Craca
para lhe tomar medida do caixão; estas pastilhas fizera-as o senhor
Juvencio de encommenda, com tudo quanto havia de melhor e mais
approvado.
E emquanto se prolongava o colloquio, deliciando-se D. Victoria em
queixar se de todos os seus males, Maria e Josepha, como na quinta,
riam enlaçadas ao fim do corredor, desafiando João.
Pingavam trindades, erguia-se a velha com esforço e benzia-se
unctuosamente, murmurando as ave-marias e a gloria-patri; e João,
emancipado em casa, transigia ali, imitando-lhe os gestos e mexendo
os labios em furtadelas de olhos para o corredor, no que
Maria julgava, enternecida, vêr uma satisfação aos seus escrupulos,
embora a maldosa Josepha a desiludisse, elogiando as inexgotaveis
manhas do namorado.
Forçava-o o lusco-fusco a despedir-se, e então seguia pelo corredor,
já escuro, emquanto Josepha avançava á sala a fazer-lhes costas,
entretendo a mãe, e a sua verdadeira entrevista era quando elle a
beijava apaixonadamente, ao propositado ruido de abrir a porta da rua.
Dissipavam-se os receios de Maria, defendendo-se inhabilmente dos
beijos:
--Mas como tu estás atrevido. É da farda! Olha que te fica a matar! E
porque é que nunca me beijaste quando estavamos juntos?
--Não sabia se gostavas de mim.
--E agora sabes?
--Percebe-se.
--E porque não percebias então?
--Nem tu mesmo o sabias.
--Isso sabia. Mas que fosse tanto, não; confesso!
Echoavam estrondos de catarrho. Descia elle, corrido, e ella
voltava de olhos baixos, para ir ao ralo vêl-o sahir.
Então D. Victoria chamava pela filha, que era o mesmo que chamar por
ella:
--Venha para dentro, menina, não seja janeleira, que não foi essa a
sua creação. É uma maia, sempre impeirada á janela. Muito perdeu a
menina em seu pae, Deus lhe fale n'alma, que a havia de sopear.
Meteram-se para dentro, fechou-se a casa, e no escuro da alcova o
terror reconquistou Maria.
Queria desfazer-lhe Josepha a impressão das reprimendas da mãe:
--Não faças caso, é genio. Sempre assim foi, mas não julgues que te
quer mal. Olha que foi ella quem, a meu pedido, requereu o teu
deposito e fez a queixa.
--Antes o não fizesse.
--Porque? Não estás contente em minha casa? Ligas importancia a
rabugices?
--Não é a tua casa, filha, é a minha situação que me afflige. Se
soubesse que havia de estar tanto tempo á espera de edade, não saía de
casa, não desgostava a mãe, não offendia o pae.
--É o que dizes agora. Mas não podias aturar aquella vida.
--Nem posso supportar esta! Se tivesse casado, tapava a bôca a essa má
gente. Mas assim, fóra de casa, vendo João, recebendo-o, é ser
esbandalhada por essas linguas perversas. E hei-de passar cinco annos
assim? Oh! não posso, não posso!
--Ó filha, mas se tu não casas com elle é porque não queres. Vão
juntos á missa, e quando o padre estiver quasi quasi a deitar a benção
digam, de mãos dadas, as palavras sacramentaes, que se recebem por
marido e mulher, e o padre, que não pode parar a reza por nada d'este
mundo, tem por força de deitar a benção, deita-a, está deitada, vocês
casados, com toda a egreja por testemunha, e salta logo para casa
d'elle. E se teu pae quizer melhor que se ponha ás bôas e faça boda de
estadão. E até o João pode combinar-se com o padre, que os ha muito
constitucionaes, e é dito e feito.
--Uma mulher como eu não dá semelhante passo--protestou Maria--Por ter
saído de casa não deixo de ser quem sou, e nunca praticarei um acto de
que se possa fazer pouco.
--Então queixa-te de ti.
--Hei de casar com elle, espere quanto tempo esperar, que
não sou das que se esquecem, nem das que se cançam. Mas ou hade ser
como deve ser, ou nunca; ainda que estale de saudade. Se eu sou assim!
--Mas não vejo que te resignes, te disponhas a esperar com paciencia.
Afinal que queres tu?
--O que quero? Nem eu sei, Josepha, nem eu sei!
* * * * *
Assim passaram longos dias, até que a assustaram boatos de nova
esquadra.
Falavam com orgulho os miguelistas do seu grande poder: vinte e um
navios, com trezentas e quarenta peças e seis mil homens, entre
soldados e marinheiros; uma alçada para julgar summariamente os
constitucionaes, e um carrasco para os despachar com promptidão.
Bem sabiam os liberaes o que succederia se fosse tomada a ilha.
Figuravam-se-lhes os autos de fé do miguelismo: procissões de
condemnados, descalços, entre frades, levando horas da cadeia á forca,
a entoar o _miserere_ deante das capellas do percurso; depois
enforcados no longo ceremonial que com cada um absorvia uma hora,
aggravando a tortura moral dos que esperavam, e divertindo mais damas
e frades que davam vivas a D. Miguel e á religião, acenando com
lenços, applaudindo as execuções.
Estremeciam de horror ao recordar a viuva de um enforcado morrendo de
afflição; o pae de um rapaz, assassinado pela lei, suicidando-se de
desespero; uma pobre mãe affrontada pela exposição da cabeça do filho,
espetada n'um poste deante da vidraça!
Era uma perseguição em massa que degradára mil e seiscentas pessoas,
forçára a esconderem-se cinco mil, arrastára á emigração treze mil e
setecentas, mantinha vinte mil sob a vigilancia de suspeitos, tinha a
dentro dos carceres mais de vinte e seis mil pessoas de ambos os
sexos, e sequestrára os bens de oitenta e duas mil familias!
Longe de os acobardar, incitavam-os esses terriveis exemplos a
combaterem com desespero.
O conego Ferraz, sabendo bem o que o esperava se triumphassem os
miguelistas, trazia comsigo um frasquinho de veneno, para não caír
vivo em poder do carrasco.
João procurava tranquilisar Maria, ácêrca dos resultados da lucta.
Assim como se tornára a ilha, agora elevada á cathegoria de reino, o
alvo do odio absolutista, tambem fôra o ponto de concentração dos
liberaes, e assim já tinham para se oppôr ás forças inimigas alguns
reforços de emigrados, armas e munições vindas de Inglaterra, e um
general como Villa-Flôr para dirigir a defeza.
Todo o littoral estava defendido, nos poucos pontos onde a costa
permittia a abordagem.
Uma manhã foi João precipitadamente despedir-se, porque ia para a
villa da Praia com os Voluntarios da Rainha.
* * * * *
Enthusiasmado com a vinda da esquadra, contando como certa a victoria,
tão grandes os recursos accumulados, arrancou-se o morgado do
isolamento da quinta, onde cada vez bebia mais, para esquecer a
offensa de Maria, para não ouvir os gritos da mulher, e montando a
cavallo dirigiu-se ao convento de São Francisco.
Ha muito que fr. Angelico não ia á quinta.
Quando lá fôra a justiça, ao sentir o chocalhar de ferragens da
traquitana, voltára-se desesperada D. Perpetua para o frade:
--Se não me defendes, Angelico, eu confesso-me a meu marido e então
acabou-se tudo!
Não permittiam illusões o rosto congestionado, a bôca espumante, o
olhar desvairado, de louca. Fôra logo despedir-se de Martinho Vasques
o franciscano, pretextando o receio da denuncia do juiz e das queixas
de Maria.
Era bom que n'esse mesmo dia o vissem no templo, votado ao culto, para
desmentir a accusação tanto de temer.
E sem consentir que o morgado mandasse pôr o carroção, arregaçou o
habito, deitou o capuz pela cabeça, e fugiu debaixo d'agua ás
pernadas, até se abrigar n'um portal.
Que lhe quereria o morgado? perguntava a si proprio, ao ir recebel-o.
Dissipou-lhe porém todo o receio a attitude de Martinho, ainda na
grande paixão da desfeita recebida:
--Deixe-me desabafar, fr. Angelico, que ha tanto tempo não o faço. Já
não ha religião, já não ha respeito filial, já não ha Deus!
Mãos postas, olhos em alvo, voz de cana rachada, exclamou o frade,
simulando um devoto horror:
--Não blasfemes, creatura, contra o teu Creador! Curva-te á vontade do
Altissimo, que a tua expiação está terminada!
E mudando de tom:
--Alegrar, senhor morgado, que ha grandes novas!
--Por isso vim, fr. Angelico. É então certo que voltaremos aos bons
tempos?
--Só podiam duvidar gentes de pouca fé.
--Pois eu julguei-me abandonado do céo!
--Espere em Deus, que é pae da misericordia! Sempre ha de haver
frades, sempre ha de haver religião! Vae em dezanove seculos! Havia de
acabar assim, quando já resistiu ao proprio demonio, na pessoa de
Luthero; ao anti-christo encarnado em Bonaparte? Estes pandilhas não
valem nem um nem outro.
--E agora?
--Será forçada á obediencia paterna sua infeliz filha...
--Já não tenho filha!
Era essa a phrase feita que desde então tivera para todos, mas não
correspondia sinceramente ao seu sentir.
Queria-a em casa, como desaggravo, como affirmação do poder paternal,
como homenagem á sua categoria.
--Responde v. ex.{a} como quem é, mas eu procedi como devia, de que lhe
peço perdão, caso não appoie os meus passos.
--Que quer dizer?
--Nunca abandonei a sua causa, comquanto os deveres do meu ministerio,
que me impõe a cega obediencia ao poder constituido, me impedissem de
ir receber as suas ordens...
E aqui, já seguro de que não fôra descoberto, perguntou:
--Como está a senhora D. Perpetua, depois d'aquella triste fatalidade?
Pobre senhora!
--Não sei nem quero saber. Nunca mais verei nem uma nem outra.
Tinha porém, curiosidade de conhecer o que fizera o frade:
--Ia dizendo...
--Que não me dei por vencido pelos inimigos de Deus. Pratiquei n'esta
egreja uma das obras de caridade, ensinando os ignorantes, castigando
os que erram, e a filha desobediente ouviu n'um terrivel sermão...
--Já sei.
--Mas não foi só isso! Os miseraveis julgam que com garatujas n'um
pedaço de papel governam tudo, e afinal somos nós quem governamos e
havemos de governar sempre. O nosso reino não é d'este mundo, as
nossas armas são espirituaes, e as crenças religiosas ligam-nos para
sempre os cordeirinhos embora desgarrados, promptos a voltarem ao
aprisco mal os ameaça o lobo da heresia.
--Acabe!--pedia o morgado impaciente.
--Trouxe sempre vigiada a innocencia por outro grande pastor d'almas,
o nosso padre mestre, que tem feito ver a sua prima D. Victoria o
peccado que commetteu. Ella, que é uma mulher de vergonha...
--Uma descarada!--protestou Martinho Vasques--Fazer-me o que me fez!
Mas não admira, a fama que ella sempre teve, com a casa cheia de
frades...
Tocado na corda sensivel, voltou fr. Angelico ao pathetico:
--Calumnias, meu senhor, calumnias espalhadas pelos filhos de Satanaz.
Não ha nenhum director espiritual d'essas santas senhoras que não
tenha sido conspurcado na sua virtude, na sua innocente castidade. Até
sei pelas suas creadas que a senhora D. Perpetua, n'aquellas
terriveis convulsões em que parece possessa do inimigo, diz contra mim
coisas de se abrir o chão, decerto inspiradas pelo proprio demonio,
como vingança contra o varão forte que por tanto tempo lh'a defendeu
das garras.
E n'um suspiro, como não obtivesse resposta, voltou a D. Victoria:
--Ella tem feito todo o possivel para a desgostar, e não se opporá a
que lh'a tirem d'ali.
Atraiçoou-se o morgado, pondo de parte a rigidez apparente:
--Dava metade do que possuo para a fazer voltar a casa, sem que, pelo
triumpho dos nossos, a forçassemos, por forma a fazer rebentar a
castanha na bôca aos que se regosijavam com a minha vergonha.
--Pois dê v. ex.{a} com que eu possa mover o ceu a nosso favor, e
tentarei o milagre.
Sabendo-lhe as manhas, ia Martinho Vasques prevenido de dinheiro, a
vêr se, a troco de alguma esmola para o convento, lhe deixavam levar o
indispensavel commensal.
--Pois aqui tem para principio. E quanto mais depressa, melhor.
--É agora propicia a occasião. Está o seductor seguro na Praia. Mas
pretendem recolher-se ao castello, com as familias, se forem
derrotados á beira-mar, e se lá a metem, então, meu senhor, é que é
fazer-lhe uma cruz. Ficaria perdida a senhora D. Maria, entre
semelhante malta. Da mesma sorte se os nossos desembarcarem
rapidamente, como ha de permtir o ceu, tomando-a por liberal,
violental-a-hão, e á prima, como é do seu dever, para exemplo das
malditas mulheres que preferem as creaturas de Satanaz aos amigos da
religião. Portanto, se podermos recolher desde já a filha prodiga,
teremos mais socego para os ver esganar, pois virá por ahi quem saiba
da póda.
--Que tenciona fazer?
--O que Deus me inspirar.
--Mas quando, quando?
--Elle o determinará em sua divina sabedoria.
E como o morgado, apesar de devoto, não ficasse muito satisfeito:
--Olhe, vá v. ex.{a} a pé por essa cidade, mande a besta esperal-o fóra
dos portões, e a todos que lhe perguntarem por sua esposa dê-a como
perdida, que poucos dias lhe restam de vida, para que a senhora D.
Maria o saiba. Ensinarei o recado ao padre mestre, para dizer a D.
Victoria que é um caso de consciencia encobrir por mais tempo a uma
filha a agonia da mãe. Depois eu darei conta de mim.
* * * * *
Uma tarde, tendo ensaiado fr. Angelico um ar compungido, certo da
afflicção de Maria pelas más noticias da mãe, foi a casa de D.
Victoria.
Mal o viu, atirou-lhe Josepha com a porta, mas o frade insistiu,
percebendo que a mãe a reprehendia, ao saber quem era.
Em voz de prédica, perguntou da escada se a senhora D. Maria estava em
carcere privado, e se era contra a Carta Constitucional levar a uma
filha noticias de sua mãe.
Foram abrir-lhe, e Maria, apezar dos exforços de Josepha para a fechar
na alcova, pediu por amor de Deus novas de D. Joanna.
Elle, n'uma suavidade melada, ergueu os olhos, e declamou:
--Deus manda perdoar as injurias, esquecer as fraquezas do proximo, e
consolar os afflictos! Fiz ideia como estaria a sua alma, e
arrisquei-me a este passo, que pode ser tão mal apreciado...
--Diga-me a verdade!--implorou Maria, atterrada pelo exordio.
--Peço-lhe que não se assuste. A senhora D. Perpetua está gravemente
doente, mas ainda ha esperanças de a salvar.
Maria recriminou a prima:
--Ou haverá ou não! Eu bem t'o dizia, Josepha, eu bem t'o dizia.
Mas ella continuava a disputal-a:
--Não te deixes enredar!
--E com isto não enfado mais--disse o frade, cumprimentando muito
correcto, um ar de beatitude a escorrer-lhe pela face alvar--Vim só
trazer esta palavra de consolação, como é dever do meu ministerio. Sua
mãe não está na agonia, como para ahi espalharam, o que me forçou a
vir tranquilisal-a. Eu ainda confio n'um milagre!
Quiz demoral-o D. Victoria:
--Então, nem sequer se senta! Faça-me um bocadinho de companhia...
--Muito obrigado, minha querida senhora, mas a minha presença não
agrada...
--Peço-lhe perdão pelo que toca a minha filha. Se ella tivesse um pae
que a castigasse...
Aproveitou o frade o pretexto, e pegaram-se n'uma interminavel
palestra, emquanto Josepha conseguia arrastar a prima para dentro.
Mas ahi Maria respondeu-lhe frenetica:
--Que mau sestro tomaram todos de me governar. Foi o pae, a mãe,
depois o João, tua mãe, e agora tu! Pois eu tenho mais juizo que vocês
todos, não preciso de tutôres.
--Estás sendo muito enganada!--repetiu Josepha.
--Deixa-me! Deixa-me!
E refugiou-se na torre, a meditar, sentada n'um bahu, a cabeça apoiada
nas mãos, os olhos vidrados muito abertos, as fontes latejando.
Depois ergueu-se, enxugou os olhos, e foi direita á sala.
--Que vaes fazer!--perguntou Josepha, interpondo-se:
--O que devo! Larga-me.
E arrependendo-se:
--Bem sei que me queres bem, mas perdôa. Oh! Ninguem se veja como eu
me vejo!
No estoicismo da resolução, dirigiu-se a fr. Angelico da Immaculada:
--Muito obrigada a vossa reverendissima pelas suas noticias. O meu
desejo era ver a mãe...
--Não esperava menos do seu coração de filha!--exclamou radiante o
frade--É esse effectivamente o seu dever.
--Ai, Maria, que caiste no laço!--bradou Josepha,--Estás doida? Estás
doida?
Mas ella, sem a attender, dizia ao frade:
--Se pudesse ser...
--Hei de fazer o possivel, alma santa!--respondia fr. Angelico,
revirando os olhos.
--O pae não ha de querer ...--continuava Maria, emquanto D. Victoria
continha a filha.
--Oh! Não conhece a grandeza do seu coração! Foi muito offendido,
realmente, mas é pae, é pae!
--Aconselhe-me então o que devo fazer.
--Foi Deus que a inspirou. Faça o que disse. Venha vêr sua mãe. Eu
acompanho-a, e respondo pela licença do senhor morgado.
--E quando? quando?
--Quanto mais depressa melhor, que a vida e a morte estão nas mãos de
Deus!
Josepha ainda irrompeu, avançando para o frade:
--O que falta aqui é um homem para o esbofatear!
Mas nada poude demover Maria, muito tremula, batendo os dentes,
convulsa, á ideia de ir vêr a mãe.
Ao saír, com a tia e o frade, ainda Josepha a puchou para dentro:
--Ó doida! E ao João, que lhe hei de dizer?
E como ella balbuciasse que ia só vêl-a, e que voltava, tapando a
bôcca, abafando-se no biôco do manto para não a ouvirem soluçar,
gritou-lhe do alto da escada:
--Mal empregado rapaz! Tu não o mereces!