_A hum Prégador celebre (Fr. João Jacintho) estando jantando com o A._
Se deste potente vinho
Não cerceias as rações,
Temo que nos teus Sermões
Allegues só São Martinho.
Se lhe dás largo caminho
Pelo teu fecundo peito
Seu fatal magico effeito
Deixando-te a tres de fundo,
Te fará ser o segundo
Que diga: _sempre me deito_.[8]
_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria._
Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to
explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente
para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com muito bom estomago.
Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes
comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão,
morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas
aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que
tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e
arde agora a vela pelas duas pontas.
Tu que tens bom coração, e que estás ao pé do Senhor Marquez, que o tem
melhor, pede-lhe por caridade o despacho dessa petição.
Não te assustem os tres annos; porque ainda mal que ouço que no de 93
não tiverão cabimento. Pede-lhe que já que me livrou de crianças, me
livre tambem de velhas, gado ainda mais impertinente, e que se não
contenta com figuras de Rhetorica. Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo,
e Collega, e sabe que, se lhe não mandas as Portarias, terás a vergonha
de o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á tua efficacia.