GLOZA.

Parto em fim desesperado,

E sem que o motivo conte

Vou a estranho horizonte

Chorar o meu triste fado.

Já vejo o laço quebrado

Que a ventura me forjou;

E como Nize o quebrou,

Conservando os olhos seccos,

Ao menos não ouça os éccos

De mil suspiros que eu dou.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._

Hontem soube o que podia

Estilo suave, e brando:

E quanto podeis fallando

Eu o vi na Academia.

Nas almas fogo accendia

Vossa discreta Oração.

Sobre a minha pertensão

Vos peço que assim oreis,

E que ao Principe falleis

Como fallais á Nação.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._

Mandais-me que os versos traga

Que na almofada fallárão;

Porque os outros vos ficárão

Nas mãos da Illustre Arriaga.

Essa honra he huma paga,

Que elles nunca merecêrão:

Se os seus olhos se puzerão

Sobre tão baixa escritura,

Devo essa grande ventura

Ás illustres mãos que os dérão.

Mas he do meu triste fado

Tão teimosa a crueldade,

Que até na felicidade

Vejo que sou desgraçado:

Pois devi­eis cautelado

Segurar a occasião:

Fingindo que errava a mão,

Entre mil papeis diversos

Podieis em vez dos Versos

Dar-lhe a minha petição.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._

Assisti á Sagração,

Acto, Senhor, dos mais serios,

Que envolve augustos Mysterios

Da nossa Religião.

Lembrou-me crismar-me então

Por ser acto Episcopal;

Por permittir acção tal

Que outro appellido se tome;

Lembrou-me trocar o nome

De Mestre em Official.

Busquei as horas melhores,

E encommendei-me á fortuna;

Cheguei, e para a Tribuna

Tinhão já ido os Senhores.

Pelos frios corredores

O bom Lima me encaminha;­

Foi-me pôr na tal portinha

Onde os pertendentes vão

Pôr os joelhos no chão,

E os olhos na Rainha.

Co'a cabeça estopetada,

Como quem dorme sem cama,

Roto fumo, e alguma lama

Sobre a casaca encarnada,

Vi o tal que grita, e brada,

Quer na Sala, quer na rua.

Por mais que trabalha, e sua,

Guarda-roupa he louca idéa:

Como ha de guardar a alhêa

Quem trata tão mal da sua?

Ao pé a figura rara

Do pardo Cardeal astuto,

Que para cumprir o luto

Lhe basta mostrar a cara.

Dos dous na justiça clara

Grandes fundamentos acho;

Mas fujo mais para baixo,

E dispenso amigos taes,

Por não ficarmos iguaes

Na justiça, e no despacho.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, quando

morreo o Pai do Author._

Peito de tanta bondade

De bom Pai o nome preza;

Levou-me hum a Natureza;

Mas deixou-me outro a piedade.

Amparai minha orfandade,

Porque a vossos pés me humilho:

Se não me abrís outro trilho,

Tal a minha estrada vai­,

Que irão co'a vida do Pai

As esperanças do Filho.

_Vagando hum Officio que o A. pertendia._

Jaz o defunto enterrado:

E agora saber intento,

Se a caso no testamento

Me ficou algum legado.

A vossos pés ajoelhado

Ponho em vós minha esperança:

Tenho Parte, e não descansa;

E nesta causa infeliz­,

Se não fordes o juiz,

Perderei de certo a herança.

_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas._

Meu Doutor, bem sei que quer

Que eu venha ás Ave-Marias;

Mas olhe: ha huns certos dias

Em que isto não póde ser.

Dona Antonia Xavier

(Que o Ceo por seculos guarde)

Faz annos, e eu esta tarde

Perco á Medicina o medo:

N'outros dias virei cedo;

Mas neste, ha de ser bem tarde.

Obras posthumas · 第 79 / 99 题