Guardiaõ ajustou com _Atala_, e outros Mouros visinhos de _Jerusalem_,
que nos levassem a _Damasco_, caminho de oitenta legoas. Com elles
sahimos em jumentos, (por naõ permittirem, que os Christãos andem a
cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos destes
faziaõ jornada para _Alepo_; trez para _Constantinopla_; dous, que eraõ
o _Padre Salerno_, e seu Companheiro Fr. Serafino, e hum Leigo
Hespanhol, chamado _Irmaõ Juliaõ_, e nòs Pedro Tudesco, e Nicolao
Polaco, para Veneza.
Despedidos do Padre Guardiaõ, tomada a sua Santa bençaõ, e abraçando com
muitas lagrimas a todos os Religiosos, sahimos acompanhados de todos
muitos passos fóra da Cidade, e repetidos os abraços, e lagrimas,
começamos a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos
a _Santa Cidade_, os Sagrados montes _Sion_, e _Olivete_, e nos
despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e tendo caminhado
como meya legoa, a perdemos de vista. Nesta meya legoa vimos huma
Igreja, e he o lugar adonde _Jeremias_, vendo a Cidade, e chorando,
compoz as Lamentaçoens.
Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas de _Jerusalem_, e
nella esperámos huma caravana de trinta e trez camellos de mercadores
Mouros, por fazermos jornada em sua companhia. Nesta Cidade foy que a
_Virgem Senhora nossa_ achou menos ao seu Filho _Christo Jesus_ de tenra
idade, e tornando a _Jerusalem_ a procurallo, o encontrou no meyo dos
Doutores no Templo. Proseguimos a jornada por esta parte de _Judéa_, e
entrámos na Provincia de _Samaria_. Neste dia fizemos noite na Cidade de
_Sichar_, a que os Mouros chamaõ _Nablos_. Aqui está o poço, donde
_Christo Senhor nosso_ fallou à _Samaritana_; naõ o vi, porque entrámos
já de noite; porèm meu companheiro o vio, que ficou a traz com parte da
companhia, e disse que naõ tinha agua. Estivemos naquella noite dentro
da Cidade, e dormimos na rua, porque nos naõ déraõ pousada; e no dia
seguinte, pela tarde, continuámos a jornada.
Nesta Cidade de _Sichar_ prégou _Christo Senhor nosso_ dous dias,
convertendo os seus moradores. He muito fermosa, e fresca, e tem boas
casas, e muitas Torres. He habitada de dous mil visinhos. Está entre
dous montes, e o principal he o _Garisim_. Tem hum valle, dos fermosos
que se podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e frutas.
Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes, passando por este
valle, entendi que as naõ haveria no tempo da Samaritana; porque
havendo-as, naõ buscaria taõ longe a agua. Aqui habitou _Jacob_ com seus
filhos, e gados, e deu a _Joseph_ por melhor huma herdade, como diz a
_Santa Escritura_. Na Cidade nos mostraraõ a sua casa. Toda esta Comarca
de _Sichar_ he fertilissima de paõ, gados, e de tudo o necessario para a
vida humana. Ao outro dia chegámos à Cidade de _Sebaste_, Cabeça do
Reyno, e Provincia de _Samaria_; nome que teve em outro tempo; agora
está destruida, ainda que alguns edificios bem mostraõ a sua antiga
grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas partes della
estaõ cahidas; porèm o que está em pé, he taõ bem lavrado, como a mais
perfeita obra Romana. No Altar desta Igreja, dizem, foy degollado o
grande _Saõ Joaõ Bautista_ por mandado delRey Herodes. He digno de
consideraçaõ particular, o ver esta Cidade em que residiraõ tantos Reys,
destruida; pois apenas terá cincoenta casas; o que tambem se vê em toda
a Palestina, pois vimos Cidades, pelos caminhos que andámos, que
antigamente foraõ populosas, e insignes; e hoje só se vem pedras, e
algumas paredes. Bem se colhe ser vontade de Deos; e que estaõ
destruidas por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui nos
disseraõ, que a companhia dos camellos, que vinha comnosco, ficando
muito a traz, a roubáraõ os Arabes. Naõ sey que assim fosse, o que posso
dizer he, que já mais a vimos; e démos graças a Deos por nos livrar.
Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de _Samaria_, entrámos
na de _Galilea_. Da Santidade della basta dizer, que Christo Senhor
nosso a passeou muitas vezes, e nella obrou as maravilhas, que referem
os Chronistas Sagradas. Cinco legoas dentro nesta Provincia está h[~u]a
Igreja cahida entre h[~u]as casas, de que se fórma huma pequena Aldea,
chamada _Janim_, em o lugar adonde Christo Senhor nosso sarou aos dez
Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro celebrados montes. O
_Carmelo_, [~q] está ao Poente do nosso caminho, junto ao Mediterraneo.
O _Hermon_, [~q] está à parte de Levante, e junto a elle a Cidade de
Naim, adonde _Christo Senhor nosso_ resuscitou o filho da Viuva; agora
he pequena Villa. O monte, a que está contigua a _Santa Cidade de
Nazareth_, adonde encarnou o _Filho de Deos_. Naõ subimos a este lugar,
bem que estava perto, por[~q] o naõ permittiraõ os nossos Mouros; e
sómente vimos branquear as ruinas dos edificios. A ditosa casa, em que a
_Virgem Senhora nossa_ concebeo ao _Filho de Deos_, que estava nesta
Cidade, a trouxeraõ os Anjos, haverá duzentos annos, para Italia, e a
collocáraõ em _Loreto_, tendo primeiramente sido levada a duas partes.
Obra Deos nella infinitos milagres, de que estaõ cheyos os livros, e na
Igreja em que está, já naõ ha parte adonde se ponhaõ tantas memorias.
Tem muita riqueza de pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que
fizeraõ Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &c. no que lhe naõ excede
alguma Igreja do mundo. Cercaraõ os Pontifices esta camara Angelical com
huma fermosa Igreja, e está no meyo della. As paredes de fóra estaõ
cubertas de marmore lavrado de lindas figuras, em que se vê a vida da
_Santissima Virgem, Mãy de Deos, e Senhora nossa_. Por dentro estaõ
descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda que antigos,
que todas as pedras preciosas do Mundo, pois cremos, que foraõ tocadas
milhares de vezes por _Christo Senhor nosso_, e sua _Santissima Mãy_ Tem
no meyo hum Altar donde dizemos Missa, que divide a huma parte a
chaminé, adonde a _Virgem Senhora nossa_ guizava a sua ordinaria comida.
Está esta ditosa chaminé cuberta de prata, e outras riquezas.
Junto a esta Santa Igreja está hum sumptuoso Collegio da Companhia de
Jesus, em que assistem Religiosos de muitas naçoens. Esta Santa Casa he
frequentada de muita gente, que a visita, de toda a Christandade.
Desta Santa Cidade de _Nazareth_ sahio a Virgem _Senhora nossa_ pejada,
acompanhada do seu _Esposo Santissimo Saõ Joseph_, a escreverse na
Cidade de Bethleem, pelo edito, e mandato geral do Emperador _Cesar
Augusto_, por ser esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de
_David_; e alli pario a seu _Unigenito Filho_, e do _Eterno Pay_. De
Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco mais, ou menos.
O outro monte he o _Thabor_. Ao pé delle chegámos, e vimos dous
edificios cahidos; hum no principio, outro no alto do monte, adonde
_Christo Senhor nosso_ esteve com os seus Discipulos _Saõ Pedro_, _Saõ
Joaõ_, e _Santiago_, e se transfigurou ante elles, e de _Moysés_, e
_Elias_. Nelle ouvio a voz do _Eterno Pay_, dizendo: _Hic est Filius
meus dilectus, &c._ Demais da Santidade deste monte, que he o principal,
por nelle se mostrar _Christo Senhor nosso_ glorioso, e resplandescente
com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso, e bem
proporcionado na sua postura, alto redondo, e apartado dos outros; de
modo, que parece, foy posto à maõ naquelles Valles.
Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao Norte, e chegámos ao mar
de _Galilea_, que se chamou _Tiberiades_. Ainda que se chama _Mar_, naõ
o he; porque a agua he doce, e está apartado do Mediterraneo mais de
doze legoas. Neste _mar_, ou _lago_, fez Deos milhares de maravilhas.
Aqui estavaõ pescando _Saõ Pedro_, e _santo André_, e em outro barco
_Saõ Joaõ_, e _Santiago_, quando os chamou _Christo Senhor nosso_ para
que o seguissem, e que os faria pescadores de homens; e deixando as suas
redes, o seguiraõ. Ha na ribeira deste lago muitas Povoaçoens, que em
outro tempo foraõ Cidades principaes. Entre ellas he celebre
_Capharnaum_, _Corozaim_, e _Bethsaida_. Ao presente sómente se vem as
suas ruinas. Junto a este lago fez _Christo Senhor nosso_ o milagre de
dar de comer às turbas, que o seguiaõ, com cinco paens, e dous peixes.
Muitas vezes andou, e navegou sobre as suas aguas este mesmo Senhor.
Aqui se manifestou aos Discipulos, depois de resuscitado. Terá este
cinco legoas, pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais de
duas. A agua he do _Rio Jordaõ_, que nelle entra, e sahe correndo, mais
de quarenta legoas atè o _Mar morto_, em que se recolhe, e naõ torna a
sahir. Na sua ribeira ha muitas fontes. Pousàmos esta noite, e tarde,
que chegàmos, junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos
Apostolos _Saõ Pedro_, _Santo Andrè_, seu irmaõ, e _Saõ Filippe_.
Alegria grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois _Christo Senhor
nosso_ aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa de cem visinhos. A
Comarca he das fermosas, que tem o Mundo, muito fertil de gados, frutas,
e palmas. Comemos peixe deste lago, que nos soube muito bem, por ser
donde _Christo nosso Redemptor_ o comeo algumas vezes, e por ser
bonissimo, e pela devoçaõ com que o comiamos, e pela fome, que tinhamos.
No outro dia madrugàmos muito, e caminhàmos por asperas montanhas, e
chegàmos antes do meyo dia ao celebre _Rio Jordaõ_, que ainda que nesta
parte naõ foy o _Bautismo de Christo Senhor nosso_, com tudo por nelle
se celebrar, nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento.
Apeàmonos todos contra a vontade dos Mouros, e com grande ancia chegàmos
à agua, bebendo toda a que podémos, lavando nella cabeça, rosto, e mãos;
e nos parecia, que tinhamos desejo de nos converter em peixes, para naõ
sahirmos de aguas taõ santificadas. Nesta parte he o rio apertado, e se
pòde vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito doce. Passàmos por
huma ponte de pedra bem lavrada, e à maõ esquerda vimos huma lagoa, que
se chama _Aguas Meronas_, que saõ do mesmo rio.
Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do _Monte Libano_, huma
chamada _Jor_, outra _Daõ_, e dellas toma o nome de _Jordaõ_. Estas
fontes deixamos à maõ esquerda, quando vamos de _Damasco_ a _Tyro_, e
_Sydonia_.
Passado o rio Jordaõ, entràmos na _Syria_, que commummente se chama
_Suria_, e em trez dias chegàmos a _Damasco_. Naõ vimos cousa notavel
neste caminho, sómente encontràmos muitos Senhores, e Cavalheiros
Turcos, acompanhados de muita gente de pè, e cavallo, e muitos camellos
carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia, que faziaõ
jornada para o _Cayro_. Neste mesmo caminho me lembra sempre, quando hum
Turco me deu com hum pao, sómente por passatempo, e foy rindo com os
seus companheiros. Antes de chegarmos à Cidade quatro legoas, a vimos;
porque se descobre assentada ao pè do _Monte Libano_. He muito fermosa
pelas muitas Torres, que tem; e pela abundantissima veiga. Legoa e meya
antes que nella entrassemos, passàmos muitas hortas, assudes, fontes, e
sitios frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que entràmos,
vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos, com provimentos
necessarios. Entràmos, e andàmos grande parte della primeiro que
chegassemos à pousada, que foy na _Alfandega_, sempre a pè porque naõ
consentem os Turcos, que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas
jornadas sómente nos permittem jumentos.
Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma fonte. He a mais
abundante do necessario para a vida, assim de comestivel, como de sedas,
brocados, panos, tèlas, &c. que naõ creyo haja outra no Mundo. He a sua
Povoaçaõ, pouco menos, que a de _Sevilha_. Por fóra naõ parecem as casas
bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas. Ha nella,
como diziaõ, quatro centas mil Mesquitas, bem edificadas, e todas tem à
porta fonte, para se lavarem, os que entraõ a fazer sua oraçaõ. Por fóra
vimos muitas, porque dentro naõ podemos entrar na fórma que està dito.
Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os Peregrinos
enfermàraõ, porque dormiamos no chaõ, e em mao aposento; porèm Deos me
reservou pela sua misericordia, com saude, para tratar delles. Havia
naquelle tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado _Bernardo_,
Consul dos Italianos, que nos deu nestes dias de comer regaladamente,
com que reparàmos o damno, que experimentàvamos de naõ ter comido de
_Jerusalém_ atè àquella Cidade mais que paõ, uvas, e agua; porque ainda
que naõ falta de comer, como naõ ha estalagens para os Christãos,
passàmos mal, pois pousàmos nos curraes, e estrevarias em companhia de
camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro, e hum Religioso de _Saõ
Francisco_, que o _Baxà_ ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por
ayo de seus filhos, de quem sómente os fiava, e naõ de Turcos, ou
Mouros, andàmos muitas vezes a mayor parte da Cidade passeando-a, para a
vermos, e para comprar algumas cousas para a nossa jornada.
Celebravaõ os Turcos, e Mouros nestes dias que alli estivemos a sua
_Paschoa_, que durou trez dias, em que todos andavaõ muito alegres. Em
hum destes hia eu por huma rua, em que havia muita gente, vi, que hum
Turco andava a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande
destreza para os que estavaõ naõ ficarem atropellados. Levava hum
alfange nù, e estava bastantemente borracho, pelo que abrio a cabeça a
hum Mouro com huma só cutilada. Eu me escondi entre os Mouros, e passou
como rayo. Delle escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de
dar outra tal, vendo hum Christaõ. Este foy o encontro, que tive de
receyo; pois sempre andámos pela Cidade, vendo suas festas, sem que nos
offendessem. Naõ deve esta Cidade nada às melhores do Mundo. He habitada
de Turcos, Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas naçoens de
Christãos, que saõ o mais viandantes. Em todos os officios tem bons
officiaes; e muito particularmente os que tecem sedas; o que vimos na
casa de hum Turco, em que se tecia o melhor brocado, que vi na minha
vida. Bem merece esta Cidade o ser Cabeça da _Syria_. O que nella ha que
ver de devoçaõ, he a casa de _Ananias_, Discipulo de _Christo nosso
Redemptor_, em que lhe fallou, e mandou, que fosse buscar a _Saõ Paulo_
já convertido, que estava orando, e o foy a bautizar, e confortar.
Mostráraõ-nos o muro, por donde a este _Santo Apostolo_ o lançáraõ os
Christãos em huma alcofa, e assim escapou delRey _Aveta_, que o queria
matar. Mostráraõ-nos tambem em huma praça huma pedra cercada com humas
grades, e della dizem, subio a cavallo Saõ Jorge, quando foy a matar a
Serpente. Sómente escrevo o que vi, e o que nos disseraõ.
Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza, e o Consul Veneziano, que
nos regalou neste tempo, ajustou com huns Mouros honrados, e fieis para
nos levarem à Cidade de _Tripoli_, donde nos haviamos de embarcar, que
tambem está na _Syria_. Alcançámos ainda em _Damasco_ a Festa de _Todos
os Santos_, e o dia dos Fieis Defuntos, e dissemos Missa no aposento do
Consul encerrados, e era quanto celebravamos, esperavaõ de fóra
_Mouros_, _Turcos_, _e Judeos_, que vinhaõ a negociar, para nos naõ
perturbar.
Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho mais direito para
_Tripoli_; e nos disséraõ, que pelo _Monte Libano_, por onde viera hum
Cavalheiro Veneziano, naõ fossemos; porque nelle havia muitos ladroens
Arabes, e o monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como
vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de _Damasco_. Vimos _Tyro_,
e _Sydonia_; passámos por _Baruth_, e por suas hortas fresquissimas. Por
este caminho seraõ como quarenta e cinco legoas de _Damasco_ a
_Tripoli_.
He esta ribeira da _Syria_, de excellente terra, grandes montes, muitas,
e boas herdades, e algumas de Christãos Maronitas, que vivem no _Monte
Libano_, junto a _Tripoli_. Ha por estes montes perdizes, e outras caças
de Europa; e muitos rios, e passagens por regates, que baixaõ do
_Libano_ ao Mediterraneo.
Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho estreito aberto nas
penhas, e chegámos a hum rio, que passámos por huma fermosa ponte do
tempo dos Romanos. Alli se lê em duas pedras hum letreiro Latino, e
outro Arabigo, em que se faz memoria dos Emperadores _Marco Antonio_, e
_Marco Aurelio_. Chama-se o rio _Caõ_, por certa fabula dos Gentios, que
dizem, que este Caõ, que era de pedra, dizia aos desta terra, quando
havia de haver guerra, ou alguma fatalidade, e depois o lançáraõ no rio,
que tomou o seu nome. Eu o vendo pelo preço, que o comprey. Cada hum
crea o que lhe parecer.
He este _Monte Libano_ muito grande, e atravessa muita terra de Damasco
atè o mar. Tem muitos braços, e o principal vay direito a Tripoli, e
passando duas legoas a diante da Cidade, se vê bem a parte mais alta,
que toda estava cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para o
_Templo de Salamaõ_. Ha nelle boas vinhas, e o vinho dellas he
excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas vezes, que a Santa
Escritura faz delle memoria. No dia, que chegámos a _Tripoli_ choveo
muito, pelo que naõ sahio huma grande embarcaçaõ, e tinhamos grande
desejo de a alcançarmos. Deos nosso Senhor parece que a guardou por sua
infinita bondade para virmos nella; porque ainda que havia outras naos
para _Constantinopla_, e para outras partes de _Italia_, e _França_,
esta vinha em direitura a _Veneza_.
He a Cidade de _Tripoli_ na _Syria_ muito boa, e de fortes casas. A sua
Povoaçaõ está em trez montesinhos, junto ao mar; ainda que o porto está
desviado meya legoa. He fresquissima, abundante de aguas, e hortas,
laranjas, limoens, palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil. He
escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante, e India
Oriental. Na nossa nao vieraõ para hirem para Veneza nove Mercadores
Italianos, que vinhaõ da India, a que ha mais de duas mil legoas por
terra, passando quarenta dias por desertos, como nos affirmáraõ, e por
caminhos de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma: pelo que
trazem o que haõ de comer, e beber em camellos, que commummente costumaõ
trazer mil em companhia.
Recolhemonos em _Tripoli_ em h[~u]a casa de Religiosos, e Peregrinos,
que he como hum Convento, em que estaõ ordinariamente trez Religiosos de
_Saõ Francisco_, mandados pelo Padre Guardiaõ de Jerusalem, que saõ como
Curas dos Mercadores Italianos, que alli estaõ.
He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos. O Padre Guardiaõ
nos acompanhou a todos, Religiosos, e Peregrinos atè a embarcaçaõ: e
excepto os Religiosos, nos embarcàmos sete Peregrinos.
_Da nossa viagem de Tripoli atè Veneza._
Sahidos do porto de _Tripoli_, navegámos, e pouco a pouco chegámos à
Ilha de _Chypre_, passando à vista de _Famagusta_, Cabeça deste Reyno; e
démos vista de _Candia_, costeando pela Turquia, até chegar à _Morea_, à
vista de _Modon_. Daqui caminhámos a _Zante_, em que estivemos dez dias,
e logo a _Corfu_, adonde estivemos e celebrámos a Festa do _Nascimento
de Christo Senhor nosso_. He esta Ilha de _Corfu_, huma das mayores
forças, que os Venezianos tem na _Grecia_; e como tal, he de muita
consideraçaõ, por ser como chave de Italia.
Passámos a costa de _Esclavonia_, _Albania_ e _Dalmacia_, e chegàmos à
agradavel Ilha, e Cidade de _Lesna_, e nos hospedáraõ os Religiosos de
_Saõ Francisco_ no seu Convento por espaço dos cinco dias em que houve
no mar grande tormenta. Fallaõ aqui os naturaes a lingua _Esclavonica_,
ainda que entendem a _Italiana_. A Cidade he pequena; tem boas, e fortes
casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de _Istria_ à Cidade, e
Bispado de _Parenço_, e sahindo da nao em hum barco, passámos a
_Veneza_, a que ha quarenta legoas, adonde chegámos com saude, e
alegria, e a Deos démos as graças por nos levar, e trazer de taõ Santa
viagem, e jornada taõ perigosa por mar, e terra. Gastámos de _Tripoli_ a
_Veneza_ a sessenta e seis dias. Entrámos na Cidade em 19. de Janeiro do
anno 1589. e desde que della sahimos, atè que tornàmos, passáraõ cinco
mezes, e cinco dias.
_Da jornada, que fizemos de Veneza atè Sevilha._
Detivemonos mez e meyo em Veneza, por repararmos a saude, e socegarmos
do trabalho do caminho, recolher, e emendar os meus livros, que achey
estampados. Hospedou-nos hum Cantor da _Senhoria_, chamado _Antonio de
Ribera_, que me regalou de modo, que meus pays se foraõ vivos, e alli se
acháraõ, o naõ fariaõ melhor, nem com mais amor, o que foy causa, de que
nos restituissemos ao que eramos, pois vinhamos muito maltratados.
Sahidos de Veneza, viemos a _Ferrara_, _Bolonha_, _Florença_, _e Pisa_,
Cidades principaes de _Italia_. Chegámos a _Leorne_, porto de _Toscana_,
procurando as Galés do _Graõ Duque de Florença_, que partiaõ para
Marselha, a buscar a _Graõ Duqueza_ sua esposa, filha do _Duque de
Lorena_. Estava o _Graõ Duque_ em _Leorne_, e me fez a merce de me
admittir a beijarlhe a maõ. Mandoume aposentar, e dar o necessario com
toda a grandeza; e me prometteo de me accómodar nas Galés do _Papa_, que
estava esperando por instantes para hirem em companhia das suas, que jà
tinhaõ partido com as de _Genova_, e _Malta_, que por todas eraõ
dezaseis, adornadas, e armadas com toda a magnificiencia, como para a
occasiaõ de bodas de taõ grande Principe.
Chegàraõ as Galés do _Papa_, e o Capitaõ General a rogo do _Graõ Duque_,
me recebeo, e me regalou na sua Capitania, trazendo-me na camera de
popa, e dandome a sua mesa, e tambem tratado cheguey a _Marselha_, que
naõ estranhey o mar, pois nelle tive todos os regalos da terra.
Na Semana Santa entrey em _Marselha_, e nella tive a _Paschoa_; e como
as Galés ficáraõ esperando a _Duqueza_, fretámos hum Bergantim para
virmos a _Barcelona_, em que embarcámos dous Genovezes, (hum se chamava
_Joaõ Ansaldo_) dous Italianos, e dous Hespanhoes.
Sahimos do porto com hum pouco de mao tempo, e com o desejo de tornar
para _Marselha_, tanto que nos fizemos ao largo; e tendo caminhado como
cinco legoas; entrámos no abrigo de huma calheta, por naõ podermos
passar a diante. Apenas puzemos os pés em terra, quando vimos junto a
nòs hum Bergantim, que entendemos, vinha, como o nosso, a esperar, que o
tempo melhorasse. Vinha elle cheyo de arcabuzeiros ladroens, e muitos
Lutheranos; e descubrindo-se com os arcabuzes à cara, lhes dissémos,
_que se detivessem, que nos dávamos por rendidos_, porque se nos
puzessemos em resistencia, nos perdiamos, pois em o nosso Bergantim
sómente havia espadas, e dous arcabuzes mal preparados; e ainda que
fossem mais, eraõ poucos; e assim melhor era salvar as vidas. Estes
soldados (ou ladroens, por melhor dizer) entraraõ no nosso Bergantim,
tomáraõ-nos as chaves dos nossos alforges, e maletas, e tudo revolveraõ,
naõ deixando cousa em seu lugar. Estavamos nòs em terra, vendo o que
passava, e esperando o fim destes ladroens, com taõ pouca esperança de
vida, olhando huns para os outros sem dizer palavra. Era já quasi noite,
quando nos mandáraõ entrar em o seu Bergantim, e tomáraõ posse da nossa
roupa, e armas; e nos fizeraõ tornar a traz a huma Fortaleza em que
viviaõ, e donde sahiaõ a fazer estes roubos. Antes que a ella nos
levassem, nos puzeraõ em huma camara cheya de palha, e junto a ella
muita lenha, e todos estiveraõ de fóra fallando na sua lingoa: e nòs
encomendando-nos a Deos, com o temor de que aquelles Hereges nos
queimassem; porèm _Deos nosso Senhor_ nos tirou deste temor, e perigo.
Levaraõ-nos dahi a pouco à Fortaleza, deraõ-nos de cear, e as suas
pobres camas; e começámos a perder o medo. Démos à mulher do Capitaõ
alguns escudos de ouro, e ella nos assegurou, que naõ haveria perigo em
nossas vidas. Trez dias estivemos desta maneira, sem nos deixarem sahir,
nem aos nossos marinheiros, que tambem estavaõ prezos comnosco; e
começámos a tratar da nossa liberdade, sendo medianeiro hum _Francez_
que hia, e vinha. Pedio o Capitaõ por cada hum de nòs cem escudos, e que
nos daria a roupa; ao que respondemos, que os naõ tinhamos, que fizesse
o que quizesse.