Sahimos do Lugar de _Bethfage_, e subimos ao alto do _Monte Olivete_,

levando o rosto para o Septentriaõ, e declinado ao Poente, passando pela

Igreja da _Ascensaõ_, baixámos ao Lugar, adonde vendo _Christo Senhor

nosso_ a Cidade de _Jerusalem_, chorou sobre ella, dizendo: _Si

cognovisses, & tu, &c._ e descendo ao Valle de _Josaphath_, subio à

Cidade, e _Templo_, entrando pela _Porta Aurea_, que agora está no muro

cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento com ramos de

palmas, e os meninos cantando: _Hosanna in excelsis_.

Todos os annos faziaõ os Religiosos Latinos esta representaçaõ, em que o

_Guardiaõ_, que representava a _Christo Senhor nosso_, e doze Religiosos

os _Apostolos_, sahiaõ paramentados de _Bethfage_, e mandava o

_Guardiaõ_ a dous Religiosos, que fossem pela asna, e jumentinho; e

trazendo-a, subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste,

e chorando pela muita devoçaõ varios Hymnos, e versos a este proposito,

ordenavaõ na Dominga de Ramos esta triunfal, e solemne Procissaõ, e o

sahiaõ a receber da Cidade muitas naçoens Christãas, e muito Infieis, e

lançavaõ ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros; e

Turcos estavaõ como pasmados vendo esta Procissaõ, sem perturbarem aos

Christãos, o que parecia milagre, e o era certamente, por naõ terem

mãos, nem linguas para os impedir, por _Deos nosso Senhor_ o naõ

permittir; e subindo ao _Santo Cenaculo_, que era entaõ Convento seu,

proseguiaõ o Officio daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa

Cidade naõ se fazia esta Procissaõ, porque o Turco mandou, que se não

fizesse.

_Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos atè lá chegar._

Já he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo caminho, que ha da

_Santa Cidade de Jerusalem_ à de Bethleem, que saõ duas leguas para a

parte do Meyo dia. Sahimos da _Santa Cidade_ ao nascer do Sol, pela

porta de Jaffa, e passando pela _Fonte de Salamaõ_, e _casa de Bersabè_

sua mãy, subimos huma pequena, e suave costa, e démos em hum caminho,

todo plano, ainda que nelle ha muitas pedras. He este caminho muito

aprazivel, porque o espaço de huma legoa delle tudo saõ herdades,

vinhas, oliveiras, frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma

deliciosa vista, e muitas dellas foraõ casas de Profétas, e algumas já

foraõ Igrejas. Vimos em hum campo grande quantidade de pedras taõ

pequenas como graõs, e do seu feitio; e se conta, que a _Virgem Senhora

nossa_ vendo semear grãos a hum Lavrador, lhe pedio, lhe désse delles; e

que elle zombando respondera, que naõ eraõ grãos; que eraõ pedras, e

assim saõ atè hoje. Eu os vi, e trouxe alguns. Vimos tambem neste

caminho huma grande arvore, que me pareceo _Aroeira_, e lhe chamaõ

_Terebintho_. Tomámos ramos com devoçaõ, porque à sua sombra dizem que

descançára a _Virgem Senhora nossa_. Vimos tambem o _sepulchro de

Rachel_, que os Mouros, e Turcos guardaõ, e usaõ delle Mesquita. He

fermoso edificio, situado em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com

hum capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de muita, e boa

agua, em que os _Santos trez Reys_ tiveraõ grande alegria, por lhes

apparecer a _Estrella_, que se escondera, antes que entrassem em

_Jerusalem_, e dalli os guiou atè o Lugar aonde estava o _Menino Deos_

no portal de _Bethleem_. Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a

casa adonde esteve _Elias_. Ha por esta parte muitas antigalhas dignas

de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz, e desejada Igreja, e

Cidade de _Bethleem_.

Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos acompanharaõ, nos

puzemos de joelhos, cantando Hymnos, e oraçoens, dando muitas graças a

Deos pelo Mysterio do seu Nascimento, e por permittir que, que

visitassemos aquella _Santa Cidade_; e assim continuámos, até chegarmos

a ella, e à porta da Igreja, que está fóra da dita _Cidade_, que agora

terá pouco mais de sessenta visinhos. Entrámos pela porta principal da

Igreja, que está defronte da Capella mayor, ficando à maõ esquerda a

entrada do Convento. Sahiraõ-nos a receber os Religiosos de Saõ

Francisco, que alli assistem, e commummente saõ nove, ou dez; e fizemos

oraçaõ na Igreja, que he da Invocaçaõ de _Santa Catharina_. Esta Igreja,

Convento, e Igreja grande do _Santissimo Nascimento_, fazem hum corpo, e

na de _Santa Catharina_ dissemos Missa no dia que chegámos.

Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com tochas accezas,

baixámos por huma escada, que está na parede, e lado da Epistola, e tem

vinte degraos, a humas covas, em que estaõ fabricadas na penha viva

estas Capellas. Hum Altar, no Lugar, em que foraõ mortos muitos dos

meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado o _sepulchro

de Santo Eusebio_, discipulo de _Saõ Jeronymo_; mais dentro dous passos

em huma Capella o _sepulchro de Santa Paula_, e de sua filha

_Eustochio_; e de fronte na mesma Capella o _sepulchro de Saõ Jeronymo_;

mais dentro huma Capella, adonde _Saõ Jeronymo_ viveo muito tempo, e

traduzio a _Sagrada Biblia_. Todos os dias se visitaõ estes Santos

Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas, Versos, e Oraçoens

em cada huma destas Estaçoens, e se ganhaõ muitas Indulgencias. Daqui

sahimos, e entrámos por hum passadiço apertado, e estreito, para hirmos

à Capella do _Santissimo Nascimento_, e nos pareceo, quando entrámos,

que entravamos no Paraiso.

Esta Santissima Capella em que a _Virgem Mãy de Deos, e Senhora nossa_

pario ao _Filho de Deos_, está fabricada, como as outras, na penha viva.

Terá como doze palmos de comprimento, de largura quatro, e dous estados

em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo Moysaico. Ha

nella hum Altar de huma só pedra, vaõ por baixo, que he o proprio Lugar,

em que nasceo _Jesu Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos

verdadeiro_. Está este Lugar sinalado com huma pedra branca, que no meyo

tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar dissémos Missa do

Nascimento dous dias. Dous passos adiante está o Lugar, como huma

piasinha de marmore quadrada, mais baixo que o pavimento, em o qual foy

o Menino Deos reclinado no Presepio. Aqui está descuberto hum pedaço de

penhasco, taõ ditoso, que gozou (se se pòde dizer) do resplandor, e

gloria de Deos humanado: e na verdade, que este penhasco nos alegrou

mais que todos os mais jaspes, e Moysaicos; porque estes nos alegraraõ a

vista corporea, aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem

discretos foraõ os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar à

vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.

Entre o Lugar do _Santissimo Nascimento_, e _Santissimo Presepio_, está

hum Altar de marmore, que sinala o Lugar, em que os Reys offereceraõ os

seus dons. Eu como musico tive mil desejos, e ancias, de ter alli os

melhores musicos do Mundo, assim de vozes, como de todos os

instrumentos, para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao

_Menino Jesus_, a sua _Mãy Santissima_, e ao glorioso _Saõ Joseph_, em

companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que se acharaõ naquelle

diversorio; que ainda que parecia pobre, excedia a todas as riquezas,

que imaginar se podem.

Nos lados do Altar do _Santissimo Nascimento_ ha duas escadas, porque

subimos à _Capella mòr da Igreja_ principal, porque o Lugar do

Nascimento Santissimo, e os demais que referi, estaõ debaixo desta

Igreja. Esta he fermosissima, ainda que em parte está despida da sua

fermosura, porque todas as paredes, e pavimento, estiveraõ cubertas com

taboas de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte tiraraõ

para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves, a do meyo muito alta,

e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes columnas de marmore, inteiras,

e bem lavradas, e saõ quarenta e oito. Sobre estas columnas estaõ

assentadas vigas de cedro, que atravessaõ de huma a outra, muito

curiosas pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra, e sobre

elles em hum lado está lavrada de riquissimo Moysaico a geraçaõ de

_Christo Senhor nosso_, como a escreveo _Saõ Mattheus_, e do outro lado,

como a escreveo Saõ Lucas; tudo de figuras de meyo corpo, com seus

nomes.

Junto à Capella mayor està hum Altar, adonde o _Menino Deos_ foy

circumcidado. Nesta fermosa Igreja se diz Missa algumas vezes, e naõ

sempre; porque os Turcos quasi todo o dia estaõ nella, e como saõ muito

porcos, está pouco aceada. O Padre Guardiaõ nos levou aos terrados da

Casa, e Igreja; e de lá vimos o lugar, e prados, em que os _Santos

Pastores_ estavaõ, quando o Anjo lhes disse, que _Christo nosso

Salvador_ era nascido, cantando: _Gloria in excelsis Deo_. Está de

_Bethleem_ como a terceira parte de huma legoa. Vimos tambem o Lugar, em

que estavaõ as vinhas do _Balsamo_, no tempo de _Salamaõ_, que se chama

_Engadi_. Está pouco mais de huma legoa de _Bethleem_.

Desta _Santa Casa_ sahimos como cem passos, e entrámos em huma cova (de

que os Mouros tem a chave) adonde estiveraõ escondidos a _Virgem Senhora

nossa, o Menino Deos_, e _Saõ Joseph_, quando o _Anjo_ lhes disse, que

fugissem para o _Egypto_, por Herodes procurar o _Menino_ para o matar.

Nesta cova dizem, que dando a _Virgem Senhora nossa_ de mamar ao seu

_bemditissimo Filho_, lhe cahira do seu purissimo _Leite_ na terra; pelo

que todos levaõ desta terra por devoçaõ, para dar às mulheres, que tem

falta de leite, e lançada em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue,

confórme a fé da que o usa.

Aqui nos hospedaõ os Religiosos, dando-nos de comer, e camas a todos os

Peregrinos com muito amor, e caridade, sem que seja necessaria

recompensaçaõ; ainda que todos, conforme a sua possibilidade, contribuem

com o que podem, por agradecimento, o que naõ espera a sua grande

caridade, com que trataõ a todos sem differença. A mayor parte dos

edificios desta Casa edificou _Santa Paula_ em tempo de _Saõ Jeronymo_.

Aqui habitaraõ atè morrerem. O que está aruinado se pòde reparar, porèm

naõ o permittem os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos. Tem

dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras arvores, frutas, e

hortaliças; bons passeyos, boas vistas, e em tudo o que se descobre

houve antigamente cousas notaveis. Tem hum dormitorio para os

Peregrinos, à maneira de huma nave, em que se podem hospedar atè

duzentos. Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como quem

deixava lá a alma, e naõ acertavamos a nos retirar: e tornámos para a

_Santa Cidade de Jerusalem_ pelo mesmo caminho, chorando, sem tirarmos

os olhos, em quanto o alcançamos com a vista, de Lugar taõ Santissimo.

_Da Igreja do Monte Calvario, e Santo Sepulchro._

Vistos os Santuarios da _Santa Cidade de Bethleem_, pedimos ao Senhor

Guardiaõ nos procurasse a entrada no _Sagrado Monte Calvario, e Santo

Sepulchro_; e ajustado o dia, e hora com o _Subasi_, Governador da

_Santa Cidade de Jerusalem_, que tem as chaves desta _Santa Igreja_, que

sempre está fechada, e sómente se abre quando elle quer, ou quando o

Padre Guardiaõ o avisa de que haõ de entrar Religiosos, ou Peregrinos,

ou alguma das naçoens Christãas; e chegado o dia, que foy quinta feira

de tarde, veyo _Subasi_ com o Escrivaõ, e Porteiro, e se sentou à porta

desta _Santa Igreja_ sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e

coxins de veludo; e o Padre Guardiaõ com outros Religiosos, e hum

Christão da terra, que se chama _Ánà_, muito bom homem, e fiel

interprete do Convento, que falla bem Italiano, e Arabigo, que he a

lingua commua da terra em toda a Palestina, e Syria. Chegámos sete

Peregrinos, que eramos, que o Padre Guardiaõ appresentou ao Subasi, e

perguntando-me o nosso interprete, pois era o primeiro, o como me

chamava? Respondi, que _Alberto_; porque parecesse nome Tudesco, e naõ

_Hespanhol_, por ser de perigo, que elles saibaõ, que somos Hespanhoes,

porque entendem, que vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando

Italiano, os assegurámos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome,

que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove _zequies_ de ouro,

que vale cada hum sete centos e cincoenta, e o mesmo deu meu

companheiro, e os mais. Os Religiosos Sacerdotes naõ pagaõ cousa alguma.

Paga se sómente este dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa

Igreja; e depois, quando se abre, basta que se dê ao Porteiro hum, ou

dous maydines.

Entrámos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista naõ pòde estar

ociosa, pelo muito que ha, que ver, e venerar. A primeira cousa he o

Lugar, aonde _nosso Redemptor_ foy ungido para o sepultarem; e à maõ

direita, na mesma nave, està o _Santissimo Calvario_, à maõ esquerda na

nave do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, está o _Sepulchro do

nosso Redemptor_; e no meyo da Igreja o Coro, que tem quatro Cadeiras

Patriarchaes, em que em outro tempo se sentàraõ juntos os quatro

Patriarchas da Christandade. Está hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o

seu Altar mayor com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor. As

naves saõ direitas, excepto que para a parte do Oriente, e Poente saõ

redondas, à maneira de Colisseo. A Igreja he de fermosa fabrica. O tecto

em partes he de Moysaico. As paredes em outro tempo estiveraõ cubertas

de marmores, agora está a pedra aberta. Naõ perde com tudo a fermosura

esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta falta.

As naçoens Christãas, que ha em _Jerusalem_ de diversos Reynos, e

Provincias, e Linguas, saõ estas.

_Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas. Abexins. Surianos.

Maronitas._

De cada huma destas naçoens ha dous, ou trez Religiosos, repartidos

pelas Capellas desta Santa Igreja, que dizem o Officio Divino cada hum a

seu modo, rito, e lingua, e tem cuidado das suas alampadas, que estejaõ

sempre accezas, e limpas. A habitaçaõ dos nossos Religiosos de Saõ

Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio, Dormitorio, e tudo

o que basta para poderem estar atè trinta pessoas.

Comem, e dormem estas naçoens dentro nesta Igreja, e os Peregrinos, que

estaõ dentro, dando-lhes de comer, e o que pedem por hum buraco, que a

casa tem como fresta, cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta

fallaõ, e se lhes ministra o necessario, e se vê hum pedaço da Igreja;

por ella fazem oraçaõ os que estaõ de fóra. Tal ordem tem dado o Turco,

para que estejaõ conformes, e como germanadas estas naçoens, humas com

outras, que se huma alampada se estiver apagando, e o visinho a quizesse

atiçar por devoçaõ, o condemnariaõ em muitos cruzados; e assim com este

rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete na obrigaçaõ, ou

devoçaõ do outro.

A todos saõ communs os _Santuarios_, para os poderem visitar em qualquer

hora, que quizerem, porque estaõ continuamente abertos; e como sempre

està fechada a porta da Igreja, tudo està bem guardado: pelo que he de

grande contentamento, e devoçaõ o poder entrar livremente, de dia, e de

noite, em que muitissimas alampadas a illuminaõ. Em todos os Santuarios

tem todas as naçoens suas alampadas, huns mais, outros menos, e cada

huma cuida das suas.

Começámos os Peregrinos, e Religiosos a nossa procissaõ nesta Santa

Igreja com vèlas accezas, cantando o Hymno, Antifona, e Verso daquelle

Santuario, que visitamos, e chegando o Religioso, que està paramentado,

nos diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que ganhámos.

A primeira Estaçaõ foy em huma Capella, que se chama o _Carcere de nosso

Salvador_, no qual esteve em tanto, que os Judeos esperavaõ, que a Cruz,

e o lugar em que se havia pôr, estivessem aparelhados. Mais adiante

visitámos huma Capella, na qual os Soldados, que prenderaõ a _Christo

Senhor nosso_, lançáraõ sortes sobre as suas vestiduras. Mais adiante

entràmos por huma porta, e baixando trinta degraos, chegámos à Capella

de S. Helena, mãy do Emperador Constantino, em [~q] se sentou a Santa

Emperatriz, em tanto, que se cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta

Cadeira da Santa ha muitas Indulgencias. Baixámos mais onze, ou doze

degraos, feitos na mesma penha do _Monte Calvario_, e he o Lugar adonde

a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo, cravos, e as cruzes dos

Ladroens. Chamaõ-se estas Capellas da Invençaõ da Cruz. Estaõ bem

fabricadas, e muito espaçosas, ainda que debaixo da terra, que

corresponde ao Calvario.

Sahimos desta Capella, e visitámos outra, donde està hum pedaço de huma

columna, em que Christo Senhor nosso esteve sentado, quando os Ministros

de Pilatos, depois de o açoutarem, o coroaraõ de espinhos. Daqui subimos

por dezanove degraos, e fomos ao _Santo Monte Calvario_, e nos pareceo,

que entràvamos no Paraiso. Estando no alto, vimos huma Capella, que saõ

duas estancias a modo de tribuna, que corresponde à primeira nave da

Igreja. A primeira he o Lugar Sacratissimo, em que o _Filho de Deos_ foy

levantado na Cruz; nelle está o buraco donde a Santa Cruz esteve fixada.

Tem hum bocal de prata, e o adorámos, e beijámos, como Santuario taõ

admiravel. Metemos dentro os nossos braços nùs, e assim digo, que terá

de fundo como trez palmos. Nos lados estaõ sinalados os Lugares das

cruzes dos Ladroens, que me parece, que tocavaõ huma, e outra cruz. Ha

entre a de _Christo Senhor nosso_, e a do mào Ladraõ, _huma abertura_ na

penha de sete palmos de comprido, e mais de hum de largo, que chega

abaixo ao Lugar da _Invençaõ da Santa Cruz_. Esta se abrio quando

_Christo Senhor nosso_ espirou. Na outra parte da Capella, a trez

passos, està o Lugar em que cravaraõ a _Christo Senhor nosso_, estando a

Cruz no chaõ, e dalli a levantaraõ, e puzeraõ no sitio referido. Donde

isto succedeo está huma memoria de jaspe, e marmore bem lavrados. Esta

Capella, que se chama da _Crucifixaõ_, toda está cuberta de marmore, e

jaspe finissimo com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico, de

que estaõ pendentes mais de cincoenta alampadas de todas as naçoens de

Christãos. Dissemos Missa na parte da _Crucifixaõ_, na sexta feira

seguinte ao dia, em que entràmos, e foy a da _Paixaõ secundùm Joannem_;

e este Altar se divide com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a

Santa Cruz. Naõ poderey explicar a grande afluencia de devoçaõ, que

todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando, que tudo, o

que o Santo Euangelho refere, se obrou neste Santissimo Lugar. A parte

donde _Christo Senhor nosso_ foy encravado, està entregue ao cuidado dos

Religiosos de Saõ Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos

Georgianos, que saõ extremosamente devotissimos, e sempre estaõ neste

Sagrado Lugar rezando, e cantando. Saõ virtuosissimos Varoens, e de

muita abstinencia, e pobreza. He taõ agradavel, e devota para a alma, e

corpo esta estancia do _Sagrado Monte_, que não se enfada, ou cança

alguem de estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem pareceraõ aqui

alguns Musicos cantando as lamentaçoens de Jeremias, vendo, e

considerando o _Calvario_, e _Santo Sepulchro_, porque ambos estes

Santuarios se podem ver juntamente!

Baixando deste Sagrado Lugar, chegàmos ao meyo da primeira nave, e

veneràmos huma pedra grande, pegada na terra, cercada de grades de ferro

de altura de palmo; e por cima estaõ pendentes oito, ou nove alampadas

de todas as naçoens Christãas. Neste Lugar foy ungido _Christo Senhor

nosso_ para o sepultarem, por seus devotos servos, _Nicodemus_, e

_Joseph ab Arimathea_, assistindo a _Virgem Senhora nossa_, e as mais

_Santas Mulheres_, e o amado Discipulo _Saõ Joaõ_. Este Santo, Lugar

està defronte da porta da Igreja, e se vê pela fresta, que nella ha; e

os que estaõ fóra, por ella fazem oraçaõ, e ganhaõ as Indulgencias.

Daqui ao _Santo Sepulchro_ haverà quarenta passos para a parte do

Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia possuem

os nossos Religiosos de Saõ Francisco, e sómente os Latinos dizemos

nelle Missa. A sua fórma he esta. Antes da entrada ha huma pequena

Capella quadrada, em que caberáõ dez, ou doze pessoas, e no meyo della

está huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso. Nesta pedra,

dizem, que o _Anjo_ estava sentado, quando fallou às _Marias_,

dizendo-lhes, que já _Christo Senhor nosso_ resuscitára. Por esta

Capella se entra a outra taõ pequena, que a porta terá quatro palmos de

alto, e trez de largo. Á maõ direita está o _Santo Sepulchro de nosso

Salvador_, donde esteve o seu _Santissimo Corpo_, e delle resuscitou. He

hum Altar como huma arca, cuberta com huma pedra marmore. Sobre este

preciosissimo _Sepulchro_ dissémos Missa; e naõ cabe neste lugar mais

que o Sacerdote, e o que o ajuda. O vaõ ninguem o vê, porèm o mais gozaõ

todos, tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem muitas

alampadas de todas as naçoens. Aqui disse Missa pela misericordia de

Deos, e foy a da Resurreiçaõ, e foy grande alegria para mim, quando

dizia no Santo Euangelho: _Surrexit, non est hîc, ecce locus ubi

posuerunt eum_; sinalando com o dedo o lugar adonde esteve o _nosso

Salvador_. Move certamente os nossos coraçoens esta verdadeira

representaçaõ.

Esta Capella do _Santo Sepulchro_, ainda que por dentro he quadrada, por

fóra he redonda, e tem as paredes cubertas de marmore. Em cima tem hum

capitel de columnas muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos

que o vem de fóra. Está no meyo de hum circuito de columnas, sem tocar

em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe corresponde, he huma meya

laranja de madeira de cedro muito antiga. No meyo tem huma grande

abertura, como coroa, por donde entra a luz aos que estaõ em baixo. No

alto de huma parte está o retrato da Emperatriz _Santa Helena_, e da

outra o do Emperador _Constantino_ seu filho, de rico Moysaico, muito

antigo, e outras figuras de Santos, que quasi naõ se parecem, por

estarem maltratadas da antiguidade, e do tempo.

Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, à maõ esquerda, estaõ

duas pedras redondas de marmore postas na terra, huma apartada da outra,

como trez passos. Em huma esteve _Christo Senhor nosso_ depois de

resuscitado, na outra a _Santa Magdalena_, quando lhe appareceo em

figura de Hortelaõ, e lhe disse: _Noli me tangere_. Daqui fomos à

Capella, e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que dizem,

appareceo _Christo Senhor nosso_ a sua _Santissima Mãy_. Na entrada

desta Capella, na parede, guardada com huma rede de ferro, de modo que o

podemos tocar com os dedos, está hum pedaço da columna, em que _Christo

Senhor nosso_ foy açoutado. Com esta Estaçaõ acabámos de visitar esta

Santissima Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos

encerrados, reiteramos estas Estaçoens muitas vezes em procissaõ, e sós.

He de grande contentamento ouvir pela meya noite a todas estas naçoens

dizerem Matinas, cada h[~u]a na sua lingua, e canto.

Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor, e no mais alto

della, que he parte do _Sagrado monte Calvario_, visitámos huma Capella,

adonde _Abraham_ offereceo o sacrificio; e outra, que está perto, adonde

_Melchisedech_ offereceo paõ, e vinho; das quaes tem cuidado os

Religiosos Abexins: e tornando para o nosso _Convento de Saõ Salvador_,

nelle estivemos alguns dias, esperando ao nosso _Trucimaõ Atala_ para

ajustarmos a nossa vinda. Nestes dias reiterámos as Estaçoens dos

Sagrados montes _Sion_, e _Olivete_; e chegando à Santa Cidade de

Jerusalem quatro Religiosos de Saõ Francisco, que vinhaõ do _Cayro_,

dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos se chamava

_Fr. Mattheus Salerno_, homem nobre do Reyno de Napoles, e muito

virtuoso, que vinha para Comissario de _Jerusalem_; e o principal dos

Hespanhoes, Fr. Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanhámos na

continuaçaõ destes exercicios, que nunca enfadaõ, mas antes nos daõ

recreaçaõ espiritual, por espaço de dez, ou doze dias. Trazia o Padre

Salerno muito dinheiro, e muitas joyas para o serviço do _Santo

Sepulchro_. Muitas toalhas, corporaes, e demais cousas para o Altar, e

celebraçaõ das Missas, que offereciaõ muitas Senhoras de Hespanha, e

Italia. Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro com huma

alampada, que offerecia o Grão Duque de Florença. Tudo me mostrou na

Sacristia por contentar o meu desejo, e querer fosse eu testemunha de

tudo.

Já tratavamos de voltar para Italia, e o nosso _Atala_ nos persuadia, a

que fossemos com elle a Jaffa; porèm o _Padre Salerno_ disse, que de

nenhum modo queria andar por mar a costa da Palestina, porque já entrava

o Inverno; pelo que resolveo hir por terra atè Tripoli, e eu em o

acompanhar: e tendo eu assistido hum mez na _Santa Cidade de Jerusalem_,

e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada; e agradecemos ao

Padre Guardiaõ a hospedagem, dando-lhe tambem cada hum a esmola, que

podia, e naõ a que desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho

da nossa entrada na _Santa Cidade_, escritas em pergaminho, com o sello

do _Santo Cenaculo_.

_Da nossa sahida da Santa Cidade de_ Jerusalem.

Itinerario da viagem, que fez a Jerusalem o M.R.P. · 第 2 / 4 段