Neste tempo chegou hum homem de Marselha desta companhia; e naõ soubemos

que ordem trouxe; porèm o Capitaõ disse logo, _que de nòs naõ queria

cousa alguma, porque elles eraõ Christãos, e nòs tambem; mas que como

pobres soldados necessitavaõ_. Cada hum deu o que pode; a mim me custou

a minha roupa vinte e cinco escudos; e deramos no dia, em que nos

prenderaõ, pela segurança da vida, quanto nos pedissem. Aqui estivemos

oito dias, e nos embarcámos com seu beneplacito, acompanhando nos o

Capitaõ, e companheiros trez, ou quatro legoas no seu Bergantim, e nòs

no nosso. Quando se apartou nos disse, _que naõ tornassemos a Marselha;

porque se tornassemos, e elle nos colhesse, nos cortaria as cabeças_; e

certamente o fariamos se podessemos, para que se soubesse de semelhantes

Hereges ladroens.

Caminhámos dous dias por esta costa de _França_, e na Provincia de

_Languedoc_ em huma manhãa, caminhando nòs a remo, vimos sahir outro

Bergantim com muita pressa de hum rio, e que nelle entrava alguma gente

de terra, e começou a remar para o nosso, porèm os nossos marinheiros

tanto trabalháraõ, que nos naõ puderaõ alcançar; porèm quando cuidámos,

que estavamos livres delle, appareceo hum navio à vèla, que vinha contra

nòs. Entendemos, que seria navio, que caminhava para Levante; mas logo

que emparelhou com o nosso Bergantim, amainou, e mandou que parassemos,

e se descubriraõ doze arcabuzeiros ladro[~e]s, e Lutheranos, que com as

armas à cara nos renderaõ, e entraraõ o nosso Bergantim, e de nòs, e da

roupa fizeraõ o mesmo, que os outros ladroens Lutheranos, ainda depois

de lhe darmos o que levavamos nas bolças. Ataraõ o nosso Bergantim ao

seu navio, e nos leváraõ como huma legoa, rio acima, junto ahuma

Povoaçaõ, que chamaõ _Cirinhan_. Esta segunda prizaõ nos deu mais temor

da morte, porque como disse hum dos soldados a _Joaõ Ansaldo_, teve o

arcabuz à cara para me matar, e disparando-o, errou o tiro, ou passou

por alto; o que todos attribuimos, a que neste tempo nos encomendámos à

_Virgem Senhora de Monserrate_, fazendo voto de ir visitar a sua Casa, e

de lhe dizer Missa. Passadas quatro horas, estando assim, veyo hum

Cavalheiro, Alferes desta terra, e tomou por conta em hum rol toda a

nossa roupa, e ordenou se guardasse no navio; e logo nos levou a huma

Villa distante huma legoa, rogando-me, para que aceitasse o seu cavallo,

e que elle como mais moço caminharia a pè, de que todos lhe démos o

agradecimento, e chegados ao lugar, a todos deraõ pousada, e a mim me

levou para sua casa, adonde me regalou.

Neste lugar reside hum Cavalheiro, Senhor de dous lugares, este nos

recebeo alegremente, e dando-nos palavra de segurança (porque era

Catholico Romano) nos disse escreveria ao _Duque Motmoranci_, Senhor da

Provincia de _Languedoc_. Era Secretario deste Duque hum _Genovez_

parente, e amigo de _Joaõ Ansaldo_; e tanto que soube da nossa prizaõ,

fez toda a diligencia pela nossa liberdade; e por elle nos mandou

despachar o Duque, e nos deu hum passaporte, para que se encontrassemos

outros navios do seu destricto, tivessemos segurança; pelo que sahimos

alegres, ainda que alguns escudos nos ficáraõ nas mãos dos soldados.

Sahimos daqui, e em quatro dias chegámos a _Barcelona_, aonde démos

graças a Deos por nos livrar destes ladroens Francezes Lutheranos, e de

muitas Galeotas de Turcos, que andavaõ por esta costa, das quaes tomou

nove o filho de _Andrè Doria_. Digo certamente, que tendo andado por

tantos, e taõ varios caminhos entre Turcos, Mouros, e Arabes, naõ

tivemos o perigo, e pezar que padecemos na França. Visitámos a _Virgem

Santissima de Monserrate_, e lhe démos as graças pelas merces que _Deos

nosso Senhor_ nos fez, por sua intercessaõ; e logo tomámos o caminho de

_Valença_, _Murcia_, _Granada_, e chegámos a Sevilha, eu, e meu

companheiro Francisco Sanches, com saude, adonde com muito contentamento

fuy recebido de todos, especialmente do Illustrissimo Cardeal, o Senhor

Dom Rodrigo de Castro, e do Cabido da Santa Igreja.

Dey conta neste breve tratado da minha viagem à _Terra Santa_, com toda

a verdade Christãa, a todo o que desejar saber o caminho. De _Sevilha_ a

_Jerusalem_ ha mil e quatro centas legoas de ida; e pela volta, que dey,

pela Cidade de Damasco, entendo, que de ida, e vinda, ha trez mil

legoas. He facil andar este caminho, pois eu o andey, tendo sessenta

annos; pelo que se animem os moços, e que tem possibilidade, a fazerem

taõ Santa viagem; que eu lhes certifico, que depois de vistos taõ Santos

Lugares, seja tal o seu contentamento, que o anteponhaõ ao de possuirem

todos os thesouros do Mundo.

FIM.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

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| | Original | Correcção |

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|#pág. 25 | C,ancarraõ | Çancarraõ |

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Itinerario da viagem, que fez a Jerusalem o M.R.P. · 第 4 / 4 段