Aguilhoado de razões taes aquelle Régulo, juntou ás escondidas huma

trópa, a quem assinalou certo dia para a empreza; mas Acóte denunciou

logo a Nhaia os aprestos mal intencionados; e Nhaia, como convinha,

se preparou a rechaçar devida e agramente os inimigos. Estes, segundo

estava determinado, arrancão impetuosos contra a fortaleza, atirão

garrochões de fogo, e com quantas máquinas podem abalroão ás muralhas.

No em tanto Acóte entrava pela fortaleza com cem homens de adjutorio.

Foi renhido o combate; mas tantos botes de lança, tantos tiros lhes

empregámos, que os contrarios ganhárão pelos pés; e os nossos, que lhes

não consentem follego de recobrar-se do susto, lhes repizão as pégadas,

e tão perto lhes vão das costas, que entrão com elles de envolta no

cercado, onde o Régulo tinha seus aposentos, e lhos vão devassando até

á camara, onde elle se abrigava; e que vendo-se alcançado dos nossos,

elle ainda que velho e defraudado da vista, não desbotou de brios

naquelle trance derradeiro, antes despedia azagaia sobre azagaia contra

os nossos, que como vinhão muito bastos, nenhuma era baldia. Ficárão

alguns dos nossos feridos das azagaias, e entre elles o Capitão Nhaia

com huma pelo pescoço; o que vendo Manoel Fernandes, que alli era

Feitor por ElRei D. Manoel, arremessa-se ao Régulo, e lhe destronca a

cabeça. Morto ElRei, ordena o Nhaia aos nossos, que todo o mal césse,

e se perdoe a toda a Republica, querendo com esta demonstração de

clemencia attrahir a si os moradores, que tendo visto abonos já do

esforço nosso, descubrissem tambem em seus desastres o clarão de nossa

humanidade. Tendo-o assim completo, cuidou Nhaia na governança daquelle

povo, e ornar com digno premio a Acóte, que tão bizarramente se

portára naquella refrega. Por tanto em nome d’ElRei D. Manoel o creou

Rei, e fez que os Cidadãos mui de seu grado lhe déssem obediencia.

Acóte de sua parte prestou fé e lealdade para sempre de cumprir com

quanto ElRei D. Manoel, e seus Capitães lho prescrevessem. Como porém

o clima daquella região nos fosse nocivo, e que os vapores pantanosos

com as seccas e ardentissimos sóes accommettessem os corpos, tal

quebrantamento se derramou pelos membros dos Portuguezes, que cahião, e

morrião minados daquella feia e podrissima contagião, a qual abrangeo

tambem e matou o Nhaia, cujo lugar substituio por consentimento de

todos Manoel Fernandes.

Soube por essa occurrencia o Viso-Rei de Cide Barbudo, e de Manoel

Coresma, dous Capitães, que ElRei D. Manoel mandára á India, que Pero

da Nhaia fallecêra de doença, e os motins que havia na Cidade de Quilôa

pelo Rei Mahomet Anconi morto á falsa fé, aleivosia que assim ordenára

ElRei Tirendicunto, parente de Habraemo. Tudo isto souberão elles em

sua viagem, quando hião perpassando as costas daquella região; porque

os mandára ElRei D. Manoel, para que lhe trouxessem novas de Francisco

de Albuquerque, e Pero de Mendoça, que alli tinhão perecido, no caso

que desmergulhassem em alguma praia. Mandou Almeida logo a Nuno Vaz

Pereira por Capitão Mór para Çofala, e de viagem apaziguasse Quilôa

agitada com disturbios, em razão da morte d’ElRei, e aos authores

della, a ser possivel, castigasse. Não será desviarmo-nos do trilho, se

algum tanto dizemos da situação destes lugares.

Já desde as eras de Homero consta, que a separavão em duas aquella

parte de Africa, que Ethiopia os Gregos intitulão: huma, que Homero

versifica pertencer ao nascente; e outra ao occaso; e as ultimas

balizas d’huma e outra Ethiopia, que por longissimo trato de terra

para o Austro se prolongão, o Oceano as circumfunde. Péga a Ethiopia

Occidental com o contorno de Africa, que o mar do estreito lava; e

disferindo de lá para o Sul, vai abranger quasi o quinto gráo da méta

equinocial, e vai depois dobrando para o nascer do Sol, e se alarga

por grande espaço para a raiz do Cabo da boa esperança. Dalli se vai

tão longamente desdobrando para o Sul, que transpõe a Linha para além

de 35 gráos austrinos: vem procurar depois o Oriente, e avisinhar-se

novamente á Linha, affrontando-se com o Norte, até beijar com o seio

Arabico, e c’o Promontorio Praso, onde do Sol nascente olha contra a

Arabia: e fecha-se aquelle intimo ser com a Cidade dos Heróes. E assim

comprehende a Ethiopia mais de meia Africa inteira: e he esta região em

partes fertil, e abundosa de searas, gados e armentios, e mui retalhada

de rios, e em partes deserta e inculta, aspera e despida de tudo.

Ha nella grandissima discrepancia não só nas linguas, mas ainda nos

costumes; que delles ha hi brandos e caroaveis, com quéda para todo o

theor humano; delles porém ferinos em cruelissimas maneiras. Aquella

parte não menos que resguarda o Sol que nasce, começa na quebrada que

faz aquelle compridissimo Promontorio, e dalli por varias entradas e

corcovas vai entestar com a Ethiopia de sobre Egypto. Contém a Ethiopia

muitissimos elefantes, de que levão os mercadores infinitos quintaes

de marfim a muitas outras regiões do Universo: córtão-na ramaes de

veias de ouro e prata, e he em varios sitios abastadissima de outros

innumeraveis generos. São seus calores mui mal sãos aos nossos, e

mortiferas febres os arredão de todas essas conveniencias; e a morte,

que com seus terrores se lhes põe diante, lhes tolhe tirarem mais

copiosos uteis da Ethiopia, dado que tantas forças tenha a avareza

para com muitos, que lhes desvie o juizo da consideração da morte,

não havendo ahi espectro, que mais feia catadura offereça. Ora nesta

parte da Ethiopia, além do Cabo de boa esperança, que fenece no Oceano

austral, fica hum vastissimo imperio chamado o Benomotapa, a quem,

antes de por aquellas costas passarem os Portuguezes, pagavão sem

repugnancia páreas todos os Reis daquelles contornos; e passa além da

imaginação o ouro, de que as taes Provincias são betadas, sem contar

o que dos rios e lagôas tirão, e o que cada anno muitos Reis pagão de

tributo a ElRei Benomotapa. Não usão de imagens nos Templos; crêm n’hum

só Deos, Creador do Universo; os paramentos para o culto não varião

do traje usual dos mais Ethiopes; são além de crença supersticiosos

no acatamento de seus Reis. As duas principaes insignias da realeza

são hum pequeno enxadão com seu cabo de marfim, e duas azagaias tambem

curtas, para encommendar com o enxadão a cultura da terra a seus

vassallos, porque de froxos e perguiçosos se não esquivem á lavoura, e

empuxados da fome se não lancem a roubos. Huma das azagaias o inculca

por vingador inexoravel de máos feitos; e a outra por via de armas e

valentia rechaçador de externas aggressões. Em sua casa se crião os

filhos dos Reis, que lhe pagão páreas, para que a educação lhes insinue

amor e lealdade para com seu Soberano, e para com taes refens conter

seus Pais na obediencia devida. Anda sempre acompanhado de numeroso

exercito, ainda que haja summa paz assentada em firmes alicesses com

todos aquelles Póvos comarcãos; mas porque tem avaliado que nada rompe

mais guerras de fóra, que o aprestar-se na paz a poder commetter

guerra aos outros Reis. Vão de sua parte todos os annos domesticos

e privados seus levar o lume novo aos Monarcas e outros Senhores

seus feudatarios, para que destes o tomem os que lhes são sujeitos.

A ceremonia com que se faz he esta. Aponta a hum Palacio de qualquer

destes Principes o Embaixador: logo se apagão os fógos todos; então

o Embaixador accende novo lume, e deste novo se accendem os outros

por todas as casas Cidadans; e quem rejeita assim fazello, tratado

he de revel e de traidor, e como tal justiçado com penas de lésa

magestade; e se he poderoso o desertor e perfido, contra elle em sua

captura e perdição parte hum exercito. Isto quanto á Ethiopia, em cujo

abrangimento jaz Çofala.

Quanto ao estado da India, o Viso-Rei, que se negava a estragar tempo,

mandou a seu filho D. Lourenço com huma Armada de 9 navios ás ilhas

Maldivas, que surgem ao redor de 70 leguas de Cochim, e são em grande

quantia separadas humas das outras por esteiros; e que estivesse alérta

ácerca das náos Mouriscas, que atravessão de Leste ao Oeste, para que

as rendesse, e lhas trouxesse a Cochim. Mas tão impetuosas erão as

correntes, que D. Lourenço esgarrou inteiramente do rumo que levava,

e foi acertar c’huma pouco arredada do Cabo Comorim. Alguns tem que

esta he a Taprobana, de que falla Ptolomeo, mais os que mais apurão,

querem que a vera Taprobana seja a Samatra, assim dita dos naturaes, e

demora fronteira de Malaca. Ptolomeo a esta, de que tratamos, chama

Cori, em respeito do nome, que assim tem o Cabo Indico, contra quem

ella he situada: Ceilão, a dizem os que nella morão. He longa de Norte

a Sul quasi 120 leguas, e 75 na sua mór largura. Ilha he por maravilha

fertil, com recheio de toda a casta de fructos, alcatifada de hervas e

plantas de recendente cheiro, que sem cultura alli produz a natureza:

tem matos de limoeiros, e outras fructas saborosissimas e cheirosas.

Tem sobre tudo a canella em muita sobra; tem muitas preciosas pedras,

que desentranhão de asperissimos penedos; pescão infinidade de perolas

mui affamadas por sua côr e brilho: as manadas de elefantes não tem

conto. Dividia-se a ilha em sete Reinos, hum dos quaes sobrepujava

muito aos outros seis em amplidão e riquezas, cujo Rei assistia em

Columbo, Cidade grande e Capital do Reino. Do centro da ilha surge

huma alta serra, cujas fraldas são circundadas de lagôas; do cume da

serra espiga ainda hum agudo rochedo, que contém hum manancial perenne

de excellente agua vertente. Tambem perto do manancial jaz hum grosso

penedo, e nelle estampada huma pêgada humana, e corre em tradição

de pais a filhos, que a calcára alli Adão, abalançando-se a sobir

ao Ceo. Hum tanto mais atrás vê-se huma Capella, onde os romeiros

visitão dous nascimentos com grandissima superstição, por passar entre

elles serem os jazigos dos dous troncos, de quem procede a geração

humana; e tão altamente lavra essa opinião destes insulanos, que até

Sarracenos e outros idolatras vem de romagem alli. Vai tão a pique

o costado desta serra, que nem ainda trepar com as mãos por elle

he dado; valem-se de escadas que encostão, e cadeias que pendurão.

Entrando pela ilha, foi D. Lourenço ancorar com a sua Armada no porto

de Gabalicão; e logo que ElRei o soube, mandou de seus Paços, que não

distavão muito, hum Embaixador com presentes a pedir-lhe pazes, ao

qual D. Lourenço de Almeida mui affabilmente recebeo, e representeou

com mimos, que entendeo lhe fossem gratos; e para ratificar ajustes,

mandou Paio de Sousa, fidalgo de sua companha, que sendo conduzido a

Palacio, deparou com o Rei apparatosamente magnifico: pois com quanto

fosse ainda de dia, o resplendor da pedraria, que em si trajava, e o

clarão das tóchas que estavão ardendo, despedião outro luzente dia,

que imaginava ElRei que esse luzeiro lhe dignificava a presença. Foi

Paio de Sousa mui honorificamente recebido, e toda a sua comitiva, e

passárão os concertos sem o minimo obstaculo; sendo as condições, que

pagaria elle Rei a Portugal cada anno 250$000 libras de canélla, e

D. Manoel o acolheria em sua protecção e resguardo, mandando a seus

Capitães, que guardem seus portos e Cidades maritimas de correrias e

investimento de inimigos. O que tudo acordou D. Lourenço, no caso que

assim aprouvésse ao Viso-Rei. Fez com tudo ElRei, que aos Lusitanos se

entregasse a canélla pacteada: tanto estava elle entrado de susto, que

para consolidar os ajustes, os da terra não corrião assás, e a gosto

seu para o desempenho. Tambem deo consentimento ao filho do Viso-Rei

para encravar alli hum padrão com armas de Portugal, em abono da

posse, que ElRei D. Manoel tomava da ilha: o que sendo completo, veio

em busca de seu Pai a Cochim; e este o despachou para Anchediva, cujo

forte avitualhasse, e cujos mares vigiasse. Tambem despedio Manoel

Peçanha para Cananor a ajudar Lourenço de Brito a erguer e amunicionar

a fortaleza, que alli estava edificando.

Na correnteza destes negocios veio ter com D. Lourenço de Almeida

hum Italiano natural de Bolonha, por nome Luiz Wartoman, que tendo

peregrinado grão parte do Universo, curioso de sabedoria, finalmente

entrára em Calecut no traje de Mercador da Arabia. E foi a causa,

que como em quanto assistíra em Calecut, ouvia por toda a Cidade

discursar sobre os Portuguezes, fingindo que não conhecia tal gente, se

informára de sua passagem á India, de sua religião e seus costumes. E

como os Mahometanos lhe inculcassem que erão huma Nação dada a roubos

e piratarias, e por aquelles sitios tinhão assinalado seus estragos;

demostrando o Bolonhez escandalizado do que ouvia, disse então:

“Descredito he supportardes tão longo prazo as audacias, e correrias

desses cossarios, que muito ha devêrão raspados ser da redondeza.”

Tendo por decurso de dias acareado a confiança dos melhor acreditados

com o Monarca, investigou suas determinações, e com que fim instruia

tal quantia de náos, e de que soccorros se ladeava para perdição dos

Portuguezes. Subio-lhe dalli mesmo certa esperança de se desempeçar com

cedo dessa detestavel companhia, e frequentação da gente de Mafamede,

pela chegada dos Lusitanos: e tanto fez, que communicou esta sua tenção

com os Milanezes, exhortando-os a deixarem Calecut, e a se abrigarem

entre nós. “Christãos somos (respondêrão elles); mas que os espavoria

de se retirarem para entre Christãos, a consciencia de maldades

contra elles commettidas.” Luiz Wartoman tratou de acoroçoallos,

promettendo-lhes empenhar-se, que não fosse o feito seu tomado em

aleivosia por contra Christãos obrado: o que entre elles concertado,

lançou mão do primeiro ensejo que se lhe deparou, para se ver com o

Almeida; e nessa carreira acertou com D. Lourenço. Então lhe deo parte

da gente que alistava ElRei de Calecut, e dos navios que apparelhava:

tambem lhe noticiou quão pezarosos estavão os Milanezes de seu delicto,

e a muitissima ansia, com que voltarião aos Portuguezes, se lhes fosse

perdoado; acreditando mui vivamente a D. Lourenço a presteza que o caso

pedia. Por quanto fundião elles infinidade de peças para o Camorim, e

delles em muito seu máo grado aprendião infinitos a fundillas. Louva-o

D. Lourenço, e mui prendado, e mais alentado com promessas o despede

para seu Pai, que tendo ouvido Luiz Wartoman, o mandou com cartas para

o filho, que se apercebesse para a guerra, e elle tornasse a Calecut;

e dando aos Milanezes sua palavra, lhos trouxessem a Cochim. Com

muitissima alegria recebêrão os Milanezes a nova. Já se dispunhão para

a fugida; mas tendo-lhes sido malsinada a intenção, forão apanhados

e mortos de cruelissima maneira. O Bolonhez apenas do perigo mortal

fugindo, se salvou.

Punha-se em tanto prompta a Armada de Calecut composta de 80 grandes

vasos e de paráos 124, abastadissima de armas, e trabucos, de

immensa gente, e munições muitissimas; e com sós 11 náos partio a

accommettellas D. Lourenço. Levava comsigo 800 soldados Portuguezes,

gente de desempenho, e mui bem armada: tambem se quiz acompanhar de

trópa Indiana, dado que de pouca firmeza. Erão chegados á costa de

Cananor, quando se rompeo d’hum e d’outro lado a briga com dissonantes

vozerias, retintim de trombetas; o amiudado disparar da artilheria, que

tremia o mar e a terra, atroando os horrisonos rembombos, até que por

fim vierão as náos a se apertar humas a outras com harpéos. D. Lourenço

distinguindo a capitanea inimiga, se arroja impetuoso a ella; e ainda

que por muitas vezes o harpéo a não ferrou, vindo por fim a seguralla,

foi mui travado alli o jogo; todavia saltou D. Lourenço na náo adversa,

seguírão-no Filippe Rodrigues, João Homem, Fernão Peres de Andrada,

Vicente Pereira, e Rui Pereira com outras pessoas de grande valentia.

Havia nessa capitanea bons 600 soldados, que lidavão por vender caras

tão arriscadas vidas, até que mortos muitos, cativos outros, e os

mais lançando-se a nado para salvar as vidas, foi rendida a náo, e D.

Lourenço foi dalli acudir com opportuno auxilio a Nuno Vaz Pereira.

Este ousou ir investir com a sua pequena embarcação huma náo adversa

de mui alto bordo, e por meio de harpéo se atracou com ella: nada era

mais factivel que a náo grande espedaçar a outra com as balroadas, além

de ser tão grossa a nuvem de settas, e outros arremessões, que se vião

os nossos, posto que acerrimos peleijassem, assoberbados de tiros, e

a pique de serem mortos. Com a chegada porém de D. Lourenço foi esta

náo sobjugada, e dos 500 homens que nella vinhão, só escapárão com

vida os que a confiárão á destreza do nadar. Entre as náos da Armada

inimiga havia muitas mercantes, que estribavão na grandeza e forças

das reaes; assim logo que vírão derrotadas as duas que dissemos,

entrárão a desconfiar do bem sortido da peleija; e nessa idéa tanto

que nos vírão bem travados na refrega, e que lhes não podiamos avexar

a fuga, fazem á véla, e huns apertárão com a barra de Calecut, outros

seguírão folgadamente sua viagem para onde tinhão o fito. As náos que

ficárão com arremessos, com bombardas humas de bronze, outras de ferro,

combatião, abalroavão, e já em muitas partes se meneavão lanças, e

ainda espadas; tão de perto hia o conflicto. Virão-se então os nossos

em grande perigo, porque a cada hum de nossos lenhos rodeavão muitos

dos inimigos; mas por fim bem debatido o pleito por huns e outros,

fugírão os contrarios com mortandade de 3$000 dos seus, dez náos a

pique com muitos mais paráos; tomamos-lhes duas bandeiras reaes, e

9 náos de alto bordo, e o despojo foi riquissimo. Dos nossos só 6

morrêrão na peleija.

Acabado este feito a bel prazer, partio D. Lourenço para Cananor, onde

ElRei com grande demonstração de alegria, e com não mediana admiração

do seu valor o recebeo. Neste intermedio como entendesse o Cabayo,

Maioral de Goa, que o Çamorim juntára grossa Armada, e que os nossos

para lhe ir dar batalha, desafferrárão do forte de Anchediva, não quiz

que lhe escoasse hum lanço (ao que elle julgava) tão comesinho para

huma boa sorte. Pelo conselho pois de certo Portuguez (dos degredados

livres de morte sob condição de investigarem terras incognitas),

que abjurára a Fé Catholica, mandou a Anchediva huma Armada de 60

vasos, que nos expugnasse a fortaleza, e ao tal degredado nomeou por

Cabeça daquelle feito, e se chamava Antonio Fernandes, que tendo

sido Carpinteiro de seu officio, serviamo-nos delle nos concertos

dos navios; mas depois da nefanda abjuração, mudou com a religião o

nome, e Abedellá se intitulava. Apenas com sua Armada surgio diante da

fortaleza de Anchediva, começou logo a combatella; mas Manoel Peçanha,

que alli era Capitão, lhe resistio tão esforçado, que o destroço dos

inimigos foi mui grande; e tal, que aquelle máo homem levantou o

cerco, e se foi para Goa com muita perda, muita gente morta, e sobejo

descredito seu. Colhendo daqui D. Francisco de Almeida a nenhuma

utilidade daquella fortaleza, e a ilha ser-lhe de pouco lucro, e que

pela distancia em que ficava de Cochim, se não podia defender sem

despezas exorbitantes, e riscos grandes; e outro sim, que sendo poucas

as trópas que comsigo tinha, não podia sem prejuizo derramallas, por

acordo de todos os Capitães a mandou arrasar. Pelo que o fez assim

executar por seu filho D. Lourenço, que lá despedio com huma Armada; o

qual recolhendo, como lhe fora incumbido, ao Peçanha com os soldados

do presidio, arrasada a fortaleza, voltou para Cochim.

Quasi pelos tempos que isto succedia na India, veio de Flandres a

Hespanha ElRei Filippe, filho do Imperador Maximiliano, e genro de D.

Fernando e de D. Isabel, tendo-se casado com D. Joanna, filha desses

dous Monarcas, a quem pela morte do Principe D. João e de sua irmã,

que primeiro casada com o Principe D. Affonso, filho de D. João II.,

se desposou viuva delle com ElRei D. Manoel, lhe vinha de juro o Reino

em patrimonio. Assim Filippe apenas soube que a Rainha D. Isabel sua

sogra fallecêra desta vida, deo-se diligencia a vir quanto antes em

Hespanha empossar-se da herança. Logo que ElRei D. Manoel alcançou que

elles tinhão desembarcado na Corunha, razões de parentesco e visinhança

de Dominios, lhe insinuárão despedir sem demóra Embaixadores, que

levassem em seu nome os prolfaças de sua vinda, e lhes prestassem fé

real, de que em tudo quanto competisse a sua dignidade e contentamento

prefaria os deveres de amantissimo cunhado. Foi por Embaixador Diogo

Lobo, Barão de Alvito, a que não só os dous Principes acolhêrão com

distintas honras, e muitas mercês, com que o despedírão, se não tambem

muitos comprimentos para ElRei, e offerecimentos para tudo o que a

Sua Alteza comprisse. Neste tempo emprehendeo D. Manoel huma facção,

merecedora de perduravel memoria, dado que nunca surtisse o effeito,

que tão baldado lhe desejou. Que estava vendo os Principes Christãos

estimulados com assanhadissimos rancores digladiarem-se huns a outros

em grande prejuizo de todos, retalhar-se a communidade christã, e

medrarem de dia em dia as posses dos infieis por nossas quebrantadas e

desunidas forças, por nossa furia e desatino nosso. Que estava receando

lavrasse aquelle mal, e em perdição do nome catholico rompesse, não

lhe acudindo a horas com remedio. Tudo na mente revolvia, e mórmente

o magoava no vivo ver em mãos de Agarenos a santa casa de Jerusalem,

tão feiamente olvidada dos Principes Christãos, e todos os desastres,

que sobrevinhão á Christandade, interpretava-os como castigos de tão

despiedoso descuido, e que só com agigantados brios e virtudes se

desaggravaria a Religião por desleixamentos e perguiças profanada.

Ansiado com taes cuidados, tratou de enviar a Julio Summo Pontifice, e

para ella escolheo Duarte Galvão, do Conselho de Sua Alteza. Consistia

a embaixada, em que os Principes da Christandade em damno da Religião,

contendião entre si sobre retalhos de dominios, em quanto o poder do

Imperador Turco, e as forças do Soldão avultavão, ameaçando o rebanho

de Jesu Christo. Que se a cubiça de renome os impellia a peleijar, ahi

estava o sepulcro de Nosso Senhor, que os convidava com as palmas da

Palestina, e com enchentes de honra a cada hum desses Principes, a

quem cahia abalar-se á vista de tão imminentes riscos, e ir reprimir

o arrojo dos inimigos contra os Christãos, ainda quando se lhes

affrontára por diante a morte. Se desejo de augmentar as possessões os

inflammava, porque não punhão os olhos e o animo nas opimas regiões

da Asia e do Egypto, refeitas em riquezas tantas? Por Jesu Christo

Nosso Senhor rogava pois ao Papa Julio, que envidasse todo o zelo seu,

todo o seu esforço e industria, toda a sua meditação e desvelo em

arrancar discordias, que conciliasse a paz, e persuadindo os Principes

Christãos a acabar com o nome de Mafamede, grangeassem gloria tal, que

nenhuns seculos a podéssem delir. Elle de si promettia todo o poderio

de suas forças para essa empreza, e offerecia de vontade arriscar em

tão preclaro empenho a vida. Tudo o que assim por cartas, como por

seus Embaixadores D. Manoel infructuosamente debateo, que estavão os

Principes com animos quasi ferinos, e tão desviados do pensamento de

tal calamidade, em razão de suas turbulentas discordias, que huns em

seu sentido desprezárão a proposta, e outras a tiverão em ludibrio.

Neste mesmo anno mandou ElRei D. Manoel edificar hum castello em Africa

na ilha de Mogador sobre a costa do Sul, para que dalli podéssem os

nossos dar mais frequentes assaltos aos Mouros da fronteira costa;

e a traça desta edificação a deo Sua Alteza a Diogo de Azambuja,

esforçado Cavalleiro, que muitos lauros tinha merecido por suas acções

guerreiras. Muito trabalho todavia, e muitos combates custou aos

nossos a fabricação do dito castello, porque de todos os cantos lhes

rebentavão Mouros a descompor-lhes a obra, e se vião a todo o instante

precisados a menear com a mesma mão agora a trolha, agora a lança.

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 21 / 22 段