Ainda o Viso-Rei não tinha sahido de Anchediva, quando os nossos

avistárão huma náo grande, que levava cavallos de Persia. Embarcão

nas lanchas, e arremetem com ella; os Persas e Arabios, que nella

erão, descem á sua lancha pelo portalô contrario, e salvão-se em

terra. Dera a náo em secco, de maneira que a não podião os nossos

trazer a reboque; e levantou-se além disso tempestade tal, que andavão

já em grande transe as lanchas Portuguezas. Dos cavallos, que na

náo vinhão, e erão 19, já 9 erão nas lanchas embarcados; e como as

vagas lançassem os nossos para terra, e os Arabios habitadores della

concorressem de toda a parte, os nossos lhe rogárão, que tivessem alli

em deposito os cavallos, até que a tormenta fosse applacada. Tomárão

os Arabios cargo dos cavallos, e os nossos entre grossos perigos se

recolhêrão a Anchediva; e logo que passou a tempestade, voltárão a

traspassar os cavallos; mas respondêrão-lhes os Arabios, que delles se

apossára ElRei de Onor. Acudio subito o Viso-Rei a mandallo avisar,

que observasse mais escrupulosamente os tratados e allianças, e lhe

restituisse em continente os cavallos. Respondeo-lhe todavia de

modo, que dava a perceber que aquella gente medía a pontualidade nos

ajustes mais pela vara do interesse, que pela da lealdade: e a ponto

tal, que lhes arredava a miudo os animos da consideração de perigos

conseguintes. O que visto, deixando a Manoel Peçanha com pequeno

presidio em Anchediva, poz a prôa em Onor; e tendo embocado o rio,

que lava as praias da Cidade, poz o fito em devastar aquella região,

e lançar fogo ás náos alli ancoradas. Os Arabios, que se achárão

naquelle porto; promettêrão a D. Francisco de Almeida, que acabarião

com ElRei de Onor, que lhe désse satisfação; e essa promessa fez que

D. Francisco demorasse mais hum dia, e nesse em tanto se transferírão

os moradores de noite aos montes visinhos com quanta fazenda podérão

levar comsigo. Já lá estava ElRei. Então mandou o Almeida a seu

filho incendiar quantos alli paravão. Como os montes, a que ElRei se

acoutou, não erão dalli distantes, e de lá visse o grande transe,

em que vião as náos todas, mandou-lhes 4$000 soldados de soccorro.

Lavrava furioso o incendio já nas náos, já na Cidade; e para que não

podessem os inimigos apagallo com sua industria, mandou o Viso-Rei a

D. Lourenço, que accommettesse os que vinhão dar adjutorio. Vinhão

elles porém em tão boa ordem, que não erão faceis de affugentar, porque

formavão a vanguarda os abroquelados, e detrás delles os besteiros, que

cubertos com as rodélas dos primeiros, ferião a seu salvo os nossos.

Vacillava a peleija; mas eis-que os nossos remettem com impeto, e

levão-os de fugida; mas Almeida, que os vio tão cevados no alcance,

mandou tocar a recolher. Suspeitárão os inimigos, que de medrosos

nos retiravamos á Armada: fórmão-se e vem de pinha cahir-nos sobre a

retaguarda. Aqui foi o recebellos os nossos bem ordenados, por evitarem

desarranjo, e embarcarem-se. Morrêrão na refrega muitos dos contrarios,

queimárão-se-lhes 14 náos, e a Cidade quasi que toda ardeo: perdemos

hum só homem, e o Viso-Rei ficou ferido no pollegar da mão direita.

Logo por Embaixadores que vierão pedio ElRei pazes, a que Almeida

respondeo não ter assás de vago para encetar tratados e allianças,

que enviaria quanto antes seu filho com poderes para os conferir e

confirmar. E partio para Cananor.

Neste mesmo espaço João Homem, como lho o Viso-Rei mandára, foi por

onde era necessario, dando aviso de sua chegada e seu governo; e

voltando sobre Coulão, soube de Antonio de Sá, feitor d’ElRei, que

tanto tinhão os Arabios importunado, que lhe fora denegada a carga

de especiaria devida pelos ajustes. Estavão então no porto 34 navios

Sarracenos; e podérão elles tanto, que pretendião se lhes désse tanta

carga quanta elles quizessem, antes que as náos Portuguezas nenhuma

recebessem; quando estava pacteado, que huma libra de especiaria se

não daria aos Sarracenos, que não se déssem por completas as náos

Lusitanas. Aqui he que João Homem, que de seu natural era assomado, e

que nunca em vida se temeo de nada, se foi aos navios Sarracenos e os

despio de vélas e de lémes, que entregou a Antonio de Sá, dizendo-lhe:

“Agora carregarás a teu gosto as náos; e comminando-lhe tambem, que

em nenhum modo restituisse a aquelles perros e desleaes vélas nem

lémes, que não estivessem estivadas as nossas náos; o que Antonio de

Sá prometteo assim cumprir.” Partindo dalli João Homem, apanhou na

viagem duas náos de Sarracenos, que mui amarrados lançou nos porões

das náos rendidas, e para as governar, poz em cada huma dellas tres

marinheiros, que não podia cercear-se de mais; e porque por terem

vento de servir, imaginou que mui bem com elles farião sua carreira.

Já hia á vista do Viso-Rei, e entrava pelo porto, quando eis-que de

repente os Sarracenos d’huma dellas se desvencilhão improvisos de seus

nós, matão os marinheiros; e virando as vélas, se perdem levemente da

vista. Muito agastamento deo a Almeida este successo; teve a João Homem

por indigno de capitanear facção alguma; mas tantos forão os rogos,

que atalhado delles, lhes não tirou o governo da náo. Antes que dalli

se fosse, edificou todavia por conselho de Gonçalo Gil Barbosa huma

fortaleza; por quanto lhe advertia este, que taes erão as perfidias

dos Sarracenos, e tantas as tramas, que tecião aos Portuguezes, que

não seria poderoso ElRei de Cananor, ainda quando muito o quizesse de

salvar da perdição aos nossos. Assentou então o Viso-Rei não largar

a fortaleza, que lhe não tivesse dado o fim que desejava. Recebeo lá

novas, que o Embaixador d’ElRei de Narsinga vinha da parte de seu amo

comprimentallo. Mas antes que desta embaixada informemos o leitor, será

de sizo dar-lhe breve conta da situação e grandeza do Reino de Narsinga.

Fica este Reino naquella parte da India áquém do Ganges, que contesta

com o Sol nascente, e he mui chegado pelo Sul e seus sertões ás terras

comarcans de Goa, demorando para o Occidente; e com as gentes destas

partes traz porfiada guerra. He Reino mui vasto: de muitas Cidades

engastado; abunda em pesca, em caça baixa e de veação, muitos gados e

armentios. Padecem cruelissima superstição os Póvos, dado que conheção

hum Deos unico, de quem crêm a suprema Potestade em todo o creado.

Edificão Templos muito custosos, e os alfaião, como aos mais Templos da

India, de estatuas de monstros disformissimos, e lhes rendem divinos

cultos, fazendo grande veneração dos Brachmanes e de suas mulheres,

que presidem a todos os actos religiosos. Tem mais outra classe de

homens muito acatados, que são os Bancanes, aos quaes pende do pescoço

hum ovo de pedra furado, por onde passão tres fios: a significação

do tal ovo dizem elles que encerra a sua suprema Divindade, e por

essa causa grangeão muito respeito. Chama-se Tambarane essa pedra tão

religiosamente venerada. Abstem-se elles de carnes e pescados: só

huma vez na vida casão, e suas mulheres, quando os maridos morrem,

se enterrão junto delles vivas; as que porém desposão os outros

homens, se lanção n’huma fogueira vivas depois da morte dos maridos,

ajuntando-se-lhes para a ceremonia grande sequito de familia, que

com muitos cantares e elogios as engrandecem. Todos os setimos dias

são de guarda, e este he o que nós appellidamos sexta feira; e afóra

deste ha muitos dias no decurso do anno, que elles pela religião

ha muito alli plantada, celebrão com hymnos e sacros estabelecidos

ritos. Crêm ser immortal a alma, e que por divino acerto ha premios

deparados para bons, e castigo para máos. São baços, mas primorosos em

seu aceio, e dados a amores, e por elles entre si se dilacerão. Quem

provoca outrem a desafio, pede campo a ElRei, onde se lhe permitta

combater com seu contrario; e se são pessoas com opinião de valentia,

vai ElRei assistir, e dá huma cadeneta de ouro ao vencedor, que tem de

para sempre a defender, se não quer despossuir-se do brazão e honra

da adquirida gloria. Que he permittido a qualquer o disputar-lhe, por

armas a dignidade e merito da dita cadeneta; por quanto esta compete

ao vencedor, e se despede de quem se deixou vencer: nem ha juizo de

armas entre guerreiros; que os artifices mesmos o pleiteão sobre a

excellencia de seus misteres. Chama-se Bimagá a Metropoli deste Reino,

que tem de circuito 4$000 passos, e se cinge com muitas muralhas;

contém vastas moradas, e mui sumptuosos Templos, e he habitada e

cheia de apinhados moradores. Tem de recheio muitas mercancias, que

de todas as partes a ella concorrem: os Mercadores, que da Persia e

da Arabia alli vem por mar, não pagão direitos; todos os mais os

pagão. ElRei compra os cavallos aos Mercadores; guarda para si os que

bem lhe contentão, e os mais vende-os, ou dá de presente. Seu Palacio

he vastissimo e edificado a muito custo, com amenissimos jardins,

e tanques de pesca em innumeraveis cardumes. Quando ElRei sahe he

sempre rodeado de muitissima soldadesca, e com tanto acatamento he

venerado pelos seus, que orça já por superstição: ornão-lhe a meza mui

esquisitas iguarias, e seu corpo reluz sempre com pommadas, com ouro, e

pedrarias. Nunca tem mulher primaria, que sobreleve das mais; sim tem

numero grandissimo de amigas, que entre as familias nobilissimas se lhe

escolhem. Se ElRei morre, accende-se huma fogueira de cheirosissimos

lenhos, onde se traz o real cadaver, e alli se lanção tambem todas

as suas concubinas, os de sua familia, e quantos o servião ou com

elle adquirírão privança e nome, e com tanta ansia de arderem se

arremessão á fogueira, que parece que naquella sociedade de morte, com

que acompanhão o Soberano, librão a maior honraria. Tem os Reis de

Narsinga justiça igual para todos, e dão seguridade e franquia a todo

o Mercador. Ha muitos e mui grandes fidalgos; mas com açoutes ou morte

são punidos, se algum aggravo commettêrão, que se não permitte alli a

prepotencia a posses nem nobreza. Ajuntão os Monarcas grandissimos

thesouros, nem consentem desfalcar os que seus Maiores lhes deixárão,

se os não constrange necessidade urgente, tendo-o por nefaria cousa.

Pelo que possuem, muito ouro e muito diamante; que como naquellas

regiões se arrancão os de maiores quilates, tem delles amuados cúmulos.

Entretem muitos soldados, a quem dão cavallos, e cada dia se lhes dá

de Palacio ração para elles e para seus cavallos; e os que huma vez

assentão praça, não podem sem real licença sahir das raias do Reino. A

infanteria não tem numero. Muitas mais cousas, se podião noticiar do

Reino de Narsinga, de seus usos, da opulencia de seus Reis, de seu luxo

e magnificencia, que por servir á concisão e theor, a que nos cingimos,

deixamos por demoradas.

Movido da fama, que por suas proezas tinhão os nossos grangeado pela

India, o Rei que então governava, determinou travar amizade com o

Viso-Rei, e ajustar com elle pactos; por tanto mandou a Almeida hum

Embaixador com cartas, e presentes, e cuidado de as passar em seu nome

a ElRei D. Manoel. Recebeo-o Almeida com muitas honras; e tendo lido as

cartas, que nada mais erão que credenciaes, lhe ouvio sua embaixada,

cujo sentido em summa era assim: “Que ElRei de Narsinga procurava com

grande ansia e ardor fundar federação com ElRei D. Manoel; por quanto

lhe encostára tão agudos estimulos a fama de suas admiraveis virtudes,

que nada mais ardentemente appetecia, que liar estreitissima amizade

com hum Principe de tão preclaras prendas, para cuja fama não desejava

maior abono que quanto os Portuguezes naquelles poucos annos obrado

tinhão na India. Que não podia induzir seu animo que hum Rei, que em

tão valentes homens imperava, não sobrepujasse em singular e quasi

divina virtude, e fosse muito digno de que todos os Reis do mundo

universo ás invejas o amassem e tudo a seu saber lhe desejassem. Que

muito de vontade cumpriria com todas as suas posses no tocante a sua

dignidade; nem consentiria que outro Rei algum se lhe avantajasse em

vulto de amizade e zelo. E que se não dava de rosto a matrimonios, lhe

offerecia voluntaria a Princeza sua filha, de mui formoso semblante e

custosamente dotada, para que as vodas della com o Principe D. João,

filho de D. Manoel, firmassem em maior base as allianças. Tanto e

não mais continha a embaixada. Mandava mais ElRei dous collares de

preciosissima pedraria, e dous anneis com gemmas de muito valor, e

vestidos de ouro e seda, que tudo queria se remettesse a D. Manoel pelo

primeiro aviamento de navios.”

Recebeo Almeida com grão contentamento esta embaixada, presenteando

com muitas dadivas a quem lha trouxe, e em nome de Sua Alteza a ElRei

de Narsinga escreveo mui honrados comprimentos, abonando em sua fé,

que remetteria a D. Manoel os seus presentes, esmerando-se muito em

capacitallo, que custaria a encontrar quem mais empenhado fosse em

corresponder á sua amizade. Veio logo em suas lanchas para terra apenas

despedio o Embaixador, e junto á praia n’hum palmar ordenou que lhe

levantassem huma tenda, para receber nella a visita d’ElRei de Cananor;

e passadas entre hum e outro muito amigaveis práticas, pedio Almeida

a ElRei lhe outorgasse assentar alli huma fortaleza, que juntamente

abrigasse os nossos de importunos Mouros, e segurasse os da Cidade

de assaltos e correrias de inimigos. Satisfez ElRei a seu pedido, e

começou a fortaleza a galgar com tanta préssa, que em poucos dias

sobrançava muito; tanto mais, que Gil Barbosa lhe abríra os alicesses

com a dissimulação que não era fortaleza, mas sómente huma grande casa,

onde morasse mais á larga, que receava que o nome de fortaleza não lhe

damnasse os começos, quando ainda não tinha o Almeida, em achando a

occasião, obtido d’ElRei a graça de construilla. Poz-se á fortaleza o

nome de Santo Angelo, e deo-se a Capitanía della a Lopo de Brito com

150 homens de presidio.

Trouxerão em tanto ao Viso-Rei novas da morte de Antonio de Sá, que

(como dissemos) era em Coulão Feitor d’ElRei D. Manoel. Por quanto

depois que João Homem mais valeroso que prudente, tirou vélas e lémes

aos Mouros, e as deo a guardar a Antonio de Sá, até que as náos d’ElRei

fossem inteiramente carregadas; e partindo, foi ter com D. Francisco de

Almeida, assanhados os Mouros da affronta, declarárão mais violentos o

odio já d’antes contra os Lusitanos concebido: e para se vingarem mais

a salvo, aguçavão os Burguezes a tomar quinhão na queréla. “Esperai

(dizião elles) que homens de assomada ambição e temerarios, quando

medrados em cabedaes, amparem vossas franquezas, e observem com summa

pontualidade a fé que derão. Vêde-los, quão poucos são, despegados de

todo o auxilio dos seus, como ousão; como na vossa Cidade, aos olhos de

vós todos, nos despojárão de nossas vélas, nossos lémes, a nós vossos

alliados e amigos tão antigos; a nós Mercadores sinceros, de quem

recebeis cada anno tanto proveito, com tanto baldão nos avexárão, e nem

que forão já assentados dominantes deste Reino, como tyrannos abusárão

da vossa paciencia. Quando esta injúria insigne contra nós-outros

commettêrão, que cuidais vós que elles fizerão? Declararem-se por muito

insolentes senhores vossos. Que fizerão elles sendo tão poucos, e em

terra estranha, nos dominios d’hum Principe excellente, na face de tão

frequentes Cidadãos, o que ElRei mesmo, senhor desta communidade, não

inclinaria sua idéa a pôr por obra por consideração alguma. Assim que

este desacato não a nós foi inferido por atrevidissima gente; mas sim

a vós, que não o emprehendêrão por molestar-nos, mas sim por tentear

o vosso soffrimento; que se vós aparais deshonra semelhante, não só a

vossa liberdade, mas ainda os mesmos bens viráõ tirar-vos.” Com taes

fallas affogueão o povo para o crime, e arremetem com o Sá, que com

doze Companheiros (que não havia alli mais) se acoutárão na Igreja de

Nossa Senhora, onde se preparárão, para mui denodados lhes resistirem;

e com tanto brio rebatêrão a furia aos inimigos, que se não deixárão

facilmente romper; e elles que vírão, que sem muita perda sua se não

podia levar de assalto a Igreja, cercando-a de muita lenha, e pondo-lhe

fogo, os queimárão dentro della. Estava então no porto Pero Rafael,

que não podendo acudir a seus camaradas em caso tão mal esperado e mal

previsto, se foi vingar em 5 náos, queimando-as sobre suas ancoras, e

se fez á véla para Cochim, para ir contar a Almeida, que ahi encontrou,

o succedido. Almeida mandou sem demora a seu filho, quanto mais prestes

podésse, entrasse com a Armada em Coulão, e lançasse fogo a quantas

náos no surgidouro achasse; e tanta rapidez se poz no negocio, que

antes que os Sarracenos tal suspeitassem, já as bandeiras Lusitanas

apparecião, e já ardião dos inimigos 27 navios. A João Homem todavia

por castigo de sua temeridade, lhe tirou o Viso-Rei a Capitanía da náo:

e tendo dado complemento a estas cousas, passou a terra, onde foi mui

honradamente saudado por ElRei de Cochim.

Já porém não reinava o Rei, que tanto a sua vida e seu imperio

arriscára pela conservação dos Portuguezes; porque levado de devoção,

se desfizera do Reino, e para cuidar de sua salvação, entrára de morada

n’hum Pagode entre elles mui affamado em santidade, deixando de mui sua

vontade o Reino a Nambeadara, filho de sua Irmã, que lhe cabia assim

pelas leis daquella gente. Almeida, que deo por frivolo presentear

com algum dom hum Rei, que conceituára ter em nada o Reino, e todas

as reaes riquezas, de quantas dadivas para elle trazia fez mimo ao

Sobrinho, bem que devidas á amizade e lealeza do Tio: mui determinado,

que a quem coubera o Reino em patrimonio, lhe assentaria como herança

legitima o premio, que vinha para a constancia a valentia. Pelo que

mandou levantar hum tablado de mediana altura cuberto de alcatifas e

mui custosas tapeçarias, e lá para que de todos fosse visto, o collocou

n’huma cadeira, e lhe fez huma falla, em que lhe confortava o animo

com esperança de mais affortunada condição; dizendo-lhe, que ElRei

D. Manoel por seus relevantes meritos e pela rara lealdade d’ElRei

Trimumpará, lhe queria fazer honras grandissimas, e não o tratar

sómente por alliado e por amigo, mas que o desejava ser: e que por

quanto Trimumpará fora de aviso tal, que renunciára em vida, a tudo

o que os homens muito prézão, todos estes seus desejos era bem que

passassem a quem no seu lugar entrava; e que essa era a razão, por que

elle em nome d’ElRei D. Manoel o prendava com aquella coroa de ouro.

Deo-lhe depois sua palavra, que no amparo d’ElRei D. Manoel ficaria

para sempre, da mão do qual para si e seus herdeiros recebia a realeza,

e o desapressava do imperio e posses d’ElRei de Calecut, obrigando seu

pundonor a rechaçar todo o impeto de seus inimigos. Tambem lhe dava

franco bater e cunhar toda a sorte de moeda; e o não ser sujeito a

ninguem, antes possuir com tão justo titulo a realeza, como podião os

maiores Monarcas punir por seus imperios.

ElRei rendeo então summa gratidão ao Senhor Rei D. Manoel, e prestou

fé de ficar avinculado a Sua Alteza, e nenhum combate recusar em

pró de sua dignidade. Almeida lhe assentou então sobre a cabeça a

coroa de ouro, que na mão tinha; ao que se seguio huma alvorada das

charamélas, e ElRei de Cochim mui satisfeito da coroa e outras dadivas

recebidas, se recolheo aos seus Paços. O Viso-Rei cuidou com muito

zelo em carregar as 8 náos, que havião de partir logo para Portugal. Os

Capitães dellas seguindo sua viagem, deparárão no primeiro de Fevereiro

de 1506 com huma terra desconhecida, de immensa longura, comada de

muitas e apinhadas florestas, e grossissima de gados; vírão mais 10

bateis remados por gente baça, cabello retorcido, nús os corpos,

armados de arco e fléchas, que demandavão a náo, de que era Capitão

Fernão Soares. Sobírão pelo costado 25 delles, onde forão com boa

sombra agasalhados, fartamente convidados com comeres, e pannos para se

cobrirem: mas não se lhes entendia o idioma, só por acenos inculcavão

seus conceitos. Alegres na apparencia se despedírão; e arredados da náo

hum tanto, quizerão com frechadas galardoar-nos o agasalho, a que os

nossos retrocárão com bombardas: e Fernão Soares, que os vio perto da

náo, em que hia por Capitão Rui Freire, como não estava longe da sua,

lhe gritou que apanhasse alguns delles. Tomou 28. Como hião discorrendo

aquelle maritimo, acertárão com hum rio, em que fizerão aguada: alli

os naturaes feitos n’hum bando, arremettêrão com os nossos, que se

recolhêrão ás lanchas; e vindo para as náos, azedamente dellas com a

artilheria os ferírão de sorte, que muitos alli morrêrão, e os mais

fugírão. Sinaes experimentárão os Portuguezes, por onde atinassem que

nada tinha de hospedeira aquella gente. De primeiro nunca tiverão

por ilha aquella terra; mas depois que perlongárão aquellas praias,

e perpassárão a orla do promontorio, conhecêrão então ao claro ser a

ilha, que se chamou já Madagascar, que nós chamámos de S. Lourenço, e

fica ella em fronte ás terras de Egesimba, situada para o nascente.

Entrou nesse anno, que era o de 1506, a Armada no porto de Lisboa aos

24 de Maio.

Diremos agora o que succedeo em Çofala na Ethiopia, e a quem dão o

nome de Egesimba. No anno de 1505 cuidou ElRei D. Manoel, depois que

D. Francisco de Almeida partio de Lisboa, em aprestar outra Armada,

de que deo o governo a Francisco da Nhaia, e constava esta de 6

náos. Hum dos Capitães della João Leite, indo correndo pelas costas

da Ethiopia, querendo com hum anzol puxar hum dourado a si, cahio

no mar, e nunca mais surgio; outro Capitão saltando em terra para

fazer carnagem para o navio, embrenhando de sobejo pela terra dentro,

matárão-no os naturaes della, e a muitos de sua companha; partidos

elles de lá, depois de lhe substituirem o posto, e endireitando para

o Cabo de boa esperança, tanto carregárão para o Sul, que se lhes

coalhava a agua; e era tanta a neve e o granizo, que lhe entorpecião

os corpos, e traspassados de agudo frio, nem abalar-se podião de

donde estavão. Finalmente passado o Cabo, e tomando para o Norte,

avistárão os marinheiros costas de Çofala; e como as náos grandes não

podião entrar no porto, mandou quatro pequenas, com que surgio no

seio delle. O Rei daquella região era hum cégo de 70 annos; mas que

antes de cegar, grandes honras nas batalhas grangeára. He a Cidade

acastellada sem ser grande, as moradas magnificas, tapeçadas de sedas,

e muradas de tecidos espinheiros. Çufe se chamava o Rei, que com muita

cortezia e affabilidade acolheo a Francisco da Nhaia, e lhe deo sua fé

de cumprir mui de seu grado com tudo o que fosse d’ElRei D. Manoel.

Estava rodeado de infinda soldadesca, e esta Moura de côr baços e nús

até o embigo, cingião alfanges com punhos de marfim, e o resto do

corpo cachavão com pannos de seda e de algodão, e com voltas desses

estofos volteados, repassados, e retorcidos, foteavão as cabeças.

Depois de mui assinaladas amizades, pedio Nhaia a ElRei a permissão

de erguer huma fortaleza, que elle esperava fosse mui venturosa para

ElRei mesmo, a qual lhe foi mui facilmente concedida. Logo que Nhaia se

despedio d’ElRei, privava, Mouro Abexim, que muito com ElRei privava,

e cujo nome era Acóte, veio dar-se a Nhaia por amigo, e informallo da

qualidade daquellas terras, e dos usos da gente dellas. Cuidou logo

Nhaia na fortaleza, e com tanta diligencia incumbio nelle, que em

poucos mezes a arrazoada altura a fez galgar, e despedio então alguns

para a India, e outros para Quilôa, ficando só na fortaleza com as

trópas, que assentou bastarem; e para a acabar de todo, empregava com

muito affinco os naturaes. E como ora os Sarracenos o tomassem muito

em mal, forão ter com ElRei, e acautelallo contra as cavillações de

semelhantes malfeitores, que com o manto de amizade cobrem a perdição

e ruina, que lhes maquinão. “Com que fins (dizião) levantão elles huma

fortaleza em teus dominios, senão para medrar em posses, e te lançar

daqui, esbulhar-te de teus cabedaes e teus poderes? Não forão estas as

artes, com que desapossárão a ElRei de Quilôa? Não tem elles destruido

com inauditas maldades a muitos Potentados da India? Não deixão elles

estampadas por onde quer que passão as pégadas do latrocinio e fraude?

Opprime-os, se és avisado, antes que forças cobrem, porque embalde te

não cances depois a arredar esta peste de ti e dos vassallos teus.”

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 20 / 22 段