No anno seguinte, que foi o de 1507 da nossa redempção, cuidou ElRei D.

Manoel em pôr promptas 14 náos, que em diversas partidas desafferrárão

de Lisboa, porque hião dando á véla á medida que erão prestes: nenhuma

dellas chegou com tudo nesse anno á India. Vasco Gomes de Abreu, hum

dos Capitães que ElRei escolhêra, hia provído no governo de Çofala;

e tendo perpassado a costa de Ethiopia, ordenou ao Capitão João

Chanóca, cujo navio era incrivelmente veleiro, tomasse a dianteira, e

que os mais o seguirião: mas descuidos do Capitão o derão á costa, e

o despedaçárão, e a gente se salvou a nado, parte da qual cahindo em

mãos de crueis barbaros, foi lançada em calabouços, d’onde Portuguezes,

que discorrião por aquellas costas, os resgatárão depois com dinheiro.

Ora Rodrigo Soares, hum dos Capitães, topou com huma náo, que sahia

da Arabia, em que vinhão 500 homens, com a qual teve porfiado debate

de armas, até que por fim a rendeo, e passou os Mouros á espada. Tres

Capitães de outras náos se submergírão com ellas, e todas as mais que

sahírão, vierão invernar no porto. Então na India os Mouros tendo

averiguado que careciamos dos annuaes soccorros, acorçoárão seus

animos, e tomárão firmeza, assentando ser agora o tempo proprio de

acabar com a gente Portugueza; e por tanto avisão e exhortão a ElRei de

Calecut, que não desperdice a occasião de tão preclaro feito, que os

Ceos lhe offerecião. Accrescia mais, que lhe prognosticavão naquelle

anno huma grande victoria os Agoureiros, e que os Sacerdotes e os

Brachmanes, como aguilhoados dos Oraculos divinos, lhe contavão cousas,

que lhe accendião esperanças de insignes proezas. Entrou o Çamorim

em preparos diligentes de petrechos de guerra; mas tudo vinha aos

ouvidos do Viso-Rei, pelas espias, e pelos fugitivos; e para lhes dar

a entender que lhe não fazião falta as Armadas do Reino, rapidamente

aprestou duas, huma das quaes entregou a Manoel Peçanha, constando

de 3 galés reaes, 2 náos de carga, e hum paráo, com que amparasse

de assalto de inimigos os navios, que de Cochim fazião derrota para

Coromandel; a outra que era de 12 vasos, e encommendou a seu filho D.

Lourenço, para com ella guardar aquellas costas. Nesta Armada hia

hum Capitão Gonçalo Vaz de Goes, que não se achando com mantimento

bastante, entrou em Cananor para se refazer de trigo: ao sahir dalli

para se juntar com D. Lourenço quanto antes podésse, avistou huma náo

de Mouros, que vinha de Cananor, a quem com muita ferocidade investio,

nem os Mouros repugnárão; por quanto se davão por alliados, e mostravão

cartazes, que fazião fé de confederação comnosco, dados por Lourenço

de Brito, que, como dito he, governava a fortaleza de Cananor. Porque

passa como lei, que todos os que navegão o mar da India, desque os

Lusitanos o começárão a sulcar, e a ter por lá fortalezas, não o

possão fazer livremente, que não mostrem permissão assinada por algum

Capitão Portuguez, ou Governador de fortaleza, que depois de bem apurar

a fidelidade do Commandante da embarcação, e na permissão allegue a

alliança, sem a qual he franco aos nossos Capitães tomallos, tirar-lhes

suas fazendas, a liberdade, e ainda a vida. Como pois os Sarracenos

mostrassem o cartaz, em que fiados commettião as ondas, Gonçalo Vaz de

Goes ou que o cegasse a avareza, ou que barbara feridade o conselhasse,

ou que Mouros lhes crescessem odio e sanha ao vê-los, exclamou serem

falsos ou forçados os cartazes, que elle os tinha de sciencia certa por

inimigos do nome Christão, e maquinadores da ruina dos Portuguezes,

valendo-se das maiores traições e aleivosias, e agora pagarião tão

enormes delictos. E assim lhes saqueou a náo, e a desgraçadissima gente

della, que a fé dos homens implorava, e a Divina, cozem-os todos n’huma

das vélas, e arrombando com pelouros o esbulhado navio, o metteo a

pique. Feito foi não sómente deshumano e cruel contra o direito das

gentes, contra todo o theor da humanidade nefaria e flagiciosamente

executado; mas ainda em razão do tempo e arriscadas circumstancias,

temerario, e influido só pelo furor e desatino. Que não sendo

fundamentado ainda então o Lusitano imperio na India, cruzando aquelles

mares nós com tão singelos exercitos, competia muito abrangermos com

abonos de probidade e mansidão o que com forças vedado era: que não ha

ahi na vida escora mais reforçada, que o bom credito; e n’hum tempo, em

que todas as nossas raizes erão tanto a flor da terra, na opinião de

nossa boa fé se affincava todo o pendor de nosso salvamento. Pela razão

que assim como a reputação da lealdade e doçura acarêa os animos de

todos os mortaes a ser benevolos, assim lhes atêa o odio e os esporea

a vingativos a infame aleivosia e a crueldade. O que mui provado ficou

pelas consequencias, que dalli em diante nunca o nome Portuguez despio

de si aquella mancha odiosa e abominavel áquelles póvos. O Viso-Rei

se desabrio muito com o feito, desabonando do posto a Gonçalo Vaz de

Goes, nem o admittio mais á sua familiaridade.

Morrêra nesse espaço ElRei de Cananor, e o que succedeo em seu

lugar infesto o animo tinha contra nós, por quanto por obra d’ElRei

de Calecut subíra ao throno. E ora havia em Cananor hum Mouro por

nome Maméle, que passava por ser em cabedaes e renome o Maioral dos

Sarracenos, que naquellas terras assistião, e o Capitão da náo, que

Goes affundíra, era filho de sua irmã. Tanto que o Maméle soube

serem-lhe saqueadas as fazendas, que na náo hião, e esta a pique, e o

parente tão chegado submergido e os outros todos com tanta crueldade,

veio direito a Lourenço de Brito estimulado de pena, e a grandes gritos

se lastimava da injúria que lhe fora feita. “Tu foste (lhe dizia) quem

nos entregaste, quem nos induziste no engano; por ti perdi a minha náo,

perdi o meu cabedal, fiquei orfão de meu tão prezado sobrinho; por teu

máo coração, por tua perfidia. Como seria possivel, se a tua assinatura

fosse valiosa e sincera, que hum homem Portuguez, hum Capitão de alto

bordo commettesse injúria tão ferina contra nós todos, e tal destruição

imaginasse contra homens conterraneos nossos?” Jurava Lourenço de

Brito, que não cabia nelle fraudulencia tal; mas o Mouro não admittia

satisfação, antes assim como era em lagrimas correntes, e em pungentes

furias assanhado, arranca para o Paço alcançado de mulheres, filhos,

e parentes dos que forão com tal crueza mortos. Ei-los que com vivos

lugubres levantão até ao Ceo clamores, alvorotão para ElRei os braços,

implorão sua potestade, demandão acerrimos justiça, obtestando-o que

castigue como he razão tão facinorosa gente. A que elle respondeo, que

poria seu cuidado em o assim fazer. Então praticando com Maméle, lhe

insinuou que lhe não descontentaria vingarem-se elles pelo modo que

podéssem; assim logo que Maméle sahio de lá, se poz a escrever aos

Mouros, que mercadejavão em Calecut, a injúria que lhe fora feita; e

as noticias subírão logo ao Çamorim. Este mandou subito a ElRei de

Cananor quem lhe azedasse o animo em nome seu, e lhe promettesse, que

para o que fosse perdição nossa, não lhe falleceria com adjutorio; e

que viria a acontecer, que juntando ambos as forças, e assoberbando com

ellas a nação Portugueza, conseguissem apagar da Asia sua lembrança.

ElRei de Cananor recebendo este recado, envidou todos os pensamentos no

exicio dos Lusitanos, guardando no animo todavia occulto de principio

quanto maquinava. Foi entretanto abrindo huma cava muito larga desde

huma ponta da praia até á outra, que lhe servia a despegar da Cidade

a fortaleza, ficando esta no angulo da praia, de que a cava fazia a

base: e tudo com o manto de querer fortificar a Cidade. Havia hum

poço não longe da fortaleza, de que bebia o presidio della: este

poço intentava mettello áquém da cava o inimigo, porque huma vereda

estreita, que cortava da cava á fortaleza, mandava já ElRei tomalla

com muralhas e bastiões, para atalhar aos nossos a vinda ao poço, e os

acabar á sede. Mas o Principe, successor do Reino, deo tudo a saber ao

Governador, e tambem o informou de que ElRei de Calecut, além de outras

munições, mandára ao de Cananor 24 peças de artilheria de bronze, com

que alluisse a fortaleza, e que lhe promettêra de mais 30$000 homens de

soccorro. Rendeo Lourenço de Brito agradecimentos ao Principe, e que se

empenhava a capacitallo que não assentára em ingratos os seus favores.

Começou a refrear os seus de irem desacautelados á Cidade já inimiga, e

onde suas vidas podião incorrer perigo. Despedio quem fosse ao Viso-Rei

com a nova do risco, em que ficava; e este enviou a D. Lourenço com

armas e soldados, com vitualhas á fortaleza, e reforçalla de modo, que

mais facil aturasse o sitio; o que elle cumprio com muita diligencia. O

Brito, que entendeo que em lhe tolhendo a agua, tinhão de morrer todos,

fortificou todo o espaço desde a fortaleza até ao poço, com tranqueira

e cava, abarcando de mar a mar as duas praias; accrescentando-lhe

huma ponte levadiça, que da tranqueira beijava no poço. Foi depois

levantando varios bastiões, e galgando artilheria nelles, para varejar

delles o inimigo, no caso de lhe querer vedar o poço.

Logo ElRei colheo por estas obras, que lhe rompêrão o segredo; pelo

que descartado o fingimento, cuidou em bater a fortaleza. Teria então

40$000 homens abarracados, delles trópas suas, e outros, soccorro

já chegado de Calecut, as quaes logo tirou a campo, e veio investir

a tranqueira; e tal vinha o impeto dos inimigos, que custava muito

suor e sangue aos nossos em sostello. O principal debate, e o mais

ferido entre nós e os inimigos, foi ácerca da agua, porque pugnavão

esses que nenhuma facilidade tivessem os Lusitanos de a tirar; e estes

porque lhes era forçoso havella, a tiros e a lançadas, e muito sangue

custava a quem beber queria. Os nossos nada obstante, por conselho de

Thomaz Fernandes, famoso arquitecto, abrírão da fortaleza huma mina

até ao poço; e com tal silencio a abrírão, que não derão os contrarios

advertencia; fez depois abarrotar hum pouco acima da fóz da mina hum

soalho, que atravancou de madeiros, e sobre elles entulhos e lenhas,

com que impedio que os de Cananor lhes empeçonhentassem as aguas; e

por fim derrocando as bordas do poço, as alhanou de terra, em fórma

que não podésse o inimigo desmanchar-lhe o madeiramento; e conseguio

assim, que muito a despeito delles tivessemos abastado de beber.

ElRei que vio esta astucia baldada, deo-se a combater mais agramente a

tranqueira; e como lhe morrião muitos no accommettimento, para o fazer

mais a seu salvo, compoz huma tranqueira ambulante de saccas cheias de

lã e cairo, que empapassem os pelouros; mandando retirar o exercito, e

vedar todo o combate, em quanto ellas se aprestavão. Lourenço de Brito,

que considerou motivos a aquella retirada, excogitou meio de atinar

com as cautelas do inimigo, e houve hum carpinteiro, que inventou hum

cêpo, que foi posto fronteiro da porta da tranqueira, cuberto ao deleve

de ramas e de terra. Mandou o Brito 40 homens sahir da tranqueira,

com apparencia de guiarem para a Cidade; os adversarios logo que os

avistárão, arremettem com elles; trava-se insensivelmente a briga, vem

sobre elles mais desenvoltos os inimigos, até que se encrava no cêpo

o Capitão, que vinha diante. Aqui apertão mais travados com elles os

Portuguezes, e ajuntão-se-lhes outros, que saltárão da tranqueira, que

os vão rechaçando desapercebidos do caso; e tendo-lhes ido hum pouco

no alcance, ao sinal aprazado se recolhem, arrecadando o Capitão, que

cahíra na trapaça, e trazendo-o ao Governador, que por elle se inteirou

dos designios, que ElRei tivera para acalmar a expugnação. Além de que

o Principe hereditario descubríra a má tenção d’ElRei, poz hum da

sua comitiva, que n’huma lancha carregada de mantimentos mandára alta

noite, dar parte ao Governador, com o que se preparárão os nossos para

a defeza.

Concluidos os aprestos, dispoz ElRei o exercito pela fórma seguinte.

Mandou enfileirar de sorte as saccas por diante da vanguarda, que ao

abrigo dellas podéssem os soldados avisinhar-se da muralha; vinhão

depois os besteiros e arcabuzeiros, e mais gente de outras armas;

e detrás ElRei com o pezo do exercito, escorando os avançados. As

bombardas da fortaleza, dado que jogassem grossissimas balas já de

ferro, já de pedra, embaçando nas saccas, nenhum prejuizo causavão

aos inimigos; o que bem advertido por elles, crescêrão em brios, e

taes e tão ruidosas gritarias desfechárão, que nem quando houvessem

dado fim á guerra. Renovou-se no dia seguinte com mais ferocidade o

assalto; mas acordou-se Brito em mandar vir huma serpe, de que atélli

se não servíra, e que disparava pelouros de muito maior calibre; e

ao dar-lhe fogo o artilheiro, foi a sacca pelos ares. Então foi o

amiudar os tiros, e descozer a tranqueira movediça, de sorte que já a

nossa artilheria toda grande e pequena jogava a tiro empregado, e a

destruição era sem medida em gentes já nuas de anteparo. Nessa noite

veio hum Castelhano, Guadalaxara de seu appellido, pedir a Brito 150

homens de sua escolha, com que fosse amedrontar o campo dos inimigos;

e tendo-lhos outorgado, na quarta véla da noite, que succedeo ser

de chuva, e de céga escuridade, quando os inimigos o imaginavão

menos, em razão de quão poucos sabião sermos, alertão ao retinir das

charamélas, e de nossos desentoados alaridos; aqui transferem huns

deste somno ao outro, acolá degollão os inda mal despertos, e aos mais

salva-os a fugida. Ao raiar da aurora, senhores do arraial conduzírão

á fortaleza espolio não mediano: hum desattento só desfigurou tão

formosa aventura. Ficava pegada ao forte huma ilha de casas, que ao

abrigo da artilheria delle evitára o insulto dos inimigos; continhão em

si bastantes mercadorias, muitas e preciosas alfaias, e as vitualhas

para alimento do presidio; descuidou-se hum rapaz ao ir deitar-se de

apagar a luz, que descahindo no sobrado, pegou na madeira secca, e

ateado daquella casa o incendio, prendeo nas mais, que sendo tambem de

taboado cubertas de folha de palma, e humas contiguas a outras, todas

ardêrão n’huma mesma chamma. Ainda que nellas muitissimas cousas se

consumírão de alto preço, o que mais ansiou ao Governador, foi a perda

dos mantimentos, a maior parte dos quaes comeo o fogo, e desfallecia

a esperança, em quanto vigorava o Inverno, de virem de parte alguma.

Pelo que forçados forão a comer de primeiro (tanta era a fome!) gatos,

depois ratos, e até lagartos. Então vio o Governador, que era lanço de

affouta empreza, e mandou hum cunhado seu com 30 homens de intrepidez,

e mão activa, que désse de sobresalto nos contrarios, e visse modo de

abarcar do campo mal vigiado algum alimento: mas elles arremettendo

aos nossos, ferírão muitos, golpeárão o rosto do cunhado, que hia por

Capitão, e tambem as pernas de geito, que nem passo dar podia, muito

arriscado a ficar em poder dos inimigos. Houve com tudo hum moço de 25

annos, por nome João Gregorio, que o tirou da pinha delles, e o salvou

na fortaleza. Quatro naquelle conflicto dos nossos perecêrão. Foi em

tanto informado ElRei por escravos fugidos, que era gravissima a fome,

que se padecia; d’onde colheo não preterivel a occasião d’hum feito

bem traçado, que era pôr huma emboscada em adequado sitio, e lançar

duas vaccas a pastar nas abas da nossa tranqueira; que logo que forão

dos nossos avistadas, sem mais ordem de Capitão (que outro superior

não conhecião se não a fome), se baqueão em baixo do muro. Cahem sobre

elles os da cilada; mas tão valentes se despejárão, os nossos, que

antes de sobrevir maior auxilio, tinhão recolhido bem a pezar dos

inimigos pela porta da muralha as duas vaccas, que com suas carnes os

alimentárão por alguns dias. Acabadas ellas, forçoso vinha morrer, ou

entregar-se; mas no maior transe lhe acudio Deos com sua divina mercê;

empollando-se os mares com tal poderio de ventos, que rebentavão na

praia altos como serras, desprenhando-se em seu marulho de formosas

lagostas, cujo cardume foi tal, que delle quebrantárão todos a fome, e

os doentes recuperárão saude, e ainda lhes sobrou, com que aliviassem o

Inverno.

Vinha já apparecendo a Primavera, e á primeira sota que o mar désse,

esperava-se subsidio; e ElRei de Cananor, que mui bem o pressentia,

determinou-se a experimentar se com todas as forças empenhadas

levaria o muro e a fortaleza, antes que apontasse o soccorro de

Cochim. Preparou pois huma grossa Armada, e nella dous castellos mais

alterosos, que os com que ElRei de Calecut cuidou destruir Duarte

Pacheco; o que tudo soou nos ouvidos de Brito, pelo recado diligente

do mesmo Principe, em que lhe encommendava muito resguardasse a parte

do mar, porque por ella se havia mórmente accommetter a fortaleza.

Teria ElRei sob seus pendões 50$000 soldados, por quanto diligenciára

varios achegamentos; e logo que tudo foi disposto, como levava intuito

de investir os Portuguezes por mar e terra, vogou de força arrancada

toda a marinharia daquella banda castellos, e tudo, em quanto por terra

vinha o exercito impetuoso contra os muros. D’huma e d’outra parte

forão com muito destroço rebatidos, e muitas náos quebradas; que fora

mui batalhada a briga desde o nascer do Sol até seu occidente, em que

parece que não só lidárão forças humanas, mas tambem divinas; porque

tendo morrido por infinidade os inimigos, dos nossos não morreo hum

só. No dia seguinte Lourenço de Brito ordenou, que descavalgassem das

canhoeiras do forte muitos sagres e camellos, e os transmudassem para

a tranqueira, porque dalli, segundo disse, varejassem com grossissimos

pelouros a Cidade. Já estavão derrocados muitos edificios, e entre

elles a Mesquita, onde muitos se juntavão a fatigar com rogos a Mafoma,

a que viesse em seu abrigo; e medrava nelles a tal ponto o susto

Cidadãos e forasteiros, que forão todos a ElRei, que commettesse pazes

aos Lusitanos, sem o que despedião-se logo todos dalli. E o que os

affervorava mais era ver a Armada de Tristão da Cunha, que já chegava,

para acudir com soccorro aos nossos, se viessem a mór aperto. Assim

se accelerou a paz com certos artigos, e com a condição mórmente que

só então seria valiosa, quando o Viso-Rei D. Francisco de Almeida a

authenticasse. As acções, que Tristão da Cunha obrou em sua viagem até

ancorar em Cananor com sua Armada, n’outro lugar as relataremos.

FIM DO PRIMEIRO TOMO.

=NOTAS DE TRANSCRIÇÃO=

Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes

quando uma preferencia predominante foi encontrada no texto original;

caso contrário, não foram alterados.

O símbolo adotado para o milhar neste texto é o cifrão.

A nova arte da capa original incluída neste e-book está em domínio

público.

Para fins de acessibilidade, um Indice foi acrescentado nesta versão.

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 22 / 22 段