Engrossava em Lisboa em tanto a peste de dia em dia; e indo já lavrando

por Santarem, temerosos muitos, que em razão da visinhança, prendesse

no Palacio, foi-lhe forçoso a ElRei dar-se préssa a sahir delle, e

acolher-se a Abrantes, Villa situada áquém do Téjo n’hum levantado

morro. E como a Rainha viesse prenhe, e mui perto do parto, nella aos 3

de Março de 1506 foi allumiada com hum Principe, a quem chamárão Luiz,

em cuja pessoa se demostrárão summa valentia, engenho, humanidade, e

fé christã; de maneira seus louvores sobírão, que de muito era tido

por merecedor do imperio do mundo. E bem que em toda a disciplina de

esforçado guerreiro, e na arte de General fosse egregiamente instructo,

e na sciencía do governo e outras liberaes sobresahisse e admirasse a

todos a virtude, que nelle mais esclareceo, foi o ardentissimo zelo da

Religião, em que tanto se abrazava, que sua alma bem que aposentada

ainda no corpo peregrinava quasi de contínuo pelo Ceo. No anno que

vamos correndo se apparelhou por mandado d’ElRei huma Armada para a

India, em que hia por Capitão Tristão da Cunha. Tambem em Lisboa se

amotinou por esse tempo o vulgacho; e tal foi o desatino e furia alli

erguida, que a pique estiverão os Judeos todos, recentemente como

dissemos, convertidos, de indignamente perecerem. O caso succedeo

assim. Tinhão pouco antes chegado a Lisboa muitos navios mercantes

da Belgia Franceza e da Alemanha, e a Cidade se achava mui nua de

Burguezes, por se terem della retirado em razão do contagio; muitos dos

que todavia tinhão ficado, se juntárão em 19 de Abril na Igreja de S.

Domingos para os Officios Divinos. Ha na Igreja da parte esquerda huma

Capella com a invocação do Senhor Jesus, mui devota, e mui frequentada

pelo entranhavel acatamento dos Fieis. Assenta sobre o respaldo do

Altar hum Crucifixo, em cuja chaga do Lado engasta hum crystal, que a

cobre: e ora como pozessem nella os olhos muitas pessoas, e com elles

a imaginação, e vissem sahir della hum luzeiro, entrárão a bradar:

_Grande milagre!_ pois que a Divindade Celeste se representava

alli com tão pasmosos sinaes. Hum daquelles Hebreos, que pouco havia

se alistárão nas bandeiras do Baptismo, negava a altos gritos haver

milagre; que nem n’hum lenho secco cabia poder fazello; e bem que

muita gente duvidasse do milagre, nunca convinha em tal occasião, nem

a tal sujeito empregar suas palavras e affinco em desmaginar hum Judeo

a gente, que tão encarnado tinha nos sentidos semelhante illusão. A

multidão, que naturalmente he dessisuda e assomada, eivada agora com

vislumbres de Religião, entrou a bramar de ouvir hum Christão denegar

credito a hum milagre. Tratão-no de aleivoso, e malvado Judeo, traidor

á Fé, cruel e deshorado inimigo, dignissimo de todos os tormentos e

da morte. Forão crescendo sobre elle os vituperios de toda a parte; e

tanto se escandece a cólera naquella mó de povo, que arremettem com o

homem, travão-lhe dos cabellos, levão-no de rastos, e atormentando-o

até o rocio, que espairece o Convento, e alli cruelissimamente morto,

o despedação: erguem subito huma fogueira, onde arremessão os troços

do cadaver. Accorreo a tal motim toda a gentalha, á qual hum Frade

fez huma prégação accommodada a despertar vinganças da Religião. Com

a mui azeda exhortatoria, a multidão que de seu natural toma subito

furor, disparou em vehemente feridade. Tinhão já dous Frades alçado

hum Crucifixo, e empuxado a plebe com altos gritos a matanças; e

alternando como em choro, bradavão: “_Heresia, heresia._ Dai cabo

della, que he maldita. Extingui esta gente abominavel.” Pojão em terra,

vindos das náos, Francezes e Alemães, e se entremêão c’os Lusitanos já

cevados na despiedosa chacina. Consta que computavão a 500 homens os

que emprehendêrão o facinorosissimo destroço. Atravessados de ruindade

e desatino, se arremessão a investir ferina e brutamente com os miseros

Judeos, degollão, apunhalão, e ainda palpitantes e com vida os arrojão

nas labaredas. Que naquelle mesmo rocio, em que o primeiro ardêra

pelo aggravo, que sentíra o povo delle, roncavão já para taes cruezas

amiudados incendios, por quanto com muito regozijo e préssa escravos,

e gente do mais vil jaez acarretavão lenhas, a que não desfallecem

chamas para a perfeição de tamanho desmandamento. Quebrarião corações

de bravias gentes os prantos lamentosos das mulheres, as magoadissimas

súpplicas dos homens, e os maviosissimos clamores tão geraes. Mas tão

despidos andavão de humano os enfrascados naquelle morticinio, que sem

perdoar nem a idade, nem a sexo, com antolhos para taes resguardos,

algozavão por maneira, que naquelle dia forão mortos e queimados além

de 500 pessoas dos Hebreos. E como o boato daquella carnificina se

espalhasse no dia seguinte pelas aldeias do termo, vierão dellas mais

de mil facinorosos verdugos aggregar-se ao bando dos malfeitores da

Cidade: com o que refrescou a morte e justiças. E em razão de toda a

familia Judaica se ter de temerosos escondido em casa, lhes arrombavão

portas, e entravão dentro a degollar, como carniceiros, homens e

mulheres e as donzellas mesmas, esmigalhando contra as paredes as

criancinhas, tirando pelos pés huns mortos, outros espirando, para os

lançarem nas fogueiras, e muitos mesmo cortados sómente de feridas,

consumião nellas vivos. Tal embaçamento se apoderou então daquella

miserrima gente e de seus sentidos, que nem lamentar seus mortos

conseguião, nem deplorar seus infortunios. Os homisiados nem soltar

ousavão huma só voz, despedir hum só gemido, ao ver arrebatar-se-lhes

os filhos, os parentes para o supplicio. Tanto os desmaiára o susto,

que dos mortos dessemelhavão os vivos! Saqueavão-lhes em tanto as

casas os desalmados, e punhão em montes ouro, prata, e preciosos

móveis; e se naquelle dia não morrêrão mór quantidade, foi pela ansia

que se davão os Francezes em roubar e acarretar a preza para os seus

navios. Chegou a tal ponto a furia daquelles sacrilegos, que devassavão

os Templos sem respeito algum a Deos, e delles arrancavão os velhos, os

meninos, e donzellas, que aos Altares se acolhêrão, que com as imagens

dos Santos se abraçavão, e que piedosamente imploravão o amparo de

Jesu Christo: logo alli brutamente lhes davão morte, ou vivos ao fogo

os arrojavão. Muitos, que só pela cara, ou qualquer outra parecença

jizavão pelo Judaismo, corrêrão risco de morte, e outros a padecêrão

por esse unico presupposto: e ainda varios ante de lhe averiguarem se

tinhão com os Hebreos connexão alguma, forão com pancadas, e com golpes

desfigurados. Muitos encontrando com inimigos seus, e appellidando-os

de Judeos, em seu sangue ensopavão as ferinas espadas, sem lhes dar

azo a refutarem o falso aleive. Não tinhão os Magistrados affouteza

tal, que ousassem atalhar o furor da multidão. Houve com tudo honestos

Cidadãos, que abrigárão, que defendêrão os Judeos, que a elles se

amparavão, subtrahindo-os a mortes cruelissimas, e pondo-os em seguro.

Morrêrão todavia além de mil em tal estrago: e já tornavão no dia

seguinte os malfeitores desatinados a renovar a carniceria; mas não

achavão a quem matassem; que quasi quantos tocavão á gente Hebrea, se

tinhão posto em cobro, fugidos huns, e encubertos outros em casa de

pessoas piedosas. Fizerão com tudo algumas justiças das costumadas:

em tudo morrêrão nos tres dias ao redor de dous mil Judeos. Sobre

tarde entrárão na Cidade acompanhados de soldadesca dous fidalgos

mui illustres Aires da Silva, e Alvaro de Castro, Regedores da Casa

da Supplicação e Desembargo, e com sua vinda acalmou o destroço. Por

quanto Francezes e Alemães com sobejo saque se recolhêrão logo a seus

bordos; e dando á véla, fugírão para suas terras a todo o curso. Logo

que D. Manoel ouvio a nova de tão insignes desacordos, ateou-se-lhe tão

violenta cólera, que despachou subito a Diogo de Almeida, e a Diogo

Lobo com suprema alçada a Lisboa, e que déssem a execrandos feitos

exemplar castigo. Grão numero de culpados pagárão com as vidas a pena

de seu desatino e crueldade; e os Frades, que arvorárão o Crucifixo,

e encommendárão taes ferezas, degradados antes com muita solemnidade

de suas Ordens, pois erão Sacerdotes, os enforcárão e queimárão. Os

que forão lentos em comprimir a furia popular, forão huns multados

em dinheiro, outros em honras: e a Cidade desfalcada em muitas

prerogativas.

Assim volvião em Portugal os negocios, em quanto á India navegava D.

Francisco de Almeida. Tinha tomado a monção tão tarde, que em parte

pelos temporaes, e em parte pelas calmarias, a muito custo dobrou

o Cabo de boa esperança, por se encontrar com o Inverno, que nessa

quadra por alli se assanha. E tambem porque enganados e transviados os

Pilotos, se enfiárão pelo Sul mais longe do que convinha, e por essa

razão lhes erão lá curtissimos os dias, andando-lhes o Sol mui ausente

para as plagas do Septentrião: e ainda lhos encurtava mais a espessa

nebrina, os destampados chuveiros, e as cargas de neve, que por seu

insupportavel frio incommodavão por demasia os nossos. Dobrárão em fim

o Cabo em 20 de Junho; e dobrado elle, mandou D. Francisco orçar mais

junto a terra a Armada; mas em 2 de Julho tão grossa tempestade lhe

veio repentina, que os mares acapellavão os navios. Por cabo applacadas

mais as ondas, descahindo para além das costas da Ethiopia, foi a

Armada surgir no porto de Quilôa, d’onde o Viso-Rei mandou saudar por

alguns dos seus o Rei daquella terra, que accusado de sua propria

consciencia e maldades commettidas, tinha na noite d’antes desamparado

a Cidade. Ficára porém Mahomet Ancon, de quem fizemos já menção. A elle

accorrêrão os soldados da guarnição, para que os dirigisse a rechaçar

da Cidade e muros della o impeto dos nossos. D. Francisco, que não via

vir de terra nem ElRei a visitallo, nem mandar-lhe satisfação deste

descuido, suspeitou logo delle como tão malvado, e picaro maquinação

de hostilidades. Pelo que assentou em investir com a Cidade; e como a

maré que enchia, batesse já nas paredes dos edificios, tirou por 500

homens de brio; a vanguarda dos quaes composta de 200 soldados, confiou

de seu filho, mui valente mancebo; e outros 300 guardou comsigo.

Já nesse tempo cortado de pavor, tinha Mahomet fugido da Cidade.

Entrou pois desaffogadamente nella o Viso-Rei; mas de que ninguem lhe

tolhesse a entrada, desconfiou que houvessem ciladas encubertas, para

cahir sobre os nossos entretidos no esbulho, e dispersos por sobeja

seguridade: pelo que parando alli, mandou seu filho que se adiantasse

com muito tento, e averiguando e não consentindo que os soldados se

desmandassem. Havia na Cidade extrema solidão, ficárão nella poucos, e

esses tão entranhados de modo, que nem acordo tomavão para fugir, nem

para ficarem. Por mandado de Almeida se juntou n’huma grande casa a

preza toda, e com muita equidade se distribuio entre os soldados, de

que o General tirou para si huma só flécha. Dahi cuidou em edificar

huma fortaleza perto da praia, em lugar conveniente e d’onde repulsar

podésse os accommettimentos dos inimigos. Em quanto a fortaleza hia

subindo, mandou dizer por hum mensageiro a Mahomet Ancon e aos mais

habitadores, que tinhão de que dar graças a Deos de se verem vingados,

e livres da dominação do cruel e perfido tyranno, pelos auspicios

e singular benignidade do Optimo e Potentissimo Rei D. Manoel.

Advertindo-os tambem, que considerassem nas fraudes, nas insidias,

flagicios, e injúrias gravissimas, que tinhão soffrido daquelle injusto

malfeitor: o que ao revéz seria d’ora em diante, em que os governarião

com singular equidade, em que cada qual conservaria seu direito contra

a malevolencia, perfidia, e assômo de tal homem. Que elle se empenharia

a que fortalecidos pelas armas Portuguezas, rebatessem facilmente todos

os aggravos de seus inimigos: e por lhes dar mais confiança, no por

vir queria nomear-lhes por Monarca a Mahomet Ancon, de quem e de cuja

bondade e fé, como tambem de sua real prudencia tinhão mui abonada

experiencia. Que viessem pois pactear alliança c’huma amicissima Nação,

e desfructarem seus haveres a seu sabor. Com gosto foi a nova acceita,

e com faustos vivas trazem jubilosos a Mahomet n’hum formosissimo

cavallo campeando. Então Almeida em nome d’ElRei de Portugal o investio

da soberania, coroando-o de sua mão, cobrando sómente delle hum

toleravel tributo em cada anno; e jurando Mahomet mui fielmente de ser

para sempre sujeito ao Senhor D. Manoel, e nunca faltar á pontualidade

do tributo concertado.

Entre estes acontecimentos chegárão a D. Francisco de Almeida dous

Capitães, Gonçalo de Paiva, e Fernão Bermudes, que elle mandára a

Moçambique para explorar de que animo estava o Xeque da ilha ácerca

dos Lusitanos, e se por cartas, que nella os nossos em tal carreira

tivessem deixado, se podésse rastrear o que se passava pela India.

Davão os Capitães por nova, que na ilha tudo estava socegado; e

mostrárão cartas de Francisco de Albuquerque, e Lopo Soares por elles

encommendadas ao Xeque de partida para Lisboa, notadas todas de

prósperas noticias. E ora aconteceo, que o novo Rei Mahomet vindo,

segundo a usança, a saudar a D. Francisco de Almeida, lhe pedio mui

reverente mandasse soltar os Arabios, que prisioneiros tinha; o que

mui voluntario lhe concedeo o Viso-Rei; e Mahomet, quando summamente

lho agradecia, interpoz outro requerimento de mór primor, dizendo:

“Muita amizade e conversação, firmadas em santissima alliança, tive

eu com Alfudail, o Rei de Quilôa, que este tyranno insidiosamente

matou, depois de o despedir do Reino. Que se Alfudail vivêra ainda,

certo estava eu em lhe ceder a realeza; por quanto homem sou, em quem

prevalece a fé e o dever a quantas reaes riquezas ha: mas pois da vida

he desfalcado, te peço e supplíco me outorgues convidar seu filho

a que venha herdar de mim o Reino. Tenho (assim he) filhos, que a

meu parecer não são todavia indignos de reinar; se porém meus filhos

preferir para a successão do Reino, aos filhos do Monarca defunto, com

quem mui estreitamente vivi, affigurar-se-me-ha ter contrahido perpétua

nódoa de ignominia, que não só me deslustre, mas que a toda a minha

posteridade seja opprobrio. Pelo que antes quero deixar a meus filhos

hum transumpto de honra e de fidelidade, que testar-lhes amplissimo

patrimonio.” Causou assombro grande semelhante pedir; que reparavão

os nossos, em que homem cevado em doutrinas de Mafoma, cultivasse

tal pundonor em amizade, com tanta alteza de animo desprezasse reaes

dominios, e tão francamente antepozesse as obrigações devidas para

com seu amigo morto á affeição de seus filhos. Todos á competencia o

exalçavão, e pelo unico motivo de querer transpôr de seus proprios ao

filho de Alfudail o Reino, o canonizavão dignissimo de reinar. Chamárão

pois o Principe, e por ordem de Almeida se incumbio aos Cidadãos

jurarem de acceitarem por seu Rei aquelle real mancebo, morto que fosse

Mahomet.

Tudo assim assentado, nomeou o Viso-Rei por Capitão da fortaleza a

Pedro Ferreira Fogaça, a quem mui miudamente prescreveo quanto era

importante para a guarda della: de lá se fez á véla, e em quatro

dias embocou a barra de Mombaça, tendo mandado diante a sondar o

porto Gonçalo de Paiva. Trazia este comsigo dous Pilotos Arabios,

que conhecião e erão mui praticos naquella entrada: e em quanto

prefazião as ordens, foi chegando á torre; os que alli erão de presidio

varejavão-lhe a náo com pedrisco de balas, a que elle respondia,

abalando a torre com mais grossa artilheria. E como succedesse que huma

bombarda nossa désse no paiol da sua polvora, ou que algumas faiscas

cahissem sobre materia facil de atear-se, erguêrão-se labaredas, e

os soldados do presidio amedrontados, desamparão a torre, para se

acolherem fugidos á Cidade. Concluido este feito, e bem sondada a

profundez da enseada, veio Gonçalo de Paiva dizer a D. Francisco, que

não havia perigo de baixos; e assim mandou o Viso-Rei a Armada tomar

ancoradouro defronte da Cidade. De lá enviou hum dos Pilotos advertir

ElRei, que não viera alli com animo guerreador, mas antes que seus

navios entrárão no porto de Mombaça com o fito de attentarem por sua

dignidade e salvamento. Que tanta era a virtude e benignidade d’ElRei

D. Manoel, que gozavão de melhor condição os que se lhe avassallavão,

que quantos sujeitos erão a leis dos mais poderosos Imperadores. Tanto

mais, que desajudados de amparo de outrem, lhes seria mui custoso e

mui arriscado resistirem sós a seus contrarios. Que abrigados da

sombra e pujança de tão bom Monarca, lhes fora mui facil descartar

de suas cousas todo o aggravo de inimigos. Nem seria deslustroso a

ElRei de Mombaça sujeitar-se a hum Soberano, a quem na Africa e nas

Indias pagavão páreas. Se porém assim o fizesse, o teria sempre em

conta de fidelissimo Monarca, e alliado de D. Manoel seu Amo, e nada

omittiria do que tocasse á sua dignidade e segurança. Mas no caso de

o não fazer assim, que lhe seria forçoso violentallo a que acceite o

dominio d’hum Optimo Rei, e nelle viva mais affortunada vida. Com este

recado partio o Piloto Arabio; mas os Mombacezes não consentírão que

saltasse em terra. “Que se nella (dizião) punha os pés, o espedaçavão.

Arreda-te, e já, daqui; e vai denunciar ao Lusitano, que atéqui o houve

com as mulheres de Quilôa, e que agora com homens valentissimos o tem

de haver. Que venha experimentallo, e sentirá então, que por grão

desastre seu trouxera ao porto de Mombaça a Armada sua.” Apenas soube

tal o Viso-Rei, que logo naquella noite mandou a João da Nova com mais

outro Capitão, que tornassem algum dos moradores, do qual colhesse

os intentos d’ElRei, e quaes trópas o guarnecião. Pojárão elles mui

surdamente praia, e subito arrebatão hum homem, que se achou ser hum

dos criados particulares d’ElRei, e prezo o navegárão a D. Francisco.

Muito assustado lhe deo conta, que sabendo ElRei de Mombaça estar

Quilôa tomada pelos Portuguezes, além dos soldados que já tinha, tomára

mais 4$000 circumvisinhos a seu soldo, e esperava ainda por outros

2$000. Que tinha mui reforçada artilheria, e estava tão petrechado de

tudo, que confiava rechaçar de seus muros e de sua Cidade exercitos

mais poderosos que o nosso. Nem por isso desistio Almeida de investir

com a Cidade. Pelo que mandou diante no dia seguinte a seu filho

D. Lourenço com outros Capitães, que quantos tomassem terra, e com

arremessões de fogo incendiassem a parte da Cidade, que olha contra a

praia; o que elles tão rapidos exercêrão, que inda os contrarios não

acudião a resistir-lhes, quando as chammas lhes comião já as casas.

Vem já então impetuosos bandos arremeter com os nossos, que lhes fazem

valeroso rechaço: enlea-se a peleija, em que acabão 70 inimigos, e

2 sómente nossos. Reparte-se em dous cuidados a Cidade, que d’huma

banda os chamava o grande vulto do incendio, que pedia atalho, porque

tudo não perecesse; d’outra parte os Portuguezes, com quem competia

batalhar. Tanto porém medrou a fogueira, que de lhe não poder soster a

quentura, foi relevante aos nossos embarcar-se mais que de passo nas

lanchas, e acoutar-se nos navios. No dia seguinte antes de amanhecer o

Viso-Rei poiou em terra as trópas; e tanto aclarava as trévas da noite

o incendio que durava ainda, que se podia distinguir na praia não haver

lá inimigos, que estorvassem o desembarque. Temendo-se porém de alguma

cilada, não quiz D. Francisco assaltar a Cidade antes de luz clara. D.

Lourenço, como seu pai lho ordenára, se tinha transferido a outra parte

della, que havia de investir, e onde não havia muralhas, que o rompente

lhe impedissem. Arremetêrão pois com a gente armada, que pejava as

ruas; e como estas erão estreitas, as casas altas com eirados, porque

em lugar de telhados são por cima rasas e com parapeitos, delles e das

janellas os cubrião de pedradas e arremessos, de maneira que se vião os

nossos atalhados, e sem poder ir no seguimento dos inimigos, que hião

cedendo. Usar da artilheria grossa nem miuda não podião, que lho vedava

a estreiteza das ruas; pelo que alguns dos nossos remettem ás portas

das casas, arrombão-nas, québrão gonzos e ferrolhos, trepão andares,

e a gran risco surgem pelos eirados: e como as casas são tão juntas,

que se prendem huns eirados a outros, varrem de gente toda aquella

ilha de casas, de maneira que folgão a passagem aos nossos da rua.

Como porém os inimigos tivessem alluido as paredes d’huma das casas,

atravancou-se-lhes com os destroços a rua. D. Lourenço de Almeida

tomára a dianteira, e vinha na retaguarda João da Nova; mas co’as

pedras e caliça, que se atravessárão entre ambos, ficárão tão arredados

huns dos outros, que se não podião ajudar. Aqui entrou de novo a

granizar das janellas e eirados tal cerração de tiros e arremessos,

que se vírão os nossos em grandissimo perigo, e forão obrigados a

romper por outras casas, e saltando destas a aquellas, e matando aqui

muitos, acolá rebolcando-os dos altos eirados, desmanchárão o perigo,

que os atribulava. D. Lourenço, que entendeo o sobroço em que estavão

os do presidio, acudio lá a soccorrellos, a tempo já que se tinhão

desempeçado delle; e assim juntando-se huns a outros, guiárão as

trópas a Palacio, onde já se achava Pedro Bermudes, a quem o Viso-Rei

confiára a guarda. Delle souberão então como D. Francisco d’Almeida

mui cavalleirosamente derrotára os inimigos até penetrar em Palacio,

e com que pavor estremecido ElRei se fora da Cidade. Foi D. Lourenço

buscar seu pai, que n’huma das ruas peleijava mui brioso c’hum troço

de bastos inimigos, com o impeto com que nelles carregou, pozerão pés

em fuga, e com carreira incrivel se embrenhão nos cerrados matos, onde

se escondêra ElRei. Os nossos depois de refeitos hum pouco do cançaço,

saqueão a Cidade, onde não foi grande a preza, porque tinhão os

inimigos mudado para as brenhas a maior e mais preciosa parte de seu

haver. Achárão com tudo muitas armas e trabucos; e pela conta se achou

terem morrido nesta rota 1$500 dos contrarios, e além de 2$000 cativos,

200 dos quaes sómente, e esses os mais principaes e mulheres estremadas

deixou ficar o Viso-Rei, dando liberdade a todos os demais. Faltárão só

dos nossos 5, e entre elles Fernão d’Eça, de nobilissimo nascimento, a

quem atravessára o pé huma setta hervada: houverão muitos feridos. Por

ordem de Almeida se deitou novo fogo á Cidade.

Negocios taes entretinhão o Viso-Rei, quando se veio a elle Vasco Gomes

de Abreu, cuja náo com a tormenta se desgarrára da mais conserva; e

então fizerão derrota para Melinde, mas tanto arribárão de sua via

por força de correntes, que vierão a dar n’huma enseada, que dista

24$000 passos de Melinde; e nessa enseada se encontrou D. Francisco com

mais duas náos tambem alli arribadas com a tempestade. D’huma dellas

era Capitão Lopo Chanóca, e da outra João Homem, Varão mui singular

pelas forças corporaes, e do animo; mais habil todavia nas artes de

soldado, que nas de General. E ora como desejasse muito o Almeida ver

a ElRei, fez com tudo o máo tempo que não podendo sahir da Armada, o

enviasse saudar, e presentear com as dadivas do Senhor D. Manoel: ao

que ElRei de Melinde respondeo, mandando seu irmão com muitos refrescos

e outros dons, e com recado do muito que sentia ser privado de sua

conversação. Daqui partírão para Anchediva, a cuja ilha abicárão em

13 de Setembro do dito anno de 1505, e lá por cartas de Gonçalo Gil

Barbosa, encommendadas para o primeiro Commandante, que de Portugal

alli chegasse, foi informado, que tinha já grande copia de especiaria

junta, que podésse muitos navios carregar; e que se esperava ainda

por 3 náos da Arabia, provídas de abastada mercancia: que se algumas

náos nossas andassem naquella ilha a corso, lhes não podião escapar.

Sabendo isto o Viso-Rei, despedio a João Homem, que fosse dar parte

de sua chegada por Cochim, Cananor, e Coulão, e avisasse os Feitores

d’ElRei a pôrem sua industria em achegar á praia as fazendas, de que

as náos se havião de carregar. Encommendou a Lopo Chanóca, e a Gonçalo

de Paiva guardassem aquellas costas com tal desvelo, que lhes não

perpassassem de vista as náos, que se esperavão. E elle cuidou em

lançar os alicesses da fortaleza n’hum sitio pouco distante do mar;

e quando os abrião, derão c’humas paredinhas assinaladas de muitas

cruzes negras, e vermelhas, o que deo a suspeitar, que fora antigamente

aquella ilha frequentada de Christãos. Ajudada de muitas mãos, medrou

em pouco tempo a obra a subida altura, que fidalgos á volta de peões

sem isenção laboravão nella. Chegou em tanto Manoel Peçanha, que D.

Francisco de Almeida encarregou de parte da Armada antes de dobrar

o Cabo de boa esperança; com elle vinha Antão Vaz; e Gonçalo Vaz de

Goes ficára em Quilôa, porque assim lho mandára o Viso-Rei; e Lucas da

Affonseca invernou em Moçambique; Lopo Sanches com toda a sua companha

soçobrado dos mares perecéra, e 5 unicos, que do naufragio sobrestárão,

meio-mortos os recolheo Pero Barreto em seu navio. Capitães estes

forão do troço da Armada, que commandára Manoel Peçanha, de quem soube

Almeida, que Habraemo, o tyranno que elle despojára do Reino, tratára

de armar ciladas, em que désse morte a ElRei Mahomet. Que para melhor

urdir sua traição, mandára hum homem mui valente, que com cores de

amizade se insinuasse na conversação de Mahomet, e que este ao querer

matallo, lhe varára o braço com huma agomia; mas que não fora mortal a

ferida, e que o traidor fora colhido ás mãos, e pagára a pena de seu

delicto atormentado e morto. Não tardárão muitos dias o Chanóca e Paiva

a entrar com prêa de navios, e entre elles muitos de Arabios: nos quaes

zambucos se comprehendia hum bergantim, que trazia hum Portuguez, por

quem Barbosa mandava ao Viso-Rei cartas, dizendo-lhe ter já entrado em

Calecut huma daquellas tres náos, que lhe apontára virem da Arabia; que

as duas porém ainda as esperavão. Que na náo, que já surgíra no porto,

sabia que vinhão quatro Venezianos enviados pelo Imperador do Egypto,

que Soldão nomeão artifices de peças de artilheria, que lhos tinha

assim pedido o de Calecut por cartas. Rezavão mais as noticias, que o

dito Soldão aprestava contra nós grandissima Armada, e em Calecut com

muita diligencia se incumbião a prover a guerra. Segundo estas novas,

determinou Almeida a Chanóca e Paiva tornassem a atalaiar aquelles

mares, e cruzallos mui diligentes, que se lhes não esquivassem as

outras duas náos, em quanto elle preparava huma galé real, cuja madeira

trouxera de Portugal já lavrada, e a guarneceo de remeiros Arabios

cativos, dando-lhe por Capitão a João Serrão, juntando-lhe mais dous

bergantins, hum dos quaes governava Simão Martins, e o outro Diogo

Dias, que aquelle mar guarecessem de invasão de adversarios.

Alli lhe mandou commetter alliança e paz por seus Embaixadores ElRei

de Onor (dista a Cidade de Onor 32$000 passos de Anchediva). Nesta

Cidade se achava então o pirata Timoja, de quem fizemos já menção,

que inclinado a concertar ajustes com Almeida, intermeava com ElRei

de Onor nesta alliança. O Viso-Rei recebeo suas homenagens, e delles

soube que não longe dalli ficava a fortaleza de Cincatura, mui bem

munida, e pertencente ao Rei de Decan, e que o Governador della era

pago pelo Sabayo, que como dissemos dominava em Goa. Tinha ElRei de

Onor amiudadas guerras com o Sabayo. D. Francisco disse a seu filho D.

Lourenço, que fosse sondar a altura do porto, e este com os Capitães

que lhe derão, se foi á fóz do rio, que corre ao pé da fortaleza, e

achou beber 30 pés de sonda, e 50 mais adiante. Vio que a fortaleza

assentava sobre hum tezo, e que os soldados della apenas avistárão

nossas lanchas: tinhão accorrido á praia, que orçarião por 1$000, e

mui bem armados: sómente vinhão 8 de cavallo, e entre elles hum era o

Capitão da fortaleza. Levantárão os nossos bandeira de paz, e o Capitão

logo que a vio, se encaminhou a D. Lourenço, e com elle ferio pazes;

presenteando a D. Francisco com abandosas fructas, e outros refrescos,

com que seus soldados refizessem as forças. Passados depois nove dias,

mandou Embaixadores ao Viso-Rei, para com maior solemnidade celebrar

alliança.

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 19 / 22 段