homens, que o entendimento dellas inteiramente decahíra; e ainda

a lingua mesma, em que estavão estampadas, mui poucos a conhecião.

Encommendavão ao Bramane, que ao Altar subisse; mas elle que tinha

por grande sacrilegio devassar com os pés lugar, em que se operavão

Divinos Sacrificios, resistia. Subio com tudo bem a seu máo grado, e

foi lendo as letras, cada huma das quaes (disse elle) desempenhava

funções de dez outras, e de 15, e de 20. Ora a substancia destas se

cifrava assim: “No reinado de Sagam veio mandado a estas regiões pelo

Filho de Deos, de quem era discipulo Thomé, Varão divino, para aquellas

gentes doutrinar na noticia de Christo. Alli edificou hum Templo, e

obrou grandes maravilhas, até que estando, affincado em geolhos ante

aquella Cruz, desfazendo-se em rogativas a Deos, certo Bramane com huma

lança o traspassára, e a dita Cruz alli ficára tingida com o sangue do

santissimo Doutrinador, deixada em perenne lembrança.” Téqui o conteúdo

na Escritura. O que lhe deo maior abono, foi vir alli outro interprete

da mesma Seita, muitissimo velho, e de sitios mui arredados, pessoa

de grande opinião de saber, que a summa das taes letras explanou na

mesma substancia. Hum traslado da Cruz, entalhado em taboa de igual

madeira á de que foi construida a Igreja, tenho eu em meu poder com

públicos instrumentos de certificação de muitas, que a averiguárão, e

com argumentos taes, que impossivel he agora duvidar dos testificados

feitos do divino Apostolo. Tive por bem entrançar nesta historia estes

casos, para que melhor se entenda quão illustres monumentos do illustre

S. Thomé conservão estes Christãos Indianos.

DA VIDA E FEITOS

D’ELREI D. MANOEL.

LIVRO IV.

EM quanto hião na India os successos que apontámos, apparelhava ElRei

D. Manoel poderosa Armada, que lá mandasse; e nella a D. Francisco de

Almeida, varão de singular valor, com o titulo de Viso-Rei e supremo

governo em todo o Oriente. E por quanto queria em parte lançar lá os

alicesses d’hum Imperio; e por outra parte evitar perigos de vida aos

Portuguezes, que alli mercadejavão, e sobroço aos Reis alliados, em

razão da inclinação que demostrassem pelo nome Lusitano, assentou pôr

na India tal Capitão, que com sua industria, lealdade, e vigilancia

o conseguisse. Neste anno, que foi o de 1505, mandou a Roma Diogo

de Sousa, e a Diogo Pacheco, assinalado Jurisconsulto, e Orador mui

abalizado, que em seu nome prestassem obediencia ao Papa Julio II.,

que com summo consentimento dos Cardeaes subíra a aquella excelsa

dignidade, e lhe pedissem que pois as guerras, que sostinha em Africa,

se não guerreavão sem grandes despezas, concedesse do thesouro da

Igreja algumas indulgencias aos que voluntarios concorressem para

ellas com suas esmolas. Tambem pela mesma sazão veio ter com D. Manoel

Fr. Mauro, Religioso Franciscano de mui acreditada reputação, que por

então era Guardião do Convento de Monte-Sião em Jerusalem. Tinha esta

sua visita por motivo, que o Soldão d’Egypto e da Syria, molestado

das graves offensas, que nas cousas de sua competencia tinhão os

Portuguezes commettido, dera a este Fr. Mauro cartas para o Summo

Pontifice, encarregando-o que pela authoridade e religião, de que era

revestido, voltasse o Papa Julio do bordo que elle desejava. O que

vinha contendo nas cartas era: Que dos Reis de Hespanha muitos aggravos

tinha recebido, por quanto Fernando de Aragão invadíra com exercitos

a Andalusia; e dos Sarracenos, que a possuião, huns matára cruamente,

outros esbulhados de suas fazendas, forçára a desterrarem-se; e os

que nella ficárão, com durissima dominação opprimia violento; e o que

mais grave se sentia, era o obrigallos pela força a abraçarem a Lei

Christã: Que nem entre Christãos, nem entre Mahometanos era permittido

constranger alguem a detestar a Religião, em que fora criado: Que

lhe não era possivel dissimular o estrago, e insulto perpetrado

contra o direito commum, nem as injúrias infligidas á Religião: Que

ElRei de Portugal com suas Armadas infestava a India, prejudicando,

e aggravando os que da Arabia e do Egypto a ella navegavão, não

escapando as náos mesmas do Soldão de ser rendidas e queimadas: Que

nenhum direito o consentia; pois não podião os Lusitanos dizer, que

desaggravavão insultos a elles offerecidos: antes por obra, e cruezas

delles derivavão para outros portos muitos dos direitos, que elle

arrecadava: Que até á hora presente tivera elle Soldão muito a ponto,

que aos Christãos habituados na Syria ou no Egypto, os que alli

negociavão, ou peregrinavão ao santo Sepulcro, se não désse vexação

alguma. Mas que se os Reis de Hespanha continuassem a molestar assim a

gente Mahometana, então lhe seria forçoso maquinar ás Nações Christans

toda a perdição, e acerrima vingança ás injúrias recebidas. Que daria

morte a quantos Christãos se encontrassem por seus dominios, que lhes

demoliria as Igrejas, e até o santo Sepulcro, e daria traça, com que o

nome Christão fosse apagado de seu Imperio: Que outro sim tinha em seu

animo, em desaffronta de taes delictos, aprestar poderosissima Armada,

com que gravissimos damnos acareasse a muitas regiões da Europa;

advertindo o Papa Julio, que se quizesse atalhar supplicios e morte a

numerosissimos Christãos, conservar os Templos, que ainda pela Asia e

pelo Egypto estavão em pé, resguardar o santo Sepulcro, e repellir de

muitos confins da Republica Christã a devastação e incendio, tratasse

com D. Manoel, que não mandasse mais Armadas á India: sem o que não

se esquivaria a Europa de sobejas mortandades. Logo que Julio taes

cartas recebeo de Fr. Mauro, por elle mesmo mandou traslados dellas

a ambos os Reis de Hespanha, e por outras suas lhes requeria, que

resposta tinha de enviar ao Soldão. A que Fernando lhe deo não podémos

alcançar; mas a de D. Manoel hia nesta substancia. “Vi, Santissimo

Padre, as cartas, que de Vós me trouxe Fr. Mauro, e com ella a copia

da do Soldão, em que se queixa de aggravos, que aos Mouros Granadinos

fizera o Senhor Rei D. Fernando, a quem, como a amantissimo venero e

honro, como tambem dos damnos, que em gravissimos termos argúe terem

dos Portuguezes padecido na India os Sarracenos. E nisso sem querer

dá maior vangloria ao nome nosso, em mostrar quanto cada qual de nós

he infesto aos Sarracenos. Que fazer póde hum Principe Christão de

mais apto, nem de mais formoso para sua perduravel gloria, de que

envidar todo o affincamento seu em arrancar a pestifera e nefanda

superstição de Mafamede, e delir o nome d’hum facinoroso usurpador?

Arremette-nos depois com ameaças, e com barbara soberba e crueldade

nos alardea terrores, como se os que peleijamos pela Fé espavoridos

de atrocidades de palavra, desistiriamos logo da emprehendida facção,

e da causa da santissima Religião, que abraçado temos. Dar-lhe-ha meu

sogro, o invictissimo Fernando, resposta mui conforme ás proezas tão

preclaras por elle concluidas, mui conforme a seu valor e sabedoria.

O que eu desde já sei he, que nunca lhe metteráõ tanto medo as

barbaras ameaças do inimigo, que se arrependa de sempiterno renome,

que adquirio com libertar a Hespanha da Arabica tyrannia. De mim

posso affirmar, Santissimo Padre, que a minha maior angustia he não

ter acudido o tyranno Soldão com mais pezada somma de queixumes, de

que estimulado então rompesse em mais minaces termos, em vingança dos

recebidos prejuizos, de maneira que aos que por valentias quebrantar

não pôde, cuidasse em intimidallos com mal-baratados feros. Que quando

nós propendemos em romper ás nossas Armadas o caminho para a India, e

investigar regiões desmaginadas de nossos Maiores, foi com animo de ir

decepar a cabeça da seita Mahometana, d’onde tão más obras infestissimo

o demonio verteo pela redondez da terra, e para acabar d’huma vez com

aquella Méca situada na Arabia, e onde jaz o moimento de Mafoma, com

estrago de Lusitanas armas. Se porém não condisse atéqui o succésso

com o desejo, muito o sentimos; mas ainda nos acena a esperança,

ajudada do Summo Deos, que alguma hora o conseguiremos; para o que já

com sua industria e valor lanção os Portuguezes as primeiras pedras.

Para quando esses baluartes de Mafamede forem derrocados e esparzidos,

e essa terra, que tamanho monstro sustentou, e que inda hoje taes

reliquias tem no collo, for talada e destruida, guarde elle essas ôcas

ameaças, então urre de cólera o barbaro Soldão; e não agora, que tão

leve o arranhárão. Quanto á assolação a ferro e fogo na Europa, a ruina

do santo Sepulcro, e carnificina de Christãos, não ha sisudamente que

recear das quiméras de seu vasio dizer: que não he para hum inimigo

avaro consentir em agorentar direitos, que com a peregrinação christã

lhe avultão, e os grandes uteis, que lhe provém de frequentação nossa,

se os lugares santos demolíra: nem he elle tão desassisado, que fazendo

esse aggravo a toda a Republica Christã, queira assanhar contra si os

animos de todos, e convertellos de suas reciprocas dissensões em seu

proprio damno e ruina. Que só he a affronta e deslustre commum juntar

animos discordantes, e metter esporas no castigo de soberbissimos

aggressores. Que não se deslembra tanto a gente Catholica da sua

santissima Religião, nem de seu antigo pundonor, que deixe sem

castigadora vingança tão descomposto insulto. Pelo que não duvido, que

se tal estrago o Soldão commette, todos os Christãos ora mancebos, ora

velhos acudiráõ de todo o mundo, a vingar com estreitissimas vontades

desacato semelhante. Elle que bem o percebe, não será tão louco, que

armar queira contra si e seus interesses tamanho desastre. Muito me

lastíma, que nossos Principes Catholicos com as discordias suas déssem

aberta a tantas soberbias do tyranno, que ouse atrózmente ameaçar

com feros a aquelles; que seu imperio, que seu nome tão facilmente

desbaratar podião. Pelo que, Santissimo Padre, não só encommendo e

admoesto, mas ainda supplico e rogo huma empreza digna da virtude de

hum Papa, digna de seu saber e zelo, digna de quem nesse lugar prefaz

em amplidade e santidade as vezes de Jesu Christo, que he trazer á

concordia com essa sacrosanta authoridade os Principes desavindos,

e levarem com bem congraçados animos suas bandeiras á Asia, e á

Africa, e lá derribarem de seu estado o inimigo, que não seu proprio

esforço, mas o descuido dos Christãos tornárão insolente; e rasparem

inteiramente dos annaes do mundo o nome de Mafamede. O que fazendo,

illustre estrada vos franqueareis para os Ceos, e encommendareis á

eterna lembrança o nome vosso. Que já do Pontifice Alexandre, cuja

Sede occupais, alguns Principes Christãos juntamente comigo a grande

instancia o requerêrão: e talvez que então não houve effeito, por vos

guardar Deos este assumpto de immortal louvor e gloria. Em quanto á

resposta, que por cartas nos pedis notada para o Soldão, nisso conhece

a humanissima vontade, e plenidão de affecto vossa, ácerca da qual nos

desempenharemos com o religioso obsequio, zelo e veneração, que vos he

devido. Que nos não cabe prescrever á vossa intelligencia, nem á do

gravissimo Collegio dos Cardeaes, o que se ha de responder ao Soldão;

mas descubrir-vos unicamente qual seja o nosso pensamento, e o que no

animo revolvemos. Para vo-lo dar pois a entender, digo: Que homem sou

eu, a quem nenhumas ameaças, nenhuns terrores, nenhumas difficuldades

arredaráõ de vir ao cabo, do que huma vez emprehendi; pelo que todas

hei de atezar as cordas do engenho, a quebrantar com a mais disferida

guerra, e humilhar a ousadia desse ferino e insolente adversario.

Rogo a Jesu Christo Nosso Senhor, que com seu divino espirito robore

o entendimento de Vossa Santidade, para que sempre governe como téqui

a Igreja Catholica com grande gloria sua.” Com esta carta, e muitos

mimos e presente, despedio ElRei D. Manoel a Fr. Mauro; e este com

outra, que tambem recebeo d’ElRei D. Fernando, partio para Roma, e de

lá com cartas do Pontifice Romano tornou para o Soldão; o qual dellas

colheo muito, bem que não com feros, mas com valor requeria peleijar

com o Lusitano. Cuidou por tanto em apparelhar huma grossa Armada (de

que depois fallaremos), com que prostrasse na India os Portuguezes.

Chegou neste anno Soares a Lisboa; e posto que d’ElRei e de toda a

Nobreza bem agasalhado fosse, todos os olhos com incrivel admiração se

empregavão em Duarte Pacheco, que com elle vinha: por quanto com muitos

louvores exalçavão até ás estrellas a despedição, com que se houvera

na guerra, a grandeza de animo nos perigos, a constancia e soffrimento

nos trabalhos, e a ventura no concluimento das batalhas. ElRei mandou,

que em seu nome houvessem orações, e foi em Procissão desde a Sé com

muita pompa até o Convento de S. Domingos. Com elle hião todos os de

sua Casa, e a seu lado hia o Pacheco, para que vissem todos como Sua

Alteza honrava o merito. Entrados na Igreja, D. Diogo Ortiz, Bispo de

Viseu, homem mui perito nas santas Escrituras, e bem fallante, fez

hum aceado Discurso, em que afformoseou com mui nobres periodos suas

admirandas proezas; por hum modo todavia, que á maior gloria do Senhor,

pia e santamente, como justo era, as arrogava todas. Não satisfeito

ainda ElRei D. Manoel, escreveo a quasi todos os Principes Christãos

cartas recamadas de louvores devidos ás façanhas de Pacheco, para que

seu nome em toda a Christandade com resonante gloria se espalhasse.

Para que porém entendamos quão falsarias são as humanas confianças,

não será desacerto cifrar aqui quaes forão os galardões, com que por

ultimo pagos forão os serviços de tão valerosissimo Varão. Entendendo

ElRei, que Pacheco ficára muito atenuado, por ter consumido em guerras

o pouco que possuia, e que da India só comsigo trouvera (capitaneando

com esforço e ventura tão guerreadas peleijas) egregio renome, o

nomeou Governador de S. Jorge da Mina, Cidade da Ethiopia, donde sóhe

vir muito ouro a Portugal, para que em tal governo olhasse por seus

interesses. Mas como andassem ateadas nelle as invejas de muitos,

estas crestárão sua probidade e honra por modo, que o accusárão de ter

defraudado a ElRei de grandissima quantia de ouro, e de muitos outros

crimes, e máos feitos. Pelo que mandou Sua Alteza lho trouxessem com

ferros aos pés a Portugal, onde lançado n’hum calabouço miserrimamente

jouve, até que examinados com mais apuramento os capitulos, sahio

claro, que os delictos que os inimigos lhe imputarão, erão em parte

falsas, e em parte leves. Então he que o despejárão dos grilhões, e lhe

restituírão as honras, sem com tudo o proverem da recompensa merecida

por tão inclyta virtude: assim viveo indigente vida. Tanto póde o que

máos insinuárão nos ouvidos dos Reis, inda os mais extremados, que os

desvião muitissimas vezes de acudir com os dons devidos á virtude,

que he aonde mais reluz a grandeza do real elogio. Nesse mesmo anno

reformou ElRei muito nas Ordenações antigas, muito accrescentou; e em

quanto ás rendas, muitos bons Decretos publicou, e poz muito desvelo

em demarcar os prédios destinados ao serviço de casas Religiosas, de

peregrinos, e de Hospitaes. Quasi por esses dias levantou, com licença

d’ElRei huma fortaleza João de Sequeira sobre o Cabo de Guer, na região

da Ethiopia, appellidada Gadanabar, a qual depois, como a não podésse

conservar, cedeo a ElRei, que lhe retribuio com magnificencia regia o

trabalho e despezas, que alli pozera. Veio depois o mez de Outubro, em

que accommetteo a Lisboa hum ar pestifero, que levou da vida a muitos,

e a D. Manoel lhe foi forçoso retirar-se a Almeirim. Estava nessa

occasião em Arzila Francisco Pereira Pestana, fidalgo mui valente,

que grandes mostras de seu brio dera já em mui arriscados combates:

ora tendo havido de D. João de Menezes (que como dissemos governava

então Arzila) 70 Cavalleiros, se foi com elles a hum Aduar, que ficava

no topo d’hum monte mui levantado. Sahio de noite, para se ir pôr de

embuscada á vista do Aduar. Vierão sahindo, apenas amanheceo, os

montesinos do lugar com seus rebanhos e armentios ao pasto: então he

que lhes deo o Pestana de sobresalto, os affugentou; e rebanhando

comsigo as rezes todas, poz-se com a preza em direitura de Arzila.

Eis-que os Mouros apupando d’huns a outros, como usão para sinal,

appellidárão todo o contorno; com o que acudírão muitos Cavalleiros,

que se pozérão em rapido seguimento do Pestana; que como podia lhes

quebrava o ardimento, indo sempre recolhendo-se á fortaleza; e ás

vezes voltando-se a elles de galope, para com estas investidas os

avagarar. Tinha já andado 8 milhas, e ainda até a Arzila lhe faltavão

4; e como os inimigos o avexavão muito, se sobio com os seus a hum

outeiro; e os inimigos, que suspeitárão cilada, no costado avesso

do outeiro estacárão. Ficava-lhes aos nossos desempeçado o caminho

para folgadamente se retirarem; e o farião: quando Diogo Viegas, mui

valente Cavalleiro, que na companhia vinha, a grandes brados começou a

incitar a todos, que déssem sobre os Mouros. “Vamos (bradava), vamos

a estes perros, que nos não aparão a saltada.” Pestana, que de seu

genio era assomado e iroso, accendeo-se e mui desabridas palavras lhe

soltou, e entre outros baldões o de andar vestido de canhamaço: “E tão

desasizado és, que tal conselho dês a quem tão entendido sabes na

arte da peleijar?” Do que rindo, lhe tomou o Viegas: _Este caçote

de canhamaço te parecerá bem presto ser de aço e do mais fino._

Irritado o Pestana de seu fallar: “Agora o veremos (lhe responde) se

és tão valente. Partamos, camaradas, avancemos do inimigo.” Assim se

arremessão todos aos Mouros, que tal não esperando, cobrárão medo, e

fugírão derrotados; ficárão oitenta mortos, e trinta cativos. Em quanto

ardia a peleija, deitou Pestana os olhos a Viegas, que com tanto valor

se despejava, que era grande admiração ao mesmo Pestana: de sorte,

que rematada a batalha, se lhe poz diante, dizendo-lhe ajoelhado:

“Valentissimo Varão, desculpa a minha temeridade, e dá-me bastonadas,

se assim te apraz: que bem merecidas são pancadas em quem não dá tino

de teu valor. Ora te digo em verdade, que se tivesse sob minha bandeira

seis Cavalleiros como tu, não receára entrar por Constantinopla, e

deitar em ferros o Grão Turco.” Muito alegres por fim, e de bom acordo,

tornárão a Arzila com toda a preza, que era assás avultada.

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 18 / 22 段