mastos ancorados (como deixamos dito), subito parárão, pelo que nenhum
damno nos fizerão, antes nos davão hum certo alivio não mediano; pois
em quanto o lavrava o incendio, não ousárão os inimigos avisinhar-se
de nós. Desempachados então deste susto vão, veio chegando a Armada,
apenas o incendio se apagou. O castello, que dissemos mais alteroso
e sobre os paráos vinha, tanto que tocou nos mastos, e não pôde mais
navegar, necessariamente parou, e dalli nos combateo com grandissimas
balas, e pelouros tambem e chumbo; os nossos com artilheria varejavão
furiosamente os primeiros paráos, que erão perto dos castellos, e
alguns delles destroçárão. Pacheco mandou assestar contra o castello
huma assás grande bombarda, que chamamos camelo, e disparar sobre elle:
bem que fosse horrendo o tiro, ficou todavia o castello inteiro. Vendo
os inimigos que nada obstante o castello de lado algum desfalecia,
cerravão mais affoutamente com os nossos, mais rijamente instavão,
mais desenvoltamente jubilavão, levantando alaridos, significadores de
summo contentamento. O que vendo os outros castellos, mais atrevidos
passavão áquelle sitio. Tanto era o poder de lanças, que os inimigos
nos atiravão, que por entre as trévas, que o fumo tecia, e os incendios
medonhos da artilheria, o que só ver-se e discernir podia erão settas
em feixes, e pelouros em saraiva. Aqui Pacheco hum pouco attribulado
de animo, voltou os olhos ao Ceo, e com grande voz, porque todos o
ouvissem: “Oh Summo Regedor do Ceo (diz), bem sei que os peccados, que
commettido tenho, grandissimos castigos requerem; peço-te não menos
defiras tua vingança para tempos, em que a tua honra, e a gloria de
teu santissimo Nome não padeça.” Disse, e mandou apontar o camelo,
e dar-lhe segundo fogo; despedida a bala com fragor grandissimo,
desmembrou grande parte do castello, arrojando no mar os homens que
o guarnecião. Era de ver os nossos erguer as mãos ao Ceo, celebrar o
Nome de Jesu Christo, reconhecer alli presente a Divindade, e resistir
mais denodados ao inimigo. Finalmente o tal castello tiros de bala o
desfizerão. Restavão nada obstante os outros castellos; e os que nelles
erão, contendião com summo esforço desbaratar os nossos: como porém não
podião vir a perto, lá de longe e sem cessar nos atiravão innumeraveis
pelouros, e multidão de arremessões. Nenhuma lança nossa cahia em
vão nos adversarios; muitos delles cahião mortos, muitos paráos ou
rotos ou affundados. Em quanto assim se peleijava no mar, investio
ElRei de Calecut mui poderosamente com o váo, e traçou passar á outra
ribeira; mas Christovão Zuzarte, e Simão de Andrade, que andavão em
bateis, e Lourenço Moreno, que peleijava sobre paráos de Cochim,
mettêrão todas suas posses por lhes resistirem; e o Principe de Cochim
com mil de seus soldados, que defendião a tranqueira, mostrou grande
intrepidez e força. Todos se portárão de modo, que não só impedírão
o transito dos inimigos, mas fizerão nelles bastante estrago. Consta
que esta refrega fora mais crua e mais atróz do que as passadas, e
nella perdêra o inimigo muitos baixeis, e muita quantidade de gente
morta. A peleija começada ao romper do dia finalizou com a tarde; e a
maré sobindo com violencia, cubrio de agua o váo, lançou os castellos
para contrario sitio, com o que foi necessario a todos depôr as armas.
Dos nossos houve alguns feridos, nenhum morto. Passada esta batalha,
houverão alguns dias de descanço, e nelles veio de visita a Pacheco
ElRei de Cochim, mui contentes elogios dar-lhe, e dispensar aos nossos
mui solícito refeição de iguarias e fructos daquelle clima. O Çamorim
desconfiado já da victoria, e ansiando fortemente voltar aos seus
Paços, havendo muitos importunos, que lhe requeressem accommetter de
novo os Lusitanos, tentar o ultimo dado da guerra, depois de tantos
destroços padecidos, os assaltou ainda. Mas como os nossos ufanos com
a victoria, peleijassem mais briosos, e os inimigos já descorçoados
pelas passadas perdas, entrassem decadentes, e timidos na batalha,
acontecia, que com mais facilidade fossem destruidos, e a Armada rota
por muitas partes, se retirou do jogo. ElRei de Calecut agastado contra
seus agoureiros, que como denunciadores do conceito dos deoses, lhe
tinhão fraudulentos inculcado firme confiança na victoria, abominando
delles, levantou os arraiaes. Mas nem assim cessou de tramar insidias
a Pacheco, com intentos de perecello; descubertas porém, fez Pacheco
fustigar rijamente alguns desses traidores com varas, e depois
acaballos com o derradeiro supplicio: e mettendo-se de permeio muita
fidalguia de Cochim, e pedindo affincadamente a Pacheco, que lhes
perdoasse, elle os remetteo a ElRei, para que delles dispozesse o que
mais acertado visse. ElRei de Calecut vendo agora que nada lhe sahíra
a bem de quanto pensamenteado tinha, odiando a vida desdourada com
tamanho aggravo, abdicou o Reino, pondo na real cadeira a Naubeadarim,
e se foi recolher n’hum templo e casas consagradas á devoção, para
empregar o resto de sua vida no culto dos seus deoses. Nada menos o
estimulava por cartas, e por recados a renovar a renovar a guerra sua
mãi, mulher de feroz condição. Dizendo não ser soffrivel consternar-se
de animo por modo, que inteiramente depozesse a esperança de se vingar:
que mais valia beber mil mortes, que deixar sem vingança tamanho
descredito. Que aquella sua devoção apparente mais abonava timidez,
que piedade: e se queria recommendar-se na reputação dos homens, e
restituir-se no perdido decóro, caminhasse destemido, e denotasse a
seus adversarios, que nenhum caso o podia torcer de seus pensamentos.
Aguilhoado destas razões, sahio ainda a restaurar peleija; mas todos
os Reis e Principes, que o tinhão acompanhado, vendo tão mal-paradas
as cousas do Çamorim, não havia maneira de reduzillos a participar
com elle a guerra; e mesmo tinhão muitos já tratado pazes com
Trimumpará, e com Pacheco. Quebrantado, e com as esperanças perdidas,
se recolheo de novo no mosteiro. Em fim durante cinco mezes, com
trabalhos grandissimos concluio Pacheco esta guerra cuberto de insigne
renome. Nella, como depois se verificou, perdeo o inimigo parte nas
peleijas, parte de doenças 19$000 homens, sem contar a grande multidão
de baixeis. Guerreados estes combates, e assentada a paz com muitos
Principes, foi Pacheco informado, que Coulão fora em revolta, e que os
Sarracenos, não se capacitando que os Portuguezes se tirassem das mãos
dos inimigos, conspirárão a perda dos que em Coulão ficárão, e por
astucias delles fora hum dos Lusitanos morto. Pelo que pardo Pacheco
para Coulão, privou-se porém de castigar os homicidas, por não levantar
grande discordia na Cidade em prejuizo grandissimo dos nossos, pedio
com tudo aos Maioraes da Cidade continuassem no antigo concerto, pelo
qual era precavido, que nenhuma náo carregaria especiarias, em quanto
as embarcações Portuguezas não tivessem a bordo arrazoada carregação;
que elle no porto via náos Sarracenas carregadas, em quanto as d’ElRei
D. Manoel estavão boiantes. Ao que respondem, succedêra isso não de
bom grado seu, mas de importunidade de confiados Sarracenos, arduos de
reprimir em razão de seus opulentissimos cabedaes. Assim Pacheco de
beneplacito dos Magnates, pagos os Sarracenos do custo da fazenda, fez
baldear logo nas náos d’ElRei o que nas náos delles era já carregado.
Depois se fez á véla; e dando hum gyro por aquella plaga Indiana,
tomou de volta alguns navios, e fez algumas prezas. Tão grande era a
fama de sua valentia, e de tanto medo delle erão traspassados Reis,
Senhores, e Piratas, que ninguem ousava resistir a suas armas. Todas
estas acções obrou elle até ao primeiro do mez de Setembro daquelle
anno, que foi o de 1504: no qual tempo Lopo Soares, de quem antes
fizemos menção, chegou á India com huma Armada de 13 vasos, e foi
inteirado pelas cartas, que Pero de Ataíde antes da sua morte deixára
escritas em Moçambique, da grande guerra, que elle imaginava nos
faria ElRei de Calecut; o que tambem lhe significou ElRei de Melinde,
quando as náos alli aportárão. Essa foi a causa, por que poz tanta
diligencia na viagem até chegar á ilha Anchediva, onde encontrou
Antonio de Saldanha, e Rui Lourenço, que nella tinhão invernado. E
como já naquellas regiões principiasse a Primavera, partindo para
Cananor, alli soube d’ElRei, e de Gonçalo Barbosa, feitor d’ElRei D.
Manoel, com mais certeza as proezas de Pacheco. No dia seguinte ao em
que affectuosamente fallára com ElRei de Cananor, veio ter com elle
hum Arabio, e mais hum moço Portuguez com cartas dos Lusitanos alli
cativos desde o tempo de Cabral, cuja substancia era em summa: Que
ElRei de Calecut diminuíra e enfraquecêra muito seu poder com esta
guerra emprehendida mal acertadamente, reprovada por todos, em razão
de tantissimos estragos (como succede aos mal avisados, que só sabem
attentar por suas cousas, escarmentados da temeridade). Que os Magnates
da Cidade lhes advertírão, que escrevessem aos Capitães Portuguezes,
no caso de quererem pazes com ElRei de Calecut, ser esta a occasião
mais oportuna. Que o Rei de agora detestára sempre a passada guerra,
por ser de indole benigna, e mui constante em guardar fidelidade,
Fenecião as cartas com pedir-lhes e obtestar-lhe, que abraçasse o
conselho pacífico, porque com elle podião não sómente vir grandes
uteis aos Portuguezes, mas ainda serem libertados elles de miserrimo
cativeiro. Tendo Lopo Soares lido as cartas, despedio o Sarraceno, e
quiz reter comsigo o moço Portuguez; mas este repugnou constantemente,
dizendo, que nunca se sujeitaria a tamanho desdouro, qual fora, se por
medo da morte ou da escravidão, contra a promessa que dera, offerecesse
motivo, não tornando, de cortarem os fios da vida aos Christãos, que
já no entanto ficavão prezos. Lopo Soares os despedio ambos, e se
fez á véla para Calecut; e como lançasse alli ferro, os Maioraes da
Cidade o presenteárão logo com variadas iguarias, e muita diversidade
de fructo em sinal de amizade; o que tudo rejeitou, dando por sua
razão não dever, antes da paz feita, acceitar nada: que nunca inimigas
dadivas contentárão adversarios. Veio depois Cogebique, o Mouro, de
quem contámos tão egregiamente benemerito dos Lusitanos. Vinhão com
elle dous cativos Portuguezes, e então he que começárão a tratar de
paz. Pedião os Magnates, que esperasse pela chegada d’ElRei, que não
tardaria quatro dias. Respondeo-lhes Soares, que não consentiria
na paz, sem que primeiro lhe fossem entregues os Portuguezes e os
dous fugitiyos de Milão; e nisto persistio. Quanto aos Lusitanos,
facilmente lhe fora satisfeito; mas os Milanezes não vião maneira de
satisfazer ao que requeria sem enorme nequicia; por quanto tinhão
por acção mui torpe entregar ao supplicio, contra a promettida fé,
homens que nella se tinhão confiado. Tenho para mim, que com quanta
mais justiça estes Magnatas se portavão, tanto mais era digno de
reprehensão; que punha mais affinco em castigar dous estrangeiros
desertores, que em grangear a tantos Cidadãos a liberdade. Accrescião
mais certos visos de torpissimo temor em porfiar tão obstinado em tal
requerimento, como se depois de tão prostradas as forças dos inimigos,
coubesse ainda traçar-nos grandes desastres dous unicos homens. Como
blazonaria vinganças na perfidia, quaes ella requer, quem nos inimigos,
com quem trata alliança, demanda quebrantamento de fé? E por mais não
allegar, devendo a guerra haver-se com os inimigos pelos uteis dos
conterraneos, mais se ha de fitar o intento em salvar os Cidadãos,
que em acabar com os inimigos. Soares, que não attentava pelo tanto,
desvelando-se nada pela vida dos Lusitanos, nem pelo estado e condição
de Cogebique, que por amor dos Portuguezes corria discrime summo,
abalou com bombardas a Cidade e lhe derrotou muitos edificios. Partindo
logo para Cochim, visitou ElRei, e em nome do Senhor D. Manoel lhe
agradeceo a lealdade, e o convidou com os amplos reaes presentes;
mandando dous Capitães, Pedro de Mendonça, e Vasco de Carvalho, que com
suas náos segurassem toda aquella costa, que deriva até ao porto de
Calecut, a nossos amigos e alliados, infestando-a a nossos contrarios;
encarregando a Affonso Lobo da Costa, a Pedro Affonso de Aguilar, a
Lionel Coutinho, e a Rui d’Abreu fossem a Coulão, e carregassem seus
navios da especiaria, que Pacheco por sua industria e seu trabalho
tinha junto, e o feitor lhes havia de entregar. Pacheco logo que vio a
seu gosto carregados os navios, voltou a Cochim, onde Soares o cumulou
de tantos elogios, quanto ao parecer de todos dignissimo delles era.
Aqui chegou correio a Soares, que a Cidade Cranganor lealissima aos
de Calecut, levantára armas, e os burguezes todos se amotinavão: que
já Maimame seu General, esquipára 80 paráos, e 5 navios, e por terra
guiava Naubeadarim potente exercito, que de dia em dia engrossava
em forcas. Tudo o que se fazia na intenção de que apenas sahisse da
barra de Cochim a Armada Lusitana, sobreviessem devastar o Reino: por
quanto ideavão passar suas trópas pelo váo de Paliporto, que tinhão
por mais commodo. Conhecidos estes aprestos, pareceo bem a Soares por
acordão dos mais Capitães, investir subito Cranganor, para desluzir
todos os arrojos dos improvidos inimigos. Assim com 15 lanchas, 25
paráos, e 1 caravéla partem na mudez da noite, levando nestes vasos
1$000 nos nossos, e 1$000 de Cochim, que erão cubertos em Paliporto
pelo Principe de Cochim com 800 Cochineses. Já caminhão cheios de
gozo, e confiança ao aprasado sitio, o Principe por terra, e os nossos
Capitães por mar. Já põe Soares na linha dianteira a Tristão da Silva,
a Antonio Saldanha, a Pero Affonso d’Aguilar, a Affonso da Costa, e
a Vasco de Carvalho. Tomava-lhes então o passo Maimam e seus dous
filhos em duas possantes náos travadas mui fortemente com cadeias de
ferro, e estavão estas náos bem bastecidas de artilheria, petrechos,
e gran copia de arremessões e soldadesca para o combate, se preciso
fosse. Contra ellas arrancão os nossos cinco Capitães, que guiavão a
primeira linha: resistem-lhes com incrivel esforço e brio Maimam e seus
filhos, de maneira que sua resistencia fez que a peleija se demorasse
mais do que cada hum tinha em sua opinião. Morrem por fim Maimam e
tambem seus filhos: logo soldados e marinheiros por outro lado aos
mares se arremessão, com o que aos demais Capitães trivial foi sem
renhida briga desbaratar os mais paráos, e pô-los em fugida. Ganhada
a peleija maritima, poiárao em terra os nossos Capitães a sua gente,
a que tambem juntou a sua o Principe de Cochim. Appareceo-lhes diante
o exercito de Naubeadarim, e a batalha, que logo seguio, foi d’huma
parte e de outra com muita coragem peleijada, até que cahindo muitos
dos inimigos, aos demais tanto medo se lhes encarnou, que em tropel
acudião espavoridos á Cidade, onde depositavão de si todo o cuidado
de a defenderem. Por tanto com a mesma rapidez, com que emboscavão
por huma porta, despedião por outra; e os nossos, que os aquecião no
alcance, entrando de envolta com elles na Cidade, com faches, que
lhe arrojavão, a derão a arder. Que são as casas pela mór quantia
compostas de madeira, cubertas de folhas de palma, que bebem sófregas
a chamma. Lavrava o incendio, consumião-se os edificios, e lançavão
de si os Christãos, que alli medrosos se escondérão: estes vem pedir,
que atalhem os nossos a fogueira, que não prenda nos sacros Templos,
em que elles santificavão seus mysterios. Mettêrão-se hombros ao
empenho; mas por mais diligencia que despregárão, não podérão tolher
as chammas de consumir muitas moradas dos Christãos; as dos Arabios e
dos Judeos, que o fogo não encetára, servírão ao repentino saque. No
mesmo fogo ardêrão os navios e os paráos. A artilheria, armas e mais
munições, que nos podião servir, forão carregadas na nossa Armada.
Concluidas estas determinações, tornou Soares a Cochim com os outros
Capitães. Ora como de Cranganor temos por varias vezes feito menção,
avisado parece algum pouco fallar de sua situação, grandeza, e numero
de gentes, que nella morão, e quem erão estes habitadores Christãos,
quaes seus costumes, e suas leis. Dista (como já dissemos) Cranganor
de Cochim 16$000 passos para o Norte. Banha-a hum rio, que junto della
corre; o que fazendo varios seios, vai desaguar no mar Indiano. A
Cidade era grande, e frequentada de muitas Nações, por ser ella emporio
mui celebrado; ser Cidade livre, e regerem-na Magistrados legitimos
por eleição do povo no cargo nomeados, ficava com tudo no amparo
d’ElRei de Calecut, e seu partido seguia de boamente em qualquer guerra
que se levantasse. Desta lealdade se desviou porém, quando entendeo
quanto nossas armas tinhão abatido seus poderes. Habitão nella, além
dos nacionaes, muitas outras gentes, que da Arabia e d’outras terras
vem alli mercadejar. Os indigenas dados ao culto pagão, são iguaes em
costumes aos demais Malaios. Os Templos, que os Christãos alli tem,
não admirão pela elegancia, porque tambem são elles mui escaços de
bens: cada sete dias tem hum Domingo, como entre nós, em que acodem á
Igreja para assistir aos Sacrificios, e ouvirem as prégações. O seu
Prelado supremo tem sua Sede nos montes septentrionaes mui arredados do
mar, lá para a região, que Chaldêa se appellida, e com 12 Cardeaes, 2
Patriarcas, e muitos Bispos compõem hum Conselho; que decreta em todas
as concernencias da Religião, e ao qual se sujeitão quantos Christãos
vivem por aquellas plagas Orientaes. Tosquião-se lá os Sacerdotes de
geito, que lhes appareça no alto da fronte huma cabelluda cruz: e para
a Missa fazem uso de vinho de passas. Quando chegão á Eucaristia,
todos recebem o Corpo de Christo na especie de pão e na bebida do
sagrado calis: ninguem porém ousa vir á divina meza sem lavar pela
confissão os enxovalhos das culpas. Nem tambem outorgão ás crianças o
baptismal lavacro antes do quadragesimo dia depois de nados, senão só
em caso de imminente perigo de vida. Se alguem cahe em doença grave,
vai o Sacerdote visitallo, porque fião muito das orações delle, que
alivião a alma do doente. Ao entrar na Igreja se persignão como nós
com a agua benta, e guardão com os mortos os mesmos ritos, e com os
mesmos Officios os enterrão: mas depois os parentes e os affins dão
hum banquete, e oito dias passão em convites dedicados á honra dos
enterrados, celebrando memorias suas, e rogando a Deos pela sua eterna
salvação. Perdem seus dotes as viuvas, que antes de volver hum anno
sobre o marido morto, casão. Tem muito respeito á santa Biblia em
Syriaco, que elles chamão Chaldeo, e ha Interpretes della, que vão
pelas praças públicas dar apurada intelligencia aos que se juntão
para ouvilla. Observão estreitamente o jéjum da Quaresma e Advento,
e todas as festas e solemnidades, que usamos, as cumprem com muita
devoção e apparato, e o computo do anno com seu dia intercalar como o
nós enxerimos nos bissextos, mui desveladamente observão. Fazem dia
santo o primeiro de Julho, em honra de S. Thomé, não só para Christãos,
mas até para os naturaes da terra, que nada contrahírão da santa
Christandade. Tambem tem Conventos de Frades, e claustradas virgens em
separados aposentos, todos os quaes guardão pureza com muito desempenho
de probidade, de abstinencia e religião: os Sacerdotes porém tem suas
mulheres. Se porém lhes morre a primeira, se esquivão ao diante a todo
o matrimonio; e este para todos he indissoluvel em todos os casos, só o
corta a morte d’hum dos conjuges. Estas leis, estes costumes desde as
eras de S. Thomé, primeiro Apostolo, que a estas Nações evangelizou,
recebêrão com muita devoção e zelo, e com o mesmo o continuárão até
os nossos dias os Christãos não só de Cranganor, mas muitos outros,
que demorão por aquellas Indias. O corpo do Santo jaz sepultado em
Meliapur, Cidade pertencente ao Reino de Narsinga, e resplandece com
muitos milagres. No tempo em que Martim Affonso de Sousa, mui valeroso
Cavalleiro, Viso-reinava na India por ElRei D. João III., lhe trouxerão
humas pranxas de bronze, e entalhadas nellas certas letras de tão
avoengada escuridão, que ninguem atinava com o sentido dellas. Até que
trouxerão hum Judeo entendido em muitas linguas, com suas luzes de
antiquario, que com difficuldade decifrou as letras em parte gastas de
velhice, em parte encadeadas, e em idioma mal corrente. Tudo quanto
continhão era em substancia o Alvará de doação, pelo qual o Rei, que
então era, outorgava a S. Thomé certa área de terra nelle limitada
para a edificação d’hum Templo. E pois que deste insigne Varão menção
fizemos, não tenho por desacertado apontar aqui outro testemunho
antigo ácerca do mesmo Apostolo, que em seu moimento se encontrou.
Pelos annos de 1562 mandou o Bispo de Cochim ao Cardeal D. Henrique
hum documento authentico, em que se encerrava hum successo merecedor
de historica lembrança. Na Cidade, que Meliapur dissemos se chamava, e
agora desque os Portuguezes começárão a frequentalla, tomou o nome de
S. Thomé, havia sobre hum tezo edificada huma Ermida, no mesmo sitio
(ao que os moradores affirmão), em que o Santo por seus inimigos fora
alanceado. Por solemne instituição se juntavão lá os Fieis todos os
oito dias antes do Natal, ao sacrificio da Missa; e havia 14 annos já
que alli se descubríra hum relevo de Cruz em marmore, assombrada pelo
alto com a figura de huma pomba, e assentava a Cruz o seu pé n’huma
certa especie de hervas, que parecião longemente se estenderem; tanto
o pé, como o topo da hastea, e os dous braços da travéssa fenecião em
flor de lirio. Cubria tudo pelo alto e como que o defendia e pelos
lados, hum arco talhado na mesma pedra e nelle certa escritura, que
ninguem podia ler. Com o trabalho de muitas pessoas collocárão a dita
lapide como retablo, que era assás grande sobre o Altar. Sobresahião na
cruz humas nodoas de sangue mui distintas; eis-que aconteceo hum dia,
estando juntos os Christãos para celebrar na Ermida a saudação, que o
Anjo fez á Santissima Virgem, aconteceo (digo), que quando o Celebrante
começava o Evangelho, foi-se a Cruz vestindo de negra côr; e cahindo
della incrivel copioso licor, foi-se depois a côr negra transmudando
em azul; e naquelles lugares malhados com sangue, reluzia huma viva
côr de rosa. Caso este, que se continuou pelos seguintes annos; e
o que mais admirava era não succeder aquelle portento n’outro dia,
excepto este. Por algum tempo parou aquelle, para todos, assombroso
caso: até que no anno de 1561 congregados na mesma Ermida os Christãos
com a mesma pompa e celebridade no dia em que a Cruz sohia destillar,
em quanto o Sacrificio durava, em começando o Sacerdote o Evangelho
(tambem causava pasmo, que não fizesse a Cruz mudança, menos de se
entrar a ler o Evangelho), de repente se cubrio a Cruz de manchas
pretas, brilhantes todavia; e coalhando-se mais humas sobre outras,
ennegreceo: e reluzia de maneira, que a disseras vernizada. Entrou
logo a borbulhar d’orvalhosas gottas, que engrossando pouco a pouco,
banhárão toda a Cruz de copiosissimo licor. Foi continuando com
muitas lagrimas, e amiudados soluços o Sacerdote o Sacrificio, até
que subindo-se ao Altar, ensopou os Corporaes na humidade da Cruz, e
estes parecião embebidos em sangue fresco. Levantavão as mãos ao Ceo
o Regedor da Cidade, e quantos em grande numero erão alli juntos,
imploravão a Divindade de Jesu Christo, pedião perdão de suas culpas,
abalando em si mais ardente fervor de devoção. A Cruz principiou então
(destillada já a mór força do licor) a resplandecer com maior lustre,
e a sobresahir nella a côr sanguinea mais ao claro. Com este milagre
se lançou o Regedor da Cidade, e o Paroco principal a investigar com
mais desvelo quem lhes interpretasse a sentença daquellas letras. Dizem
os Cidadãos, que havia no Reino de Narsinga hum Bramane muito sabedor
entre os mais Bramanes em toda a doutrina e erudição, intelligente em
varias linguas: a este procurão sem demora, e lhe perguntão se aquellas
letras comprehendia; e elle responde, que ellas erão a Escritura
antiga, de que usavão os Sapientes; tal fora porém o descuido dos