Cabo da Ethiopia, chamado Guardafu, e o seio Arabico. Hum dos Capitães
de sua conserva Diogo Fernandes Pereira, separado das outras náos por
huma tormenta, foi surgir a Melinde, e de lá foi ter a Socotorá, ilha
atélli desconhecida dos nossos, não muito despegada do seio Arabico,
pelo Indico Oceano, onde assentou de invernar. Por ignorancia do Piloto
não seguio Saldanha igual carreira, antes foi dar a huma ilha chamada
S.Thomé, que fica debaixo da Linha; e ao sahir della tal tempestade
lhe sobreveio, que hum dos Capitães Rui Lourenço Ravasco se lhe perdeo
de vista. Indo na intenção de montar o Cabo de boa esperança, o Piloto,
que já cuidava tello dobrado, nesciamente o metteo n’huma enseada,
que por quanto elle alli fez aguada, se chama a Aguada do Saldanha. E
Ravasco, que muito antes que elle tinha costeado o Cabo, foi navegando
a Moçambique, e de lá a Quilôa, onde vinte dias esperou por Antonio de
Saldanha; e vendo que tardava além de seu presupposto, se fez á véla
para a ilha Zanzibar, de que já fizemos menção. Esta ilha fica longe
de Mombaça para o Poente 80$000 passos, e entre ella e o continente
ha hum braço de mar; mas tão estreito, que nenhum navio póde por alli
passar, que não seja facilmente visto e da ilha, e da terra firme. Em
torno desta ilha costeou Ravasco dous mezes; tomou em varias occasiões,
além de 20 náos dos Zanzibares carregadas de muitas mercadorias, que
seus donos resgatárão, segundo o preço que elle dizia. A injustiça de
Ravasco ateou gravissimo despeito naquella gente, e alheou de nós os
animos de muitos, que tinhamos trato de amizade c’os naturaes da ilha.
Mandou o Maioral della dizer a Ravasco, que muito se maravilhava dos
fóros, que tomava hum Capitão Portuguez, cuja Nação (tinha elle ouvido)
respeitava religiosamente os tratados, de saltear tão ferozmente os
bens daquella ilha affeiçoada aos Lusitanos. Que do mais que levado
tinha, não curava; sómente as armas e as bombardas, que nos navios
erão, lhe restituisse, e com o resto se ficasse. Mas Ravasco não só se
não rendeo a tão justo peditorio, que antes lhe tornou mui aspera e
mui injuriosa resposta: e deste novo aggravo escandalizado o Principe,
armou alguns paráos pequenos, com que peleijasse com Ravasco. Mas
Gomes Carrasco e outro soldado por nome Lourenço Feio, por mandado
do Capitão, antes que os paráos se ordenassem e sahissem, saltão na
lancha (como a náo não podia chegar a terra), e com armas e artilheria
vogão contra os paráos, quatro dos quaes rendem, e os mais põem em
fugida; matão-lhes alguma gente, e nella o filho do Principe da ilha.
Este vendo que nem por legitimo direito, nem por armas podia alcançar
a sua demanda, antes que aquelle mal corresse em perdição da ilha
toda, propondo o sentimento de prejudicado nos bens e na morte de seu
filho, commetteo pazes a Ravasco, e acceitou a condição de pagar com
titulo de tributo a ElRei D. Manoel certa quantia de ouro em cada hum
anno. Concertada deste modo a paz, partio Ravasco para Melinde; e como
havia renhida guerra entre os Reis de Melinde e de Mombaça, nessa
occasião Ravasco para assustar o de Mombaça, surgio com sua náo no
porto desta Cidade, e alli cativou peleijando dous navios alterosos
mercantes e tres outros mais pequenos. Entre os prisioneiros, que nas
náos rendérão, entravão 12 Arabios, por sua nobreza e cabedaes mui
qualificados na sua Cidade, que se chamava Brava, e distava de Mombaça
400$000 passos; e estavão alli aguardando por outra náo carregada de
muita fazenda de grande preço. Depois de se resgatarem por dinheiro,
sujeitárão a sua Cidade, debaixo de fé jurada, que elles e os mais
Cidadãos serião d’ora em diante sob poder d’ElRei D. Manoel: e
igualmente lhe assinalou Ravasco o tributo em ouro, que a D. Manoel
havião de pagar cada anno. Firmados os pactos, appareceo a náo por que
esperavão, em que Ravasco não tocou, nem permittio que nenhum outro
aggravasse os alliados. Em tanto veio ancorar a Mombaça Antonio de
Saldanha com tres navios, que de viagem cativára. ElRei considerando
estas náos como huma especie de Armada, receando prejuizo das armas
Lusitanas, encetou pazes com o de Melinde; e Saldanha navegando para á
India, arribou ás ilhas de Canacan e de Anchediva; e o que depois fez,
em outro lugar o contaremos.
Neste anno de 1504 no mez de Outubro o Condestavel D. Affonso, sobrinho
de D. Manoel por seu irmão D. Jaime, de quem acima fallámos, abatido
de grave molestia, falleceo da vida na flor da adolescencia, deixando
huma filha unica, que foi Senhora de rara formosura, e singular em
virtudes, que depois casou com D. Pedro, Duque de Villa-Real, muito
esforçado Varão. Tambem pelo mesmo tempo deixou a vida mortal Isabel,
Rainha de Castella, acompanhada de agudas saudades, e copiosas lagrimas
de toda a Hespanha: por quanto fora esta Rainha de animo tão eminente,
de tão especial prudencia, e de tantos dotes de bondade e religião
enriquecida, que seu nome merece depositar-se em perpétua lembrança.
No ultimo de Dezembro do mesmo anno pario a Rainha D. Maria huma filha
formosissima, que foi baptizada com o nome de sua Avó D. Beatriz, e
casou depois com Carlos, Duque de Saboia, como logo diremos. Neste
mesmo anno houverão grandes e amiudados terremotos, muitos edificios
forão destocados, e a terra se abateo em muitas partes, e n’outras se
fendeo horrendamente. Deixavão os homens suas moradas, e nem ousavão
avisinhar-se das montanhas, receosos que as casas esbroando-se sobre
elles, ou os montes abalados de seu assento os assoberbando, não
morressem de miseravel morte: retiravão-se aos campos e planicies,
aposentando-se em barracas. Todas estas desgraças acontecião no Reino,
em quanto D. João de Menezes em Africa commettia hum feito não indigno
de memoria.
Ha huma Cidade bem nomeada na Mauritania, a qual Larache se nomêa, que
fica 20$000 passos além de Arzila, e do rio Zilia, que desemboca no
Oceano, he regada; e tinhão os Mouros tomado cinco náos Portuguezas,
que então ancoravão no porto de Larache. Soube-o Menezes, e muito lhe
travou no animo; pelo que tratou de investir com o porto e reconduzir
as náos. Havia na fóz do Zilia huma torre bem fortificada pela natureza
e pela arte com armas e pelouros, e bem atalaiada pelas sentinélas;
e servia de couto a quantos piratas sahião daquella região a fazer
prezas. D. João de Menezes cogitou comsigo como poderia passar a barra
e entrar no ancoradouro, sem perigo que da torre parecia sobrestar-lhe.
Depois de o ter deliberado e resolvido em seu conceito, succedeo
avistar elle cinco fustas e huma galera irem de derrota para a banda
do Poente; o que bem advertido por elle, mandou vigias por terra e
outros por mar, que especulassem á risca a carreira que levavão; e
vierão dizer, que todas enfiárão a barra de Larache, e varavão em
terra, de maneira porém, que a galera ficava pouco arredada da agua.
Bem informado disto, manda subito preparar quatro caravélas, chama a
si os soldados, que conhecia mais capazes de expedir aquelle feito;
e levando ancora de noite, vai em demanda de Larache, e entra ao
amanhecer pela fóz do rio. Accorrem os Mouros, dão fogo ás bombardas,
disparão enormes pelouros, e trabalhão a toda a força de empecer que
os nossos entrem; mas Menezes, que esperava a jusante da maré, logo
que a sentio ganhar impulso, tapessa os costados d’huma das náos com
cobertores de lã, com saccas, que tambem de lã mandára encher; e
atravessando contra a pontaria da terra, porque aparasse as balas,
faz passar as outras caravélas ao abrigo desta até montar o porto.
Os Mouros em tanto com settas, dardos, e tiros de funda rijamente os
avexavão; porém D. João muito a seu máo grado delles, penetrou até
ao seio com toda a sua Armada. E como o rio por caudaloso e pelos
accrescimentos da preamar era então profundo, podérão mui bem os nossos
entestar com as margens; e logo os que para a facção estavão ordenados,
saltão em terra, e mettem todo o empenho em lançar fachos á galéra, com
que pegasse fogo: e os Mouros pelo contrario acodem de toda a parte
para o impedir. Trava-se atroz peleija; e d’huma parte e d’outra por
longo tempo acerrimos combatem, té que finalmente mortos muitos dos
inimigos, recuando já bastantes gravemente feridos, pozerão-se os mais
em declarada fugida, e os nossos no alcance. Mas D. João de Menezes não
consentio que fossem mais avante, porque o seu proposito era queimar
a galéra, como logo mandou; e as cinco fustas com dous navios longos,
e huma náo Portugueza (que as tinhão já varado em terra) forão logo
postas de nado; os tres outros vasos Portuguezes como não foi possivel
desvarallos, deitou-lhes fogo, e ardêrão com a galéra. Concluido
este feito a seu sabor, vendo Menezes que concorria grande bando de
Mouramas, e que a maré lhe era favoravel, porque já começava a baixar
e arredar-se das ribanceiras, se recolheo sem prejuizo. Hum homem só
se perdeo nesta contenda; e tendo sahido do porto de Arzila com sós
quatro navios, entrou com doze. Atemorizou altamente os inimigos esta
audacia e actividade do Capitão Mór, de vir no intimo de seu porto tão
fortemente presidiado, entre guarnições, que davão por tão seguras,
arrojadamente investillos, queimar-lhes os reus baixeis, e com tão
poucas náos maquinar n’huma Cidade tão fortificada estrago tal e tal
ruina. Não os affligia tanto a morte de tanta gente, nem a perda dos
navios, quanto o avultado da emprehendida façanha, porque receavão
que aos nossos não recrescessem os brios com o bom successo d’huma
audacia venturosa, bem que ao parecer pouco considerada, e com elles se
abalançassem a maiores emprezas. D. Manoel, quando esta nova recebeo,
demostrou muito contentamento, e honrou a D. João de Menezes com os
louvores devidos a seu esforço, sagacidade e industria. Mas elle que
não deixava resvalar occasião alguma de bem obrar, excogitou novo
destroço daquelles inimigos.
Ha huma montanha, que se diz Farrobo, que eu suspeito ser membro do
menor Atlante, arredada de Arzila 20$000 passos, corre-lhe pela falda
hum rio, que nas cheias de Inverno incha tanto em cabedal, que não
consente váo: fiados nisso os inimigos, invernavão descançados nos
aduares, que em grande copia salpicão a montanha, e alli apascentão
grandissimos rebanhos e armentios. Ora Menezes no interior de seus
aposentos, porque não fosse divulgado, mandou construir duas barcas,
cujo prestimo não podérão adivinhar os mesmos carpinteiros que as
lavravão, e a quem commettêra segredo, e erão acommodadas no pezo, ao
que hum possante jumento póde carregar sobre o costado. Acabadas ellas,
não aguardou mais que apontar-lhe huma noite bem chuvosa, e bem revolta
de tempestade; e acolhendo huma da feição que a elle desejava, mandou
dar o sinal para a designada correria. Admirão-se todos, que com hum
máo tempo tal oução a trombeta, quando em tão desatada chuva emmudece
todo o clangor de guerra; posto que suspeitem não caber temeridade
em Capitão tão avisado, e com tanto uso de peleijas. Juntão-se todos
armados, e o seguem sem a menor repugnancia, nem lhe perguntarem qual
era seu pensamento, ou aonde se encaminhava. Erão os que elle levou
comsigo acima de 220 Cavalleiros, a quem quando lhe pareceo acertado,
descubrio qual era sua deliberação, quão factivel era a empreza, e o
que delles todos requeria, advertindo aos que hesitassem ácerca do
commettimento, que podião retirar-se a suas casas; por quanto elle
mais affoutamente affrontaria qualquer facção com poucos, mas esses
esforçadissimos, que com muitos que de todos os perigos se receão.
Nenhum porém se esqueceo tanto de seu brio, que voltasse rédeas ao
cavallo. Logo que chegárão ao que tendo assoberbado as margens,
allagava muito mais campo do que tinhão presumido, fez pousar na borda
as barcas, que os jumentos transportárão; e logo encommendou a hum de
seus criados por nome Fernando de Freitas, que tomando nos dentes a
ponta d’huma corda, atravessasse o rio a nado até montar huma pequena
empolla de terra, que além do leito do rio, onde elle mais rapido
discorre, se levanta acima da agua. Esta corda prendia já n’huma das
barcas, pelo que apenas elle traspassou o alveo do rio, chegou á
terra alta, e de lá vingou á margem opposta, tirou facilmente a si
a barca; da mesma sorte tirou sem susto a segunda pela corda que á
primeira estava atada. Quando huma e outra barca seguras pelas cordas
de ambas as margens do rio, e que tirando d’huma banda a corda, que
relaxavão da outra as barcas, facilmente hião e vinhão á vontade,
segundo o requeria a travéssa do rio, tirão as séllas aos cavallos,
e postas nas barcas, entrão nellas os Cavalleiros, levando de mão
os cavallos pela rédea a nado; e logo que huns apôs outros tiverão
todos atravessado a corrente, juntos na ribanceira opposta séllão de
novo os cavallos, montão, e no silencio da noite vão seguindo Menezes
por alagados e lamarentos pauis traspassados de prolixa e grossa
chuva, e os cavallos com agua pelo peitoral. D. João de Menezes, que
conhecia todos os reconcavos daquelles sitios, fez alto com toda a
sua gente n’hum lugar mui a geito para embuscada, na intenção em que
hia de cahir sobre os aduares, e lhes fazer o maior damno possivel.
Apenas amanheceo, descêrão os montanhezes aos campos da planicie (que
já era applacada a tormenta), huns a verem as suas searas, outros a
levar a pasto os seus rebanhos, e delles a caçarem. Não queria ainda
assim Menezes sahir de seu escondrijo, em quanto não avistasse tanta
abundancia de gente, quanta elle queria colher de subito. Mas succedeo,
que dous caçadores entrassem na selva da cillada; com o que lhe foi
forçoso sahir a descuberto, e assim investio feramente com os que
achou, cativou muitos, matou bastantes, fez grande preza, e reconduzio
a salvamento o seu exercito: e chegado ao rio, fórça a passallo a
nado as rebanhadas rezes, e depois nas barcas pelo mesmo theor que na
passada noite, e mais folgadamente ainda, atravessárão os Cavalleiros
a corrente, entrando em Arzila pela tarde, com grande admiração dos que
nella ficárão; que não capacitar-se que n’huma noite assim tempestuosa
vadeassem o rio, nem que vadeado este, escapassem á multidão dos
inimigos callejados nas peleijas, quando mórmente era tão difficil a
tornada; e que bastava cortarem-lhes as cordas das duas barcas.