ElRei D. João II. cravando todo o seu intento na manifestação das

regiões maritimas da Ethiopia, para abrir por ahi corrente para a

India, aconteceo que no anno do Senhor 1484 hum Cavalleiro de animo

determinado; por nome Diogo Cão, que por seu mando discorria as costas

da Ethiopia, deparou com a fóz d’hum rio mui caudal e rapidissimo,

em cuja largueza, e profundura, elle atentando, tirou por tino, que

muitas gentes relevava, que em suas ribas tivessem assentada pousada

e contubernio. E ora querendo penetrar pelo rio acima, vio hum pouco

adiantado muitos homens semelhantissimos no cabello e na côr aos demais

Ethiopes, que tantas vezes víra: e estes sem se turvar de medo, nem da

estranheza de gente desconhecida, davão de si apparencias admiraveis

de mansidão e brandura, quando se vião com os nossos. Como Diogo Cão

mandasse com elles pessoas práticas fallar-lhes em varias linguas da

Ethiopia, nenhum se entendeo com sua linguagem; por acenos sómente

começárão a tratar com elles, e por acenos demostravão haver hum Rei

naquellas partes mui rico e apotentado; e huma Cidade Real, onde tinha

seus aposentos, algumas jornadas dalli distantes; o que sabido por

Diogo Cão, os convidou com mimos e promessas a levarem comsigo alguns

da sua companhia com presentes para ElRei, e dons que aquella gente

préza, segundo colhido havia: e abalizou aos que enviava tempo fixo,

para a elle tornarem com apuradas relações. E por quanto tardárão em

dobro do que Diogo Cão presuppozera, levando ancora, trouxe comsigo

á Lusitania quatro dos que frequentavão mais seu bordo; e erão elles

homens nobres, dotados de agudo engenho, e tão bem com elles se

houve em lhes ensinar a lingua Portugueza, que quando forão diante

d’ElRei, já nella muitas cousas explicavão. Muito se contentou D.

João com a comprehensão destes Ethiopes, e lhes deo muitas prendas e

galardões; incumbindo a Diogo Cão se désse préssa a tornar áquellas

paragens, levando comsigo aquelles homens e suas dadivas para ElRei,

e cuidasse em inclinallo a adorar Jesu Christo, Senhor e Creador de

toda a natureza. Tornou Diogo Cão ao sitio que deixára, e mandou hum

dos nobres Ethiopes ter com o seu Rei, e em nome seu pedir-lhe lhe

remettesse os Portuguezes que lá erão, porque elle sem demora lhe

entregasse os que com elle vinhão; que tendo de ir mais avante, como

pelo seu Rei lhe era encommendado, pouco tardaria a voltar, e então

viria demandallo, e expôr-lhe a vontade d’ElRei D. João. ElRei lhos

mandou entregar por hum dos seus Capitães, que alli mesmo de Diogo Cão

recebeo os tres, que vinhão com as dadivas, que d’ElRei de Portugal

para elle trazião. Estas dadivas, e os louvores continuos, com que os

recem-vindos vassallos lhe exaltavão a magnificencia e valor d’ElRei

D. João, começárão a picar-lhe vivamente a affeição para com ElRei de

Portugal; e quando Diogo Cão, examinadas com desvelo aquellas outras

costas, alli tornou, salvou demoras, para se ver incontinenti com o

Rei Ethiope, que mui honradamente o recebeo. Perguntava-lhe muitas

cousas ácerca do Estado de Sua Alteza, dos usos, leis, e costumes dos

Lusitanos; informava-se da Religião Christã, e pouco a pouco se lhe

hia affeiçoando. Despedio todavia a Diogo Cão, e com elle hum dos

que já comsigo trouxera a Lisboa, e se chamava Zacuto, com titulo

de Embaixador, encarregado de encarecer quanto podésse ao Senhor D.

João, e lhe protestar pelo Deos que adorava de lhe mandar Sacerdotes a

aquelle seu Reino, com cuja doutrina podessem todos vir no conhecimento

do verdadeiro Deos. Com o Embaixador Zacuto e alguns outros mancebos

nobres, que o Rei mandava a Portugal, para que lá se baptizassem, e

seus engenhos cultivassem, partio Diogo Cão, e veio presentar a D.

João II. grande cogia de marfim, varias esteiras, e vestes lavradas de

folhas de palmeira em nome d’ElRei de Congo. Incrivelmente se alegrou

ElRei D. João com esta nova, descortinando assim aberta a porta á

propagação ampla do Evangelho naquelles sitios. Demorou-se o Embaixador

com os demais mancebos mais de dous annos, para melhor se inteirarem da

lingua Portugueza, e dos usos da Christandade. Quando já todos tinhão

professado a nossa Santa Fé, e erão purificados na fonte do Baptismo,

D. João mandou preparar tres náos ás ordens de Gonçalo de Sousa, varão

de insigne fidalguia, em que fosse o Embaixador, e os outros mancebos

nobres. Mandou tambem com elles Sacerdotes de abonada santidade com

vasos sagrados, paramentos, e outras insignias christans, capazes de

conferir os Sacramentos de expiação, e instruir nas disciplinas da

piedade Catholica aquelles infieis. Já quando sahírão da barra de

Lisboa, onde lavrava poderosamente a peste, hião muitos das equipagens

ervados della, e della morrêrão na carreira, como tambem Gonçalo de

Sousa, cujo lugar tomou Ruy de Sousa, seu mui proximo parente. Chegadas

as náos ao porto denotado, e desembarcados os que tinhão de visitar

ElRei, com tantos cantares, e tantas demonstrações de extremo regozijo,

os agasalhárão todos, que parecião alegrar-se com elles até as selvas

e arvoredos. O primeiro que se alistou nas bandeiras de Christo foi

hum Tio d’ElRei de Congo, que dominava larguissimas terras, e quiz

tomar o nome de D. Manoel, por ter ouvido que havia em Portugal hum

Principe primo d’ElRei, ornado de mui superiores virtudes, motivo, por

que queria chamar-se como elle; e com tanto zelo abraçou a doutrina da

Religião, que assás denunciava terem os resplandores do Ceo esclarecido

o entendimento. Por mandado expresso d’ElRei sahírão a receber os

nossos os Generaes de Congo acompanhados de grandes copias armadas a

uso da terra, que toda resoava com tangeres de tympanos e trombetas, e

canticos de homens. Chegados diante d’ElRei, como a tal Ruy de Sousa

o saudou, e elle a seu uso e maneira acolheo honradissimamente a Ruy

de Sousa. Este logo que lhe expoz a substancia de sua embaixada, ElRei

de Congo com palavras demostradores de summa amizade agradecendo ElRei

D. João, pedio a Ruy de Sousa, que lhe fossem mostradas, e deixasse

expôr á vista dos que alli erão, as sagradas vestimentas, e mais peças

tocantes ao culto da Religião, tiradas de seus envoltorios. Então foi

o contemplallas huma por huma, recebellas com acatamento, admirallas

com vehemencia, e fixar a vista nos Religiosos. Quando porém foi alçada

a Cruz, todos que presenceavão, vendo que os nossos se lançavão a

dous joelhos por terra, fizerão o mesmo. Não podia fartar-se ElRei de

mirar peça por peça, e perguntar que uso tinhão, e com tanta memoria

tenazmente retinha quanto os Religiosos lhe dizião, que depois mui

distintamente os explicava á Rainha. Ficou dalli assentado, que se

edificaria huma Igreja: e posto de longes Provincias do Reino vinhão as

pedras de construcçao, tal presteza se derão, em razão do ardentissimo

zelo d’ElRei, e gentio sem conto que alli empregava seu trabalho,

se começou a edificar, que em brevissimo computo se vio concluida,

e lhe foi dado o nome de Santa Cruz. Tendo vindo no entanto huma

noticia, que os habitadores d’huma ilha, que jaz no lago que o Zayra

fórma, tinhão levantado obediencia, e com suas correrias causado não

mediano estrago nas Comarcas visinhas, dispoz-se ElRei a ir em pessoa

rebater-lhes o impeto e castigar-lhes a audacia. Mas quiz antes de

partir expiar-se na sagrada fonte e alistar-se na milicia de Christo:

o mesmo fizerão tambem varios fidalgos juntamente com a Rainha.

Chamárão-se ElRei e a Rainha João e Leonor, pela chamma de affeição,

que pelos nossos excellentes Soberanos os abrazava. Rui de Sousa lhe

remetteo huma bandeira assinalada com huma Cruz, admoestando-o a

que nella e na virtude daquella Cruz confiasse ganhar victoria dos

inimigos. ElRei escorando na confiança do nome Christão, desbaratou

do primeiro impeto os rebeldes, e deo fim á guerra mais presto do que

era de imaginar-se; e voltando á Corte, despedio Rui de Sousa com

muitos sinaes de amizade. Este porém não só lhe deixou Ministros para

os Sacramentos, mas tambem homens, que viandassem por aquellas terras,

explorassem aquelle grande lago, que acima dissemos, e averiguassem a

situação do Reino, sua extensão, e usos daquella gente. Depois de Rui

de Sousa ter partido, chegou o primogenito d’ElRei das fronteiras,

onde guerreava com os arraianos, e vinha á Corte ver seu Pai, onde

tratou de se purificar com as aguas do baptismo das antigas máculas,

tomando o nome de D. Affonso, em obsequio do filho d’ElRei D. João, e

com elle quizerão muitos fidalgos abraçar a fé Catholica. De todas

as partes concorrião póvos a lavar-se neste Sacramento, para lograrem

da luz Celestial, com o que se augmentava de dia em dia o numero dos

Christãos, e os que erão acceitos, se glorificavão com indisivel

contentamento. A tão saudaveis principios de subita conversão repugnava

todavia com grão debatimento o sempiterno adversario do genero humano;

e para lhes pôr estorvo, instigou Panso Aquitimo, outro filho d’ElRei,

que aborrecia os ritos da Christandade, a desviar seu Pai do zelo da

nossa fé. Pregoava como indigno desacato desamparar os institutos

dos maiores, esbulhar os altares das imagens dos Deoses, e violar os

templos atélli tão venerandos. Accrescia mais, que ElRei mui de seu

máo grado consentia que os Religiosos lhe vedassem as concubinas,

permittindo-lhe sómente o caso da Rainha legitima; e que todas essas

mulheres vendo-se destituidas do trato com ElRei, e decahidas das

honras, em que se vírão, por ellas mesmas, e pelos Grandes do Reino

sollicitavão ElRei, e forcejavão affincadamente por despegallo de

sua opinião. Vinhão depois os Agoureiros e empeçonhadores, que entre

elles forão mui venerados, os quaes propunhão ameaças dos Deoses, e

denunciavão crueis castigos aos que desgarrassem da Religião antiga: e

como D. Affonso empecia com grande esforço ás malignas tentativas desta

gente impura, ella excitou contra elle o odio mui acerbo do Monarca, e

em tal embuste o lançárão, que se persuadio que seu filho lhe tramava

ciladas: pelo que o degradou aos ultimos confins do Reino. E quanto

cedeo ao outro malvado filho seu, tanto cerceou de zelo ácerca da

Religião Christã; mas logo que os aleives descubertos forão, restaurou

a D. Affonso ao antigo gráo de honra com accrescentados cabedaes. Ora

este allumiado de instincto divinal, promulgou nas terras, que seu Pai

lhe confiára, pena de morte contra quem conservasse em sua casa idolo

algum de seu enganadissimo paganismo, ou em algum lugar o adorasse.

Esta promulgação amotinou muita gente, e muitos se conjurárão com seu

irmão contra elle; e seu Pai o mandou vir para o admoestar, a não

abrir porta a tumultos, e desistir deste sentimento. Elle com dizer,

que innumeraveis negocios o atalhavão, evitou vir á Corte, nem abrogar

o decreto, o que deo causa a muitos de passar delle a seu irmão. Em

tanto seu Pai já quebrantado de velhice, pezado de enfermidades,

inclinava a despedir-se da vida, e muitos informavão D. Affonso da

decadencia d’ElRei, e o convidavão a vir resistir á malignidade de seu

irmão, que juntava trópas para se apossar do Reino; mas elle até ser

inteirado da morte de seu Pai, não ousou abalar da fronteira. Logo

porém que soube ser este fallecido, entrou (como sua Mãi lhe tinha

encommendado) de noite na Cidade; e convocados no dia seguinte os

Grandes, em quem mais confiança tinha, e n’huma curta planicie, que

entestava com o Palacio, lhes fez huma falla, em que com muito sizo

lhes expoz o direito, que de herança lhe vinha; a bondade, com que por

seus vassallos, e allegando a obediencia, que de juro lhe devião, os

exhortou á lealdade, e a cada hum cumprir com seu dever. Elles logo em

boa hora e ventura o saudão Rei, e com grandes clamores, e alvoradas

de instrumentos musicos lhe dão os prolfaças da magestade e soberania

do Reino. Seu irmão apenas o soube, da grande soldadesca, que comsigo

tinha, fez duas trópas, com que veio direitamente contra D. Affonso,

que então se achava com hum minguado terço de guerreiros, a quem dando

grandes alvoroços da victoria, avisou com tudo, que mui firmemente

crendo que o celestial amparo faltar-lhes não podia, assentassem

que poucos, mas confiados em Jesu Christo, bastavão para derrotar

facilmente numerosissimos exercitos. E alli mesmo aguardou a seu

irmão, que com grande impeto correo sobre elle, e tão apinhadas vinhão

pelo ar as settas, que semelhavão a huma nuvem; tal era a sombra que

fazião. D. Affonso bravamente peleijava; mas no soccorro de Deos toda

a sua confiança tinha posta; e por essa razão clamava a grandes vozes

por Deos, e Sant-Iago (que sabia assim usarem os Hespanhoes em suas

guerras), e estes gritos erão por elle com muita ansia repetidos. Não

falseou Deos sua esperança; que subito os inimigos cortados de temor,

voltárão costas; e a vanguarda, que recuou primeira com embate, que

deo no segundo corpo do exercito, o desordenou e o empuxou na fuga: e

seu irmão, querendo desatentado de susto embrenhar-se nos matos, cahio

n’hum cêpo (que assim chamão hum engenho adaptado a tomar as féras

bravias), e alli ficou prezo elle e mais o General, que comsigo trazia,

pela grande opinião que tinha de seu valor. Este General vendo-se

apreado, mandou dizer a ElRei, que não pedia lhe perdoasse a morte,

que tinha por merecida; mas que pelo supremo Deos que adorava, lhe

intercedia o não remettesse ao supplicio, sem antes se fazer Christão.

Que desta vida curta sitiada de innumeraveis miserias, nenhumamente

curava; e que em summo gráo temia ser excluso da que para sempre ha

de durar: accrescentando ao peditorio, não ser possivel vencerem e

derrotarem tão poucos homens tão insigne multidão de trópas; mas

que elle víra hum grosso de Cavalleiros cruzados pelos peitos, e

que tanto resplandor de si lançavão na peleija, que deslembravão os

olhos, o que lhe fez cobrar descorçoamento e deixar o campo. Por tanto

duvidava, que sô a divindade de Jesu Christo era para com fé summa

se adorar, e com sempiterno obsequio se celebrar. D. Affonso lhe

satisfez não sómente ao que pedia, mas ainda lhe conservou a vida, e

de seu zelo e valentia se servio em varias occasiões. O Irmão d’ElRei

ora já das feridas que recebeo naquella desatinada quéda, ora já de

mágoa, morreo em poucos dias; e o que mais he de entristecer, morreo

na pertinacia de seus impios e malvados erros, sem que valesse razão

alguma a arredallo delles. D. Affonso assegurado na posse de seu

Reino, muitas victorias com favor da Divindade ganhou aos inimigos;

e com tanto zelo cultivava a Religião Christã, que nunca empregava

mais tempo em dirigir os negocios, que em incitar seus subditos ao

culto da piedade Catholica. Tinha outrosim frequentes conferencias

com o povo, em que lhe fallava da justiça, da piedade, da severidade

do juizo Divino, do galardão da vida eterna, da disciplina Christã, e

dos exemplos dos Santos Varões, que suas pégadas seguião. Em quanto

desfructou vida, conteve perpetuamente o Reino nos officios da piedade

Christã com singular encomio da probidade e da justiça. ElRei D.

Manoel inteirado do grande ardor, com que a Religião lavrava naquellas

partes, elle que por indole, por zelo, por doutrina se abrazava na

dilatação da Fé, fazia por dar remate e coroa ao que D. João seu

Primo tão venturosamente principiára: e por isso no anno 1504 mandou

aquellas terras homens letrados nas santissimas sciencias, conspicuos

no exercicio da Religião; e muitos Mestres nas Artes liberaes, que

abrissem escolas, onde instruissem meninos: e tambem deo por bom mandar

igualmente com elles obreiros primos de varias artes e officios. E para

mais arreigar aquella gente na recem-vinda fé, fez que carregassem nos

navios vestimentas sagradas, dellas de seda, e algumas com ouro; muitos

livros, que constassem da Doutrina Christã, e theor dos Sacramentos,

da Vida de Jesu Christo, e exemplos das Vidas dos Santos, e calices

tambem de prata para as Missas, e Cruzes do mesmo metal, thuribulos

e mais cousas necessarias, assim para transmittir a disciplina de

Jesu Christo, como para as mais ceremonias da Igreja. Ajuntou tambem

tenças e sustentação com munificencia e largueza para os Sacerdotes,

e mais pessoas encommendadas de vaguear por aquellas regiões; e dado

que nesta incumbencia despendia grosso cabedal, nenhum fructo, nenhum

emolumento para si, com que podéssem engrossar os seus thesouros,

mas sómente os eternos e divinos com inflammado desejo se propunha.

Logo que estes Religiosos sujeitos aportárão aquellas costas com os

sagrados dons, que ElRei enviava, acudio subito aquella gente em bando

innumeravel para os tomar sobre seus hombros; e quantos vinhão, com

olhos de acatamento olhavão aquelles Religiosos como varões baixados

do Ceo. ElRei de Congo os acolheo com extrema amizade, e deprecou a

ElRei D. Manoel por tamanho comprazimento, sempiterna bemaventurança:

e muitos vinhão á porfia de todo o Reino assentar-se no registro do

Salvador, para purificados na fonte da graça, incetar novo theor de

vida. E por quanto nem os Sacerdotes entendião a lingua da terra, nem o

vulgo desta a lingua Lusitana, lhes servia ElRei de interprete; e o que

os nossos dizião (que tinha sufficientemente aprendido o Portuguez),

lho declarava em práticas, que lhes fazia. ElRei D. Manoel entreveio

por cartas, que mandasse seus filhos a Portugal, que elle tomaria á

seu cuidado serem instruidos no Latim não sómente, mas em todas as

mais altas Sciencias: d’onde aconteceo, que não só os Principes, mas

muitos mancebos nobres vierão a Lisboa, e aprendêrão todas as Artes,

que competem a gente não vulgar, fazendo ElRei D. Manoel os gastos de

sua vivenda. Destes houve, que applicados com fervor ás Divinas Letras,

aggregárão ao redil da Igreja, quando voltárão á Ethiopia, muitos

infieis com seus sermões e exemplos de virtude. Em fim obra foi de D.

Manoel o acabamento de tão preclara empreza. Neste anno, bem deliberado

a não intervallar ao desejo da conservação da India, aprestou grande

Armada, a que deo por Capitão Mór Lopo Soares de Alvarenga; mas do que

elle na India obrou, n’outro lugar fallaremos, que releva dizermos

antes o que os Albuquerques lá fizerão. Partio Affonso de Albuquerque

de Lisboa, oito dias antes que Francisco de Albuquerque podésse

desancorar: este porém chegou á India primeiro que elle, e com duas

náos sómente velejou para Anchediva, a cuja ilha chegou juntamente

Nicoláo Coelho, que da outra náo era Capitão; e o da terceira náo, que

era Pero Vasques da Veiga, ou as ondas, ou algum incendio o consumio

desgraçadamente, ou qualquer outro infortunio, qual nunca se soube

ao certo. De Pero de Ataíde e dos outros Capitães, que alli achou,

comprehendeo Albuquerque como os Sodrés tinhão perecido, e ElRei de

Cochim despossuido do Reino pelos poderes do Çamorim; o que sabido,

não deo cabe a demoras; e a despeito do Inverno e sua sanha, partio

para Cananor com aquelles seis baixeis, quatro que com Pero de Ataíde

ancoravão em Anchediva, e os dous de sua conserva. ElRei de Cananor lhe

contou mais largamente o desastrado successo de Trimumpará, suas perdas

e trabalhos. De Cananor arrancou mui expedito para aportar a Vaipi,

ilha adjacente a Cochim, onde Trimumpará ainda residia: e os nossos

ao avistar dos navios, cobrárão incrivel alvoroço; ElRei mesmo se não

pôde refrear, e voz em grita: Portugal, Portugal, corre a abraçar os

Capitães. Em recompensa os nossos com grande clamor o excitão logo a

cobrar esperanças de se restaurar na antiga magestade; e os Naires de

Calecut, que erão de presidio em Cochim, de medrosos desalojão subito

da Cidade. Já nesse tempo Duarte Pacheco, que de Lisboa partíra com

Affonso de Albuquerque, tinha lançado ferro naquellas praias, e se

juntára com Francisco de Albuquerque. Este depois dos elogios, que deo

á fieldade de Trimumpará, e gratulação da parte d’ElRei D. Manoel,

como o visse desprovido, e embaraçado vehementemente com a penuria de

moeda, do cabedal d’ElRei de Portugal lhe deo (além de outras dadivas

e presentes) dez mil cruzados: dadiva que a todos deixou em grande

espanto, e que a Trimumpará foi muito grata, em razão da estreiteza dos

tempos; e por quanto os Reis da India, dado que de sua natureza sejão

altivos e arrogantes, e muitas riquezas possuão, contentão-se com mui

tenue comestivo, e resguardão muito ao dinheiro. Quando a fama deste

donativo se derramou, pasmárão os convisinhos Reis, pasmou o Çamorim.

No mesmo dia Francisco de Albuquerque (que em negocios de tamanho porte

não gostava de procrastinar) trasladou Trimumpará a Cochim, e alli

em nome d’ElRei D. Manoel o assentou na posse da Cidade e de todo o

Reino; e por não consentir que entorpecessem no ocio os seus soldados,

nem o vigor se roborasse nos inimigos, investio com outra ilha, tambem

fronteira a Cochim, cujo senhor deixára ElRei de Cochim para passar

ao de Calecut; e dando de sobresalto nos inimigos, os decepou, e

matando muitos delles, queimando algumas Villas e Aldeias, virou logo

sobre Cochim. No dia seguinte correo a outra ilha dos dominios de

Trimumpará, cujo Donatario tambem cahíra no mesmo crime de rebellião;

e tinha elle tres mil esforçados guerreiros postos em armas, e muitos

paráos de Calecut bem petrechados, que rodeavão a ilha para acudir

com soccorro. Aqui distribuio Albuquerque os seus Capitães de sorte,

que Pacheco investisse por mar com os paráos, que Antonio do Campo,

Nicoláo Coelho, e Pero de Ataíde peleijassem na vanguarda com os

inimigos. Pacheco arrancou vóga contra os paráos, destes desarvorou, e

os mais poz em fugida, e muitos dos adversarios levou a ferro e fogo.

Os outros Capitães no primeiro remettimento desbaratão os inimigos,

arrancão a tranqueira, que guardava os Paços do Principe, entrão em

Palacio, e dentro delle matão o Principe, e deitão fogo ao edificio, e

nesse mesmo dia voltão depois de ganharem a victoria. Forão na manhã

seguinte a outra ilha chamada Repelim os navios todos, porque tambem o

senhor della tinha igual crime commettido, e que avisado pelo receio,

por evitar o supplicio dos outros traidores, se ladeava de grandes

forcas para a resistencia: dous mil Naires seguião suas bandeiras. Veio

pois presentar-se na praia para nos impedir o desembarque. D’huma

parte e d’outra se peleijou valentemente; mas por fim os inimigos

forão forçados a se valer da fuga para salvar-se da morte; e os nossos

os perseguírão até á metropoli da ilha; e o Principe della, que vio

o derradeiro aperto, juntou os fugitivos destroços; e formando como

pôde nova haste, valerosamente combateo. Restaura-se a batalha, e

mui acerrima foi e mui renhida, té que em fim nos voltárão costas os

contrarios. Depois de alancearem muitos, e despenharem da ilha ao mar o

resto, derão-na os nossos a sacco aos soldados de Trimumpará. Saqueada

a ilha, mandou Albuquerque lançar fogo e deixar em cinza Villas e

Aldeias; o que assim cumprido, veio ter Affonso de Albuquerque com

ElRei, que mui satisfeito era já de tão venturosos acontecimentos, e

lhe pedio faculdade de edificar huma fortaleza, em que os Lusitanos

podessem rechaçar todo o perigo, que os adversarios lhes intentassem,

e mais facilmente o estado delle Trimumpará defendessem da feridade

do Çamorim. Mui facilmente lho outorgou ElRei, e demais lhe disse,

que a vida que possuia, que a recuperada dignidade, e o fortalecello

contra os arrojos de tão preverso inimigo, a elle Albuquerque, a seu

clarissimo Rei, e ao esforço dos Portuguezes, reputava ser devido

o agradecimento. Além de que, se lhe parecia a elle a edificação

da fortaleza util a ElRei D. Manoel, queria sobre si tomar elle a

despeza. Com isto se fez escolha d’hum sitio mui accommodado para ella,

que era huma ária sobranceira ao mar, onde elle mais se estreita, e

d’onde cada vez que ElRei de Calecut intentasse commetter combate ás

náos, podessem os nossos folgadamente lhe vedar a entrada. Aos 27

dias do mez de Setembro de 1503 se lançárão os alicesses, e acudia

á obra por mandado de Trimumpará infinda quantidade de gente: os

Lusitanos mesmos se não valião das escusas da nobreza, nem dos annos

para isentar-se do trabalho, dado que ElRei lidasse em arredallos da

fadiga. Gastados erão quatro dias já no lavor da fortaleza, quando em

Cochim entrou Affonso de Albuquerque, que dando mais mãos e mais fervor

á obra, galgou ás ameias, e foi de todo concluida. Seguio-se ter elle

conselho com os demais Capitães, e partir com elles e alguns soldados

de Trimumpará a certos póvos pertencentes ao Caimal de Repelim, que

(como dito he) de Trimumpará se rebellára; ficavão elles a vinte mil

passos de Cochim, e não distantes da beira do rio, quando monta a

preamar. Dão os nossos em lanchas e pequenos vasos de subito sobre os

inimigos; a muitos matão, e os demais desbaratão e affugentão, e vão

talando e destruindo quanto encontrão. Com o estrago se estende tambem

rapidamente a noticia delle pelos contornos, e a grandes gritos se

derrama, que vai tudo em gran derrota. D’huns a outros vai passando

o clamoroso sobresalto, de maneira que n’humas partes por corredores

que lá forão com a noticia, n’outras pelo grito successivo passado

como de éco a éco, em pouco tempo se aggregou numeroso corpo. Erão

mais de seis mil os Naires, que accorrêrão repentinamente em seu

soccorro: então os nossos começárão pouco a pouco, mas sem perder

a fórma, a ir cedendo. Vinhão-lhe sobre e mui ferozes os inimigos,

e lhes davão grande cançaço, por quanto não só de longe com lanças

e arremessos, mas já peleijavão a talho de espada; e se não fora a

boa ordenança, em que souberão conter-se, terião os nossos muita

mortandade; e como os baixeis não ficavão longe, e não houve desmancho

na fórma da retirada, todos (não sem grande trabalho e risco de vida)

se recolhêrão ás lanchas e navios. Todavia Duarte Pacheco não achando

a sua lancha (que temerariamente os seus tinhão arredado do sitio),

esteve em grande transe, porque se apinhou em roda della tão grossa

coroa de inimigos, que o acabarião, antes que viessem soccorrello.

Mas como elle era resoluto e forte, com o brio que lhe era natural,

lhes rebateo o impeto, até que os Albuquerques avistando o perigo, em

que elle estava, corrêrão a franqueallo. Assim recolhidos todos, se

fizerão na volta de Cochim. Ferírão-nos oito homens na refrega, nenhum

foi morto: dos inimigos morreo grandissima copia, cativamos-lhes no

rio sete paráos e quinze lhes queimámos. Na noite seguinte (que o

ardor que lavrava nos Capitães, não consentia repouso nos soldados)

se mettêrão nas lanchas e outras embarcações para ir destruir outras

Aldeias do Caimal de Repelim. Tomou para si a vanguarda Affonso de

Albuquerque; e como os inimigos estavão de vigia e sobre as armas,

formão-se em continente, e mui agramente nos resistem; alli nos

matão dous homens e nos ferem vinte. Este caso inopinado embaraça a

Affonso de Albuquerque, que não vê theor de resistir a tal poderio de

soldados, nem de se retirar a salvo: portou-se todavia como fazello

deve hum animo de prova, peleijou valente, até que appareceo o dia, e

os outros Capitães chegárão, sustendo o impeto dos contrarios até lhe

vir soccorro. Francisco de Albuquerque com os outros Cabos se lanção

das lanchas á praia, e com rapidez incrivel entrão no sitio, em que

começára o recontro: com este refresco tal brio recresceo nos nossos,

que puzerão os inimigos em fugida; a maior parte delles bem sangrada

foi de nosso ferro, e deitámos fogo ás Aldeias: nem findou aquelle dia

sem irem accommetter outra ilha por nome Cambalão, onde derão morte a

mais de 700 homens; e não satisfeitos ainda, entrando por outras terras

pertencentes ao dominio d’ElRei de Calecut, fizerão estrago no povo,

e devastação grandissima nas fazendas; sobrevindo porém 6$000 homens

para lhes conter o impeto, forão rechaçados de máo gésto. Entretanto

Duarte Pacheco venceo e poz em fuga 34 paráos do Çamorim, que vedavão o

porto de Cochim aos mercadores; e como depois destes prejuizos causados

aos inimigos, os mercadores não se affoutassem a acudir a Cochim com

a pimenta e outras especiarias, pareceo bem a Affonso de Albuquerque

ir a Coulão e lá carregar tres navios. Era esta Cidade populosissima

antigamente naquellas paragens, e de grande opulencia; mas depois que

os commerciantes começárão a frequentar Calecut, e engrossar esta em

riquezas, declinou grandemente Coulão de seu poder. Fica ella a 48$000

passos de Cochim voltada para o nascer do Sol; sua navegação pelo

rio acima he segurissima, excepto quando em suas gargantas d’huma e

d’outra margem do rio põem embuscadas os inimigos, por ser mui profundo

e juntar suas aguas com as aguas que lhe traz a maré, que o monta,

faz que seu ancoradouro he optimo. Suas moradas, pagódes, religião,

costumes e leis, são quasi os mesmos que já dissemos erão os dos mais

Malabares. A gente he mui usada á guerra, pela que continuamente trazem

com ElRei de Narsinga. Por quanto bem que o Reino de Narsinga occupe

em grande trato a costa da India, que respeita o Sol nascente, como se

estende muitissimo, vem ainda abarcar em seus limites, confins do Sol

poente. A maior parte do anno a passa ElRei nas Cidades mediterraneas,

deixando Coulão confiada a homens de abonada lealdade. Toda essa região

he tambem habitada de Christãos, que de S. Thomé tem a santa crença, e

que em tanta variedade de tempos, mudança de reinados, adversos azares

e incidentes, com fé sempre invencivel e constante a conservárão. Ha

na Cidade hum Templo antiquissimo, que he tradição entre elles ter

sido edificado pelo Apostolo S. Thomé, cujo corpo jaz sepultado na

costa de Narsinga n’huma mui venerada não só dos Christãos, mas ainda

dos Mouros e Pagãos. E he fama constante, que pelos merecimentos do

Santo Varão obra a Divindade alli muitos milagres; e muitas pessoas,

que em gravissimas enfermidades e outras afflicções imploravão sua

ajuda, forão miraculosamente aliviados, e despedidos de grandissimos

soçobros. No tempo, em que Affonso de Albuquerque aportou a Coulão,

meneava não lerdamente o governo huma Rainha viuva em nome de seu

filho, que não tinha ainda idade competente: e foi mui honradamente

recebido pelos Maioraes da Cidade, que em nome da Rainha se prestárão

a dar-lhe comprazimento em tudo. Pelo que carregando a seu grado

as náos, e concluido concertos de amizade, e entregues á lealdade

régia os Portuguezes, que para bem de commercio alli ficavão em nome

d’ElRei D. Manoel, veio de volta a Cochim. Em quanto estas cousas se

passavão, ElRei de Calecut considerando na fraude, em que o lançárão

as insinuações dos Arabios, com muito segredo, porque estes lha não

estorvassem, assentou instituir alliança com os Lusitanos, a cuja

resolução e a mais brevemente concluilla o impellião as boas razões

de Naubeadarim, que, como dito he, constava propender egregiamente

para a Nação Portugueza por affecto de seu animo. Estas forão as

condições do tratado: Que serião desarmadas incontinente todas as

náos, que para fazer guerra aos Portuguezes, ou a seus amigos, tinhão

lançado ao mar: Que serião restituidas todas as fazendas d’ElRei D.

Manoel, que no arruido, em que Aires Correa foi morto, os Arabios,

e seus outros socios tinhão desbaratado; e que por ellas ElRei de

Calecut pagaria em tempo determinado certa quantia de pimenta: Que

não daria faculdade aos Mouros de navegar na Arabia. E pedia mais

Francisco de Albuquerque, que dous Milanezes, que tinhão transfugido

para elle Çamorim, lhe fossem remettidos. Este unico artigo recusou

ElRei de Calecut, por ter por grandissima baixeza entregar homens, que

se tinhão livrado na sua lealdade; o mais tudo concedeo. Isto assim

determinado, partio Naubeadarim para Cranganor, para lá mandar pezar

grande parte da pimenta, e a facultar a Duarte Pacheco, que por ordem

de Francisco de Albuquerque alli viera a recebella. Succedeo neste

interim, que quando Pacheco tinha mandado metter nas náos boa parte

da pimenta, navegou para Cranganor carregado de pimenta hum navio,

que era de ElRei de Calecut. Como viessem dar parte disso a Diogo

Fernandes Correa, mandou este sem ordem de Francisco de Albuquerque,

que lhe trouxessem o navio a Cochim. Os que estavão no navio, que se

vírão prisioneiros, clamão contra esta indignidade, quando ha huma

paz solemnemente celebrada entre ElRei de Portugal e o Çamorim, e que

apezar da paz já feita, os Portuguezes tomem cativos á forca de armas

os Ministros d’ElRei de Calecut e seus criados, e saqueem a pimenta

d’ElRei. Além de que, aquella pimenta a mandava ElRei de Calecut a

Cranganor para ser entregue aos Portuguezes em desconto da promessa

real. Que não quizessem por força extorquir das mãos dos Officiaes

d’ElRei e com tanta offensa delle o que sem injúria de ninguem logo

tinhão de receber. Mas nada obstante, porfia mui tenazmente Diogo

Fernandes no determinado aggravo, e cativa o navio com seis Naires

mortos e muitos mais feridos. Dos nossos não poucos sahírão feridos da

batalha, de sorte que nos custou muito sangue huma pequena quantia de

pimenta, que com violencia e injustiça lhes roubámos. Naubeadarim logo

que o soube, requereo de Francisco de Albuquerque désse satisfação ao

Çamorim: por quanto fora quebrantada a alliança, e gravemente offendido

o animo d’ElRei, e hum campo aberto aos que anciavão baralhar a paz,

de temerariamente levantar cruelissima guerra: além de ser feissimo

para Portuguezes incorrerem elles mesmos nas maldades, que lidavão

por vingar nos outros. E se pareceo justo moverem elles guerra ao Rei

de Calecut, por não ter querido desaggravallos, castigando os que tão

máo feito commettêrão na morte de Aires Correa, e no desbarato da real

fazenda, e dar assim satisfação a ElRei D. Manoel, porque ficaria não

vingado igual insulto, quando por Lusitanos perpetrado? Porque não

daria a ElRei de Calecut qualquer satisfação, com que lhe apaziguasse

o animo irritado de injúria tão atroce? Mórmente hum Rei tão mudavel e

colérico, tão apaixonado dos Sarracenos, que induzido de suas fallas,

sem de nós ter recebido aggravo, nos inferíra todos os destroços,

que tinhamos padecido. Que não teria elle por bem causar-no, quando

sentisse da sua parte a justiça da guerra contra nós? Estas e outras

muitas razões deste theor, que Naubeadarim lhe repetia, desprezou

Francisco de Albuquerque. Este crime escureceo todos os louvores, que

tinha grangeado. Foi maldade nelle menos prezar a fé dos tratados? foi

cobardia em não hum insensato, hum temerario? Deliberou-se o Çamorim,

levado de gravissima cólera, a renovar a Armada, a alistar guerreiros,

para intentar guerra a ElRei de Cochim e aos Portuguezes: e Trimumpará

que o soube, entrou a pedir instantemente a Francisco de Albuquerque,

que lhe deixasse guarnição tal, que podésse rebater de suas terras

o impeto das forças d’ElRei de Calecut; porque seria cousa indigna,

que Lusitanos destituissem de amparo hum Rei, que pelo zelo da Nação

Lusitana estava no caso de se ver opprimido de huma guerra tão grave,

como aquella ameaçava ser. Francisco de Albuquerque tudo prometteo;

mas nada preencheo como era devido, porque huma só náo deixou com

duas caravélas, cuja fórma descrevemos já, e mais hum pequeno baixel,

e cem soldados, que com 50, que já com elle erão, montavão a 150

Portuguezes, que ficavão para sopportar o encargo de tão formidavel

campanha. Tinhão por Capitão Duarte Pacheco, que com summo gosto se

encarregou da Praça, e que poria a vida, se necessario fosse, pela

gloria de Jesu Christo, e por obsequio d’ElRei D. Manoel. Chegou neste

tempo de Coulão Affonso de Albuquerque, e depois partio de Cochim

com Francisco de Albuquerque para Cananor, onde soube por cartas de

Rafael Reinei, feitor da pimenta, que lá lhe havia de mandar entregar

Naubeadarim, que grandissima guerra se aprestava; o que tambem lhe

indicavão outras cartas de Cogebique, de quem já fizemos menção, e do

muito que favoneava a Nação Lusitana. De Cranganor passárão ao maritimo

de Calecut, d’onde enviárão ao Çamorim dizer, que lhes remettesse os

Portuguezes, que em seu poder retinha, cuja proposta rejeitou elle;

e assim tomárão o caminho de Portugal. Affonso de Albuquerque entrou

em Lisboa em 17 de Julho de 1504; Francisco de Albuquerque e Nicoláo

Coelho não se sabe de que maneira perecêrão: nunca mais delles se

soube, nem escapou quem désse noticia de sua morte. Pedro de Ataíde,

espedaçando-se-lhe n’hum banco a náo, salvou-se em terra, e com parte

dos que com elle hião, passou a Moçambique, onde falleceo; a outra

recolheo-se a Melinde. Quasi no tempo em que estas cousas acontecêrão,

foi embatido de mui rijos temporaes o Capitão Antonio de Saldanha, que

ElRei D. Manoel enviára de Lisboa, depois da partida dos Albuquerques,

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 13 / 22 段