a região subjacente ao círculo Equinocial, descahio n’huma ilha
não descuberta, a que deo o titulo da Conceição, e de lá se foi a
Moçambique, tendo antes mandado as náos chegar-se á terra, onde chamão
a aguada de S. Braz, para renovar d’agua alli os vasos. Nessa aguada
achou pendente dos ramos d’huma arvore hum pantufo usado, que lhe não
pareceo alli atado por jogo; pelo que o fez desliar da arvore, e ver o
que continha. Achou dentro huma carta de Pedro de Ataide, escrita de
sua mão, em que avisava todo o Capitão Lusitano que alli arribasse,
de esquivar o porto de Calecut, cujo Rei era mui cruel e malvado
homem, que maquinava com insidias de primeiro contra os Portuguezes,
e depois com força declarada a sua perdição. Entrando depois em
Quilôa, veio ter com elle hum dos degredados que por varias partes
forão derramados, que tambem lhe trouxe cartas de Cabral traçadas
com igual intento. Quando dalli surgio em Melinde com suas náos, lhe
individuou então ElRei todas as fraudes e perfidias, que urdíra ElRei
de Calecut. De Melinde tornou a fazer aguada em Anchediva, e de lá
fez viagem para Cananor, onde ElRei o recebeo com todo o agrado, de
quem não quer dar praça a descuido em primores de agasalho. Alli lhe
veio fallar, de mandado do Çamorim, Gonçalo Peixoto, que no ensejo
em que foi morto Aires Correa, por obra de Cogebec escapou occulto a
tal desastre; e vinha dizer-lhe, que o arruido em que Aires Correa
perecêra, fora a occultar delle levantado pelo vulgo destinado e
furioso; que seu animo nunca se desviára do zelo, que por D. Manoel
tivera sempre; e que teria muito a mercê entrar elle João da Nova no
seu porto, onde veria como vinha facilmente a cabo de quanto desejasse,
e acharia carga, com que muito podésse accrescer a fazenda real.
Depois que disse o recado do Çamorim, expoz os avisos, que Cogebec lhe
enviava: Não dar nenhum credito ao mais ruim de todos os Reis, que com
fingimentos de amizade empenhava todo o seu poder para dar morte a
quantos Portuguezes podésse. Que quem houvesse fé a quem nunca a teve
com alguem, mereceria pagar com a vida a imprudencia. Nada quiz João
da Nova responder-lhe, nem consentir que Peixoto tornasse a Calecut;
antes tomando a via de Cochim, combateo com huma náo de Calecut, que
mandou esbulhar da carga e pôr-lhe o fogo. Quando os nossos vírão
entrar náos Portuguezas, tal alegria lhes entrou no peito, qual fora
a de serem tirados d’entre os colmilhos da morte: pois dado que ElRei
mui affabilmente os tratava, e lhes dera certos Naires para sua
defeza, receavão sempre muito a perfidia daquelles Arabes moradores
mui frequentes de Cochim. João da Nova recebeo d’ElRei todos os bons
officios, que d’hum sogeito dotado os rara probidade e boa fé se podem
requerer, em cujo conseguinte João da Nova perfazendo a sabor seu
quanto era da incumbencia d’ElRei D. Manoel, e carregadas quasi em
cheio as náos, voltou a Cananor completar-se de outras especiarias, o
que lhe foi larga e grandiosamente concedido. Ao querer sahir da barra
de Cananor o advertio ElRei, que mandára o Çamorim oitenta paráos
sitiar-lhe o porto, para cerrado nelle o desbaratarem, aconselhando-o
juntamente de se chegar mais á terra, para o poder elle ajudar melhor
com a sua gente, que não era imaginavel poder elle com sós quatro
náos resistir a tamanha quantidade de inimigos. Agradeceo-lhe João
da Nova como devia, exhortando-o muito a socegar o animo ácerca do
bom successo, pois que elle tinha depositada no supremo Senhor toda
a esperança da victoria, com sua ajuda mui de vontade investiria com
muito maior Armada. No outro dia descortinou João da Nova impedida a
barra pelos inimigos com mais de cem navios. João da Nova dispoz de
sorte a Armada, que laborasse com toda a artilheria, e fez capacitar os
Capitães singularmente, que toda a esperança do salvamento consistia
em não se deixar forçar a combater de perto com tanta multidão; e que
delineassem o theor dos tiros de maneira, que servissem com aturados
pelouros os inimigos; por quanto por onde parassem os tiros entraria
grandissimo desbarato. Desempenhárão os Capitães com summo desvelo o
que lhes fora incumbido; o que foi causa de se peleijar da nossa parte
com gran denôdo e porfia até ao pôr do Sol. Soube-se depois que os
inimigos perdêrão 417 homens, afóra muitos mais tocados de balas, e
náos desarvoradas, quando nós nenhum perjuizo padecemos. Os inimigos
pozérão bandeira branca; mas João da Nova, que a suspeitou eivada de
fraudulencia, hasteou bandeira de guerra, e mandou alegrar a peleija,
nada obstante o que os inimigos perseverárão na demonstração de paz,
então lhes respondeo elle içando bandeira de paz. Chega logo hum
Arabio com requerimento da parte delles para lhes dar treguas aquella
noite, para virem no dia seguinte a concerto de paz com condições
taes, que aproveitassem a ambos os partidos. Respondeo-lhe João da
Nova, que não consentia em treguas sem que primeiro desembargassem a
embocadura do porto, e lhe deixassem o mar folgado. O que elles subito
executárão. Sahio logo João da Nova da enseada, e foi-se pôr com a
sua Armada sobre as ancoras fóra da entrada do porto não mui longe
delle; o que tambem fez a Armada contraria, huma á vista da outra,
mediando todavia entre ambas hum pequeno espaço de mar. Contra toda a
lealdade mandárão os de Calecut homens a nado, que viessem furtivos
cortar as amarras das nossas náos, e outros trás elles em bateis com
botafogos, para os arrojarem a ellas, logo que as amarras fossem
cortadas. Que se os nossos não déssem tino desta ruindade, pelo muito
que se vigiavão, viria ella a ter effeito: mas os nossos não cessavão
de os arredar dalli com arcabuzadas e ainda com bombardadas a quantos
pressentião chegar; lida incessante, que consumio aos nossos a noite
em claro. Quando os inimigos vírão que nem tramas escondidas, nem
forças descubertas lhes fructificavão a seu desejo, levárão ferro; e
aproveitando o vento fauoravel, se recolhêrão a Calecut. Os nossos, que
se vírão despejados de tamanho risco, derão eximias graças a Deos, e
sem demora alguma tomárão com infunadas vélas o caminho de Portugal.
Não tinha João da Nova caminhado muito, quando avistando huma náo de
Calecut, carregou sobre ella, a preou, tirada a fazenda, lhe deitou
fogo; e dalli com prospera viagem veio dobrar o Cabo de boa esperança,
e de passagem deparou com a ilha de Santa Helena, ilha não grande, mas
que parece depositada alli naquelles mares por determinação divina,
para refeição dos mareantes Portuguezes, que trabalhados vem da India
e suas tormentas, faltos (como he de crer em navegações prolixas) de
todo o provimento. Contém ella rios perennaes de aguas mui frescas,
matos e florestas mui espessas, e ares, que dão saude. E depois que
certo homem, de quem logo faremos menção, lhe deo cultivo, medrou em
rebanhos, ovelhas, porcos, &c., abundou em fructos e legumes: d’onde
vem o muito commodo, com que os nossos fazem nella aguada e lenha, e
não só se deleitão com pescarias, veação e passarinhagem, mas refazem
as náos de mantimento. Desta ilha com feliz viagem chegou João da Nova
a Lisboa a 11 de Setembro do anno de 1502, com summo contentamento,
que de tão venturosa chegada coube não só a ElRei, mas tambem á
Cidade toda. Neste mesmo anno partio ElRei para Compostella a cumprir
hum voto, que tinha promettido a Sant-Iago. Ao passar por Coimbra,
reparando na sepultura do mui santo e mui invicto Rei D. Affonso I.
(por cujo esforço forão os Mouros expulsos dos limites Lusitanos)
pouco grandiosa em seu lavor, a mandou desfazer, e em seu lugar
edificar hum magnifico e vasto moimento. O mesmo obrou com o sepulcro
do Martyr S. Pantaleão, varão de muita santidade, mandando-lho lavrar
com muita despeza, cumprindo nisso o testamento do Senhor D. João II.
E outro sim por onde quer que passava, acudia a pupillos e viuvas,
deixava dadivas e dinheiro ás Igrejas, vingava com acerrimos castigos
os crimes de homens poderosos, que até áquelle tempo corrião impunidos.
Ficou tres dias em Compostella, onde com singulares demonstrações
de religião visitou a sepultura de Sant-Iago, liberal nos dons, que
fez á sua Igreja, os augmentou ainda com huma alampada de prata, que
pendurada diante do sepulcro, o allumiasse de contínuo; e era de obra
singular e perfeita. Em todas as casas, em que se hospedou, deixou
mil generosidades; e pelo dizer em summa, tal romaria fez, que a cada
passo que dava, estampava vestigios de devoção, de liberalidade, e
de real munificencia. Voltado a Lisboa, metteo incrivel alegria no
peito de quantos tinhão por insupportavel a sua saudade. Logo desde
a entrada do anno seguinte, poz de novo em campo os projectos de
passar em Africa, para commetter guerra aos Mouros, a cujo effeito
fez allistar soldados, preparar Armada, e juntar mantimentos; mas
as lavouras estragadas, malográrão este forcejo seu: que desde a
Primavera sobejas chuvas e contínuas tempestades tinhão apodrecido as
searas. Seguio-se carestia de pão, e logo a fome fez pendor não só na
gente pobre e mesquinha, mas ainda nos abastados. Muitos arrancavão
raizes para comer, e compravão para seu sustento cousas, de que nunca
imaginárão provar; de cujos alimentos nocivos, e da má qualidade do
ar inficionado e corrupto, provierão gravissimas doenças. O que visto
por ElRei D. Manoel, assentou, constrangido da necessidade, de abrir
mão de todo o apparelho de guerra, e pôr toda a attenção em abastecer
o Reino de trigos: pelo que mandou vir grande copia delles de França
e de Inglaterra, com que applacasse a penuria. Mandou neste anno seis
náos á India, tres das quaes commandava Affonso de Albuquerque, e as
outras tres seu primo Francisco de Albuquerque. Entregou mais outra
Armada a Gonçalo Coelho, com que fosse dar vista do Brazil, terras,
com que acertára Pedro Alvares Cabral. Mas succedeo, que mal-atinados
em terras não conhecidas, das seis náos que levava perdeo quatro
quebrantadas em baixios, e só trouxe duas carregadas de páo vermelho,
que alli vem como em silva, e muitos papagaios e bugios. Tambem nesse
mesmo anno mandou duas náos correr as costas do Norte, a investigar o
que fora feito de dous Irmãos, pessoas nobres e de não curtos brios,
que reputavão mortos ou cativos. E o caso passou assim. Como quer que
Gaspar Corte-Real fosse de egregia valentia, e lhe ardesse no peito
violento amor de gloria, para transpassar aos vindouros o esplendor
de seu nome com algum feito memoravel, deo por firme, que seria o
indagar terras inda não avistadas. E por ter comprehendido, que quasi
toda a praia, que resguarda ao Sul, com as nossas navegações estava
explorada e discorrida, lançou-se a costear o Norte: pelo que á sua
custa aprestou hum navio, e o proveo sobre maneira de vitualhas, armas,
mareantes e soldados, e no anno 1500 partio de Lisboa, dirigindo seu
curso á plaga Septentrional. Aportou a huma terra, que em razão de sua
rara amenidade appellidou Terra verde. Os homens, como elle depois
contava, são barbaros, e incultos, brancos de côr; mas envelhecendo, os
enfusca o rigor dos frios. São levissimos na carreira, e mui certeiros
no arremesso: usão de zagunchos tostados na ponta, com que atirão aos
inimigos e os transpassão tão correntes como se de bom aço remontados
fossem. Vestem pelles de animaes, vivem em cavernas, ou construem
palhoças baixas com tectos de esteiras. Sem terem religião alguma que
os retenha, são dados a agouros. Conhecem suas mulheres em legitimo
matrimonio, e de seu recato e lealdade são mui desvelados, por ciosos
que são de sua natureza. Corte-Real de volta em Portugal, como inda
nelle lavrasse a esperança de conhecer muitas outras cousas, tornou
no anno seguinte ás mesmas paragens, para mais largamente explorar
aquella costa, e se inteirar dos costumes e instituições daquella
gente. Mas que acontecimentos teve, ou de que destino fenecêra, nunca
alcançar-se pôde. Seu irmão Miguel de Corte-Real, que era muito do lado
d’ElRei, impellido de fraternal affecto, no anno de 1502 aprestou dous
navios para ir correr aquelles sidos, e ter novas de seu irmão: mas
delle não veio depois noticia. D. Manoel considerando a perda de dous
homens nobres, que elle tanto prezava pela indole egregia delles, mui
pezadamente a supportou; e acudindo pelo dever de bom Principe, que
nada devia trascurar, para saber ao certo de que morte perecêrão, ou
que prizões os reprezavão, mandou náos, que divagassem por aquelles
mares; mas estas nada colher podérão ácerca de seus fados. Pelo que
tendo alli morrido aquelles dous irmãos, a terra perdeo o nome de
Terra verde, e acceitou o de Terra de Corte-Real. E como Vasco Eannes
de Corte-Real, irmão mais velho dos outros dous e Mordomo Mór da Casa
Real, tinha ainda esperanças tenues da vida de seus irmãos, tratava de
seguir a mesma navegação; mas ElRei lho impedio, porque não cahisse,
sem fructo algum, em semelhante azar.
Neste mesmo anno, depois que os Albuquerques tomárão, como dito he,
com suas náos a direitura da India, convocou D. Manoel todo o Reino
a Cortes, para que jurassem os Póvos a seu filho D. João, como he
costume na Hespanha, por seu legitimo herdeiro, o que elles preenchêrão
com unanimes vontades; e nessas mesmas Cortes se ordenárão muitas
Leis proveitosas ao Povo pelos Procuradores das Camaras requeridas,
acordando no mesmo Congresso huma quantia de dinheiro em Subsidio
para os gastos que fazia a guerra de Africa. Depois que dobrou Vasco
da Gama o Cabo de boa esperança, dividindo a sua Armada, confiou
onze navios a Vicente Sodré, com que fosse a Moçambique, e lá o
aguardasse; reservando sós quatro, com que hia ver Çofála, e averiguar
sua situação e natureza; e com effeito o Principe daquella região o
recebeo mui cortezmente, e fundárão reciproca amizade: querendo sahir
da enseada huma das náos, naufragou na boca da barra, mas toda a
mareação, fazenda, &c. foi passada aos outros tres navios. Partindo
dalli para Moçambique, teve falla com o Principe e Regedor da Cidade;
que já era despedido o Xeque, que maquinára a morte á nossa gente,
e outro substituia seu posto, que tratou mui affabilmente o Gama. E
ora este dera ordem a Vicente Sodré, em quanto hia de volta a Çofála,
que construisse em Moçambique hum baixel dos que chamão caravéllas em
Portugal, para o que já do estaleiro de Lisboa vinhão as madeiras
condicionadas. Tal he o feitio seu. Não tem cestos de gávea, nem as
vergas fazem angulos rectos com os mastros, mas pendem obliquas d’huma
alça, que as segura por baixo da cabeça do mastro, e a base da véla,
que he triangular, roça quasi pelas amuradas. As vergas, que se amurão
aos costados do navio, são pela parte de baixo grossas como mastareos,
e adelgação até ao cimo da véla. De vasos desta feição se servem na
guerra maritima os Portuguezes, pelo muito ligeiros que elles são,
sendo-lhes mui maneiro apontar á prôa ou á pôpa o conto destas vergas,
e ainda a meio costado do navio, passallas da esquerda para a direita,
ou desta para a esquerda n’hum átomo de tempo, segundo lhes faz feição,
ferrar o panno ou disferillo das vergas, a que o atão pelo cêpo da
entenna, com quem as vélas abrem a base do angulo; e qual lhes sopra o
vento, tal lhe apresentão o bojo da véla não tardios. Todo o vento lhes
faz geito, de modo que com vento de ilharga bolinão em direitura, como
se forão arrazadas em pôpa, e para ir o mesmo navio em senso contrario,
não tem mais que a mudar o velame, o que mui prestes se prefaz. De tal
fórmo entendeo Vasco da Gama que fosse o navio fabricado, para dar
caça por aquelles mares aos inimigos do nome Christão, e lhes fazer
quanto mais mal podésse: e ajuntando esta caravélla á Armada, partio
para Quilôa, onde já tinha entrado Estevão da Gama com os cinco navios
de sua guarda: e assim constava a Armada de dezenove náos; por quanto
a náo, que capitaneava Antonio do Campo, arremessada pelos ventos a
longinquos mares, não se dava a apparecer. ElRei de Quilôa entrado de
grandissimo susto, veio muito humilhado ter com o Gama, que lembrado
das injúrias que nos fez, o mandou prender, e como pedia perdão, lhe
deo liberdade o Gama, com a condição formal de pagar todos os annos
a D. Manoel certa quantia de ouro, em sinal de tributo. Habrahem Rei
de Quilôa, deixou logo em refens a Mahomet Ancon, pessoa de muita
authoridade no Reino, cuja dignidade era a segunda apôs ElRei. Habrahem
logo que se vio solto, não remetteo o ouro pacteado; cuidando retello
assim, e segurar a morte a Mahomet Ancon, na crença que o Gama enojado
desta perfidia, mandaria matar Ancon, a quem muito odiava, posto
que este odio cerrado em seu animo o cobrisse elle com apparencias
de amizade. Por quanto era Habrahem homem meléfico e injusto, que á
traição tirára a vida ao Rei antecedente, para assim poder reinar; e a
quantos sabia de brios esforçados e engenhos, trazia de olho suspeitos
e aborrecidos; sobre tudo receava de Ancon qualquer infortunio. Mahomet
Ancon, que avistou a perfidia de Habrahem, descubrio a Vasco da Gama
qual era a fraude que daquelle facinorosissimo Rei tinha suspeita, e de
sua bolsa pagou o ouro convindo: isto fez que o Gama o deo por livre,
e se fez á véla para Melinde. Não lhe consentírão os ventos nem o mar
acarneirado com a vehemencia delles, e em lugar do porto entrou n’huma
enseada, que fica de Melinde 30$000 passos, onde ElRei lhe mandou hum
dos degredados por nome Luiz de Moura, que alli Cabral deixára, que
viesse saudallo, e perguntar-lhe se tinha necessidade de seu prestimo
ou de sua fazenda. Vasco da Gama logo que se proveo de mantimentos
e aguada, se transferio á India, e como quer que não fosse muito
arredado já do continente, deo vista d’huma grande náo petrechada de
quanto he valioso para a guerra, cuja náo era do Soldão do Egypto, e
carregada de gengibre, canélla, pimenta e outras mercancias de valor:
partia de Calecut para a Méca, onde hia depôr muitos, que por devoção
peregrinavão ao sepulcro de Mafoma. Sobre ella carregou o Gama, e foi
da parte dos Arabios e dos Egypcios maior a resistencia do que era de
crer; que tanto foi o vigor que mettêrão no combate, que durou até
a manhã do dia seguinte, dado que huma náo só disputava co’a nossa
Armada inteira: em razão de que os nossos não querião destruilla sem
a ter antes saqueado; e que elles tendo fixo morrerem na contenda,
não querião acabar inultos. Por fim n’huma abordagem lhes passárão
os Portuguezes trezentos á espada, perdoando aos meninos sómente; e
apoderando-se da fazenda, lançárão fogo á náo. Encaminhou-se dahi o
Gama a Cananor, onde remetteo a ElRei o Embaixador, que elle a D.
Manoel enviára, e deo ordem tambem, que lhe fossem levados os presentes
d’ElRei de Portugal, que grandemente o alegrárão. Sahindo de Cananor
para ir a Calecut, tomou alguns paráos, em que vinhão gentes daquella
Cidade, a cincoenta dos quaes mandou pôr grilhões, e entrou pelo porto
com toda a sua Armada. Veio então demandallo hum Arabio com o traje
e insignias dos que professão a Regra de S. Francisco; e tanto que
lho trouxerão, confessou ser Mahometano, e tomára aquelle habito na
desconfiança de não ser admittido em qualquer outro traje. Fora este
habito d’hum daquelles Franciscanos, que perecêrão com Aires Correa.
Denunciou este Arabio ao Gama, que muito ansiava ElRei de Calecut a paz
e a amizade com ElRei da Lusitania, e que mui pezaroso estava do máo
feito, que aquelles Arabios, a quem com todo o seu poder não sogigava,
contra os Portuguezes commettêrão. O Gama lhe respondeo, que nem elle
estava longe do concerto de pazes, nem alli viera com outro fim da
parte d’ElRei D. Manoel, senão de com tal alliança, se possivel era,
confirmar as pazes. Se pois elle tanto a desejava, désse algum sinal
desse desejo, principiando por mandar restituir quanto no desastre de
Aires Correa nos fora roubado. Depois de muitas embaixadas mandadas
e recebidas, em que nada concluia o Çamorim, capacitou-se Vasco da
Gama, que todo o engenho d’ElRei se occupava de fraudulencias, e não
havia concordia firme de que se tratar: pelo que lhe enviou dizer, se
logo e já lhe não restituião tudo, mandava despiedadamente matar em
vingança de Aires Correa todos os Malabares, que tinha prezos. Não
querendo ElRei tornar resposta a estas ameaças, mandou o Gama enforcar
os prisioneiros, e cortados de pés e mãos, lançallos n’hum dos paráos
tomados, e com huma carta em cima por declaração de guerra; e a elle
e a todos, que vivião sob seu mando, ferro e fogo sem fallencia. E
mandou rebocar até á praia o paráo dos cadaveres. O Çamorim, que vio a
carta tão aspera e tão feroz, que soube os seus tão cruamente mortos
e decepados, padeceo extrema turvação em seu animo, e toda a Cidade
rebentou em lamentações. No dia seguinte mandou o Gama, logo que
amanheceo, ás náos, que da vespera tinha avisinhado á terra, varejalla
com porfiada artilheria. Houve muita casaria damnificada, e os Paços
d’ElRei pegados com a praia destruidos, e muita gente morta.