náo mercante desafferrára de Cochim com hum elefante ferocissimo para
as peleijas, e hia de viagem para Cambaya. Informado do que, mandou
pedir a Cabral, pela amizade que vinhão de pactear, fizesse preza
nella, porque pertencia a pessoas, com quem estava justamente agastado.
Para se inteirar porém do brio, com que os nossos accommetterião a
náo, mandou alguns Mouros criados seus para olheiros do combate. Pedro
Alvares encommendou o feito a hum pequeno baixel, de que era Capitão
Pero de Ataíde, a quem deo por companheiros Duarte Pacheco, Vasco da
Silveira, e João de Sá. Ficou ElRei muito maravilhado de ver huma só
náo, que não era grande, separar-se da Armada, para ir peleijar com
outra desmesurada, mui abastecida de armas, de forças de soldados e
artilheria; e esperava com animo suspenso o exito da contenda. Apenas
começavão os nossos a travar das armas, que a náo se lhes depara
diante dos olhos. Eis logo os nossos correm sobre ella a panno solto,
não todavia com o fito de a investir de perto, receosos de serem
assoberbados das lanças, que os inimigos lhes podião arremessar das
vergas altas; mas com hum permeio de mar, que désse jogo aos pelouros
de pedra, de ferro, e até balas de chumbo, com que a combatião, e
com que lhe matárão e ferírão muita gente, e tendo-lhe já aberto
muitos rombos no navio, ora vinhão pela esquerda abalroallo, ora pela
direita. Os inimigos que de primeiro parecião zombar delles, e com
erguidas algazarras lhes dizião vituperios, tomárão tezamente as armas,
vibrárão arremessões, e fizerão laborar sobre nós a bombardaria: mas
considerando nos damnos, que de nós lhes recrescião, pozérão todo
o seu salvamento na fugida. A nossa náo lhe foi sempre no alcance,
até que a forçou a entrar de noite na barra de Cananor, que dista de
Calecut perto de 40$000 passos para o Septentrião, onde quatro náos de
Arabios estavão ancoradas. Os nossos ficárão de vigia, porque lhes não
escapasse; e mal abrio a madrugada, forão sobre ella com todo o panno
largo; e tanto pavor lhe mettem, que larga os navios, com quem tomára
abrigo, e arranca para o mar alto; mas como o navio Portuguez se lhe
avantajava de pé, tanto o embaraçou com as bombardas, que a navegárão
não para onde querião os inimigos, mas sim para onde os nossos lhe
fazião virar a prôa; até que por fim vencida e cativada, levando-a
diante de si, a constrangêrão a entrar no porto de Calecut. Foi hum
assombro para ElRei; e averiguou dos que se offerecêrão a presencear
a batalha, de como passára o caso. Respondêrão-lhe, que nunca vírão
em homens alguns igual destreza, animos mais fortes, nem denôdo maior
em se affrontar com os perigos. ElRei mandou a Cabral quem delle
grangeasse enviar-lhe os Varões excellentes, que naquelle combate derão
melhor prova de si: que anciava de ver pessoas tão dignas de que todos
os Reis os cumulassem de honrarias. A cujo peditorio satisfez Pedro
Alvares. A todos engrandeceo ElRei com dadivas, e com louvores; mas
mais que a todos ao Pacheco, cujo esforço, ao referir dos Arabios, que
assistírão á refrega, fora mais insigne. Quanto porém elle por esta
facção exaltava os Portuguezes, tanto mais pezado recresceo contra
elles o perigo assestado pelo odio e inveja dos mercadores Arabios.
Por quanto accrescia á vontade, que lhes tinhão de vir a cabo delles
pela discordancia da Religião, o desvelado susto que lhes vinha, de que
entrando muito pela graça d’ElRei, viessem a excluillos della. Assim
que traçavão em tudo pôr estorvo aos nossos, que não lhes era vendida
a copia de pimenta e outras especiarias, que comprar quizerão. E a
esse fim forjárão tantas fraudes, e com calumnias assanhavão o animo
d’ElRei, assacando aos Lusitanos a infamia de ladrões. Subião a mais
com prometterem aos donos pelas drogas preços mais altos, comprarem
tudo ás occultas, e terem-no cerrado, porque nada colhessem á mão os
Portuguezes, e ElRei não se dar por sabedor, e falsear a fé já dada. Já
Cabral desta perfidia desconfiava desde antes que lhe assinassem casas
de morada; por quanto os refens que na náo tinha, se lançárão ao mar,
e nadando fugírão para os seus; se bem que alguns se apanhárão, dos
que escapárão não restituio ElRei, nem deo a Cabral devida satisfação.
Do que offendido este, se mandou queixar a ElRei, de que tendo-lhe
promettido que as náos Portuguezas acharião carregação dentro de vinte
dias, passados erão tres mezes, que nenhuma náo tinha a sua carga,
quando diante dos seus olhos os Arabios tinhão carregado as suas: o
que era contra a alliança pacteada. Que precavido fora na alliança,
que por preço algum se não venderia a quaesquer Nações que fossem huma
só libra de pimenta, ou de gengibre, antes que os Portuguezes tivessem
completa a sua carga. Que assim lhe pedia, que attentasse pela sua
promessa e pelo seu real decoro. Que a elle a viagem o açodava, nem
podia naquelle porto mais tempo demorar-se. ElRei, que isto soube,
fingio que dessa injúria se dava por gravemente escandalizado; e disse,
que a seu occulto, homens fraudolentos tinhão semelhantes flagicios
commettido: e que no caso que os Sarracenos fossem tão confiados,
e improbos, que contra suas ordens mettessem carga em seus navios,
dava elle licença aos Portuguezes de baldearem as especiarias das
náos dos Arabios nas suas, pagando-as como he devido aos mercadores,
e carregarem assim mais presto as suas. Cabral, quando lho disserão,
suspeitando malicia nesta concessão d’ElRei, e receando não quizesse
com ella assanhar os animos dos Arabios, para virem a brigas, e serem
os nossos opprimidos da multidão e poderio delles, e pôr depois a
culpa do arruido ou já aos nossos, por terem motivado a contenda, ou
já aos Arabios, porque sem ordem sua confiárão vingar-se, se comportou
de maneira, que não dava a julgar o que neste caso tinha por melhor.
Então metteo Aires Correa (feitor d’ElRei D. Manoel, e que ficára nas
casas da feitoria) toda a sua força, para que Pedro Alvares se valesse
da permissão do Çamorim, e arrancasse por violencia o que os Mouros
lhe desviavão por fraude; senão succederia, que as náos Portuguezas
tornarião de voluto para o Reino, e sem proveito algum se terião
estragado tantas despezas; e como o Capitão Mór vacillava ainda e se
continha, foi-lhe instando Aires Correa; e obtestando-lhe que não
consentisse macular sua fama com nódoas de temor ou desmazello, nem
privasse a Sua Alteza dos lucros que se offerecião; e veio apôs com
testemunhas, e autos de protesto lavrados pelos Escrivães, porque
fosse claro a todos, que não dependêra delle, mas sim por culpa do
Capitão Mór este desfalque na fazenda real. Impellido pois Pedro
Alvares Cabral das queixas e protestos de Aires Correa, para minguar
hum tanto o defeito, que lhe podião intentar, assentou pôr alguma cousa
por obra. Havia já algum tempo, que fóra do porto estava hum navio
carregado, e tratava de desancorar, e fazer-se á véla; Cabral então por
hum criado seu intimou ao Capitão delle, que não sahisse de lá, porque
tinha faculdade do Çamorim de demorar as náos, que ancoravão naquellas
paragens. Era o dono do tal navio hum Sarraceno riquissimo, que muito
em Calecut privava com os da casa real: por tanto o Capitão e o Piloto
do navio zombárão e a mais chuma das ordens de Cabral: mas este mandou
aprestar e armar nas lanchas soldados e marinheiros, e que logo lhe
rebocassem com cabos o navio; o que assim se fez. O Sarraceno quando
tal soube, bramando de ira, chama a si parentes e amigos; expõem-lhes
seu aggravo; queixa-se da injustiça e iniquidade dos nossos, e com
palavras lhes encarece a indignidade da affronta; huns apôs outros lhe
incitão quanto podem com razões e animo já de si azedo, e lhe inculcão
que he mais honra morrer no desaggravo da affronta, que consentilla.
Pelo que vão logo todos em demanda do Çamorim, gritando ser injúria
indigna deixar tomar tanto pé a esses Christãos, que invistão com
os negociantes amparados da sombra d’ElRei, e que como se já fossem
de posse do Reino, violentem com ordens, ameacem gente livre, preiem
náos rendidas, e ante os olhos mesmos d’ElRei fação força a homens,
que vivem sob seu Real seguro. Que tal injúria menos tocava nelles,
que em desdouro Real; e se logo se não vingava, virião a maquinar
maiores insultos, e tornar contra elle aquellas mesmas armas. Que a sua
bondade fora causa, que homens estrangeiros desconformes dos costumes
da India, e destituidos de todo o amparo, tinhão em pouco hum Rei tão
poderoso, e tão arrogantes se mostravão, e tão insolentes em seus
mesmos dominios. Respondeo-lhes ElRei, como quem não se agastaria de
qualquer ruindade, que elles exercessem em nossa perdição. Ei-los que
investem com a feitoria, onde por mandado Real os nossos assistião (de
tal accommettimento não cuidosos), e trazião comsigo de ronda Naires
e plebeos. Correa acudio logo a dar sinal á Armada do perigo em que
lutava, achando-se com menos de setenta Lusitanos, e dos Mouros juntos
com os Naires paravão a 4$000. Como Cabral laborava com quartans,
mandou a Sancho de Thoar, que com todas as lanchas accorresse á praia a
dar adjutorio aos nossos, e recolher os que evadissem. Mas já os Mouros
a fenderem a porta com machados, a descozerem as paredes com madeiros,
a lançarem arremessões, e a pôrem tudo em prática para acabarem com
os nossos, antes que lhes apontasse o soccorro. Resistião-lhes os
nossos com brios esforçados; e porque que a morte lhes estava diante,
peleijavão como os que querião morrer vingados. Cahio em tanto, á
violencia de trabucos, huma parte da parede, e pelo desmoronado della
arremettem ferozes os inimigos, matando nos Portuguezes: destes os que
podérão retirar-se, formados n’huma mó, guiárão para o mar, onde já
muitos dos da Armada, que vinhão soccorrellos, tinhão feito impeto nos
inimigos, para com a repreza destes facilitar com pouco a recolhida
dos nossos pelas lanchas. Ficárão cincoenta Portuguezes mortos e Aires
Correa entre elles; vinte sós escapárão com muitas feridas, de que
alguns depois morrêrão. O Guardião dos Franciscos Fr. Henrique tambem
veio de lá mui mal ferido. Tinha Aires Correa levado comsigo á India
seu filho Antonio Correa, menino de dez annos, que hum Cavalleiro
Nuno Leitão tomou em honra defendello em semelhante perigo, e tanto
o cumprio que o trouxe á praia são e salvo; mas desconfiando então
podello passar á lancha, acode hum marinheiro apiedado da orfandade do
infante, e tomando-o nos hombros por entre riscos mil, expondo a vida,
o salvou na lancha. Este menino foi depois em mais crescida idade homem
de grande esforço, e delle se contão acções mui memoraveis na guerra.
Succedeo este infortunio por malvadissima gente perpetrado no anno 1500
de Jesu Christo; e Pedro Alvares Cabral o tomou tão magoadamente, que
lhe redobrou a febre com mais furia. A morte de Aires Correa lhe custou
lagrimas; sobresteve porém em dar azas á vingança na expectativa de que
ElRei se desculparia com algumas coloradas razões, e reprehenderia os
authores daquelle absurdo. Entendendo por fim pelo porfiado silencio
delle, que não só ElRei fora sabedor, mas ainda fautor do facinoroso
feito, por conselho dos Capitães da Armada accommetteo no dia seguinte
com dez grandes navios Arabios, que no porto estavão; e tendo peleijado
d’huma parte e d’outra com azeda porfia, abalroão por ultimo os nossos
com os lenhos inimigos e com a morte de muitos delles vingão a morte
dos companheiros. Mais de seiscentos morrêrão sangrados do nosso
ferro. Deo-se saque ás náos, cativando esses poucos que de susto se
escondêrão; e por supprir á penuria de mareantes, forão distribuidos
por todos os vasos da Armada. Achárão dentro tres elefantes, que mortos
e salgados, servírão de comida aos nossos, porque havia grande falta
de vitualhas. Lá por noite deitárão finalmente fogo ás náos cativas,
entre as quaes ardeo tambem a do Arabio, que nos urdio a queréla,
que se chamava Coge em Mecide. Metteo pavor este incendio não só aos
Cidadãos, mas ainda aos Estrangeiros, que residião em Calecut. De
toda a parte concorre o povo, levantão altos alaridos, pranteão com
lamentações e uivos as perdidas náos, com as mãos para os Ceos vomitão
pragas: mas nenhum se dispõe á resistencia. Diante dos olhos d’ElRei
tinhão sido queimados os navios; e logo que foi manhã, se pozerão as
nossas náos em fórma de bombardear a Cidade com a maior ardencia que
coubesse; derribárão muitas casas, matárão muitas pessoas, e em muitos
sitios fizerão acerbo estrago; ElRei mesmo que vio cahir a seus pés
despedaçado hum dos seus familiares, acobardado do que vio, poz todo o
salvamento seu na precipitada fuga.
Acabado este feito determinou-se o Capitão Mór a passar era Cochim,
pelas novas que tinha que o Rei anhelava pela amizade dos Portuguezes.
Fica esta Cidade ao redor de 700$000 passos distante de Calecut para
a banda do Meio-dia: réga-a hum tortuoso rio, que não longe della se
mistura com o mar. Seu porto he muito bom, e segurissimo o ancoradouro
para os navios; o terreno he magro e esteril, mas agradavel á vista
pela verdura de suas arvores. Abunda em pimenta; mas as rendas d’ElRei
são tenues, e dellas paga ainda páreas ao Çamorim. Os costumes e leis
desta gente são mui parecidos com os de Calecut. Logo que Cabral entrou
pela barra de Cochim, mandou a ElRei hum Indio por nome Miguel, que
lhe désse parte de como era chegado a aquelle Reino, e juntamente
rogasse lhe fosse vendida alguma pimenta e a quantidade de especiaria
competente a preço arrazoado para a carga de algumas náos. Fora este
Miguel homem de pasmoso desinterresse, e membro d’huma seita, a que
na India dão o nome de Jóques, que tem por maxima principal terem as
cousas deste mundo em singular desestima. Não possuem riqueza alguma,
vivem do que mendigão, e discorrem por todas as praças públicas, para
alli inculcarem no auditorio a doutrina da sua seita. Muitos delles
com seus prestigios embelecão os ignorantes, abusando em proveito
proprio da estulticia alheia. Mas Miguel, que singello de animo
entrára nesta religião de fraudulentissimo theor, logo que lhe atinou
com os embustes, a reprovou, e deo ouvidos a varões Portuguezes, que
mais pura que os outros observavão Christandade, e insinuado de seus
avisos, abraçou a fé Catholica. ElRei de Cochim, a quem elle saudou
em nome de Cabral, e fez os encommendados requerimentos, respondeo
á saudação com cordial affeição e cortezania. E dizia Miguel, que
ElRei não sô folgára muito com a sua vinda, mas que ainda promettia
todo o requerido com bizarria e abastança. Pelo que Pedro Alvares,
pacteadas facilmente as allianças, mandou á Cidade quem presenteasse
ElRei com peças de baixella de prata, e comprasse ao costumado valor
as especiarias que se lhe deparassem. ElRei os mandou aposentar
n’humas casas harto amplas, e não de todo desfortalecidas, e lhes
nomeou Naires, que com armas, quando cumprisse, os defendessem. Em
quanto todas estas incumbencias se administrão sob summa fidelidade
d’ElRei, á medida do desejo de Cabral, chegão Embaixadores d’ElRei
de Canenor e d’ElRei de Coulam, que vinhão denotar da parte cada hum
do seu Monarca amizade estavel e commercio lizo com a nossa gente, e
convite de carregar nos seus Reinos as nossas náos. A cada hum como
era licito rendeo Cabral as graças, e se não hia aproveitar-se de
seus offerecimentos, lhe era atalho a benignidade daquelle Principe,
com quem já estava em auto de provimento: mas que se lhes confessava
tão penhorado, como se seus valiosos offerecimentos tivera acceitos;
para mostra do que, no caso de lhe falte alguma quantia da carga que
tinha abalizado comprar, não rejeitaria sua boa vontade. No tempo em
que as náos com muita lida e industria se carregavão, aportárão alli
dous Frades Christãos, dos que imbuidos na doutrina de S. Thomé, tem
conservado tégora com summa constancia por tão longos annos a Religião
Christã; e vinhão pedir a Cabral, que os quizesse navegar comsigo até
Portugal, para de lá poderem passar a Roma e a Jerusalem a visitar
aquelles lugares, em que Christo e seus Discipulos residírão; o que
Cabral de mui bom aspecto lhes outorgou. Erão elles daquella Cidade,
que dizem Cranganor, arredada 20$000 passos de Cochim. Tomada pelas
nossas náos inteira carregação, teve novas certas ElRei de Cochim, que
o Çamorim de Calecut com huma Armada de vinte náos grossas e immenso
numero de menores vasos se aprestava de vingar-se da matança dos seus;
e o exercito, que na Armada punha, era de 15$000 homens: novas estas,
que ElRei de Cochim communicou logo a Cabral por criados seus. Cabral
assim que o soube, mandou pôr todos prestes para o combate, que era sua
tenção medir-se com a Armada de Calecut; pelo que faz içar as vélas,
e corre sobre ella; mas contrariado pelos ventos, não a pôde colher
de perto. Quando porém os de Calecut vírão com que vontade os nossos
sobre elles vinhão, e receando-se do impeto e fortaleza das nossas
bombardas, forão de acordo de não acceitar os invites, posto que o
vento os favorecia, e provocava a buscar as nossas náos. Desembargado
Cabral já deste estorvo, enfiou viagem pelo rumo da Lusitania; sómente
deixou em Cochim dous Portuguezes de linhagem honrada Gonçalo Gil
Barbosa e Lourenço Moreno, que com certa parcella de gente nossa
velassem pelos uteis de Sua Alteza. Perpassando pela costa de Cananor,
o convidou o Rei daquella terra a tomar alli a carga do que lhe
faltasse, cujo liberal convite não recusou Cabral, antes entrou em
seu porto no anno da salvação 1501. Era a Cidade grande, e costumada
ao bulicio de seus muitos habitadores; e huma grande enseada, que lava
as abas da Metropoli, compõe della hum porto bonissimo. Toda aquella
região he abundantissima de quanto conduz para o commodo da vida: o
Rei della rico e independente; pouco differe dos usos e das ordenações
dos outros Reis do Malabar. Aqui comprou Pedro Alvares varios quintaes
de gingivre e de canélla; e como não comprou toda a quantia que lhe
presentavão, cuidou ElRei ser por defeito de cabedal, e mandou por
isso dizer ao Capitão Mór, que informado fora que o tinhão esbulhado
em Calecut de dinheiros e fazendas, pelo que lhe faria grande gosto se
quizesse servir-se do seu dinheiro com a mesma franqueza como se fora
d’ElRei de Portugal. Pedro Alvares lho agradeceo muitissimo, e mostrou
aos que de sua parte vinhão, grande monte de cruzados em ouro, d’onde
concebesse ElRei, que não por falta de dinheiro deixava de comprar, mas
sim por não abarrotar mais os navios. ElRei para confirmar mais a paz
com D. Manoel, mandou com Cabral hum Embaixador seu a Portugal, que
dalli partio aos 16 de Janeiro. Não hia o Cabral mui arredado da barra
de Melinde, quando cativou huma náo grande bem provída de mercancias;
e logo que entendeo que era d’hum Mouro mui possante, que assistia
em Cambaia e se chamava Melicupio, donatario da terra de Baroche, lha
despedio livre, e disse ao Capitão, que com ninguem tinha na India
guerra senão com ElRei de Calecut, e com aquelles Arabios, que erão
de Méca, pelos grandes aggravos, que de huns e outros tinha recebido.
Aqui se lhe levantou hum horrivel temporal, que desarvorou a náo de
Sancho de Thoar e a despedaçou n’huns baixos; a qual Cabral, logo que
dado lhe foi, mandou queimar, para que della nada de prestimo viesse
a mãos adversas. ElRei de Mombaça todavia conseguio por meio de seus
buzios tirar do fundo com ajuda de máquinas toda a artilheria della.
Cabral, que não pôde tomar Melinde, pela repugnancia dos ventos,
arribou sobre Moçambique, onde radobadas as náos, mandou n’huma dellas
a Sancho de Thoar descubrir ao justo o sitio de Çofala, e de lá vir na
volta de Lisboa: e elle tanto que fez aguada, sem mais tardar, se poz
a caminho para a patria, a que depois de varias refregas, aportou no
derradeiro de Julho. A sua chegada abalou variadamente a D. Manoel;
dos que escapárão sãos e salvos, lhe procedeo grande contentamento,
como tambem suprema dor dos que ou já affundidos nas ondas, ou já
sobraçados de perfidias perecêrão. Já neste mesmo anno tinha ElRei
D. Manoel despachado outra Armada para a India; porém pequena, pois
constava de tres náos unicas capitaneadas por João da Nova, Cavalleiro
de muito esforço. E porque confiava na Armada, com que Cabral partíra
no anno proximo, teria assás de forças para fundar a paz com ElRei
de Calecut, ou para lhe reprimir os assômos de sua insolente ufania,
cuidou que aquelle pequeno refresco de tres náos abundaria: logo porém
que de Cabral se capacitou quantos embustes lhe assestárão, teve que
tantas maldades pedião, para vingadas, forças maiores. Assim mandou no
anno seguinte, que foi o de Christo 1502, Vasco da Gama pela segunda
vez cortar aquelles mares com dez náos, e todas ellas governadas por
varões esforçados, como a Capitanea, em que hia Vasco da Gama. E apôs
esta Armada, logo poz outra em via, que encommendou a Vicente Sodré,
pessoa muito valerosa; e lhe deo por occupação cruzar os mares da
India, e fazer guerra acerrima aos Mouros, que por elles navegavão.
Desaferrão estas quinze náos da enseada de Belém armadas e bastecidas
a dez de Fevereiro. Nem ainda com estas Armadas se deo por satisfeito
ElRei de Portugal, visto que ainda preparou outra de cinco náos,
que deo a D. Estevão da Gama, primo do primeiro descubridor; e que
partindo no primeiro de Abril, tomou igual derrota. Que era o animo
d’ElRei vehemente, e cubiçoso de grandes feitos; e o que sóbe de ponto,
affervorado na esperança que pozera no amparo divino, nada julgando
mais conducente ao seu decóro e obrigação, que sobjugar os inimigos do
nome Christão, e metter a Fé por todas as regiões do Oriente. Naquelle
mesmo anno lhe deo em Lisboa o primeiro filho á luz a Rainha D. Maria,
em cujo nascimento rebentou hum temporal tão bravo, quanto nunca homens
de consummada velhice se lembravão terem visto. Densissimas trévas
toldavão o firmamento, e erão tão amiudados os trovões e os relampagos,
que ainda os que se davão por mais animosos, cobravão sobejo susto.
Cahírão raios em muitos sitios, e os furacões desatinados, arrancavão
arvores, as diluviosas chuvas alagavão não já as ruas, mas ondeavão
dentro das moradas. Logo porém que voltou a serenidade, não sómente
ElRei, senão que o povo todo se entregou a regozijos pelo nascimento
do Principe, que oito dias depois recebeo baptismo, e lhe foi dado o
nome de D. João. Entre os muitos Padrinhos, que ElRei D. Manoel quiz
dar a seu filho, contamos a Pedro Pasqualigo, Embaixador de Veneza, que
a Portugal viera com os agradecimentos da Republica, pela Armada que
elle mandára em seu soccorro, onde lhe vinha encommendado certificar
a Sua Alteza os laços, com que por tão singular beneficio o Senado e
Povo Veneziano lhe era avinculado. Este Embaixador ElRei por suas mãos
armára Cavalleiro e cumulára de infinitas dadivas; de cujas honras
penhorado o Embaixador, quando passou em Veneza, pregoava suas raras
virtudes, e conseguio que a amizade com os Venezianos travada, fosse
confirmada com pactos mais seguros. Nesse mesmo dia, em que foi o
baptismo de D. João, prendeo subitamente o fogo no Palacio; mas tanta
gente acodio logo, que foi quasi a hum tempo visto que apagado. Tambem
no mesmo anno D. Manoel juntou outra Armada para ir abater a ferocidade
dos Mouros, cruzando pelos mares de Gibraltar; mas nada que mereça
memoria nos veio della.