ElRei tratava nestas cousas, quando lhe veio nova que huma grandissima

náo mercante desafferrára de Cochim com hum elefante ferocissimo para

as peleijas, e hia de viagem para Cambaya. Informado do que, mandou

pedir a Cabral, pela amizade que vinhão de pactear, fizesse preza

nella, porque pertencia a pessoas, com quem estava justamente agastado.

Para se inteirar porém do brio, com que os nossos accommetterião a

náo, mandou alguns Mouros criados seus para olheiros do combate. Pedro

Alvares encommendou o feito a hum pequeno baixel, de que era Capitão

Pero de Ataíde, a quem deo por companheiros Duarte Pacheco, Vasco da

Silveira, e João de Sá. Ficou ElRei muito maravilhado de ver huma só

náo, que não era grande, separar-se da Armada, para ir peleijar com

outra desmesurada, mui abastecida de armas, de forças de soldados e

artilheria; e esperava com animo suspenso o exito da contenda. Apenas

começavão os nossos a travar das armas, que a náo se lhes depara

diante dos olhos. Eis logo os nossos correm sobre ella a panno solto,

não todavia com o fito de a investir de perto, receosos de serem

assoberbados das lanças, que os inimigos lhes podião arremessar das

vergas altas; mas com hum permeio de mar, que désse jogo aos pelouros

de pedra, de ferro, e até balas de chumbo, com que a combatião, e

com que lhe matárão e ferírão muita gente, e tendo-lhe já aberto

muitos rombos no navio, ora vinhão pela esquerda abalroallo, ora pela

direita. Os inimigos que de primeiro parecião zombar delles, e com

erguidas algazarras lhes dizião vituperios, tomárão tezamente as armas,

vibrárão arremessões, e fizerão laborar sobre nós a bombardaria: mas

considerando nos damnos, que de nós lhes recrescião, pozérão todo

o seu salvamento na fugida. A nossa náo lhe foi sempre no alcance,

até que a forçou a entrar de noite na barra de Cananor, que dista de

Calecut perto de 40$000 passos para o Septentrião, onde quatro náos de

Arabios estavão ancoradas. Os nossos ficárão de vigia, porque lhes não

escapasse; e mal abrio a madrugada, forão sobre ella com todo o panno

largo; e tanto pavor lhe mettem, que larga os navios, com quem tomára

abrigo, e arranca para o mar alto; mas como o navio Portuguez se lhe

avantajava de pé, tanto o embaraçou com as bombardas, que a navegárão

não para onde querião os inimigos, mas sim para onde os nossos lhe

fazião virar a prôa; até que por fim vencida e cativada, levando-a

diante de si, a constrangêrão a entrar no porto de Calecut. Foi hum

assombro para ElRei; e averiguou dos que se offerecêrão a presencear

a batalha, de como passára o caso. Respondêrão-lhe, que nunca vírão

em homens alguns igual destreza, animos mais fortes, nem denôdo maior

em se affrontar com os perigos. ElRei mandou a Cabral quem delle

grangeasse enviar-lhe os Varões excellentes, que naquelle combate derão

melhor prova de si: que anciava de ver pessoas tão dignas de que todos

os Reis os cumulassem de honrarias. A cujo peditorio satisfez Pedro

Alvares. A todos engrandeceo ElRei com dadivas, e com louvores; mas

mais que a todos ao Pacheco, cujo esforço, ao referir dos Arabios, que

assistírão á refrega, fora mais insigne. Quanto porém elle por esta

facção exaltava os Portuguezes, tanto mais pezado recresceo contra

elles o perigo assestado pelo odio e inveja dos mercadores Arabios.

Por quanto accrescia á vontade, que lhes tinhão de vir a cabo delles

pela discordancia da Religião, o desvelado susto que lhes vinha, de que

entrando muito pela graça d’ElRei, viessem a excluillos della. Assim

que traçavão em tudo pôr estorvo aos nossos, que não lhes era vendida

a copia de pimenta e outras especiarias, que comprar quizerão. E a

esse fim forjárão tantas fraudes, e com calumnias assanhavão o animo

d’ElRei, assacando aos Lusitanos a infamia de ladrões. Subião a mais

com prometterem aos donos pelas drogas preços mais altos, comprarem

tudo ás occultas, e terem-no cerrado, porque nada colhessem á mão os

Portuguezes, e ElRei não se dar por sabedor, e falsear a fé já dada. Já

Cabral desta perfidia desconfiava desde antes que lhe assinassem casas

de morada; por quanto os refens que na náo tinha, se lançárão ao mar,

e nadando fugírão para os seus; se bem que alguns se apanhárão, dos

que escapárão não restituio ElRei, nem deo a Cabral devida satisfação.

Do que offendido este, se mandou queixar a ElRei, de que tendo-lhe

promettido que as náos Portuguezas acharião carregação dentro de vinte

dias, passados erão tres mezes, que nenhuma náo tinha a sua carga,

quando diante dos seus olhos os Arabios tinhão carregado as suas: o

que era contra a alliança pacteada. Que precavido fora na alliança,

que por preço algum se não venderia a quaesquer Nações que fossem huma

só libra de pimenta, ou de gengibre, antes que os Portuguezes tivessem

completa a sua carga. Que assim lhe pedia, que attentasse pela sua

promessa e pelo seu real decoro. Que a elle a viagem o açodava, nem

podia naquelle porto mais tempo demorar-se. ElRei, que isto soube,

fingio que dessa injúria se dava por gravemente escandalizado; e disse,

que a seu occulto, homens fraudolentos tinhão semelhantes flagicios

commettido: e que no caso que os Sarracenos fossem tão confiados,

e improbos, que contra suas ordens mettessem carga em seus navios,

dava elle licença aos Portuguezes de baldearem as especiarias das

náos dos Arabios nas suas, pagando-as como he devido aos mercadores,

e carregarem assim mais presto as suas. Cabral, quando lho disserão,

suspeitando malicia nesta concessão d’ElRei, e receando não quizesse

com ella assanhar os animos dos Arabios, para virem a brigas, e serem

os nossos opprimidos da multidão e poderio delles, e pôr depois a

culpa do arruido ou já aos nossos, por terem motivado a contenda, ou

já aos Arabios, porque sem ordem sua confiárão vingar-se, se comportou

de maneira, que não dava a julgar o que neste caso tinha por melhor.

Então metteo Aires Correa (feitor d’ElRei D. Manoel, e que ficára nas

casas da feitoria) toda a sua força, para que Pedro Alvares se valesse

da permissão do Çamorim, e arrancasse por violencia o que os Mouros

lhe desviavão por fraude; senão succederia, que as náos Portuguezas

tornarião de voluto para o Reino, e sem proveito algum se terião

estragado tantas despezas; e como o Capitão Mór vacillava ainda e se

continha, foi-lhe instando Aires Correa; e obtestando-lhe que não

consentisse macular sua fama com nódoas de temor ou desmazello, nem

privasse a Sua Alteza dos lucros que se offerecião; e veio apôs com

testemunhas, e autos de protesto lavrados pelos Escrivães, porque

fosse claro a todos, que não dependêra delle, mas sim por culpa do

Capitão Mór este desfalque na fazenda real. Impellido pois Pedro

Alvares Cabral das queixas e protestos de Aires Correa, para minguar

hum tanto o defeito, que lhe podião intentar, assentou pôr alguma cousa

por obra. Havia já algum tempo, que fóra do porto estava hum navio

carregado, e tratava de desancorar, e fazer-se á véla; Cabral então por

hum criado seu intimou ao Capitão delle, que não sahisse de lá, porque

tinha faculdade do Çamorim de demorar as náos, que ancoravão naquellas

paragens. Era o dono do tal navio hum Sarraceno riquissimo, que muito

em Calecut privava com os da casa real: por tanto o Capitão e o Piloto

do navio zombárão e a mais chuma das ordens de Cabral: mas este mandou

aprestar e armar nas lanchas soldados e marinheiros, e que logo lhe

rebocassem com cabos o navio; o que assim se fez. O Sarraceno quando

tal soube, bramando de ira, chama a si parentes e amigos; expõem-lhes

seu aggravo; queixa-se da injustiça e iniquidade dos nossos, e com

palavras lhes encarece a indignidade da affronta; huns apôs outros lhe

incitão quanto podem com razões e animo já de si azedo, e lhe inculcão

que he mais honra morrer no desaggravo da affronta, que consentilla.

Pelo que vão logo todos em demanda do Çamorim, gritando ser injúria

indigna deixar tomar tanto pé a esses Christãos, que invistão com

os negociantes amparados da sombra d’ElRei, e que como se já fossem

de posse do Reino, violentem com ordens, ameacem gente livre, preiem

náos rendidas, e ante os olhos mesmos d’ElRei fação força a homens,

que vivem sob seu Real seguro. Que tal injúria menos tocava nelles,

que em desdouro Real; e se logo se não vingava, virião a maquinar

maiores insultos, e tornar contra elle aquellas mesmas armas. Que a sua

bondade fora causa, que homens estrangeiros desconformes dos costumes

da India, e destituidos de todo o amparo, tinhão em pouco hum Rei tão

poderoso, e tão arrogantes se mostravão, e tão insolentes em seus

mesmos dominios. Respondeo-lhes ElRei, como quem não se agastaria de

qualquer ruindade, que elles exercessem em nossa perdição. Ei-los que

investem com a feitoria, onde por mandado Real os nossos assistião (de

tal accommettimento não cuidosos), e trazião comsigo de ronda Naires

e plebeos. Correa acudio logo a dar sinal á Armada do perigo em que

lutava, achando-se com menos de setenta Lusitanos, e dos Mouros juntos

com os Naires paravão a 4$000. Como Cabral laborava com quartans,

mandou a Sancho de Thoar, que com todas as lanchas accorresse á praia a

dar adjutorio aos nossos, e recolher os que evadissem. Mas já os Mouros

a fenderem a porta com machados, a descozerem as paredes com madeiros,

a lançarem arremessões, e a pôrem tudo em prática para acabarem com

os nossos, antes que lhes apontasse o soccorro. Resistião-lhes os

nossos com brios esforçados; e porque que a morte lhes estava diante,

peleijavão como os que querião morrer vingados. Cahio em tanto, á

violencia de trabucos, huma parte da parede, e pelo desmoronado della

arremettem ferozes os inimigos, matando nos Portuguezes: destes os que

podérão retirar-se, formados n’huma mó, guiárão para o mar, onde já

muitos dos da Armada, que vinhão soccorrellos, tinhão feito impeto nos

inimigos, para com a repreza destes facilitar com pouco a recolhida

dos nossos pelas lanchas. Ficárão cincoenta Portuguezes mortos e Aires

Correa entre elles; vinte sós escapárão com muitas feridas, de que

alguns depois morrêrão. O Guardião dos Franciscos Fr. Henrique tambem

veio de lá mui mal ferido. Tinha Aires Correa levado comsigo á India

seu filho Antonio Correa, menino de dez annos, que hum Cavalleiro

Nuno Leitão tomou em honra defendello em semelhante perigo, e tanto

o cumprio que o trouxe á praia são e salvo; mas desconfiando então

podello passar á lancha, acode hum marinheiro apiedado da orfandade do

infante, e tomando-o nos hombros por entre riscos mil, expondo a vida,

o salvou na lancha. Este menino foi depois em mais crescida idade homem

de grande esforço, e delle se contão acções mui memoraveis na guerra.

Succedeo este infortunio por malvadissima gente perpetrado no anno 1500

de Jesu Christo; e Pedro Alvares Cabral o tomou tão magoadamente, que

lhe redobrou a febre com mais furia. A morte de Aires Correa lhe custou

lagrimas; sobresteve porém em dar azas á vingança na expectativa de que

ElRei se desculparia com algumas coloradas razões, e reprehenderia os

authores daquelle absurdo. Entendendo por fim pelo porfiado silencio

delle, que não só ElRei fora sabedor, mas ainda fautor do facinoroso

feito, por conselho dos Capitães da Armada accommetteo no dia seguinte

com dez grandes navios Arabios, que no porto estavão; e tendo peleijado

d’huma parte e d’outra com azeda porfia, abalroão por ultimo os nossos

com os lenhos inimigos e com a morte de muitos delles vingão a morte

dos companheiros. Mais de seiscentos morrêrão sangrados do nosso

ferro. Deo-se saque ás náos, cativando esses poucos que de susto se

escondêrão; e por supprir á penuria de mareantes, forão distribuidos

por todos os vasos da Armada. Achárão dentro tres elefantes, que mortos

e salgados, servírão de comida aos nossos, porque havia grande falta

de vitualhas. Lá por noite deitárão finalmente fogo ás náos cativas,

entre as quaes ardeo tambem a do Arabio, que nos urdio a queréla,

que se chamava Coge em Mecide. Metteo pavor este incendio não só aos

Cidadãos, mas ainda aos Estrangeiros, que residião em Calecut. De

toda a parte concorre o povo, levantão altos alaridos, pranteão com

lamentações e uivos as perdidas náos, com as mãos para os Ceos vomitão

pragas: mas nenhum se dispõe á resistencia. Diante dos olhos d’ElRei

tinhão sido queimados os navios; e logo que foi manhã, se pozerão as

nossas náos em fórma de bombardear a Cidade com a maior ardencia que

coubesse; derribárão muitas casas, matárão muitas pessoas, e em muitos

sitios fizerão acerbo estrago; ElRei mesmo que vio cahir a seus pés

despedaçado hum dos seus familiares, acobardado do que vio, poz todo o

salvamento seu na precipitada fuga.

Acabado este feito determinou-se o Capitão Mór a passar era Cochim,

pelas novas que tinha que o Rei anhelava pela amizade dos Portuguezes.

Fica esta Cidade ao redor de 700$000 passos distante de Calecut para

a banda do Meio-dia: réga-a hum tortuoso rio, que não longe della se

mistura com o mar. Seu porto he muito bom, e segurissimo o ancoradouro

para os navios; o terreno he magro e esteril, mas agradavel á vista

pela verdura de suas arvores. Abunda em pimenta; mas as rendas d’ElRei

são tenues, e dellas paga ainda páreas ao Çamorim. Os costumes e leis

desta gente são mui parecidos com os de Calecut. Logo que Cabral entrou

pela barra de Cochim, mandou a ElRei hum Indio por nome Miguel, que

lhe désse parte de como era chegado a aquelle Reino, e juntamente

rogasse lhe fosse vendida alguma pimenta e a quantidade de especiaria

competente a preço arrazoado para a carga de algumas náos. Fora este

Miguel homem de pasmoso desinterresse, e membro d’huma seita, a que

na India dão o nome de Jóques, que tem por maxima principal terem as

cousas deste mundo em singular desestima. Não possuem riqueza alguma,

vivem do que mendigão, e discorrem por todas as praças públicas, para

alli inculcarem no auditorio a doutrina da sua seita. Muitos delles

com seus prestigios embelecão os ignorantes, abusando em proveito

proprio da estulticia alheia. Mas Miguel, que singello de animo

entrára nesta religião de fraudulentissimo theor, logo que lhe atinou

com os embustes, a reprovou, e deo ouvidos a varões Portuguezes, que

mais pura que os outros observavão Christandade, e insinuado de seus

avisos, abraçou a fé Catholica. ElRei de Cochim, a quem elle saudou

em nome de Cabral, e fez os encommendados requerimentos, respondeo

á saudação com cordial affeição e cortezania. E dizia Miguel, que

ElRei não sô folgára muito com a sua vinda, mas que ainda promettia

todo o requerido com bizarria e abastança. Pelo que Pedro Alvares,

pacteadas facilmente as allianças, mandou á Cidade quem presenteasse

ElRei com peças de baixella de prata, e comprasse ao costumado valor

as especiarias que se lhe deparassem. ElRei os mandou aposentar

n’humas casas harto amplas, e não de todo desfortalecidas, e lhes

nomeou Naires, que com armas, quando cumprisse, os defendessem. Em

quanto todas estas incumbencias se administrão sob summa fidelidade

d’ElRei, á medida do desejo de Cabral, chegão Embaixadores d’ElRei

de Canenor e d’ElRei de Coulam, que vinhão denotar da parte cada hum

do seu Monarca amizade estavel e commercio lizo com a nossa gente, e

convite de carregar nos seus Reinos as nossas náos. A cada hum como

era licito rendeo Cabral as graças, e se não hia aproveitar-se de

seus offerecimentos, lhe era atalho a benignidade daquelle Principe,

com quem já estava em auto de provimento: mas que se lhes confessava

tão penhorado, como se seus valiosos offerecimentos tivera acceitos;

para mostra do que, no caso de lhe falte alguma quantia da carga que

tinha abalizado comprar, não rejeitaria sua boa vontade. No tempo em

que as náos com muita lida e industria se carregavão, aportárão alli

dous Frades Christãos, dos que imbuidos na doutrina de S. Thomé, tem

conservado tégora com summa constancia por tão longos annos a Religião

Christã; e vinhão pedir a Cabral, que os quizesse navegar comsigo até

Portugal, para de lá poderem passar a Roma e a Jerusalem a visitar

aquelles lugares, em que Christo e seus Discipulos residírão; o que

Cabral de mui bom aspecto lhes outorgou. Erão elles daquella Cidade,

que dizem Cranganor, arredada 20$000 passos de Cochim. Tomada pelas

nossas náos inteira carregação, teve novas certas ElRei de Cochim, que

o Çamorim de Calecut com huma Armada de vinte náos grossas e immenso

numero de menores vasos se aprestava de vingar-se da matança dos seus;

e o exercito, que na Armada punha, era de 15$000 homens: novas estas,

que ElRei de Cochim communicou logo a Cabral por criados seus. Cabral

assim que o soube, mandou pôr todos prestes para o combate, que era sua

tenção medir-se com a Armada de Calecut; pelo que faz içar as vélas,

e corre sobre ella; mas contrariado pelos ventos, não a pôde colher

de perto. Quando porém os de Calecut vírão com que vontade os nossos

sobre elles vinhão, e receando-se do impeto e fortaleza das nossas

bombardas, forão de acordo de não acceitar os invites, posto que o

vento os favorecia, e provocava a buscar as nossas náos. Desembargado

Cabral já deste estorvo, enfiou viagem pelo rumo da Lusitania; sómente

deixou em Cochim dous Portuguezes de linhagem honrada Gonçalo Gil

Barbosa e Lourenço Moreno, que com certa parcella de gente nossa

velassem pelos uteis de Sua Alteza. Perpassando pela costa de Cananor,

o convidou o Rei daquella terra a tomar alli a carga do que lhe

faltasse, cujo liberal convite não recusou Cabral, antes entrou em

seu porto no anno da salvação 1501. Era a Cidade grande, e costumada

ao bulicio de seus muitos habitadores; e huma grande enseada, que lava

as abas da Metropoli, compõe della hum porto bonissimo. Toda aquella

região he abundantissima de quanto conduz para o commodo da vida: o

Rei della rico e independente; pouco differe dos usos e das ordenações

dos outros Reis do Malabar. Aqui comprou Pedro Alvares varios quintaes

de gingivre e de canélla; e como não comprou toda a quantia que lhe

presentavão, cuidou ElRei ser por defeito de cabedal, e mandou por

isso dizer ao Capitão Mór, que informado fora que o tinhão esbulhado

em Calecut de dinheiros e fazendas, pelo que lhe faria grande gosto se

quizesse servir-se do seu dinheiro com a mesma franqueza como se fora

d’ElRei de Portugal. Pedro Alvares lho agradeceo muitissimo, e mostrou

aos que de sua parte vinhão, grande monte de cruzados em ouro, d’onde

concebesse ElRei, que não por falta de dinheiro deixava de comprar, mas

sim por não abarrotar mais os navios. ElRei para confirmar mais a paz

com D. Manoel, mandou com Cabral hum Embaixador seu a Portugal, que

dalli partio aos 16 de Janeiro. Não hia o Cabral mui arredado da barra

de Melinde, quando cativou huma náo grande bem provída de mercancias;

e logo que entendeo que era d’hum Mouro mui possante, que assistia

em Cambaia e se chamava Melicupio, donatario da terra de Baroche, lha

despedio livre, e disse ao Capitão, que com ninguem tinha na India

guerra senão com ElRei de Calecut, e com aquelles Arabios, que erão

de Méca, pelos grandes aggravos, que de huns e outros tinha recebido.

Aqui se lhe levantou hum horrivel temporal, que desarvorou a náo de

Sancho de Thoar e a despedaçou n’huns baixos; a qual Cabral, logo que

dado lhe foi, mandou queimar, para que della nada de prestimo viesse

a mãos adversas. ElRei de Mombaça todavia conseguio por meio de seus

buzios tirar do fundo com ajuda de máquinas toda a artilheria della.

Cabral, que não pôde tomar Melinde, pela repugnancia dos ventos,

arribou sobre Moçambique, onde radobadas as náos, mandou n’huma dellas

a Sancho de Thoar descubrir ao justo o sitio de Çofala, e de lá vir na

volta de Lisboa: e elle tanto que fez aguada, sem mais tardar, se poz

a caminho para a patria, a que depois de varias refregas, aportou no

derradeiro de Julho. A sua chegada abalou variadamente a D. Manoel;

dos que escapárão sãos e salvos, lhe procedeo grande contentamento,

como tambem suprema dor dos que ou já affundidos nas ondas, ou já

sobraçados de perfidias perecêrão. Já neste mesmo anno tinha ElRei

D. Manoel despachado outra Armada para a India; porém pequena, pois

constava de tres náos unicas capitaneadas por João da Nova, Cavalleiro

de muito esforço. E porque confiava na Armada, com que Cabral partíra

no anno proximo, teria assás de forças para fundar a paz com ElRei

de Calecut, ou para lhe reprimir os assômos de sua insolente ufania,

cuidou que aquelle pequeno refresco de tres náos abundaria: logo porém

que de Cabral se capacitou quantos embustes lhe assestárão, teve que

tantas maldades pedião, para vingadas, forças maiores. Assim mandou no

anno seguinte, que foi o de Christo 1502, Vasco da Gama pela segunda

vez cortar aquelles mares com dez náos, e todas ellas governadas por

varões esforçados, como a Capitanea, em que hia Vasco da Gama. E apôs

esta Armada, logo poz outra em via, que encommendou a Vicente Sodré,

pessoa muito valerosa; e lhe deo por occupação cruzar os mares da

India, e fazer guerra acerrima aos Mouros, que por elles navegavão.

Desaferrão estas quinze náos da enseada de Belém armadas e bastecidas

a dez de Fevereiro. Nem ainda com estas Armadas se deo por satisfeito

ElRei de Portugal, visto que ainda preparou outra de cinco náos,

que deo a D. Estevão da Gama, primo do primeiro descubridor; e que

partindo no primeiro de Abril, tomou igual derrota. Que era o animo

d’ElRei vehemente, e cubiçoso de grandes feitos; e o que sóbe de ponto,

affervorado na esperança que pozera no amparo divino, nada julgando

mais conducente ao seu decóro e obrigação, que sobjugar os inimigos do

nome Christão, e metter a Fé por todas as regiões do Oriente. Naquelle

mesmo anno lhe deo em Lisboa o primeiro filho á luz a Rainha D. Maria,

em cujo nascimento rebentou hum temporal tão bravo, quanto nunca homens

de consummada velhice se lembravão terem visto. Densissimas trévas

toldavão o firmamento, e erão tão amiudados os trovões e os relampagos,

que ainda os que se davão por mais animosos, cobravão sobejo susto.

Cahírão raios em muitos sitios, e os furacões desatinados, arrancavão

arvores, as diluviosas chuvas alagavão não já as ruas, mas ondeavão

dentro das moradas. Logo porém que voltou a serenidade, não sómente

ElRei, senão que o povo todo se entregou a regozijos pelo nascimento

do Principe, que oito dias depois recebeo baptismo, e lhe foi dado o

nome de D. João. Entre os muitos Padrinhos, que ElRei D. Manoel quiz

dar a seu filho, contamos a Pedro Pasqualigo, Embaixador de Veneza, que

a Portugal viera com os agradecimentos da Republica, pela Armada que

elle mandára em seu soccorro, onde lhe vinha encommendado certificar

a Sua Alteza os laços, com que por tão singular beneficio o Senado e

Povo Veneziano lhe era avinculado. Este Embaixador ElRei por suas mãos

armára Cavalleiro e cumulára de infinitas dadivas; de cujas honras

penhorado o Embaixador, quando passou em Veneza, pregoava suas raras

virtudes, e conseguio que a amizade com os Venezianos travada, fosse

confirmada com pactos mais seguros. Nesse mesmo dia, em que foi o

baptismo de D. João, prendeo subitamente o fogo no Palacio; mas tanta

gente acodio logo, que foi quasi a hum tempo visto que apagado. Tambem

no mesmo anno D. Manoel juntou outra Armada para ir abater a ferocidade

dos Mouros, cruzando pelos mares de Gibraltar; mas nada que mereça

memoria nos veio della.

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 9 / 22 段