Vicente Sodré com seis náos, para infestar aquellas paragens. Logo
que entrou em Cochim, vierão a elle subito os Portuguezes, que alli
ficárão, expôr-lhe com quanta humanidade os tratára ElRei, e com
quanta vigilancia os amparára das insidias dos Sarracenos. E ElRei
por hum dos seus domesticos, que grande posto occupava junto á sua
pessoa, lhe mandou logo saudação mui honrada; e com elle concertou
o Gama, escolhesse ElRei o sitio que mais apto lhe parecesse,
para no dia seguinte se fallarem, porque lhe queria manifestar as
recommendações, que de D. Manoel trazia para elle. No intervallo lhe
mandou os presentes de ouro e prata, e huma corda de ouro, que ElRei
de Portugal lhe mandava. ElRei de Cochim pleitando magnificencias com
D. Manoel, se esmerou nos mimos, e entre muitos, em dous braceletes
de custosa pedraria, e hum grosso diamante, que tudo encommendou ao
Gama entregasse em nome delle a Sua Alteza. Houve no outro dia falla
com o nosso Capitão Mór, onde se derão não medianas demonstrações
de reciproca amizade. Não erão passados muitos dias, que eis-chegão
deputados dos Christãos, que morão na Cidade Cranganor, de cuja
deputação era esta a substancia. Que graças dignas não sabião dar a
Deos Optimo e Maximo por beneficio tão singular: como terem conseguido
o que não havia theor de imiginallo de antes, que viessem a aquellas
tão arredadas terras homens Christãos tão adornados de virtudes.
Que se dedicavão vassallos do Senhor D. Manoel, nem querião outro
Soberano conhecer no mundo: por tanto rogavão e requerião Vasco da
Gama, que acceitasse suas homenagens em nome do Optimo e Invictissimo
Rei de Portugal. Levantou as mãos ao Ceo o Gama; e dando-lhes
esperanças de melhorar sua condição, lhes abonou seu empenho, em que
todos os Capitães Portuguezes, que d’ora em diante ElRei mandasse á
India, os amparassem da tyrannia de homens desalmados e das injúrias
dos Sarracenos. Despedidos os Deputados, tratava o Capitão Mór
fervorosamente de dar ás náos a carga competente; e no em tanto hum
Brachmane, de quem muito se servia ElRei de Calecut, veio ter com o
Gama acompanhado de dous mancebos, hum dos quaes era seu filho, e outro
parente mui conjuncto; e vinha pedir a Vasco da Gama, que conduzisse
aquelles moços a Portugal, para aprenderem a lingua Latina, a Religião
Christã, nossas Leis e disciplina: e como visse o Gama inclinado a
cumprir-lhe o desejo, se insinuou mais em sua confiança, desabrochou
seu peito, e demostrou de claro o que de primeiro não ousava confessar.
Vinha elle de mandado do Çamorim manifestar-lhe, que nada com mais
ardor appetecia que conciliar paz com os Lusitanos em santissima
alliança. Que prestes era não sómente a remetter-lhes toda a fazenda,
mas ainda a lhes prestar com cumulo todos os deveres da mais solida
amizade, pedindo-lhe que depozesse toda a lembrança de inimizades, e
acceitasse sua satisfação. Que em quanto á carga de especiaria, em
parte alguma acharia mais e a menor preço; e se quizesse guiar as náos
a Calecut, daria com toda a sufficiencia provimento mui próspero a seus
negocios. Quiz o Capitão Mór experimentar se por esta vez se arrependia
ElRei de suas deslealdades; e assim commettendo a Armada a Estevão
da Gama, e o Brachmane nella em refens, se deo préssa para Calecut
com duas náos sómente; e logo que alli surgio, enviou os dous moços a
ElRei, que hião e vinhão com condições do Çamorim ao Gama, e deste ao
Çamorim. Nada menos tramava aleivosias este, e não cessavão os Arabios
de atroar ElRei com grandes alaridas, e lhe accender o animo contra os
nossos. O Çamorim, que nem lealdade professava, nem firmeza em seus
propositos, e em mui pouco tinha as forças do Gama nessa hora, induzido
dos clamores dos Arabios, mandou preparar quanto mais surdamente pôde
trinta e quatro paráos, que de improviso déssem sobre o Gama. O que
mui rapidamente se fez, vogando todos mui arrancadamente contra elle;
e o Gama colhido de sobresalto, pica as amarras, e põe-se ao largo: e
pareceo obra de milagre hum vento de Leste, que subito recresceo assás
violento, quando as cousas estavão tão arriscadas; e feito á véla,
nada obstante, lhe vinhão os paráos em seguimento á véla e remo. Já
lhe vinhão bem perto, quando apparece Vicente Sodré com a Armada que
capitaneava, por quanto o Gama aventando hum pouco aquella fraude (dado
que a não julgasse tão cedo concluida), lhe mandára hum navio de aviso,
por lhe apressar a vinda a Calecut. Quando o Gama se vio acompanhado de
Vicente Sodré, voltou a prôa contra os inimigos, e investio tezamente
com elles; tendo desarvorado algum dos paráos, e morto bastante gente,
o resto da Armada dispersa e derrotada, tratou de buscar seu salvamento
na fugida. Dalli partio Vasco da Gama para Cochim, tendo enforcado o
Brachmane, os filhos não; que escapárão, porque antes de rever alguma
nodoa da malfeitora trama, se tinhão acoutado em terra. O Çamorim,
que vio dolos frustrados, frustrada a força descuberta, tratou outros
meneios de agencear a ruina dos Portuguezes; pelo que escreveo a ElRei
de Cochim, pedindo-lhe que lhe entregasse os Portuguezes, induzindo-o a
esta maldade com largas promessas; e no caso que rejeitasse a proposta,
lhe declarava os perigos a que se expunha, acompanhando tudo com féros
e ameaças. Ao que respondeo ElRei de Cochim, que muito se admirava que
entrasse no juizo d’hum Rei tão illustre empuxar a enganos os outros
Monarcas; e que muito mal competia á soberana dignidade quebrantar a
fé, nem trahir os que a essa fé se lhes commettião. Que assim como nada
era mais realengo que a lealdade e a constante firmeza, assim nada era
mais alheio de reaes costumes e reaes deveres, que a perfidia. Que com
a lealdade se grangeava a fama, e com a perfidia se tisnava hum labio
de desdouro, em quantos a rompião mórmente, se elles erão Reis. Por
cuja razão elle não reputava por Monarca quem não cultivava lealdade.
Que não fazia Reis o mando supremo, mas a virtude sim. Nem elle faria
essa traição, dado que soubesse de certo, que a firme lealdade sua o
esbulharia de seus dominios e poria em grande perigo a sua vida: por
quanto nada prezava a pujança, nem algum prazer da vida em comparação
do seu dever. Insistio nada obstante o de Calecut, e tres cartas
mandou ao de Cochim sobre o mesmo assumpto, ora com galardões, que o
affeiçoassem; ora com féros, que o espavorissem; mas este se affincou
sempre no mesmo sentimento. Nenhuma destas propostas deo ElRei de
Cochim a entender ao Gama, em quanto hião e vinhão novas, por não
lhe turvar o espirito com sinistras suspeições. Mas depois que toda
a esperança de sobornallo foi cortada ao Çamorim, então patenteou ao
Gama com quaes trabucos combatido fora. De que o Gama lhe tornou as
devidas graças, admoestando-o ao mesmo tempo de que nada receasse;
que deixaria na India aquella Armada, com que facilmente resistisse á
ferocidade do perfido Çamorim: e dahi partio para Cananor com treze
náos carregadas, para se alli juntar com mais tres, que lá no porto
estavão surtas a receber carga. Não estava ainda ao largo 12$000
passos de Pandarane, quando avistou vinte e nove náos bem petrechadas
de armas e soldados, que ElRei de Calecut mandava a destruillo. Por
conselho dos demais Capitães se preparou a combater toda essa Armada;
e por quanto as náos de Vicente Sodré, de Pedro Rafael, e de Diogo
Peres erão mais boiantes, as passou á primeira linha, para encetarem a
peleija: o que elles desempenhárão com brio, cahindo sobre dous navios
de Arabios, que vinhão na dianteira. A gente destes dous lenhos mal que
vírão avisinhar-se-lhes o Gama, cortados de susto, se emborcárão nas
ondas, para fugir nadando. Os nossos lanção-se d’hum salto ás lanchas,
e no meio dos mares despedem da vida a trezentos dos nadantes; e o
grosso da Armada, que vio rendidas as duas náos e mortos os que nellas
hião, voltando as temerosas prôas, se recolhem a terra. Foi-lhes Gama
no seguimento; mas por irem as náos mui carregadas, não pôde vir a
effeito. Acharão os nossos nas duas náos que saqueárão hum idolo de
ouro com quarenta libras de pezo, e tinha mais figura de monstro que de
numen; luzião-lhe em lugar de olhos duas esmeraldas de grande preço, e
engastado no peito hum pyropo de estranha grandeza, tão brilhante como
huma braza ardente: n’hum manto de ouro se envolvia. Vasias as náos,
mandou subito o Gama applicar-lhes fogo, para darem queimadas terror
á Armada que fugia. Entrou depois em Cananor, onde ferio concerto com
ElRei, e precaveo que nunca este com ElRei de Cochim renhisse guerra,
nem conjurasse com o de Calecut era estrago delle; nem quando o Çamorim
lhe commettesse guerra, em algum modo o ajudasse. O que concluido,
entregou á sua fieldade os Lusitanos, que havião de administrar as
incumbencias d’ElRei D. Manoel.
Aos 28 dias do mez de Dezembro de 1503 sahio de Cananor, deixando
Vicente Sodré com seis náos, encarregado de desaffrontar de perigo os
Reis de nossa amizade, e fazer acerrima guerra aos inimigos; e no caso
que o Çamorim intentasse peleijar com o Rei de Cochim, rechaçasse das
terras deste, quanto podésse, o impeto d’ElRei de Calecut. Mas que
se até ao mez de Fevereiro não houvesse insulto, passasse então aos
mares da Arabia, onde commettesse todo o possivel estrago naquella
gente. Dada esta ordem, se foi a Moçambique fazer aguada e mantimentos;
e no tomar o Cabo da boa esperança tal tormenta lhe sobreveio, que
lhe desgarrou a náo, em que vinha Estevão da Gama, e a lançou por
differente carreira. Finalmente entrou o Gama prosperamente pela barra
de Lisboa no primeiro de Setembro de 1503 com doze navios carregados:
e não só ElRei, mas ainda as pessoas principaes e toda a Republica
concebêrão grande prazer de sua vinda. Dalli a seis dias aportou
Estevão da Gama com igualmente bem succedida viagem.
Por este mesmo tempo houverão em Africa os successos seguintes.
Alcacerquibir he hum Oppido na Mauritania Tingitana, não muito arredado
do mar de Cadis, que o rio Lixa réga: rio, que não sendo grande,
quando as chuvas o engrossão, desborda de maneira, que vai bater nos
muros, e entra e corre pelas ruas. Dizem, que Almanzor, Imperador de
Marrocos, edificára Alcacerquibir; e era elle Califa, nome que os
Arabios Mahometas dão ao que prefaz ao mesmo tempo as vezes e encargos
de Monarca e de Pontifice. Não tem os moradores della fontes, nem
póços; mas cisternas, quando não bebem da agua do Lixa: o que não
tolhe ser a Cidade mui visitada de mercadores bastantes, e conter
muita nobreza. Florecia nella o estudo da Filosofia, e huma Escola
das boas Artes, onde de toda a parte vinhão muitos sogeitos cubiçosos
de cultivar o engenho. Era tambem nella célebre huma capacissima
casa de Hospital, onde vinhão curar-se pobres e peregrinos gravados
de varias enfermidades. Todo este contorno abunda em arvoredos e
hortaliças, com pomares mui bem plantados. Seu terreno he tão grosso
e fertil, que acode com trinta por hum. Quando Arzila por obra e
valor de D. Affonso V. Rei de Portugal, foi tomada, cuidou ElRei de
Féz em fortificar Alcacerquibir, abraçando-a com grossos presidios, e
dando a governança della a Capitães, que fizessem amiudadas correrias
sobre as raias de Arzila, o que muito impacientava a ElRei D. Manoel.
Pelo que escreveo a D. João de Menezes, que, como dito he, governava
Arzila, que fosse logo commetter-lhe guerra. Era nesse mesmo tempo
Capitão Mór de Tangere aquelle mesmo D. João de Menezes, Conde de
Tarouca, de quem acima fallámos, que fora em soccorro dos Venezianos
contra o Imperador dos Turcos. Para melhor preencher o que lhe era
prescrito, escreveo D. João de Menezes ao Conde de Tarouca seu parente,
convidando-o a tomar parte na facção, que em seu animo preparava,
e expondo-lhe o que delle requeria. O Conde sahindo de Tangere com
duzentos cavallos, tomou para Arzila, onde encontrou com o Capitão Mór
della, que o esperava com duzentos e cincoenta bem destemidos: juntos
os dous esquadrões, vão com muito silencio até Alcacerquibir, e perto
da meia noite chegão á ponte, que lhes ficava a 30$000 passos já de
Arzila. Não lhes foi todavia possivel encubrir-se das atalaias dos
inimigos; e o Alcaide de Alcacerquibir, que os presentio, mandou tocar
a rebate, e os clarins a chamar a soldadesca; e ao apontar da aurora,
com todas as trópas que juntára, se foi postar n’hum outeiro visinho
da Cidade, a que dão nome Montanha do prazer; e lá formou a sua gente
á feição Mourisca, e nos presentou assim batalha. Mandou perguntar o
Conde a D. João de Menezes qual era o seu sentir ácerca do exercito
inimigo. Muito bem (lhe mandou em resposta), pois nos deparão o que
queriamos achar. Como ninguem recusava de peleijar, os dous Menezes
ordenão as trópas, e levão bandeiras a arrostar-se com os Mouros. Estes
começão a alardear ligeiras escaramuças, a desafiar os nossos, porque
desmanchassem com a ansia de brigarem a ordem com que vinhão: mas vendo
que ninguem se desconcertava, descem então formados pouco a pouco
daquelle tezo, para virem de impeto sobre os nossos. Nós vamos logo de
sobida a accommettellos. Ei-los que nos voltão costas; e nós que imos
em seguimento, lhes matámos cento e oitenta ao pé das portas da Cidade,
que os de dentro cortados de medo, fechão sem piedade dos que inda lhes
ficavão de fóra, com o receio de que entrassemos de envolta, indo-lhes
na espalda, e lhes levassemos desse impeto a Cidade. Os de fóra se
apinhão desesperados, e remettem comnosco; retrava-se a batalha, sahem
muitos dos Portuguezes da sélla, ou são feridos, leva hum golpe no
rosto D. Duarte de Menezes, filho do Conde de Tarouca, e outro golpe
tambem colhe a Pero Leitão; ninguem porém foi morto, porque vierão os
outros acudir aos que cahírão. Então forão de parecer os dous Capitães
Mores de retrahir o exercito em boa ordem; e chegando á pequena ponte,
que obra de 2$000 passos dista de Alcacerquibir, lhe picou a retirada o
Alcaide com novecentos cavallos. Passárão a ponte os nossos; e quando
se vírão em campo largo, formados em batalha esperavão que os Mouros
enfiassem a ponte, para lhes irem sobre, antes de toda a trópa ter
passado. Mas elles como adivinhando-o, não commettêrão a passagem, que
não vissem os nossos bem largamente ausentes della. Brotavão Mouros de
todos aquelles sitios, e quanto mais hião avante os nossos, mais Mouros
recrescião; e mais medrados nos avexavão ferozes, com mais confiança
nos vinhão no alcance, e mais porfiados nos investião, até chegarem á
segunda ponte. Já então se achava o Alcaide na tésta de mil e trezentos
Cavalleiros. Ora imaginavão os inimigos que ao passar da ponte, se
alvorotarião os Christãos; e revolvendo-se, perderião a bem ordenada
fórma que trazião; mas ficárão enganados, porque passou a retaguarda,
que os Mouros infestavão, com tão boa ordem, como tinha passado
a vanguarda; e logo os dous Menezes, quando se vírão no raso da
campina, desdobrárão as fileiras, e offerecêrão peleija aos inimigos;
mas estes não ousárão cruzar a ponte, antes voltárão á Cidade, ou
pelos Aduares visinhos se pousárão. Dos nossos não falleceo hum só.
Não corrêrão porém muitos dias, que os nossos Menezes não tirassem a
campo os Cavalleiros, para dar de subito n’huma quantia de Mouros, que
morava em certos Aduares á beira do rio, mui perto de Alcacerquibir.
Forão todavia estes advertidos por hum fugitivo, que trazia sua
origem da Flandres Franceza, e assim desalojárão na mesma noite que
o souberão. Mas ainda os Christãos matárão ao redor de cincoenta,
que não podérão acolher-se, e quasi outros tantos que cativárão. Ao
querer reconduzir o exercito, lhes sahírão os inimigos em grande
copia; mas os Christãos hião ao mesmo tempo recolhendo-se, e fazendo
face sempre formados, e matando muitos delles nas accommettidas; o
que os Mouros fazião igualmente aos nossos, quando corrião sobre
nós. Pero de Sousa, varão mui valeroso, esteve mui aventurado neste
combate, quando mais lidava em metter os Cavalleiros em ordem, e em
os defender dos inimigos. Todavia não matárão estes senão quatro dos
nossos n’huma peleija tão desigual, visto o desarrazoado numero dos
contrarios, e a cujo máo grado entrárão em Arzila com a sua preza.
Nesse mesmo anno sabendo D. João de Menezes que n’hum monte a 20$000
passos de Arzila havia quantidade de mulheres mui fermosas guardadas
por homens esforçadissimos, que as amavão mui ardentes, deliberou ir
cativallas, para fazer mimo dellas á Rainha D. Maria. O caminho porém,
que atravessava muitos Aduares, se fazia perigosissimo; para enganar
pois os Mouros, partio de noite, que muito escura e tempestuosa os
encubria, com duzentos Cavalleiros, desde a terceira vigia, para dar
naquelle Aduar mui povoado. E lá, antes que os inimigos déssem sentido
de sua chegada, mandou accender muitos archotes, que de proposito
levava, para que com a claridade delles vissem os Christãos o que era
apto de obrar no sobresalto dos inimigos. O clangor das trombetas, e o
estrepito das armas metteo tanto pavor nos inimigos mal dispertos, que
grandissima parte delles lançou a fugir. Alguns porém neste derradeiro
transe da vida sustentárão corajosos a peleija, sem desmentirem hum
passo do posto em que se achavão. Os prantos das mulheres, e seus
lugubres lamentos, os alaridos com que os homens rompião os Ceos,
acordárão do somno quantos pousavão naquelles visinhos Aduares. Com
tudo como não sabião que numero era o dos Christãos, nem a grandeza
daquelle repentino desastre, antes fingindo-o em seus animos mais
calamitoso que elle não era, e sem terem Capitão a quem seguissem,
não só não lhes vierão acudir; mas fugindo com filhos e mulheres,
se derão préssa a salvar-se no cabeço da montanha, e embrenhar-se no
mais cerrado da espessura. Os nossos dando a morte a oitenta, ou pouco
mais, dos que mui pertinazes combatião, apreando cincoenta homens e as
mulheres, derão saque ao Aduar sem algum estorvo. Entre as mulheres
cativas algumas vinhão das que mais gabadas erão de fermosas, e em
mira das quaes tinhão os nossos emprehendido tão arriscado feito; o
qual concluido, se retirou D. João com o exercito; e em quanto foi
noite, ninguem lhe ousou picar a retirada. Mas apenas madrugou, que
gran quantia de inimigos arremetteo com elle: com tão boa ordem com
tudo Menezes reconduzio a trópa, que não recebeo delles perjuizo, posto
que de todos os lados lhe rebentassem perigos, em que se peleijava mui
porfiadamente, e fossem muitos dos nossos feridos, muitos cavallos
mortos, e elle mesmo corresse grandissimo risco de vida. Não morreo hum
só Christão, e entrárão na Cidade com a preza inteira.
DA VIDA E FEITOS
D’ELREI D. MANOEL.
LIVRO III.
EM quanto assim succedia em Africa, começava Trimumpara, Rei de Cochim,
a padecer na India violentas agitações; por quanto o Çamorim assentou
de alistar gente, e juntar grande exercito, com que o esbulhasse
do Reino e suas posses, em razão do tratado de amizade, que com os
Portuguezes celebrára. Muitos forão no Conselho de Triumpara, que
lhe persuadissem de resgatar o seu socego, e o do Reino todo com a
morte de poucas pessoas estranhas de mui diversa crença e usos, e
entregasse a ElRei de Calecut esses Portuguezes, que da mão de Gama
acolhêra em seu real abrigo. Cujo conselho ElRei tanto o não tomou,
que antes asperamente reprehendeo os que assim o persuadião. Dizendo
ainda mais: que não tinha por tão maléfico o animo do Çamorim, que
intentava despojallo do Reino, e tirar-lhe a vida, como o animo dos
que o conselhavão a trahir sua lealdade. Que era curto o fio da vida,
e limitado em estreitas raias o usufructo da realeza, mas sempre
eterna a nódoa da perfidia: e que assim mais queria perder o Reino,
e expôr a vida a desgraçadas contingencias, que arder na infamia de
mal-guardados promettimentos. Neste alvoroto de espirito se achava,
quando chegou a Cochim Vicente Sodré com a sua Armada; e, como lhe
presentisse intenção de partir dalli, Diogo Fernandes Correa, que
Vasco da Gama alli pozera para feitorizar as dependencias d’ElRei D.
Manoel, lhe obtesta não queira em semelhante ensejo desamparar hum
Rei amigo exposto a tão desastroso accidente pelo amor e fieldade
aos Portuguezes promettida. Que tal fora o principal motivo, por que
naquelles mares o deixárão com tão abastecida Armada, rebater dos
amigos o impeto de seus adversarios. Que meditasse bem quão grande
desdouro sobre si lançava, entregando Cidadãos seus á ferocidade de
taes inimigos. Por quanto não cabia só o nome de traidor aos que
contra a fé dada maquinavão a perdição dos seus, mas tambem aquelles,
que nos transes atribulados recusavão de lhes valer. Respondeo-lhe o
Sodré, que lhe não dera ElRei esse encarrego, mas sim de ir guerrear
com quantas náos da Arabia atravessassem á India, cujas ordens elle
por nenhuma razão nem occurrencia tinha de quebrantar. Ao que replicou
Correa, que nem sempre se havia de attentar ao que os Reis mandão,
mas sim ao que nas circumstancias quererião fosse feito, porque são
incertos os acontecimentos, e da estranheza delles se ha de tomar o
acordo. Que nunca fora da vontade de tão excellente Senhor abrir mão
do salvamento d’hum Rei seu amigo, nem do de seus vassallos, e que só
quando inimigos proximos lhe vagavão, hia commetter guerra a outros
inimigos. Estas e outras mais razões do mesmo porte lhe dizia, tomando
a testemunho a Divindade dos Ceos, e tirando público instrumento dos
que presentes erão, mas que nada aproveitárão. Que teve com Vicente
Sodré maior poder ou já o medo, ou já a esperança de avultadas prezas,
do que teve a sua obrigação, ou o pundonor. Partindo pois para o
Occidente, foi cruzar o estreito do Sino Arabico. Ora Naubeadarim, moço
naturalmente discreto, e instituido na doutrina dos Brachmanes, filho
da irmã d’ElRei de Calecut, e que pelas leis daquella gente era seu
unico herdeiro, desapprovando a guerra, que emprehendêra seu Tio, dizem
que huma vez tal prática com elle tivera. Posto que seja mais proprio
a minha idade receber conselhos, que offerecellos, estimula-me todavia
d’huma parte amor forçoso, e de outro o perigo ingente a manifestar o
que de tão importantes cousas sinto. Que dado me sejas pela natureza
Tio, me és amantissimo Pai por tua affeição innata: accrescendo de mais
o muito desarranjo que me caberia de serem por malignos conselhos
menoscabados os teus poderes; e se avisos saudaveis fundamentarem o
teu Reino, tudo recahirá em ganancia minha. Por tanto te supplico
respeitoso admittas em teus ouvidos esta minha falla, como de quem
comtigo por natureza, por amor, e por companheiro no perigo he tão
conjuncto. Se alguma cousa digo razoavel, quizera que approvasses; e se
a não digo, farás o que mais a teu sabor julgares. Preparas huma guerra
importantissima contra Trimumpará em sua ruina: o que não he estranho,
segundo o uso tão frequente dos Reis, de pleitearem com armas seus
processos; releva porém considerar qual seja desta guerra o motivo:
por quanto guerras, que sem legitima razão se emprehendem, acabão
muitas vezes com pessimos successos. Que ha pois? Recusou elle pagar o
tributo? Entrou talando armado as tuas terras? Urdio elle em damno teu
conspiração com outros? Nada disto fez. Que poderás, quando lhe moves
tão poderosa guerra, pôr diante, que seja ao menos especioso a dizer?
Que te tão entregou, como ordenavas, certos homens acolhidos á sombra
da lealdade, homens, que pelo odio entranhavel, que aos Portuguezes
tens, querias atormentar; e te queixas de que não consentio em violar
(por te aprazer) o direito das Nações, e a abonada fé. Que farias a
quem contra os direitos humanos e divinos commette infinitas maldades,
se tão rigoroso te mostras contra quem nada tem por mais prezado que a
lealdade sua e o seu dever? Tu com mercês honrarás os que dignos são
de mór supplicio? Por certo não. Que he d’hum Rei vingar com penas a
perfidia, e não conferir graças a ferocissimas façanhas. Dirás ainda,
que elle ampara inimigos, de quem recebeste injúrias graves. Peço-te,
por quanto comtigo valho, que tomes em boa parte o que ácerca dellas
dizer te quero: que a ninguem releva tomar mais a peito que eu qualquer
insulto, que contra tua magestade for por maldade de homens perpetrado.
Quanto aos Lusitanos, não sinto eu que o que elles obrão, mereça grande
vituperio; como homens, que brios tem, o seu dever prefazem. Magoão-se
quando os offendem, combatem quando os incitão, e persistem em lavar
as injúrias, que lhes inferem. Se de primeiro contra o teu Estado
tivessem algum aggravo commettido, de razão os castigáras de seus máos
feitos: mas nada inimigamente obrárão; antes por comprazer com teu
peditorio, te cativárão e fizerão mimo de huma náo ricamente carregada.
E quando mui descançados em terra estavão sob teu abrigo e lealdade,
se vírão sem motivo algum aleivosamente roubados e de cruel maneira
mortos. Não devem pois pagar a pena os que vingão tão barbara maldade;
mas sim os que levantando a labareda de tão repentino arruido, derão
causa a todos os males, que depois vierão. Muito ha já que toleramos
o termo destes Arabios, sabemos ao claro seus embustes e maranhas, nem
ignoramos quão matreiros mestres de enganos são; o que tudo perpassavel
era, em quanto submissos forão. Mas hoje com as que em teu Reino
riquezas accumulárão, tão altivos se fizerão, que não são de sopportar.
Sacodem-se do governo, e até armão querer dar leis a tão pujante Rei,
como tu és. Como andão carrancudos e ferozes? Como encostados em sua
ousadia, devassão tudo? Com quanto descaramento se entremettem e
forção entrada? Com que ameaças te requerem. Já tão longe se adiantão,
que a ouvillos, por seus conselhos tu devias teu Reino governar. E
qual he sua petição: “Dá-nos fim desta gente odiosa e mal vista.” Que
ha ahi de vir? Faz ella, quando admittida, que sejais vós expulsos?
Nenhumamente. Mas nossos olhos não podem soster a vista desta gente
Christã; he, receamos outro sim, que as ganancias que antes lucravamos,
com sua chegada diminuão. Por tanto não já humildes to pedimos, mas
por nossos fóros te impellimos a que com risco de teu Reino, e infamia
de assinalada baixeza, contentes o melindroso enojo de nossos olhos,
e nossa desmesurada avareza, que com nenhumas riquezas se completa. E
concluem com dizer, que he mui conveniente á salvação commum extirpar
das Comarcas Indicas esta Nação em armas poderosa. Mas ainda quero que
acabes com esses poucos homens, que são com Trimumpará, acabas tu d’hum
golpe com toda a geração Portugueza? Não por certo. Antes assanharás
mais violentos os que depois vierem. E se elles tão valentes são, como
estes Arabios apregoão, quando te advertem do mal, que delles deves
recear, e do terror de suas armas, com que te assustão; melhor mui
certamente será para ti, e para teu socego tomallos por amigos, que
por inimigos, e esses agastados. Que bem acontece ás vezes trocarem-se
inimigos acerrimos em mui constantes amigos: que hum e outro effeito
mana da mesma fonte da esforçada virtude. O meu receio he, que com
as mesmas riquezas, que por seu esforço te arrancarem, vão augmentar
as d’ElRei de Cochim, e muitos então insultem a teus desastres. Nem
eu duvido, que Armadas grandissimas venhão a estas praias devastar
as propriedades daquelles, com quem estão aggravados, pelas injúrias
que delles recebêrão. Esse o motivo, por que tenho por mui dignos de
odio estes Arabios, e antes que tudo pelas forças que mettem para
lançarem tão preclaro Monarca, e tão apto a imperiaes poderes nesta
fraudulencia, e a desamparar-te de tua lealdade e do teu dever. E por
qual razão? Pelo seu entranhavel odio, e pela sua avareza. Sem contar
que tanto os entufa o seu orgulho, que pretenderião que por seus
alvitres se administrasse o Estado; sem contar que diante dos teus
olhos commettêrão aggravo tal, que imprimio na tua fama hum indigno
ferrete de sempiterno desabono. Que não ha-de ninguem crer, que a
tão desmedida maldade se atreverião elles sem connivencia tua. E por
ultimo elles forão os authores, que egregios e esforçados varões, com
cujo fiel adjutorio poderás ampliar as riquezas do teu imperio, se
convertessem com grande risco teu, teus inimigos. Pelo que meu sentir
he, que desta guerra te descartes, e assentes pazes com os Lusitanos,
que sabem guardar fé e boa justiça, e que como corra fama, resguardão
como santas da amizade as leis, e tem de uso dar o devido pago aos
inimigos: e quanto ao prejuizo, que os Arabios lhe causárão, tu lho
resarças. Porque isto receio eu, que do contrario redundem nestes
contornos, por conselhos de malvados, immensos infortunios, agouro que
o Ceo de nós arrede. Em huma e outra fortuna sei eu bem que me terás
por companheiro, como de mim o requer a minha lealdade e o meu dever;
que não recuso derramar a vida pela tua soberania e por teu obsequio.
Assentei que era obrigação minha explanar-te o que sentia; aos Deoses
rogo, que approvem tudo o que a bem julgues seja feito.