Fica ella situada para o Austro; os seus confins, que são

dilatadissimos, entestão com o Perú, continente que se encerra nos

dominios dos Reis de Castella. A terra he fertil e amena, e tão sadia

de seu natural, que quasi escusa medicina alguma; por acaso alli se

morre de doença, antes acabão quasi todos minados da velhice. Muitos

e grandes rios a humedecem; e as fontes de agua doce e perennal que

tem, são fóra de algarismo. Tem larguissimas campinas, que se tapizão

de mui graciosas pastagens: seus portos são bonissimos, de mui facil

embocadura, em que as náos tem grande abrigo contra os vendavaes; e

não tem baixos nem restingas, em que periguem. A maior parte daquella

região he empollada de montes, que abrem grandes valles; as florestas

densas e sombrias; tem arvores de muita diversidade, nunca d’antes

conhecidas dos nossos; entre ellas huma, da summidade de cujas folhas

cortadas destilla hum genero de balsamo. O campéche, d’onde se tira a

côr vermelha, com que se as lans tingem, são alli mui triviaes e muito

altas. Brota além disso a terra plantas muito medicinaes, e entre

ellas a herva santa, muito proveitosa para chagas, apertos de amiudado

anhélito, e tambem para cancros, e para a gangrena, procedida de

apodrecidas chagas e que em perdição de todo o corpo lavra contagiosa

e subita: para muitas mais doenças, em que a arte medica em vão se

esgota, e que ella mui prompta despede. São os homens fulos de côr, tem

corredio o cabello e negro, e comprido; não tem barba, e ainda algum

pello, que pelo corpo lhes aponta, com pinças o arrepéllão. Letras

nenhumas conhecem, nenhuma Religião cultivão, nenhumas leis os ligão,

nem se servem de alguns pezos ou medidas, nem ao governo de algum Rei

vivem sujeitos. Quando todavia entre elles se levantão guerras, elegem

hum General, que julgão por de todos o mais forte, e mais acerrimo em

dar batalhas. Vulgarmente se não cobrem com traje algum, sómente os

que entre elles realção por nobreza, se cingem de tecidos, de pennas

de papagaio, e de aves de outras cores. Com cocares das mesmas pennas

enfeitão as cabeças, e compõem braceletes, que passão por cima do

cotovello. Descem-lhes estes saios de plumas do embigo até ás curvas.

As mulheres deixão crescer o cabello; mas os homens o rapão desde a

fronte até ao toutiço. Os que porém caprichão de garridos, furão as

orelhas, os labios e os narizes, e até as faces, para as permeiarem

pelos furos de pedrinhas de cores variadas. As mulheres, em vêz de

pedras, se servem de miudas conchinhas, que ellas estimão a mui alto

preço. Usão de arcos em suas peleijas; e com tanta arte atirão huma

flécha, que a qualquer parte do corpo a que acenem, lá a empregão. Para

as pontas das fléchas servem-se de espinhas de certos peixes em vêz de

aço, e profundão, não obstante, com ellas tal ferida, que traspassão

com o furo qualquer plancha. Vivem do que cação, comendo macacos,

lagartos, cobras, ratos; que nenhum destes manjares os entoja. Usão

de canoas compostas de cortiças de robustissimas arvores, e dellas ha,

que podem trinta pessoas conter no bojo. Quando querem pescar, vão huns

delles remando, e outros batendo o mar com varapáos, para amotinar o

peixe, que espantadiço vem boiando á flor da agua. Então os que para

tal ficão de apresto, tem cabaços grandissimos seccos e ocos descidos

no mar ao revéz da corrente, e nelles vem de si mesmo encovar-se o

peixe. Não semêão trigo, mas fazem pão da raiz d’huma herva do porte

da beldroega; que com tudo encerra veneno tão mortifero, que morre de

repente quem a come crua: mas elles pizão-na e pizada, a espremem,

que gotta lhe não reste de sumo venenoso, e então a secção ao Sol, e

moîda entre pedras, lhe extrahem a farinha. Os pães, que desta farinha

fazem, não sómente são saudaveis, mas tem ainda mui regalado sabor.

Della e de milho compõem huma bebida mui parecida com a cerveja, na

qual, quando se enfrascão, o que mui de uso lhes acontece, mais que

ordinarias fraudulencias e traições maquinão. Observão agouros, e são

dados a empeçonhamentos. São entre elles em muita honra certos homens

maléficos, a quem vão consultar nos casos duvidosos. Chamão-lhes

Pages. Trazem estes na ponta d’huma setta huma cabaça com figura de

homem, e cada vez que lhes dá na vontade, mettem brazas na cabaça

e de sobrepostas hervas sahe fumo, que resfolgão pelos narizes, até

bebados tremelhicarem, se espojarem, e sahirem de si. Que tem tal

força aquellas hervas, que com seu fumo, como se fora sobejidão de

vinho, os privão do entendimento. Logo começão a ranger os dentes,

a escumar pela boca, a revirar os olhos, a ameaçar muitos de morte,

e amedrontar com turbulentos esgares e meneios os circumstantes: e

ninguem suspeita que sem instinto de espirito divino elles profirão

tão horrendas vozes. Ora se algum dos a quem aquelle homem assim

eivado agourou desastre, passou por sinistro acontecimento, logo crêm

que aquelle agouro cabe reportar como em castigo. São agasalhados com

summa veneração, espadanão-lhes os caminhos, cantão-lhes versos (a seu

modo) acompanhados com flautas, danção-lhes bailes; trazem-lhes ao

quarto moças formosas, dellas virgens, e outras já casadas; porque tem

para si estes pobretes, que tudo lhes virá a seu desejo, se os tiverem

ameigados. Não he dado entre elles casarem pais com filhas, nem irmãos

com irmans; com as mais mulheres se conjungem indiscriminadamente, e

tambem as deixão, se dellas se imaginão aggravados. Matão-nas porém,

ou vendem-nas como escravas, se as apanhão em adulterio. Não os pais,

mas os irmãos tem poder nas filhas, que as põem em venda quando

bem lhes parece; e esta venda al não he, que escaimbo por outras

cousas, que moeda não a tem. São mui perguiçosos para o trabalho, e

mui inclinados ao jogo, e descanço: todo o tempo que não empregão na

guerra, o dão aos banquetes, ao canto e dança sem theor algum. Toda a

sciencia de sua dança está n’huma roda, que vai sempre saltando, e seu

canto n’huma nota monotona, que não sóbe, nem desce na entoação das

coplas. Alli se recitão as proezas, que na guerra acabárão, a que dão

consummados elogios, e todas as canções tornão em applauso do esforço

militar: o acompanhamento desta musica lho fazem elles assoviando e

batendo com os pés. Andão em tanto os outros occupados a dar de beber

aos dançantes, até que assoberbados do beberete caião sem sentidos.

Fabricão suas casas de madeira, e as cobrem de unidos colmos, e as

circumvallão de dous e de tres muros, em razão das revezadas guerras,

em que de contínuo lidão. N’huma só casa (porque são mui compridas)

assistem muitas familias, por quanto se amão todos fraternalmente,

e com gosto arrojão sua vida a todo e qualquer risco, por acudir a

cada hum daquelles, com quem vivem. Guerras nunca as emprehendem, por

defender ou dilatar suas fronteiras; mas sim por pundonor, quando

concebem que forão aviltados por seus convisinhos, ou qualquer outra

arredada Nação. Nesse caso anciãos, que ja nas guerras esclarecêrão

seus nomes quando moços, entrão no Conselho; e antes que deliberem,

cada hum toma tanta bebida, quanta seu animo lhe pede; e logo mettem

suas forças e vontades a pôr por obra quanto ácerca da guerra e da paz

foi pelos velhos decretado. Escolhem, como já dissemos, por General o

acerrimo em seu conceito, honra de que subito o deipojão, se em alguma

occurrencia teve o menor desar de cobardia, e lhe substituem outro no

seu posto. Vai o General de casa em casa convidando a todos com grandes

gritos para a guerra, e avisando-os de como tem de se aviar para ella,

e quanto lhes he necessária a valentia. Não só usão de arcos e fléchas,

mas com espadas tambem de madeira durissima lavradas, québrão e fendem

os membros dos inimigos. Tração frequentes emboscadas, e põem o ponto

em accommetter de sobresalto os seus contrarios. Os prisioneiros

de guerra, mórmente se velhos são, sem tardar os comem, os mais os

prendem. A quantos dos seus na guerra perecêrão, fazem mui pranteados

funeraes, em cuja celebração fazem o encomio de seu valor. Dão mui

bem de comer a seus cativos, e até lhes dão mulheres para com elles

dormirem; e quando chegão seus dias de festividade, atão com cordas hum

prisioneiro de guerra, que lhes parece já bem nutrido e gordo; e antes

que tudo, a sua amiga em sinal de amor lhe lança huma corda ao pescoço

e arrasta ao supplicio os seus amores. Cercão-no depois os homens,

que lhe garrotão braços, pernas e ventre, e atados a huma columna, o

pintão de varias cores e o enfeitão de plumas. E para não parecerem

deshumanos, lhe relaxão as prizões, e lauta e liberalmente o convidão

com bebidas e manjares. Intervallo este, em que todos se põem a comer,

e a se engolfar naquelle licor, de que já fallámos. Saltão depois, e

cantão e danção pateando, e neste jogo mui apparatoso empregão tres

dias cheios, até que, findado o triduo, desimpedido das cadeias dos pés

e das mãos, o conduzem a hum subterraneo, onde mulheres e meninos o

tirão pela corda, que lhe cinge o peito; o resto dos homens e mulheres

lhe atirão com limões e outras fructas, e o prezo quantas dellas póde

apanhar, as revíra sobre os que com ellas o magoárão. Em tanto bebe,

e ao que parece, mui contente, que bebida e comer não se lhe refusa,

demostrando em tudo não mediana alegria. Elles ao valentinho, e que

como tal blazona, lanção injúrias e accumulão de vituperios, e lhe

dizem: “Homem muito malvado e muito facinoroso, pagarás agora os males

que fizeste, e vingaremos no teu sangue os manes de quantos na guerra

nos morrêrão. Que temos de tirar-te a vida, despedaçar-te, e comer-te

assado.” _Prompto me tendes_ (lhes responde), _que o não haveis

vós com hum cobarde, que detrecte o supplicio. Sempre me portei com

brio em meus deveres: e se de matar-me tendes, já muitos de vós ás

minhas mãos morrêrão; e se de minhas carnes ides saciar-vos, já eu das

carnes de muitos me saciei tambem. Tenho demais irmãos, tenho inda

parentes, que certo estou não deixaráõ impunida a minha morte._ E

assim dizendo, vai entrando no subterraneo; e logo aquelle, sob cuja

guarda estava, entra com elle no mesmo subterraneo, todo pintado pelo

corpo, e o pescoço bem adereçado de plumas, vibrando em suas mãos huma

desmedida catana; e vem cantando e assoviando, em quanto a esgrime. O

prezo põe summo desvelo em lha arrancar das mãos; mas em quanto faz

lanço a correr a esta parte, as mulheres e meninos, que nas mãos tem o

cabo da corda que o amarra, o tirão a si; e se volta a outro lado, da

mesma sorte as mulheres lhe dão contrario torcimento. Tão agarrado o

tem alli, que não póde dar passo do lugar em que se acha; e o valente

gladiador o magôa a seu salvo e o atenua a golpes de catana, até que

por ultimo com hum, que á mão tenente lhe descarrega sobre a cabeça,

lha fende, e os miolos lhe derrama. Corta-lhe depois as mãos; e vem

logo as mulheres, que o corpo já sem vida lanção sobre o fogo, para

que, queimado o pello todo, possa com mais aceio ser lavado. Aberto

pelo ventre, lhe arrancão as entranhas e miudos; depois o fazem em

chacina, e por não dizer mais, mordem mui regaladamente naquellas

carnes. Outros homens ha montanhezes e silvestres, que porfiadamente

guerreião comestes que habitão barracas, e se enlodão nos mesmos crimes

e feridades. Nenhum delicto, senão o homicidio, he punido entre elles;

mas os mesmos proximos parentes do homicida são forçados de entregallo

aos que em razão de commum consanguinidade tem acção de requerer-lhe a

morte. Ora estes lhe dão garrote e o enterrão; e com muitas lagrimas e

carpiduras de todos os parentes, celebrão as exequias de hum e outro

defunto, e dão banquete, a que assistem, depostas as inimizades, todos

os parentes. Se porém por accidente algum pôde escapar o homicida,

então suas filhas, ou suas irmans, ou já parentas, são entregues á

serventia dos parentes do morto, com o que toda a desavença entre

os dous bandos fica sepultada no olvido. Tive por arrazoado emprego

descrever costumes tão selvagens e ferinos, para que entender-se

possa quanta alluvião de errores investe com a misera humanidade, se

destituida se acha do conhecimento das sciencias; e o que funesto inda

mais he, do presidio da santa nossa fé; e se comprehenda tambem com

quanta benignidade o Clementissimo Rector do Universo olhou por esta

miserrima gente, quando pela arribada dos Lusitanos naquellas praias,

lhes grangeou conversação e familiaridade com Christãos, e com homens

religiosos da Companhia de Jesus, que a aquellas partes mandárão os

Reis de Portugal; a doutrina dos quaes Padres affugentou as trévas dos

erros, em que muitos laboravão, e porque bem inteirados affervorem seus

animos no ardente zelo de Jesu Christo Optimo e Maximo, e a Deos rendão

grandiosas graças com advertida vontade, reconhecendo este seu divino

beneficio.

Partio Cabral das regiões Brazilicas aos 5 de Maio, e aos 24 do mesmo

mez avistárão os marinheiros huma nebrina, que lhes vinha sobre, e lhes

encapotava o Ceo de escura noite; olhavão os mares que se abalavão, e

se erguião em ondas, e começárão a assustar-se, e a arrear mui depressa

o velame. Mas tão subito lhes carregou o temporal, que antes de poderem

pairar ao perigo imminente, quatro náos forão dos furacões ferozes

embatidas, desarvoradas, e tão submergidas no profundo, que hum só não

escapou dos que nellas hião. Espectaculo amargoso e lamentável, além

do que em palavras cabe, para os que ficárão! Ver revoltos entre os

marulhos os companheiros de seus trabalhos, conjunctos pela amizade e

patria natural, e inda muitos delles avinculados pelo sangue, sorvellos

aquelle pégo em sua voragem enorme, e não poder acudir com soccorro

algum em tamanha calamidade a homens, que fenecião em tão miserrimo

soçobro! A’s sete náos, que lhes superstiverão e que dalli entre

lagrimas se arredárão, desbaratou nova tempestade, e sô em 17 de Julho

se tornárão a juntar seis da conserva, que a setima esgarrada com

o vendaval, foi entrar pelo seio Arabico, d’onde tornou a Portugal

com seis pessoas sómente, que as mais atormentadas de fomes, sedes e

doenças, combatidas de muitos perigos e afflicções, perdêrão as vidas.

Em fim as seis, depois de dobrarem o Cabo de boa esperança, avistárão

huma amenissima terra espontada de arvoredos, formigada de rebanhos,

que muitas crystallinas ribeiras recortavão, para a qual mandou Cabral

que arribassem os navios: mas nenhum dos moradores quiz acceitar

trato com os Portuguezes. De maneira, que muito carecendo os nossos

de comestiveis, se partírão dalli sem nada poder conseguir daquella

gente; e depois de ter discorrido toda aquella costa, acertárão com

duas ilhas, que erão contra aquelle continente, e nellas estavão surtas

duas náos, que apenas os que dentro dellas vinhão assentárão que eramos

Lusitanos, se derão a fugir. Poz-se logo Pedro Alvares em seu alcance;

mas inteirado que ellas erão de Fonteima, num Principe muito parente

de ElRei de Melinde, as deixou ir livres; e sem lhe tocar em grandes

quantias de ouro, que de Çofala exportavão, nem em muitas outras

mercancias de subido preço. Chegando a Moçambique em 21 de Julho, fez

sua aguada sem estorvo dos naturaes, comprou mantimentos, e provído

de Piloto, que o levasse a Quilôa, diligenciou fazer-se á véla: e como

não hia muito afastado da terra, via muitas ilhas mui formosas e bem

agricultadas, cujo dominio supremo pertencia a ElRei de Quilôa, cujo

reino se estende por 900$000 passos ao longe daquellas praias. ElRei

e os Quiloenses todos seguem os preceitos de Mafamede: os habitadores

parte delles são negros, parte baços; fallão Arabigo, e entendem outras

linguas mais, em razão do commercio que alli lavra com muitas Nações;

vestem-se á moda dos Arabes e Turcos, e vivem a la grande. Dista Quilôa

de Moçambique obra de 400$000 passos: hum esteiro de mar a separa do

continente; he mui povoada de arvores a ilha, e de plantas; rebentão

nella frias e perennes fontes; he abastecida de grossos e muitos

gados; tem nos seus matos e florestas muitos animaes para exercicio

dos caçadores; a terra he fertil, e agudada de mediana cultura, se

desabrócha em variadas colheitas, e differentes peixes mui saborosos se

pescão nos seus mares. He a Cidade grande, e mui fornida de habitantes;

as casas vastas, e com magnificencia construidas, com seus eirados,

bem tapeçadas e lindamente artesoadas, recheadas de moveis differentes

e em gran quantia. Suas náos não dissemelhão muito das de Moçambique;

e porque lhes falta o pêz, as alcatroão com incenso bastardo. Entrado

e surto neste porto Pedro Alvares Cabral, enviou a ElRei hum chamado

Abrahemo dizer-lhe, que por mandado d’ElRei de Portugal viera a

aquellas partes com recado do mesmo Senhor, e Cartas de seu punho, das

quaes se podia divisar o empenho que em seu animo jazia de se juntar

com elle em alliança e amizade: que elle porém não podia em nenhum modo

sahir a terra, por não parecer menos prezar as ordens do seu Monarca,

que lhe impedião desviar-se da Armada, para vir a conseguillo; que

por tanto designasse a paragem que mais arrazoada lhe parecesse para

aquella entre-falla. ElRei mui affabilmente recebeo os Enviados, e

por elles mandou em resposta a Pedro Alvares, que mui grata lhe fora

a sua vinda; que muitas noticias tinha já das grandezas d’ElRei D.

Manoel e das virtudes que muito o ornavão, posto que por tão arredados

intervallos de sitios ficasse dispartido daquellas terras o Reino seu;

e que advertido dellas, mui gostosamente entraria em quaesquer pactos

de reciproca amizade; e pois que não era factivel receber em terra sua

embaixada, se daria modo de no dia seguinte fallar no mar com elle.

Assim disse, e mandou logo hum fidalgo da sua casa com presentes a

Cabral, e no dia depois se embarcou em pequenos bateis, que para esse

effeito estavão apercebidos e adornados. Vinhão todos trajados de ouro

ou purpura, de seda ou de algodão; cingião espadas e punhaes, em cujos

punhos trazião engastadas preciosas pedras, que lançavão mui lustroso

brilho. Davão significação de summa alegria os anafis e buzinas,

que vinhão tangendo, a que os Portuguezes respondião com trombeta e

tiros de artilheria, indicadores do gosto que disso tomavão. Passára

ordem Pedro Alvares a todos os Capitães, que se vestissem com o mais

luzimento que podéssem, o que elle tambem fez; e assim se embarcárão

nas lanchas, para irem ao encontro d’ElRei e de suas embarcações. E

logo que Cabral topou com ellas, saudou a ElRei como era devido, a que

ElRei replicou com honraria, e dahi recebeo da mão do nosso Capitão

as Cartas em Arabigo escritas, e com muito boa sombra no gesto e no

semblante, ouvio a embaixada: e respondeo por fim, que o Senhor D.

Manoel lhe seria sempre como Irmão seu, e poria seu cuidado, que

ninguem lhe levasse vantagem no affecto para com Sua Alteza. Ficou

depois entre ambos assentado, que no dia seguinte mandasse Cabral a

ElRei pessoa, que com auto confirmasse a instituida amizade. Quando

tudo estava assim determinado, entremettem-se os mercadores Arabios,

criminando os Portuguezes de facinorosos e desalmados, admirando a

simplicidade d’ElRei, que confiava a sua dignidade e Reino a piratas;

e que a não pôr estorvo a suas ciladas, em poucos annos, com mascara

de paz, lhe arruinarião todo o seu haver. Com taes práticas demudão o

animo d’ElRei por modo tal, que não só revolvêrão a paz, mas irritárão

contra os nossos abhorrecimento acerbo. Já ElRei fortificava a Cidade,

juntava a soldadesca, distribuia atalaias, e dispunha tudo o que nas

Cidades maritimas se executa, quando estão já no porto os inimigos.

Pedro Alvares Cabral, que disto foi avisado por Homer, irmão d’ElRei

de Melinde, que então residia em Quilôa, não deo por acertado estragar

alli o tempo inutil, e endereçou sua carreira para Melinde, cujo Rei,

quando tal soube, se embebeo de incrivel alegria, e deo logo promptas

ordens de abastecer a Armada de todos os mantimentos e fructos, que

a terra produzia. Levava o Cabral comsigo o Embaixador d’ElRei de

Melinde, honrado e presenteado por D. Manoel, e as dadivas tambem

que ElRei de Portugal mandava da sua parte ao de Melinde, as quaes

entregou a quem no dia seguinte lhas levasse. Então ElRei de Melinde,

para que o povo admirasse honra tamanha por hum Rei poderosissimo a

elle feita (por quanto são aquelles Reis ambiciosissimos ácerca de

semelhantes cousas, e de nenhuma outra se ufanão mais, que de se verem

condecorados com mimos de grandes Monarcas), mandou logo ajaezar hum

soberbo cavallo, com todos os arnezes, sélla e pendentes de ouro de

obra mui prima d’entre os muitos presentes, com que d’ElRei D. Manoel

fora brindado, e assim montado partio para o maritimo, onde já Cabral

com os mais Capitães nas lanchas o esperavão. Lá depois de mutuamente

se abraçarem, e terem muito pleiteado cortezias, não quiz nenhum ceder

a outro em resguardos de civilidade. Bem quizera ElRei demorallo alli

por longo tempo; mas Pedro Alvares não o consentio, sómente deixou em

terra dous degredados, que vissem se era possivel passar por terra á

Ethiopia, que fica sobre o Egypto, onde ElRei D. Manoel tinha ouvido,

que reinava hum Imperador Christão, e lá indagassem os costumes, leis,

e ceremonias daquella gente. Feito á véla de Melinde aos 7 de Agosto, e

achando-se com ventos de servir, transpoz aquelle pégo, e foi surgir em

27 na ilha de Anchediva, onde se deteve alguns dias, para restaurar do

trabalho seus soldados e marinheiros: de lá navegou para Calecut, por

cuja barra entrou com a sua Armada, depois de 13 dias de sahir da ilha.

O que logo que chegou á noticia do Çamorim, mandou dous Naires com hum

mercador entre elles mui authorizado, daquellas partes lá por onde o

Indo desemboca no Oceano (chamão Cambaya a terra, e os homens della

Guzarates), que viessem a bordo, e ao Capitão em seu nome saudassem.

Cabral lhos remetteo e com elles a João da Sala, homem Cavalheiro, que

acompanhára Vasco da Gama no descobrimento da India; e outro sim a

Gaspar da Gama (que tal sobrenome tomou aquelle Judeo, que andava no

serviço do Sabayo, e no baptismo quiz chamar-se da Gama, em memoria do

seu protector), e a mais quatro Naires dos que o Gama comsigo trouxe

á Lusitania (deixando os outros como em refens), para apparecerem a

ElRei vestidos já á Portugueza, de cuja vista se deo por mui contente

o Çamorim. Depois de recados de huma e de outra parte, assentou ElRei,

que em certos Paços, que davão sobre a praia, viria Pedro Alvares ter

com elle, e expôr-lhe quanto da parte de ElRei D. Manoel quizesse.

Estes Paços estavão magnificamente adereçados, e a elles se transferio

ElRei acompanhado de immensa nobreza, e lhe vinhão em torno muitos dos

Maioraes do Reino. Vinhão diante os musicos com charamélas, de ouro, e

de prata primorosamente lavradas, que com seus bem modulados tangêres

denunciavão a alegria de que ElRei vinha, ao parecer, affecto. Chegou

Cabral com alguns Capitães, depois de encommendar a Armada a Sancho

de Thoar, hum dos Capitães della. Logo que tomou terra, lhe vierão ao

encontro muitos homens nobres, e alguns dos Grandes, que todos a pé,

em quanto elle hia em liteira, lhe fizerão cortejo até á sala, que

tapeçada, era de pannos de seda e ouro, e o traje de ElRei brilhava,

pela quantidade de pedraria. Saudou Pedro Alvares ao Çamorim, e foi

sentar-se em huma cadeira de prata, que junto delle estava preparada;

e logo chamando o interprete Gaspar da Gama, lhe perguntou ElRei o que

os amigos em familiar congresso saber desejão: Se gozava de saude,

se lhe fora agradavel a viagem, se D. Manoel seu Irmão se portava

sadio e bem, quando a Armada desaferrou de Lisboa. Explicadas então

pelo interprete as Cartas d’ElRei de Portugal, entrárão a tratar da

alliança. O Çamorim muito de sobeja vontade mais promettia, e mais dava

que Cabral não requeria. Deo faculdade aos Portuguezes de negociar

livremente na Cidade, e que teria cuidado que o podéssem fazer com

segurança e com proveito. Designou aos nossos para esse effeito humas

casas bastantemente grandes embeiçadas com a praia, em que morassem,

e arrecadassem suas fazendas. E porque o Mouro, que dellas era dono,

começou logo a maquinar enredos contra os nossos, fez o Çamorim doação

a ElRei D. Manoel de outras maiores e mais visinhas do mar, onde

os seus Feitores habitassem mais folgadamente, e com mais commodo

entendessem em seus haveres. E para que ficasse em perpétua lembrança

esta sua doação, a mandou lavrar em huma placa de ouro; e a Cogebecque,

hum Mouro requissimo (a quem pelo ardor que demostrava para com os

Portuguezes, lhe arruinárão depois toda a sua fortuna), lhe pagou mui

galardoadas estas casas, que erão suas. Passou outro sim huma Lei,

para que no tópe do edificio se pregasse huma bandeira com as Armas

d’ElRei D. Manoel, que a todos désse abono de que pertencia a ElRei de

Portugal, e tomaria a seu cuidado que este monumento d’hum Monarca, que

lhe era tão prezado para sempre na Cidade tremolasse.

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 8 / 22 段