repetidos boatos, que Bajazeto, Imperador dos Turcos, preparára huma
grande Armada para destruir todas as ilhas e Cidades da Grecia, que
pertencião ao imperio e senhorio dos Venezianos. Estes que souberão
pelas noticias quão formidaveis forças se alistavão contra elles, não
confiando poderem sós aparar tamanho embate de guerra, pedírão por seus
Embaixadores auxilio a todos os Reis Christãos, e entre elles a D.
Manoel. Rogárão tambem ao Papa, que intercedesse com ElRei de Portugal,
para que com a Armada, que já tinha de tudo prompta, quizesse valer á
Republica; pelo que o Summo Pontifice deo aos Embaixadores Venezianos,
que com este peditorio da Republica vinhão a D. Manoel, Cartas, em
que lhe recommendava não tivesse em pouco o requerimento de Veneza.
Por quanto aquelle discrime commum a toda a Republica Christã, com
todas as forças juntas dos Christãos merecia rechaçado. E considerasse
com quanta ufania aquelle inimigo perennal do nome de Christo,
investiria com a Italia, e de lá com a França e com a Hespanha, se
conseguisse o fim de seu proposito. Que facilmente podia sobrestar na
guerra de Africa; mas que perdida a opportunidade de rebater aquelle
infortunio, não havia recuperalla. Que mais louvavel era e mais
preclaro desembargar do perigo os seus amigos, que illo commetter a
seus contrarios. Que muitos Principes da Italia se abalavão em soccorro
dos Venezianos; mas que não poderião acudir-lhes tão presto, quanto o
vulto do perigo o demandava. Que elle D. Manoel tinha sua Armada já
de tudo apercebida, e sem algum estorvo de poder lançar sobre si toda
a gloria de ter salvado Veneza. Que só fallecia a promptidão, a qual
não cahia nas posses dos outros Principes, em razão do embaraço de
suas cousas. Que attentasse qual gloria lhe resultaria de ter escorado
em tão ameaçada quéda a Republica Veneziana, elle que tantos mares e
terras tinha de permeio, quando tantos Potentados visinhos della a
desamparavão! E por ultimo, que em tomar parte naquella guerra, não só
daria clara demonstração de sua humanidade e valentia, mas ainda de sua
devoção religiosa, que ficaria conservada em recommendação perpétua.
Persuadido destas razões, e inclinado a compadecimento pelas Cartas
do Pontifica, respondeo D. Manoel benignamente aos Embaixadores,
promettendo-lhes que era este hum dever seu, a que de nenhum modo elle
faltaria: pelo que mandou, que de toda a Armada cerceassem trinta
náos, e com quanta mais brevidade coubesse no possivel as provessem de
biscouto, e mais mantimentos necessarios para tão longa navegação. E
por quanto desfalcada assim a Armada, mal podia, segundo sua dignidade,
commetter guerra aos Mouros, como debuxado tinha, a lançou para outros
tempos: por ora fez com todo o seu animo pendor no adjutorio, que aos
Venezianos enviava.
Em quanto com muito zelo tudo isto se executa, chega D. João de
Menezes, que ElRei, depois de ganhar a victoria contra Baraxa e
Almandarim, mandára vir a Portugal, d’onde foi despedido para Arzilla
com o accrescentamento de 150 Cavalleiros no anno 1501; por quanto
pela maneira, com que guerreavamos em Africa, raras vezes peleijava
a infanteria: assim de Cavalleiros erão quasi todos os terços, que
lá mandavão os nossos Reis. Era nesse tempo Governador de Tanger D.
Rodrigo de Castro: e como D. João de Menezes, entrado em Arzilla, lhe
pedião as mãos travar-se com os Mouros e dar-lhes desbarato; como se
não via, com gente bastante para a empreza que meditava ser a seu geito
concluida, convidou por Cartas a D. Rodrigo a tomar parte na facção.
Juntas então as duas tropas, derão n’huns grandes aduares, e investírão
c’os Mouros de sobresalto. A maior parte dos quaes entrada de pavor,
poz pés em fuga; muitos (nada menos) por conservar no extremo lance da
vida decóro ao brio, asperamente peleijárão, ficando muitos mortos, e
cento e oitenta prisioneiros. Cinco dos nossos Cavalleiros, que vírão
sete dos Mouros, que se lhes escoavão com cinco mulheres, lhes forão
no seguimento. Os Mouros, posto que a pé, por terem na briga perdido
seus cavallos, se preparavão todavia a ter-lhes cara com muito denodo.
Passou-se entre huns e outros hum jogo de lançadas mui renhido, e que
durou além do que era de crer entre tão poucos combatentes. Varárão-nos
os Mouros tres cavallos, e todos os Cavalleiros nos ferírão; mas os
nossos não deixárão algum com vida. Hum delles, que mettia todas as
posses neste ultimo trespasso, tanto dava desconsolo á sua esposa, que
entre as outras era posta, que exclamava neste piedoso dizer: “Assim,
querido meu, terei olhos para ver como cruelissimamente te matão?
e eu lagrimas só darei á tua morte sem esta minha vida te dar por
companheira? Que prazer póde ficar-me, se tu morres?” Isto dizendo,
arremessa-se por entre as nossas espadas, e a hum Cavalleiro, que com
o seu esposo batalhava a pé, porque lhe tinhão morto o cavallo, cinge
pela arca do corpo e tão estreitamente o fez, que este soltar-se della
não podia; e pouco falleceo, que o esposo della lhe não tirasse a vida,
visto não poder menear o braço da espada; mas accorrêrão os outros, que
se tinhão desimpedido de seus contrarios, e com a morte deste findou
o combate. Cahírão por terra estes sete Mouros; mas de maneira, que
ainda no ultimo arranco denunciavão seu egregio esforço. Foi grande a
preza, e copiosos os gados, armentios e cavallos, que cativárão. Vindo
já os Capitães Mores de volta com o exercito para as Cidades, d’onde
tinhão sahido; e além de 4$000 passos dos Aduares, o Alcaide d’huma
Villa muito fortificada, que chamão Alcacerquibir, veio com 1$200 de
cavallo sobre os nossos, e accommetteo co’a retaguarda, que Menezes
capitaneava. Os nossos em ordem de batalha, com a preza no centro,
vinhão caminhando como quem punha o fito em defender-se das correrias
dos Mouros, e não em offendellos; pelo que pouco se adiantavão, ainda
que os Mouros com escaramuças os picavão. Este era o modo de peleijarem.
Os Mouros com as lanças feitas corrião sobre os nossos; e logo
continuando a carreira, se recolhião; sobrevinhão-lhes outros assim
correndo a repetir o assalto. Os nossos, lançando atrás os broqueis,
aparavão as lançadas; revirando a vista, cuidavão em guarnecer as
ancas de seus ginetes; quando porém os apertavão mais azedamente os
inimigos, arremessavão-se a elles com os cavallos. Mas vierão huma vez
tão ferozes, que Menezes com huma parte das tropas arremetteo contra
elles, e lhes poz tão pezado ferro, que 50 delles mordêrão a poeira
varados de nossas lanças. Reparando porém os Mouros no vagar, com que
em razão da preza caminhavamos, fizerão conselho de peleijar comnosco
em batalhão formado; pelo que cessando nas correrias, seus Capitães os
mettem em ordem de batalha. Nem Menezes lhes hia em contrario; antes
fez alto, e mandou dizer a D. Rodrigo de Castro, que estava de animo
de tentar o combate; que se elle o achava acertado, voltasse com os
seus á retaguarda, para darem sobre os inimigos em esquadrão cerrado.
Respondeo-lhe D. Rodrigo, que não era de bom General aventurar sem
necessidade alguma aos caprichos da fortuna facções grangeadas com
muita prudencia. Que muitos azares havia na guerra; e que a arrogancia
dos Capitães estragava feiamente o que fora felizmente começado. Que
os inimigos erão muitos, e os nossos podião, recolhendo-se muito a seu
seguro, recusar, se quizessem, huma arriscada peleija. Que o valeroso
General acceitava batalha a commodo seu, não a gosto do inimigo.
Que a preza era assás avultada; que não faltava hum só dos nossos;
que não destruisse com má determinação o que tão egregiamente se
emprehendêra. Nem Menezes achou desarrazoado este conselho. E ora os
Mouros, em quanto os nossos gastárão tempo em consultas, advertindo
na consistencia dos nossos, crêrão que se dispunhão a carregar sobre
elles; e seguros pela experiencia de varias refregas quão pezadas mãos
os nossos tinhão, depois de ter bem assentado de combater comnosco, nos
deixárão o campo. Então os nossos Capitães Mores, repartida a preza, se
tornárão a suas casas sãos e salvos.
Não passárão muitos dias, que não fosse Menezes bem informado por
hum espia Mouro, que ElRei de Féz sahíra a fazer correrias, e tomar,
se podésse, a Cidade Tanger, ou talar-lhe ao menos as campinas, e
fazer-nos o maior estrago possivel. Que tinha a seu mando 12$000
Cavalleiros; e se dava tal préssa em sua marcha, que não passaria
correio a D. Rodrigo, antes que elle fosse contra os muros, mórmente
não havendo ahi estrada, que os inimigos não tivessem pejada.
Alvorotado Menezes com estas novas, manda dar fogo á artilheria, para
com o estouro das balas dar a entender a D. Rodrigo o risco em que
lidava. Além de que, tinha naquelles proximos dias vindo a Arzilla hum
Cidadão de Tanger, e por esquecimento deixado huma cadélla sua. Manda
Menezes apanhar a cadélla, e pendura-lhe do pescoço huma carta lacrada,
em que dava conta de quanto o espia lhe relatára, e determina que
logo que seja noite, a ponhão fóra de portas, e na praia a fustiguem
rijamente. A cadélla escandalizada da disciplina, deo-se tal carreira
por vir a casa, que antemanhã estava ás portas de Tanger; e D. Rodrigo
que lêo a carta, mandou vestir as armas a toda a gente. Não tinhão
acabado, que já ElRei de Féz se approximava da Cidade; e o grosso do
exercito, que ante si mandára, devastava campos, rebanhava gados,
punha á morte quantos homens achava desgarrados. Sahe logo D. Rodrigo
de Tanger, e começa a ferir nelles; mas assoberbado da quantidade,
se retirou com muito custo no fosso, que em defensão da Cidade tinha
cavado; e isto fez depois de mais de duas largas horas de apertada
peleija, morto já seu filho com oito mui esforçados Cavalleiros, e
elle gravemente ferido no rosto d’huma lançada. Recolhidos no fosso
os nossos, não os carregárão menos os Mouros, até que penetrando
tambem nelle, e os nossos forcejando por entrar na Cidade, os Mouros
encruecidos em nosso seguimento, envidavão todo o ardor por entrar
de envolta comnosco em Tanger. D. Rodrigo, que isto advertio, víra
sobre os Mouros c’huma esquadra de Cavalleiros; e com tal impeto lhes
cahio sobre, que deo a todos facil recolhida. O ultimo delles, que
era Lopo Martins, mui destemido Cavalleiro, entrando na Cidade, não
deitou o ferrolho senão á meia porta; e quando todos lhe gritavão que
a fechasse por inteiro, respondeo, que não esperassem delle tamanho
peccado de marcar a honra dos Portuguezes com assômos de pavor. Que
prompto era elle a pôr alli o ultimo arranco da vida pela defensa
daquella meia porta. Nem sô o disse, mas com as obras o provou; porque
accommettido ferozmente pelos Mouros, lhes aparou com grande brio o
assalto, até que outros vierão em seu soccorro; e com seu esforço
sacudidos os Mouros fóra das muralhas, se recolhêrão aos quarteis.
ElRei de Féz dalli a quatro dias desalojou, dando-se préssa a
transladar a Arzilla o seu exercito: do que sendo Menezes informado
pelas suas vigias, logo que dispoz bem o presidio da Cidade, emboscou
toda a sua gente em Villa Velha, metteo em ordem Cavalleiros e
Infantes, mandando-lhes que se tivessem quédos até que elle désse
sinal; e que advertido este, então sahissem todos. Elle entretanto,
como quem tomava fé do exercito, foi andando com sós 20 Cavalleiros até
ao Rio doce, d’onde tendo descortinado a quantia dos inimigos, se vinha
recolhendo para a Villa mui de acordo, e mui de passo. Neste andar vem
sobre elle a cavalleria avançada dos Mouros com tanto impeto, que o
fizerão (vendo-se tão perto já do sitio em que pozera os seus) voltar
sobre elles o cavallo. Achava-se então com sós 4 de cavallo, que os
mais tinhão corrido para a Villa com mais préssa que honra. Todavia 50
Cavalleiros, que o vírão ir de encontro aos Mouros, acodem com a mais
possivel promptidão; e de tal pezo cahírão sobre os inimigos, que os
desbaratárão com bastante mortandade delles. Os que estavão em Villa
Velha, advertindo que Menezes hia mui longe em alcance dos inimigos,
capacitados que não havia ahi esperar por mais sinal, se resolvem a
correr em seu soccorro. Mas já nesse tempo os Mouros derramados por
toda a planicie, tinhão todas as estradas tomadas. Considerava Menezes,
que ElRei mandava Mouros descançados e frescos substituir os feridos e
trabalhados: pelo que elle tão desacompanhado, como se via, de poder
de modo algum resistir a tanto impulso de adversarios, lidava com
summo empenho retirar-se aonde os seus. Nem elle o pôde conseguir sem
maximo trabalho: antes em tão apertado transe lhe forão mortos alguns
de seus Cavalleiros, e muitos feridos. O mesmo Menezes sahio ferido
n’huma coxa. Rompeo com tudo tão brioso o exercito (que tendo-lhe
atalhado todas as passagens, tratava de o tomar ás mãos), que conseguio
juntar-se com os seus. De lá com toda a tropa sua tal Sant-Iago deo
nos Mouros, que já dentro dos fossos peleijavão, que matando muitos,
ferindo ainda mais, e cativando não poucos, despejou de Mouros a cava
inteira. E pondo assim fim á peleija, entrou então na Cidade. Naquelle
ensejo aconteceo aquelle gracioso caso, que o não foi todavia para o
coitado, a quem elle aconteceo. Cavalgava pelo campo em direitura de
Villa Velha hum Mouro, que a tinha por tomada; entra mui ufano e ledo,
mas em troco de sua mui temporia alegria, achou desconsolado cativeiro.
Estas cousas passavão em Africa, em quanto D. Manoel trabalhava com
muito zelo em que a Armada, que enviava em soccorro dos Venezianos,
dentro de brevissimo prazo fosse abastecida de tudo e posta de verga
d’alto, á qual deo por Almirante D. João de Menezes, filho de D.
Duarte, Conde de Vianna, sogeito de extremado esforço e singular
prudencia: outra Armada mais lhe deo a capitanear, que foi a dos
presidios, que havião de ficar em Mazalquibir, se de passagem o podésse
expugnar. Mazalquibir he hum Castello assentado na costa maritima da
Mauritania Cesariana, na praia opposta á Cidade d’Orão. Prescrevêra
D. Manoel em segredo a D. João de Menezes, que na expugnação deste
Castello não duvidasse tentar a fortuna da guerra, com tanto que não
consumisse muito tempo na facção. Desafferrou de Lisboa a Armada a 17
de Maio de 1501, e com ventos de servir, chegou sem demora D. João
aos mares de Gibraltar, onde por preencher as ordens d’ElRei, foi em
demanda de Mazalquibir; mas rebatião-no tanto de lá os ventos, que lhe
custou tres dias a abicar no porto, nos quaes dias os Mouros, que
rastreárão a intenção, que levavão os nossos em quererem alli tomar
terra, se apercebêrão para a resistencia, juntando-se, animando-se os
brios, e provendo o Castello de seguro presidio. Tomão terra por fim os
nossos, dão assalto á Fortaleza, arrimão escadas, sobem á porfia aos
muros: vêm que ninguem se lhes oppõe, e daqui deduzem, que os inimigos
atterrados de susto se lhes occultão pelos esconderijos. Mas os
inimigos, que se tinhão posto em cilada, vendo-os neste engano passear
ufanos e vencedores; aproveitando a esperada occasião, derramados
e nada suspeitosos de adversarios, os accommettem e despenhados os
rechação. Morrêrão neste conflicto vinte dos nossos; e Menezes, que em
suas instrucções levava não desperdiçar o tempo na oppugnação daquelle
serro, deixando o mais da Armada, continuou seu curso com as trinta
náos destinadas ao soccorro dos Venezianos. Chegou a Sardenha, onde o
Governador da Ilha o recebeo com muitas honras; e tendo alli comprado
comestiveis e feito aguada, partio. Não hia mui longe de Tunes,
quando avistou hum grande navio mercante, acompanhado de duas náos
de guerra; poz-lhe logo a prôa, e as cativou, e de volta á Sardenha,
mandou pôr em terra as mercancias. Erão estas náos de Genova, e
vinhão a Tunes carregadas de muita fazenda, e com ella muitos Turcos,
Mouros, Judeos e Christãos. Restituio aos Genovezes o navio mercante
e toda a carregação; deixou ir livres os Christãos e Judeos; Turcos e
Mouros ficárão em guarda, e seus bens forão distribuidos pela Armada;
as duas náos de guerra quiz reter comsigo, até pôr fim a aquelle
combate, a que se destinava. Dalli se fez contra Italia, perpassando
a Calabria e a Apulha, deixou trás si o Epiro, para entrar em Corfú,
d’onde sahio a recebello a Armada dos Venezianos; e com o ruido das
bombardas, e clangor dos trombetas, deo a demostrar de quanta alegria
se entranhavão todos com a chegada dos nossos. A Armada Lusitana cuidou
muito em lhes não ficar cedendo em obsequios. Como porém as nossas
náos se não servião de remos, e havia calmaria e remanso nas marés,
vierão as galés Venezianas tomallas a reboque, para as intrometter no
porto. D. João de Menezes não se deixou levar de rogativa alguma dos
Venezianos a desamparar a Armada; deixou todavia ir a terra todos os
mais Capitães, que forão mui amigavelmente agasalhados. Para que não
obstante se entenda quão arriscada que he a licença militar, quando a
mais severa disciplina a não enfrêa, não será fóra do caso expôr em
compendio o que os nossos militares alli commettêrão. Sendo de sua,
natura altivos e insolentes os marinheiros e soldados Portuguezes,
tomárão na Ilha mais confianças e liberdades do que cumpria, de que
se escandalizavão gravemente os Gregos de indole igualmente propensa
aos arruidos, e reciprocos lançavão aos Lusitanos muitos dicterios, e
injúrias infindas: e foi subindo de ponto, que acelerando debates, com
as armas que o repentino lance lhes offerecia, travárão briga. Accorrem
os Capitães Venezianos a applacar a discordia; dá-se préssa D. João a
vir a terra conter a furia dos seus; mas custou muito aos Cabos com o
mando, e com a ameaça a pôr atalho a tão assanhada rixa. Setenta dos
nossos pagárão com a morte o castigo de sua temeridade e insolencia. Do
exercito Veneziano, e gente de Corfú morreo grande quantia, sangrada
de nosso ferro: e veio a succeder assim, que a aquelles, a quem vinhão
dar adjutorio, causassem não mediano prejuizo huma turba de temerarios.
Não peleijámos com os Turcos, porque sabendo o Sultão, que os Reis de
Hespanha e outros Principes Christãos mettião grande zelo em aprestar
grandes Armadas, com que acudissem aos Venezianos, e que as Cidades,
que a estes pertencião, erão mui fortalecidas, deo por esperdiçados os
gastos, com que sem fruto algum construíra a Armada, e assim a mandou
recolher ao porto, e aos seus soldados desistir da guerra. O General
das galés Venezianas, quando tal soube, disse a D. João de Menezes, que
o Senado e Povo Veneziano rendia consummadas graças ao mui preclaro Rei
D. Manoel, de ter tão efficazmente zelado o salvamento seu, beneficio
este que liava tão estreitamente a Republica, que em nenhum tempo lhe
descahiria da lembrança, nem tardaria o Senado e Povo Veneziano a
mandar-lhe Embaixadores, que mais claramente testificassem com quanto
empenho á sua grandeza e dignidade ficavão avinculados. D. João de
Menezes tendo então reparado os navios e tomado mantimentos, voltou a
Portugal; e passando por varios casos de mar, chegou a Lisboa, e metteo
pela barra dentro todos os vasos, que comsigo levára.
Mas Pedro Alvares Cabral, que hia em derrota da India, seguindo a mesma
esteira do Gama, veio á ilha de Sant-Iago, d’onde querendo passar
avante, tal tormenta se levantou, que a Armada se lhe desgarrou, e
huma das náos desalvorada recuou para Lisboa. Applacada a tempestade,
cuidou Cabral em recolher a si a Armada, em que achou aquella náo
de menos, pelo que mandou arrear as vergas e esperar por ella dous
dias: vendo porém que não apparecia, poz a prôa no Occidente. A 24
de Abril descubrírão os gageiros terra, de que todos concebêrão
incrivel contentamento, não havendo nenhum dos nossos que tivesse a
menor suspeita, de que lhes demorasse terra habitada de homens por
semelhantes paragens. Nada menos mandou Pedro virar sobre a terra,
e deo ordem ao Mestre da Capitanea fosse na lancha orçando pela
praia, e registando apuradamente o sitio, e natureza daquelle paiz.
Voltou o Mestre, e trouxe averiguado, que era amena a terra e fertil,
acubertada de viçosas hervas, e altissimas arvores, vertente em
copiosas aguas: que víra gente baça, de brando cabello corredio, nús
de corpo, passeando pela praia com arcos e fléchas. Não satisfeito
Cabral com o testemunho do Mestre, fez embarcar alguns Capitães nas
lanchas armados, para que melhor indagassem o terreno. Elles perfizerão
a ponto quanto Cabral lhes incumbíra, e de volta confirmárão por certo
quanto o Mestre denunciado tinha. Detendo-se alli sobre as ancoras
aquella noite, sobreveio tamanho temporal, que carregando na Armada,
a forçou a rodear ao longo daquella costa muito embatida das ondas,
e destroncada por aquelles mares, até que acertou com hum excellente
porto, que Pedro Alvares mandou se chamasse dalli em diante Porto
seguro. Abrigadas alli as náos, encommendou Cabral a alguns Capitães,
que fossem nos bateis examinar aquelles sitios. Logo voltárão com dous
pescadores, que tomárão d’hum barco; e como nenhuns dos nossos lhes
podia comprehender a linguagem, por acenos e sinaes começárão a tratar
com elles. Mas tão boto engenho tinhão estes Indios, tão embaçados
estavão de animo, que se lhes não pôde por sinaes dar nada a perceber.
O que visto por Cabral, lhes deo alguns pannos, cascaveis, anneis de
latão e espelhos, e assim dadivados, os mandou pôr em terra. Elles
mui vaidosos com taes presentes, alardeão com grande contentamento
as riquezas suas, de maneira que, abalada toda a povoação de tantos
encarecimentos, acudírão em chusmas com grão miudo, grande copia
de farinha, e muita variedade de fructas, que tudo mui lhanamente
permutavão com os nossos. Embellezavão-se nos espelhos, divertião-se
com os cascaveis, altanavão-se com os braceletes, estavão fitos em
nós, sem se poderem fartar de remirar cada cousa de per si. A simpleza
desta gente empenhou a Pedro Alvares Cabral descer á terra, e alli á
sombra de huma arvore grossissima mandar erguer hum Altar, onde com
grande ceremonia se celebrasse Missa cantada, e houvesse prégação. Nem
forão excluidos daquelle espectaculo os colonos daquella terra, que
mudos e estupefactos entranhavão sem pestanejar no íntimo dos sentidos
a santidade das ceremonias, e a harmonia do canto; e na inclinação
de seus corpos mostravão-se muito entrados do nosso culto. E quando
o Cabral se vinha retirando para as náos, o vierão com muito gosto
acompanhando até ás lanchas: tão declaradas erão estas significações
de regozijo, que com amiudados cantos, com tangêres de cornos e
buzinas, com géstos de seu corpo, com settas atiradas ao ar, e as mãos
apontadas para o Ceo, parecião render immensas graças a Deos, de ter
alli trazido aquelles homens. Tão soçobrados estavão de assombro, que
disseras tinhão perdido o juizo; pois muitos, em quanto Cabral vogava
para a Armada, se mettião pelo mar em seu seguimento, até lhe dar a
agua pelos peitos; outros hião nadando, e delles em bateis, até que
agarrados com as náos, não havia modo de arrancallos dellas. Em quanto
se a Armada aqui deteve a fazer aguada, a se prover de farinhas e
outros mantimentos, deo á costa hum peixe, que moveo grande admiração
em todos. Era da grossura de huma grande pipa, e tinha dous tantos de
comprido; a cabeça e olhos do feitio dos de porco; as orelhas parecidas
com as do elefante; não tinha dentes, a pelle sedeuda e crespa, e
estendia huma cauda de cinco pés de longo, e tinha a pelle hum dedo de
grossura. Nesta terra, que Cabral quiz appellidar Santa Cruz, e hoje se
chama Brazil, mandou pôr huma columna de marmore, semelhante ás que o
Gama mandava collocar em varias partes, e dalli enviou Gaspar de Lemos,
hum de seus Capitães, a Portugal dar parte a ElRei D. Manoel do sitio
daquellas novas terras, que eu não tenho por alheio descrever dellas
algumas particularidades.