e de justiça nos cabe ser de tua benignidade bem acceitos. Quanto
seja o sobro, que com nosso trafico e mercancias temos accumulado
a tuas rendas, tão manifesto he já, que nem lembrallo necessita.
Consulta os teus Almoxarifes; pergunta-o aos teus Feitores, computa
os teus registros, e apurarás com verdade, que nunca fomos inuteis a
teus estados. Sem contar que este nosso zelo nos vem já como ingenito
de nossos antepassados, que d’ha muitos seculos celebrárão, como se
sua patria forão, estas tuas terras, e sempre com extrema lealdade
e acatamento venerárão os Reis de Calecut. Esta harmonia de animos
tambem aliada por antigos e reciprocos deveres, estas tão grandes
utilidades, trabalhárão com summo empenho estes hospedes facinorosos
desalmados, que ha pouco aqui chegárão, desatalla, e pela raiz a
destruirem, se tu a seus projectos não pões atalho. Nem ha que pasmar
se por suspeitas os não penetras; que hum animo lealmente regio, que
da sua candura e fé ajuiza os mais, não ha ahi dobrallo a crer, que
outrem lhe maquine perdição. Além de não conheceres que homens estes
são, nem seus costumes, como nós por longas e muitas experiencias os
temos investigado e conhecido; e muitas outras nações, que nunca os
offendêrão, a quem elles aguilhoados de ambição sómente, e por cubiça
de abranger muito, acarretárão estrago, e ruina. E crê-lo-has, que para
encetar commercio com os teus, vierão elles de tão longinquas terras,
atravessando taes perigos de vida! Tal se não crêa. Más piratas são,
que querem abusar da tua benignidade para destruição de muitos, e
para isso te entregárão fingidas Cartas, ou he de ambição sobeja o
Rei que os aqui mandou, e mais lhes encommendou, que examinassem a
situação desta Cidade, que a ferir alliança comtigo. Não forão estas
as artes, com que os Reis da Lusitania accommettêrão differentes
Cidades de Africa? E boa parte da Ethiopia não a usurpárão elles com
iguaes dolos? A quem não são patentes as injúrias graves, que estes
ladrões infligírão na sua derrota a tantas Nações? Investírão com
armas a Moçambique, tingírão de sangue o porto de Mombaça, cativando
em sua viagem navios e pessoas. Que farão estes homens, quando mais
reforçados se virem: elles, que agora tão attenuados e pobres, nada
contellos póde, que não retumbe em suas obras sua indole cruel e
importuna? Assim se queres salvar os cabedaes de teus Reinos, faze que
taes facinorosos pereção; soffrão merecido supplicio, se são piratas;
e se hum poderosissimo Rei aqui os manda, morrão, porque com a morte
destes, que em tuas mãos estão, córtes aos mais Lusitanos a confiança
de intentar esta carreira. Facilmente se atalha o mal, quando inda he
tenro, mas mal robusto e inveterado, não se extirpa sem grandissimas
fadigas. Agora pois em quanto he tempo, obvía esta maldade, corta
esta ansia de dominar, segura com bom presidio os teus Estados. Se
nada he mais abhorrivel que a crueldade, não ha hi tambem bastião tão
fortalecido para repulsar os perigos, como a sagacidade e saudavel
desconfiança. Que mercancias nos trouxerão elles? Por ahi dizem, que
tão tenues ellas são, que bem dão a demostrar qual sua pobreza seja.
E como se esperançar que venhão enriquecer teu Reino com mercadorias
de alto preço homens, que em sua patria lutão com tão doméstica
escacez? Que direi dos presentes, que em nome de seu Soberano te vierão
offertar? Em verdade julgar não sei se inculcão mais declarado riso, ou
mais pezado insulto. Imaginou por ventura esse Rei, que com mentirosos
elogios sobem ás estrellas, presentear hum desses Régulos da Ethiopia,
tão pobre e tão sem sizo, que se deixasse enredar com pouquidades taes
em seus embelecos? Como ludibriar assim a dignidade d’hum poderosissimo
Soberano? Sondar sua docilidade? Menos prezar sua sabedoria? Poderás
dizer-nos, que toda esta accusação libra no odio, que ha entre nós e
entre os Christãos. Confesso que entre nós e huma gente que nos he
infesta, ha perpetuo renhimento: mas no presente lance, não tanto nos
attributa a nossa, quanto a tua utilidade. Que nós necessariamente,
se os Christãos entrão em tua amizade, temos de mudar porto e buscar
outro emporio, em que nosso commercio labore desafogado; sem termos
de ti maior queixume perante os outros Reis, a quem não desagradará
nossa arribada, que haveres proferido forasteiros a conhecidos, e
gente suspeita a homens bem provados. Em quanto ao accrescentamento de
nosso tráfico, por qualquer parte que formos, faremos nosso negocio
com não menor lucro talvez, nem menos prompto consummo. Tu porém se
com promptidão não acodes por teu imperio (Deos dissipe o máo agouro),
em poucos annos muito o receio, terás de peleijar com muito risco teu,
não só pelo estado de teu Reino e soberania, mas ainda pela tua mesma
vida, com esta avarenta, ambiciosa Nação, em guerreiras refregas muito
porfiada.”
Com estes e outros razoamentos lidavão aquelles Arabios em determinar
ElRei a desbaratar-nos, e tomar-nos (se podésse) as nossas náos: em
quanto o Gama, que destes e de muitos outros máos feitos contra a sua
vida, acareados estava-se sobre aviso, e que descortinava com acerto
não haver ahi que demorar mais tempo, tomou de madrugada o caminho
de Pandarane com tanta ansia quanta pôde, porque lhe não fosse pelo
Catual impedida sua rota. Além de que, tinha antes de pôr pé em terra,
elle ordenado, que todos os dias lhes tivessem as lanchas promptas na
praia, porque a ellas se amparasse em qualquer perigo que lhe urdissem
os Sarracenos; que nesse tempo nada menos instavão, recolhião armas,
accendião contra nós todos aquelles, com quem podião ter entrada. Já
lavrava nelles o odio de maneira, que se ensaiavão a pôr o ferro em
nossas pessoas, quando souberão que tinha partido Vasco da Gama: com o
que se affligírão muito e acabárão com ElRei désse modo a retrahillo
de sua fugida; e ElRei levado de suas razões, mandou o Catual que
detivesse o Gama. Para assim o fazer, correo com gran presteza a
Pandarane, onde tratou a toda a força de reprezallo, e com o disfarce
de serviço, forcejava em o despir de todo o amparo, dizendo-lhe,
que elle estava muito a seu cuidado, e mui certo de alcançar de
ElRei quanto lhe pedisse; mas que o não podia por agora, em quanto
não saneasse o animo do Çamorim, mui chagado de sinistras opiniões,
dando-lhe bem a entender, com que projecto vierão os nossos aportar
naquellas praias; e que bom seria mandar chegar mais á terra a Armada,
entregar-lhes as vélas e os lémes, como em abono, e se certificasse
assim ElRei de sua completa lealdade. Mas com nenhuma condição mostrou
consentir o Gama, bem que por isso tivesse de passar pelos maiores
tormentos até perder a vida. Segundo o que, escreveo logo a seu Irmão,
a quem, não obstante lho ter d’antes assim mandado, avisava, que se
visse ser elle longamente daquella gente perfida reteudo, désse á véla
e voltasse a Portugal com as novas a D. Manoel do como franqueárão o
caminho para a India: que elle nada em quanto á vida o sobresaltava;
só tinha em receio, que o fructo de tantas fadigas se malograsse.
Elle neste em meio lutava com o Catual; este a armar-lhe tramas, e o
Gama a desfazellas; altercação esta, em que affundírão dous dias sem
proveito algum; até que convierão em tirar das náos as mercancias
a terra, com Feitores que as vigiassem; as quaes entregues, deixou
então o Catual a Vasco da Gama ir para bordo da sua Capitanea, d’onde
mandou dar parte a ElRei das aleivosias, que o Catual lhe fizera; e
que se dalli partia, seus enganosos feitos a tanto o obrigavão. ElRei
prometteo informar-se de tudo, e que se achava o Catual criminoso, o
castigaria de sorte, que aprendesse d’então em diante a usar lealdade:
e em quanto ás fazendas, lhe encommendava que as mandasse ir á Capital,
onde subirião de preço; no que o Gama concordou, e á custa do mesmo
Rei forão carregadas para Calecut. No entretanto chegadas as náos
mais junto da Cidade, mandava o Capitão dous ou tres homens cada dia
a Calecut, para todos conhecerem bem o sitio da Cidade. Da parte dos
moradores della não tinhão os nossos de que se queixar, e da sua parte
Vasco da Gama demostrava (quanto nelle era) grandes desejos de paz e
de amizade. Pedio tambem por pessoas, que mandou ao Çamorim, lhe fosse
permittido para maior estreiteza de alliança, deixar hum Portuguez em
Calecut, que feitorizasse o commercio d’ElRei D. Manoel. ElRei, ou já
que não atinasse em que librava aquelle ficar do Feitor em Calecut,
ou já que suspeitasse querer ir-se o Gama sem pagar despachos, se
escandalizou bastante com o requerimento, e lhe enviou desabrida
resposta. Vasco da Gama então reparando quão avêssa era do que elle
pedia, a resposta que lhe fora dada, assentou não travar huma só falla
de mais sobre este ponto com tão leviano Monarca; e o Çamorim, que
ainda mais azedamente se agastou com esse silencio, mandou metter em
prizão os dous feitores Portuguezes, que o Gama com a fazenda pozéra em
Calecut, e as mercadorias em vigilante sobr’olho. Pedia o Gama a ElRei,
que lhe fossem restituidos os homens e as fazendas, e ElRei porfiava
nada menos em sua sem-razão. Tanto porém que isto foi claro ao Gama,
deo por firme usar da força, para obter direito. Combate a primeira
náo, que entra pela barra, cativa-lhe seis pessoas das mais gradas, com
19 servos, e deixa ir os outros livres, e faz-se depois á véla, sem
todavia se afastar muito da terra, esperando que o Çamorim para haver
os seus, lhe entregaria os Portuguezes e as mercancias. Logo o Çamorim
lhe expedio gente a dizer-lhe, que altamente estranhava semelhante
feito de lho reter fidalgos da sua casa sem razão alguma, não tendo
delles recebido desagrado. Que não soltaria os Portuguezes, que comsigo
tinha, sem lhes dar Cartas para ElRei D. Manoel seu Irmão, os quaes
despacharia em continente com Cartas, e com donativos. Estas promessas
induzírão Vasco da Gama a approximar-se de Calecut, e no dia seguinte
chegárão os Portuguezes e trazião as Cartas para ElRei D. Manoel: com
elles vinha quem dissesse ao Capitão, que se elle queria deixar na
Cidade quem beneficiasse o negocio d’ElRei de Portugal, elle tomava
sobre si lhe fosse feito com muita utilidade sua. Que as mercadorias
lhas não mandava, na confiança de poder desbaratallas a preço mais
sobido, o homem, a quem elle Gama désse incumbencia. Tornou-lhe o
Gama, que mudava de pensamento, e que não queria deixar pessoa alguma
em Calecut; e que assim não lhe restituia os seus criados, sem lhe
remetter em continente as fazendas. No dia seguinte vem Monçaide á náo
mui turbado de animo, e conta que os Sarracenos andavão amotinados,
maquinavão perfidias, assanhavão com calumnias o espirito do Çamorim
em perda nossa, o que elle pelo trato de alguns dias, que comnosco
houvera, fora, em summo transe de sua vida, escapando por esmo de
suas mãos, e que em quanto estivesse em Calecut, o não poderia de
modo algum defender das ciladas de gentes tão improbas. Pelo que lhe
pedia, e o adjurava, que o passasse em Portugal: que pouca ansia lhe
davão, os bens, que lhe ficavão em Calecut. Com muito agrado o tomou
sob sua sombra o Gama, que o trouxe á Lusitania, onde se baptizou, e
em todo o proceder de sua vida deo provas de homem honrado, e Christão
sincero. Nesse mesmo dia lhe mandou ElRei sete barcas carregadas
co’as fazendas, que o Gama requeria; mas este, que intentava trazer a
Portugal os prisioneiros com preferencia ás mercadorias, pretextou que
tantas erão as mentiras, com que atélli fora illudido, que em ninguem
tinha já fé; sobre ter averiguado que lhe não trazião por inteiro toda
a fazenda, que desembarcára em Calecut; nem tinha por ora vagar de
tomar computo das parcéllas que faltavão. Por tanto não descativaria
aquelles Malabares, para os levar a Portugal, e lhe serem testemunhas
perante o preclarissimo Monarca, por quem entendesse que sem-razões o
seu Capitão e Legado tinha padecido em Calecut, pela affeição que elle
Çamorim empregava naquelles malvadissimos Arabios. Isto disse, e mandou
dar fogo á artilheria, para os espavorir a todos e os affugentar dalli.
Affronta foi esta, que muito indignou o Çamorim, mas que despicar não
pôde, por quanto em razão do máo tempo toda a sua Armada era varada
em terra. Como porém ao Gama falecião ventos de servir, e não podia
descartar-se daquellas paragens com a velocidade que queria, armou
ElRei 60 navios mercantes, que esquipou de homens e de armas para ir
accommetter as nossas náos. Veio em tanto hum subito temporal, que
desbaratou a Armada inimiga; e como o vento nos não era desfavoravel,
nos perdêrão de vista em breve espaço os Malabares de Calecut: e
o Gama do primeiro porto em que pôde surgir, escreveo ao Çamorim,
dando-lhe conta das ciladas, que lhe assestárão os de Mafamede e dos
embustes, com que o Catual o trahíra; e que essa fora a razão de o
não ter saudado na despedida. O que todavia não seria caso de lhe não
ser elle sempre muito devoto, e se empenhar muito com ElRei D. Manoel
a dar cumprimento de muita efficacia e mui bom grado a quanto fosse
a bem de sua dignidade. Que não se dessocegasse sobre os criados que
lhe cativára, por quanto lhe abonava pôr seu desvelo em que tornassem
incolumes e honrados á sua Patria. Esta Carta confiou elle d’hum criado
dos prezos, que mandou pôr em terra.
Dalli poz a prôa n’humas pequenas ilhas; e antes que a ellas aportasse,
foi sua Armada investida por oito náos, sete das quaes poz em fugida,
e só tomou huma carregada de vitualhas de todo o genero e tambem de
fructas. Todas estas náos pertencião a hum pirata por nome Timoja,
homem fragoeiro e mui temido de quantos navegavão por aquelles mares.
Daquelles ilhéos tomou o Gama rumo para a ilha d’Anchediva, que demora
por 4$000 passos do continente, para alli espalmar como podésse as
náos quebrantadas de prolixa contenda com as ondas. Como quer que
concorressem de toda a parte para os ver muitas pessoas, veio entre
ellas hum, que era criado muito privado de certo Senhor, que imperava
n’huma ilha não mui distante daquelles sitios. Esta ilha se chamava
Goa, e Sabayo o Senhor della, homem de grandes animos, prudente nas
artes de governo e dos exercitos, que assalariava muitos soldados, e
acareava a si convidados de largos pagamentos, todos os que conhecia em
armas esforçados. Este valído pois, como dissemos, veio ter com o Gama,
e em nome do Sabayo mui politicamente o saudou em lingua Italiana; e
seguio, dizendo, que movido de sua fama o Sabayo, o proveria de tudo o
que visse lhe faltava. Pelo que se vitualhas lhe falecião, ou armas, ou
dinheiro, não hesitasse em lho pedir, que seu Amo não se refusaria aos
officios de bom Principe e de bom Amigo. Maravilhado o Gama do gesto
deste homem, da formosura de sua frase Italiana e do bom aviso, com
que respondia a proposito a quanto lhe perguntavão, lhe inquirio qual
era sua Patria, que elle disse ser na Italia; e que indo á Grecia com
seus pais, o cativarão corsarios na viagem, e de desastre em desastre
viera a miseria tal, que, perdidas as esperanças de revinda, lhe foi
forçoso servir hum Principe Mahometano. Do muito que manhosamente hia
inquirindo, e indagando com mais fina curiosidade do que cabia, e de se
desviar da prática incetada, como distrahido por outros pensamentos,
para tornar ao primeiro presupposto, suspeitou o Gama que era espia,
que não para o saudar, mas com fito de investigar alli viera. Firme
neste receio, mandou arrebatar delle e dar-lhe fortissimos tratos,
cuja violenta dor lhe fez confessar, que era Sarmata de nação, de
fé Judia, que andava no serviço do Sabayo, e por mandado seu vinha
especular nossas náos, que soldados havia nellas, e as armas de que
usavão; porque pozera em seu animo preparar huma Armada, com que viesse
destruir-nos. Logo que isto comprehendeo o Gama, se partio dalli;
nem quiz dar liberdade ao Judeo, que baptizado depois, tomou o nome
de Gaspar da Gama, e foi de egregio prestimo a ElRei D. Manoel em
varias incumbencias. Partido daquella ilha o Gama, continuou a traçada
via, mas tardio e incommodado de porfiadas calmarias. Atravessados
aquelles largos mares, descahio para as regiões austrinas da Ethiopia
sobre Egypto, e surgio diante da Cidade Magadaxo, que por saber que
era possuida por Sarracenos, lhe deo hum rijo varejo de artilheria,
com que lhe abalou boa parte dos muros, e as náos, que achou no
porto, dellas affundou, e taes rombos fez ás mais, que as atalhou de
poderem navegar. Ao sahir de lá, encontrou com oito navios Sarracenos,
que vierão accommettello; mas virou logo sobre elles, e com breve
combate os poz em fuga; mas não lhe foi no alcance, por lhe faltar o
vento. Entrou por fim na barra de Melinde, onde foi com muita amizade
agazalhado pelo Principe, que lhe acudio com muitos refrescos para os
soldados, quebrantados de trabalho e de gravissima doença. Demorou-se
alli cinco dias sómente (que receava escapar-lhe a monção de dobrar
o Cabo, em razão do Inverno, que apontava), e fez-se logo á véla,
tanto que recolheo na sua Capitanea o Embaixador, que ElRei de Melinde
mandava a D. Manoel. E por quanto a náo de Paulo da Gama, alquebrada
de velhice, e desconjunta em muitas partes do costado, fazia agua em
demasia, e tambem porque para marear tres navios e defendellos, falecia
de marinheiros e soldados, lhe mandou lançar fogo, tomando seu irmão
comsigo, e repartindo com Nicoláo Coelho a soldadesca e marinhagem, de
que a este deo boa parte, ficando elle com o resto. Aos 26 de Fevereiro
veio á ilha de Zanzibar, ilha abastada e fertil, mui amena pelas suas
frequentes fontes e copados bosques, grossa de gados, e obra de 24$000
passos afastada do continente, e que entre as suas muitas arvores
produz sem cultura nas devezas altissimos limoeiros, de cujas flores,
quando os ventos vão brandos, são perfumados de suavissimo cheiro,
segundo dizem, ainda os sitios mais remotos. O Principe daquella ilha,
dado que sequaz de Mafamede, agazalhou todavia o Gama com agrado, e o
presenteou com viandas e fructas. Indo depois na demanda de Moçambique,
entrou na aguada de S. Braz, onde se proveo de agua e lenha, e matou
muita veação. Nos outros portos, em que tinha deixado degredados, não
lhe consentírão de entrar os ventos contrarios. Aos 27 de Maio dobrou o
Cabo da boa esperança, e de lá com vento favoravel veio com suas náos
surgir á ilha de Sant-Iago, d’onde forão dispersos os dous Capitães por
huma tormenta. Nicoláo Coelho poz o rumo direito a Lisboa, e Vasco da
Gama navegou para a ilha Terceira; por quanto seu irmão Paulo da Gama,
mui acabado de porfiada molestia, consumido quasi d’huma tysica, não
podia soffrer em sorte alguma o balanço dos mares. Logo que elle alli
feneceo sua vida, e lhe forão todas as exequias concluidas, Vasco da
Gama se deo préssa a sahir da ilha, para dar cabo ao caminho que lhe
restava; e entrou pela barra de Lisboa no anno de 1499.
Já nesse tempo de Nicoláo Coelho tinha ouvido ElRei tudo quanto lhes
succedêra na viagem, nas terras da India, e outras mais. E estes
homens voltados da India, os vião os outros com hum certo assombro,
e como resuscitados do outro mundo: muitos faltavão na conta dos que
partírão; doenças gravissimas os riscárão della. De 148, que forão com
o Gama, 55 sós tornárão; e ainda estes pela mór parte trabalhados e
mal-convalescidos. Foi o Gama acolhido por ElRei com muitos louvores,
e ennobrecido com muitas honras, titulos, e riquezas, quaes por
tão preclara façanha elle os merecia. Tambem Nicoláo Coelho foi
accrescentado em honras, e todos os mais, segundo seu merecimento e
dignidade, mui bem galardoados.
Determinou-se ElRei D. Manoel no tempo corrente transferir para a Villa
da Batalha os ossos do Senhor D. João II., que jazião na Cathedral de
Silves do Reino dos Algarves: a qual Villa veio a ser assim chamada,
em razão da mui renhida batalha, que D. João I., Rei de Portugal,
venceo contra D. João, Rei de Castella, filho de D. Henrique, não mui
longe do sitio, em que tem assento a Villa da Batalha. D. João I. alli
fundou hum sumptuoso Templo em honra de Maria Santissima; e ordenou,
que no Convento, que a esse fim apegou á Igreja, assistissem Religiosos
da Regra de S. Domingos, que celebrassem Missas e doutrinassem os
povos daquelles contornos, escolhendo tambem nelle seu jazigo. Nem só
elle, mas tambem seus filhos, e ElRei Affonso V., e Affonso filho de
João II., e outros mais Principes Lusitanos, alli forão sepultados.
Para que pois fossem lá tambem enterrados os residuos de D. João II.,
partio D. Manoel para o Algarve com o Senhor D. Jorge, filho d’ElRei
D. João, e muitos outros Varões prestantes em nobreza e em virtude.
Aberto o sepulcro, achárão inteiro o corpo d’ElRei D. João, e como
ficou em memoria, respirando suavissimo cheiro, que muito admirou a
todos; por quanto passava de quatro annos, que naquelle moimento fora
posto. Muitos accrescentavão, que em testemunho de sua eximia santidade
lhe permittíra Deos obrar alli alguns milagres. Foi dalli transferido
com tão solemne pompa, e honrado com tal concurso e acompanhamento
de pessoas, até ser collocado na sepultura, que de nada se descuidou
D. Manoel do com que podesse demostrar publicamente o zelo, com que
respeitava a memoria de D. João II. Este zelo porém não o deslembrava
do que punha nas cousas da India, e na segunda Armada, que preparava
para as terras do Sol nascente. E como tinha firme em seu espirito nada
emprehender sem tomar auspicio da sua muito santa Religião, naquelle
mesmo sitio, em que o Infante D. Henrique edificára huma Ermida em
louvor da Sacratissima Virgem, se dispoz a levantar hum Templo muito
mais magnifico e muito mais amplo, de que lançou logo os fundamentos,
e o consagrou á memoria da mesma Soberana Virgem, que venerava com
singular devoção; e mandou que aquelle sitio (atélli rastello) fosse
em diante chamado Belém, em semelhança daquella Cidade, em que Christo
nasceo para redempção do genero humano. E para o Convento convocou mui
religiosas pessoas, que professavão seguir o Instituto de S. Jeronymo,
a quem confiou o cuidado da Igreja, e Officios della, rogarem a Deos
por nós, e instruir na santa Religião os mareantes, e chatins, que
alli de varias partes acodem. Este Templo o escolheo de logo para seu
jazigo. Tambem n’hum morro, que circumdão as ondas do Oceano, não
longe do Templo da banda do Poente, edificou huma Fortaleza mui bem
petrechada, que vedasse entrada na fóz do porto de Lisboa a todos os
navios, que pelos sinaes convindos entre os maritimos, não denunciassem
vir de paz. Compunha-se de 13 náos a Armada que mandou, levava soldados
1$500, hia artilhada e guerreira em summo gráo com as muitas peças e
munições. Deo-lhe por Capitão a Pedro Alvares Cabral, de cujo esforço
confiava muito, incumbe-lhe mórmente de fundar (quanto coubesse em suas
posses) amizade com ElRei de Calecut, e lhe requeresse consentimento
de edificar huma Fortaleza perto da Cidade, amparados da qual podessem
os Lusitanos desviar a vida de ferocidade de seus inimigos, e traficar
sem risco. Que se porém visse o animo do Çamorim tão esquivo de
nós, que repudiasse todo o concerto de alliança, não duvidasse então
commetter-lhe guerra. Mandou-lhe mais, que fizesse caminho por Melinde
(a poder ser), e significasse a ElRei quão agradavel lhe fora sua
Embaixada, e por seu respeito faria com muito agrado quanto lhe
fosse da sua parte requerido. Forão de ordem sua nesta Armada cinco
Religiosos Franciscanos de grande opinião de virtude, para residirem em
Calecut, no caso em que os pactos se ferissem, e alli ministrarem os
Sacramentos aos Portuguezes, que por causa de commercio naquella Cidade
fossem, e instituirem no Catecismo os Pagãos, que quizessem entrar na
nossa santa fé. Deo-lhes por Guardião a Fr. Henrique, homem de singular
religião e piedade, que depois pela santidade de sua vida foi Bispo de
Ceuta. Partio Cabral com toda a sua Armada a 9 de Março do anno de 1500.
Seguio-se a esta occurrencia despachar D. Manoel com novos titulos
ao Senhor D. Jorge, filho de D. João II., e lhe dar por mulher a D.
Beatriz, filha do Duque de Bragança (de quem já dissemos), Senhora de
rara excellencia. Tambem nomeou Condestavel a D. Affonso, seu sobrinho,
filho de D. Jaime, seu irmão, que á mão tenente matára ElRei D. João
II. E D. Affonso era bastardo; dado que sua mãi fora fidalga muito
principal, que namorada da eximia gentileza de D. Jaime, no tempo
em que elle andava pela Castella, empenhou seu mais vivo cuidado em
desfrutar sua affeição. Neste mesmo anno de 1500 de nossa redempção
levou a morte o Principe D. Miguel, filho de D. Manoel, e da Senhora
D. Isabel, e orçava elle já pelos dous annos. Mas ElRei D. Fernando
e D. Isabel Rainha de Castella, trabalhárão por liar a si ElRei D.
Manoel com novos nós de affinidade, desejando muito dar-lhe por Esposa
sua filha D. Maria: o que entendido por D. Manoel, de muito bom grado
annuio a seus desejos. Nem havia ahi casamento, que ou já pela nobreza
da prosapia, ou já pelo avultado dote, ou ainda pela demonstração de
virtudes egregias, melhor a hum e outro conviesse; que era D. Maria
hum traslado perfeito de modestia, de brandura, e de bondade. Mas como
este Matrimonio, em razão da affinidade pelo de D. Isabel contrahida,
tinha contra si os Canones Pontificios, pedírão ao Papa dispensasse
nas Leis, porque não fosse a Religião obstaculo a hum casamento, que
tantos uteis tinha de produzir aos Reinos das Hespanhas. Impetrada a
faculdade do Pontifice, forão as nupcias celebradas. Posto porém que
a nova desposada fosse muito de seu peito por sua insigne virtude,
não pôde toda esta sua affeição desviallo do desejo que lhe lidava
na alma de correr sobre as pégadas de seus Maiores, passando em
Africa a impôr guerra aos Mouros. Muitos houverão no Conselho, que
forcejárão pelo arredar desta opinião, dizendo-lhe que não era cargo
d’hum Rei capitanear exercitos, mas sim imperar aos Capitães, sobre
não ter para domar toda a Mauritania proporcionadas tropas, dado que
para fazer-lhes guerra bastassem as que confiasse de seus valentes
Generaes. Que não competia á sua dignidade passar em Mourama sem levar
comsigo exercitos, com que sobmettesse todo aquelle continente sob seu
dominio. Accrescia, que não deixava filho que o herdasse, se qualquer
desastre lhe désse a guerra. Nem quizesse, influido na fama, pôr o
Reino na arésta do precipicio. Que a fama perduravel d’hum Monarca no
amor de seus conterraneos se abaliza, e não se lança a emprehender
peleijas despidas de utilidade pública. Achegavão os prantos de sua
mulher, que lhe obtestava não désse que murmurar a muitos com aquelle
subito apartamento, e interpretar appetites de a deixar, os que elle
cobria com capa de conquistas. Que muito mais comportavel lhe fora não
ser com elle desposada, que depois de o ser, ver-se delle tão subito
destituida: sendo huma alvitre da reflexão, e indicio de desabrimento
a outra. Além destes queixumes, tratava com seus Pais por cartas, que
arredassem D. Manoel de taes intentos; não que ella impedisse seu
marido que fosse a aquella guerra, mas que pugnava com toda a ansia
guardasse a ida para outro ensejo. Com estes e outros argumentos
combatião os Conselheiros e a Rainha por demudallo de seu presupposto:
mas elle nada menos persistia, e aprestava a guerra com grande
affincamento. Mandou que o exercito se alistasse com gran presteza,
e se preparasse a Armada. Consistia o exercito em 26$000 infantes, e
6$000 de cavallo com 800 homens de armas, confiando facilmente vir a
cabo de seu proposito com este guerreiro corpo.